Especial, Homenagem

“Chico Buarque… aceita os meus parabéns atrasado???”

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No último dia 19 de Junho o maior compositor da história da música mundial completou 70 anos e apesar do ligeiro atraso essa data não poderia passar em branco e muito menos não ser homenageada, falo de Chico Buarque de Hollanda o maior patrimônio da música popular brasileira.
Nascido no ano de 1944, filho de Sérgio Buarque de Hollanda primo distante de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, notável professor e pesquisador da língua portuguesa que criou o novo dicionário da língua portuguesa, o famoso “Aurélio”. Chico honrou a sua genealogia e se tornou o maior compositor de todos os tempos, Chico Buarque chegou a estudar Arquitetura em 1963, mas abandonou a faculdade para se dedicar a música sua maior paixão, e como compositor ele compôs hinos que integraram os famosos festivais da música popular brasileira na década de 60 entre eles estão A Banda interpretada por Nara Leão que foi vencedora da edição de 1966 ao lado de Disparada interpretada por Jair Rodrigues, e Roda Viva que interpretada por Chico ao lado do MPB-4 ficou em terceiro lugar na edição de 1967.
Em 1966 lançou o seu primeiro disco, intitulado de Chico Buarque de Hollanda com a clássica foto do Chico sorridente ao lado do Chico sério e partir dali se tornou uma verdadeira maquina de sucesso do cancioneiro popular. Em meio a eferverscência da Ditadura Militar, e sendo ameaçado pelo regime autoritarista que governava o país na época Chico Buarque auto-exilou na Itália no ano de 1969, retornando ao país em 1970, um ano depois Chico lançaria aquela seria decretada como a sua obra-prima definitiva o álbum Construção que se tornou um fenômeno de vendas e um disco aclamado no mundo inteiro chegando a ser citado no livro 1001 Discos para ouvir antes de Morrer.
No ano de 1986 Chico Buarque ao lado de Caetano Veloso apresentou o programa Chico e Caetano pela Rede Globo com a direção de Nelson Motta, o programa ficou marcado pela volta de Chico para televisão já que o mesmo devido a censura e entre outros problemas incluindo ai a sua imensa timidez havia auto-excluído da TV, e até hoje o mesmo segue a doutrina de não se apresentar em programas de TV o que de certa maneira não influencia em nada a sua gloriosa carreira.
Chico é um artista impar, além da música ele contribuiu muito para o teatro brasileiro ao musicar a poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto que acabou se tornando disco em 1965, e também escreveu a peça Roda Viva em 1967 que se tornou símbolo da resistência contra o Regime Militar. E sua contribuições fora da música não para por ai em 1991 Chico que já havia lançado muito livros com diversos poemas de sua autoria publica o seu primeiro romance intitulado de Estorvo que se tornou um enorme sucesso, seguido pelo aclamado Budapeste (2004) e Leite Derramado (2009).
Com mais de cinco décadas de serviços prestados a arte popular brasileira em geral Chico Buarque merece ser aclamado, e aqui nesse humilde espaço presto a minha singela homenagem a esse homem que aprendi a cultuar desde o ventre de minha mãe, e que passei admira-lo ainda mais com incentivo do meu saudoso tio e padrinho Domingos que era um fã incondicional de Chico e possuía praticamente toda a sua discografia em LP, e como esse blog é musical listarei abaixo por ordem de lançamento os meus discos favoritos de Chico Buarque, e para aqueles que ainda não conhecem a obra desse grande gênio (será que tem alguém?) fica ai a dica.

