Quando a música traduz sentimentos…

Publicado: 2 de junho de 2014 em Fila Benário Fala
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Era 18 de Novembro de 2010, me recordo de ter colocado minha mãe no banco do passageiro e ter entrado pela outra porta do carro, antes mesmo de dar partida liguei o rádio como sempre faço de costume, e antes mesmo do outro lado do alto falante a voz gritante de Dave Grohl surgir minha mãe passava mal ao meu lado com fortes convulsões. Na época minha mãe havia sido diagnosticada com quatro Aneurisma Cerebral, já havia feito a cirurgia da retirada de dois e no meio da cirurgia um rompeu causando uma paralisia de todo o seu lado esquerdo, por isso eu a coloquei dentro do carro, porém naquele momento o quarto aneurisma se rompia e depois de dois dias agonizantes ela faleceu, há exato um ano e dois meses depois do meu pai.
Durante o velório eu segui em completo estado de choque, não conseguia discernir e digerir as informações que a partir daquele momento eu não teria mais a figura materna e paterna e que a partir daquele momento seria eu e a minha irmã apenas juntando os cacos e recomeçando a nossa vida, porém na hora de me despedir pela ultima vez cheguei até o caixão e ao invés de chorar, agradecer por tudo uma voz saiu de dentro da minha garganta e inexplicavelmente essa canção foi cantada por mim no mais profundo estado de choque e comoção:

Após um período de luto, finalmente eu resolvi ligar o som do meu carro e música que saiu dos altos falantes foi a mesma daquele fatídico dia que minha mãe passou mal, afinal o cd permanecia lá dentro do aparelho pausado na mesma faixa, a música na ocasião era Come Alive do cd Echoes, Silence, Patience and Grace (2007), do Foo Fighters, rapidamente lembrei daquele triste episódio e imediatamente desliguei o rádio enquanto lagrimas de dor rolavam.
Tempos depois ouvindo todo o cd novamente chegou o momento dessa faixa, e ao contrário das outras vezes eu passava ela antes de mesmo de começar por não ter superado o trauma, dessa vez deixei a canção tocar completamente, e foi nesse momento que me despertou uma curiosidade em entender a letra e rapidamente busquei a tradução e fiquei bastante comovido com o que li:

Desperate meaningless
All filled up with emptiness
Felt like everything was said and done

Deseparado, sem sentido
Tudo cheio com o vazio
Senti que tudo estava dito e feito

Assim que eu me sentia sem a minha mãe, perdido, sem sentido, sem chão…

I lay there in the dark I closed my eyes
You saved me the day you came alive
No reason left for me to survive
You saved me the day you came alive

Eu deito no escuro e fecho os olhos
Você me salvou no dia que você acordou
A razão que você me deixou para sobreviver
Você me salvou no dia que você acordou

Porém esse trecho é a redenção, “Você me salvou no dia que você acordou…” mamãe dormiu eternamente para esse mundo, mas despertou para Vida Eterna, ela acordou para uma vida sem dores, sem sofrimento, sem paralisia, sem visitar hospitais, estava ela feliz e aquilo seria a razão de agora em diante para minha sobrevivência. E a força do refrão repetido: Come Alive que significa: ACORDE me fez literalmente despertar para vida e hoje eu vivo sem tristeza, apenas com a imensa saudade mas com a certeza de que iremos nos encontrar um dia.