Os Melhores Discos de Chico Buarque por Fila Benário

Chico Buarque de Hollanda (1966)
1 - Chico
O espetacular disco de estréia de Chico Buarque, que devido a sua capa graciosa hoje se tornou um meme na internet para as piadas mais infames.
Mas falando de música o disco é esplendoroso, trás claramente uma influencia de Noel Rosa, um dos seus maiores ídolos e inclusive citado na letra de A Rita:

“Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel”

O disco ainda conta com os sambas Madalena Foi Pro Mar, Você não Ouviu, Sonho de um Carnaval, além da belíssima gafieira Amanhã Ninguém Sabe, da valsa tristonha e graciosa Ela e sua Janela, da sensacional Pedro Pedreiro que em sua letra divertida já carregava compaixão pela classe operária e é claro do grande Hit A Banda vencedora do Festival da Música Popular Brasileira de 1966.
Discasso.

Chico Buarque de Hollanda – Vol. 3 (1968)
2 - Chico III
O terceiro volume da saga que apresentou a obra de Chico Buarque para o mundo vem mais maduro em relação ao primeiro volume, o início com Ela Desatinou seguida da arrastada Retrato em Preto e Branco, ambas contam com o acompanhamento de uma orquestra vigorosa que tão tônica e sentimentalismo às canções. O sambinha Januária remete a descontração do disco de estréia.
Outros destaques desse disco ficam por conta de Desencontro com a participação especial de Toquinho e Roda Viva, com certeza um dos maiores sucessos de Chico Buarque com a participação mais do que especial do grupo vocal MPB-4 assim como no Festival da Música Popular Brasileira de 1967.

Construção (1971)
3 - Construção
Definitivamente a maior obra de Chico Buarque de Hollanda.
O disco definitivo da música popular brasileira, a maior obra prima já lançada por um músico em nível mundial, assim é Construção o disco que marca a volta de Chico Buarque ao Brasil após o exílio na Itália no tempos do Regime Militar, produzido por Roberto Menescal um dos precursores da Bossa Nova ao lado de Ronaldo Boscoli e João Gilberto, Construção ainda conta com a participação do maestro Tom Jobim no piano na canção Olha Maria (Amparo), de Trio Mocotó na percussão e Toquinho no violão em Samba de Orly, além do genial MPB-4 em cinco das dez faixas do disco.
Porém Construção é muito mais que as “simples” participações que integram o disco, Construção é Chico Buarque no ápice da sua inspiração compondo canções magnificas que se tornaram hinos e patrimônio da música popular brasileira, desde a abertura com Deus lhe Pague que mostrava tamanha ousadia de Chico ironizando o governo autoritarista da época “agradecendo” por tudo:

“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague”

E o verso citado se faz presente novamente na canção título, essa que merece um capítulo a parte, sendo eleita pela edição brasileira da revista Rolling Stone em 2009 a Melhor Canção Brasileira de Todos os Tempos, Construção faz jus a esse e a todos os outros reconhecimentos, a letra carrega uma severa crítica a maneira precária na qual vivia os trabalhadores da classe operária, narrando a história de um trabalhador de uma construção civil que morreu exercendo a sua profissão. Tudo isso sob uma melodia bucólica, dramática que se torna furiosa com a participação da orquestra comandada pelo maestro Rogério Duprat e do já citado MPB-4.
Outros clássicos de Construção são Cotidiano, Desalento, Valsinha e Cordão que de maneira poética traz uma crítica a censura imposta pela ditadura militar

“Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir”

Disco obrigatório para qualquer pessoa que se julga gostar de música!!!

Sinal Fechado (1974)
4 - Sinal Fechado
Conhecido mundialmente por ser um exímio compositor, nesse disco Chico Buarque interpreta clássicos da música popular brasileira, Chico canta os seus amigos Caetano Veloso (Festa Imodesta), Gilberto Gil (Copo Vazio), Toquinho e Vinícius de Moraes (O Filho Que Eu Quero Ter), Tom Jobim (Lígia) e Paulinho da Viola com a canção que dá título ao álbum, além de suas principais referências como Noel Rosa (Filosofia), Jackson do Pandeiro (Lágrima) e Nelson Cavaquinho (Cuidado com a Outra).
Enfim um verdadeiro tributo à música popular brasileira prestado por Chico Buarque.

Meus Caros Amigos (1976)
5 - Meus Caros Amigos
Disco que reúne as principais colaborações de Chico Buarque para trilha sonora de filmes e peças teatrais entre elas as canções Mulheres de Atenas, Vai Trabalhar Vagabundo e A Noiva da Cidade.
De inéditas o disco tem sucesso O Que Será? (Flor da Terra) com a participação especial de Milton Nascimento, além de Você Vai me Seguir e Passaredo.

Chico Buarque (1978)
6 - Chico
Considerado por muitos sua grande obra prima ao lado de Construção, o disco de 1978 mescla elementos fundamentais na sonoridade de Chico Buarque como o samba de raiz logo na abertura com a genial Feijoada Completa, além do clima épico e orquestrado já latente em discos como Construção, como no caso da clássica Cálice parceria de Chico com Gilberto Gil e que conta com a participação especial de Milton Nascimento, Cálice que na verdade é CALE-SE trata-se de uma grande canção protesto contra o Regime Militar que ainda assolava o país.
O disco ainda contava com a participação especial de Zizi Possi na canção Pedaço de Mim e de sua esposa na época a atriz Marieta Severo (a Dona Nenê de A Grande Família) na canção O Meu Amor que ainda contava com a participação de Elba Ramalho.
Porém o hino definitivo desse álbum é a canção Apesar de Você o hino máximo contra o Regime Militar.

Almanaque (1981)
7 - Almanaque
Um dos discos que eu mais lembro de ter ouvido na infância ao lado do Paratodos, Almanaque carrega uma destreza, uma densidade e melancolia que transcorre durante todo o álbum e fica bem explicito na canção Angélica composta para a sua amiga Zuzu Angel, famosa estilista brasileira que teve o seu filho Stuart Angel preso e morto na época do Regime Militar.
Porém Almanaque conta com a esperança em formato de sucessos do tamanho de O Meu Guri, Almanaque, A Voz do Dono e o Dono da Voz e o samba Amor Barato que conta com a participação da sua irmã Miucha e de suas filhas Cristina e Silvia Buarque.

Paratodos (1993)
8 - Paratodos
E para finalizar essa lista de forma sublime, um dos meus discos favoritos desde a infância, me recordo do dia que o meu Tio Domingos que morou uns tempos conosco aqui em casa levou eu e a minha irmã no Shopping para passear e passou nas Lojas Americanas e comprou esse LP todo orgulhoso dizendo:
– O novo disco do Chico, vamos ouvir quando chegar em casa.
Desde o abrir do plástico até a agulha tocar o vinil na vitrola ansiedade era imensa e a ansiedade virou satisfação após ouvir faixa a faixa desse petardo.
Paratodos é o disco mais plural e brasileiro de Chico Buarque desde abertura com belíssimo baião Paratodos, passando pela moda de viola Choro Bandido, pela Bossa Nova Tempo e Artista e até ao obvio samba de De Volta Ao Samba é Chico Buarque Para Todos os gostos.
O disco ainda conta com Biscate, parceria com Gal Costa com a participação da mesma e Piano na Mangueira com a participação mais do que especial do Maestro Tom Jobim.
Quando eu tiver filhos eles ouvirão sim Galinha Pintadinha, Palavra Cantada e tudo mais que for do cancioneiro infantil, mas com certeza lhes darei uma cópia de Paratodos para que eles tenham a oportunidade de sentir a emoção que pude sentir ao ouvir esse álbum na mesma idade deles.

E assim encerro a minha homenagem a esse grande artista que é Chico Buarque, muito mais que um “esquerdista caviar” como a mídia reacionária gosta de o classificar, muito mais que um simples meme de internet e que um coroa bonitão que arranca suspiros das novinhas por ai, Chico Buarque é sinônimo de Música Popular Brasileira.

Espero que aceite os meus parabéns atrasado…

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