Em outra ocasião eu estava namorando, e a minha namorada na época tirou férias e resolveu descansar na casa dos familiares, diante daquela semana que ficamos longe uma imensa saudade apertou e optei por usar a música como antídoto, busquei em minha mente um disco que eu gostava muito mas que há tempos eu não ouvia para fazer essa experiência de matar as saudades, ai o escolhido foi Nimrod do Green Day, lançado em 1997 foi um dos discos que eu mais ouvi, em fita K7 na época, porém com o passar dos anos foi o que menos ouvi da excelente discografia da banda (que se resume do Kerplunk ‘1992’ até o Warning ‘2000’), ouvir Nimrod foi relembrar um passado agridoce mas vivo na memória, na época eu estava começando a tocar violão, conheci pessoas que são meus grandes amigos até hoje, enfim um ótimo resgate histórico, e Nimrod tem todo um caráter importante também para o Green Day retrata o amadurecimento da banda que se livrava das letras abestalhadas sobre masturbação e também das amarras dos três acordes e navegava em outras sonoridades como o Rockabilly, o Horror Rock e até mesmo baladas como é o caso de Good Riddance (Time Of Your Life) que se tornou o grande sucesso do álbum com a sua belíssima letra.

É claro que para os fãs de Punk Rock como eu no disco há grandes momentos também como Nice Guys Finish Last, Scattered, Platypus (I Hate You), Jinx e a nervosa e minha favorita Take Back.

Enfim foi com essa alegria de ouvir Nimrod que senti como é bom sentir saudades de quem amamos e com o amadurecimento que ele carrega também percebi que era o momento de amadurecer a relação e caminhar para uma nova etapa, tal experiência estava sendo escrita e viraria post em breve no blog se ela não tivesse um desfecho triste, o fim do relacionamento, porém ao invés de encontrar companhia “em um copo de bebida, um cigarro ou outra droga qualquer”, me apoiei em outro álbum e dessa vez o escolhido foi o Cidade Cinza, álbum lançado sem pretensões pelo CPM 22 no ano de 2007, mas que aproximou a banda dos fãs que estavam fartos das viagens do quinteto para música Pop e vazia ao apresentar uma sonoridade crua e direta, nas doze faixas do disco o Punk Rock simples impera, porém as letras o grande trunfo da banda vem carregadas de sentimentalismo, emoção e reflexões, há quem diga que o disco é negativo demais, mas eu enxergo esperanças em letras como Escolhas, Provas e Promessas, que se tornou hit do álbum.

E também na faixa título Cidade Cinza que se tornou o meu hino pessoal, afinal “será o fim da nossa história, ou apenas mais um capitulo?”, porém eu “Vivo em São Paulo, na Cidade Cinza” a cidade que adotou esse filho do interior para que ele realize o seu sonho de se tornar um Jornalista, é na Cidade Cinza onde eu tenho realizado o meu sonho diário, é “na cidade Hardcore de transito caótico” que eu me sinto alguém, me sinto útil e tenho minha voz ouvida.
“Viva na Cidade Cinza” assim canta o refrão e assim vou vivendo!

Enfim é a música traduzindo sentimentos, é a música chegando onde as palavras não alcançam.

Desculpe o texto longo e pessoal, amanhã retornaremos com a programação normal.

E mãe, pai, onde vocês estiverem saibam que eu ACORDEI e estou vivendo…

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comentários
  1. Kamila disse:

    Lindas palavras, como sempre!!!
    Vc eh meu orgulho!!!

    Te amo e estarei sempre ao seu lado!!!

  2. […] ESTRÉIAS DE NOVAS COLUNAS NO FILA BENÁRIO MUSIC E começamos o ano de 2014 com tudo e com estreias na nossa plataforma, no dia 24 de Março foi ao ar a coluna Ouvindo o que Não Gosto, onde eu faço a experiência de ouvir toda a discografia de um artista no qual eu não tenho nenhuma afinidade e depois relato a e experiência em uma postagem especial. O primeiro desafio foi com a banda System Of a Down e a experiência que foi bem satisfatória você acompanha aqui. Outra grande estreia em 2014 foi o cantinho Fila Benário Fala, onde eu escrevo textos mais pessoais, relatando experiências, opiniões, e abordando acontecimentos do cotidiano sem fugir da premissa do blog que é a Música. O primeiro texto publicado no Fila Benário Fala foi um emocionante relato sobre o falecimento da minha mãe no ano 2010, com o título de Quando a música traduz sentimentos. […]

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