As músicas que retratam a reintegração de posse ontem em São Paulo

Publicado: 17 de setembro de 2014 em Fila Benário Fala

Hotel Aquarius
Durante todo o dia de ontem o centro de São Paulo se tornou o centro do mundo, graças à ação de reintegração do prédio Hotel Aquarius localizado na avenida São João. Cumprindo uma ordem judicial a polícia desocupou todo o prédio que já estava abandonado há mais de dez anos, mas que nos últimos seis meses estava servindo de moradia para famílias desabrigadas.
A ação obviamente foi vertiginosa e, em questão de minutos, o centro de São Paulo se tornou cenário de caos e pânico. Como eu estudo no bairro da Republica, a poucos metros do local desabrigado, eu tive as minhas aulas suspensas, portanto passei a acompanhar todo o caso na maioria dos veículos da mídia e confesso que era nauseante ler a opinião de algumas pessoas a respeito, usando por base a mídia sensacionalista, elitizada e manipuladora, que protege os já protegidos e execra os necessitados.
Senti a necessidade de vir pra cá e expor o meu ponto de vista, mas sem pender para o lado político partidário e muito menos fugir do ideal desse espaço que é falar sobre música. Portanto a minha biblioteca musical mental relembrou de canções que, de certa forma, ilustram de forma clara o que aconteceu ontem no centro de São Paulo:

Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa
“Edifício alto, palacete abandonado…” isso lembra o Hotel Aquarius reintegrado ontem, e justamente isso cantava Adoniran Barbosa em uma de suas mais notórias e belas composições: Saudosa Maloca. A história cantada pelo mestre Adoniran narrava a trajetória de três personagens: o Narrador, o Mato Grosso e o Joca, que encontraram um prédio abandonado e ali resolveram morar, até o dia que o dono do edifício apareceu e colocou todos pra fora.
Saudosa Maloca foi composta no ano de 1951 e é uma pena que 63 anos depois a sua letra continue tão atual e o problema de habitação urbana, recorrente.

Vai Trabalhar Vagabundo – Chico Buarque
“Ahhh mas quem estava lá era tudo vagabundo, porque não vai procurar trabalho? porque não vai procurar casa de verdade pra morar?”
Esse julgamento recorrente já era letra de Chico Buarque em 1976.

Cidadão – Zé Ramalho
Parafraseando Marcelo Rezende: “Agora eu lhe pergunto”, será mesmo que eram todos vagabundos? será mesmo que ali dentro daquele edifício abandonado há mais de dez anos não havia nenhum trabalhador, nenhuma família digna? Porque analisar se podemos generalizar não é mesmo?
Na faculdade estamos fazendo um trabalho sobre habitações urbanas e tivemos acesso a histórias e fatos de moradores dos principais edifícios abandonados no centro da cidade, e digo com propriedade: Ali não tem vagabundo! Ali tem gente trabalhadora, gente sonhadora, gente que deixou o seu estado natal devido à fome e a seca e embarcou para São Paulo conhecida como a terra das oportunidades em busca de qualidade de vida. Muitos que moram nesses edifícios abandonados trabalharam noite e dia na construção de creches, escolas, hospitais e, principalmente, inúmeros empreendimentos imobiliários. É irônico saber que a situação financeira deles não permite que eles e suas famílias habitem um prédio que eles ajudaram a construir. E Zé Ramalho já cantava isso nessa belíssima canção.

Quando falamos de ocupação de prédios abandonados não estamos falando de vagabundos que invadiram um espaço que não lhe pertence, pelo contrário, o Movimento Sem Teto luta há anos pela moradia justa, digna e dentro das legalidades da lei. O valor do aluguel de qualquer casa no centro da cidade é caríssimo, os moradores dessas habitações querem sim pagar uma quantia para ter direito à moradia, mas uma quantia justa, essa é a luta deles.
“Mas eles só querem ocupar os prédios do centro, porque não vão para o interior que tem um monte?” essa foi uma das frases que li ontem no Facebook, com certeza digitada por um garoto que naquele exato momento estava trajando um confortável pijamas, no conforto do seu lar enquanto centenas de famílias não tinham pra onde ir. Claro que querem morar no centro e justamente por questões logísticas, afinal de contas, é no centro da cidade que estão o trabalho, a escola e os principais hospitais dos moradores. O gasto com transporte até o local de trabalho seria equivalente ao gasto com aluguel.

Dedo na Ferida – Emicida
“Mas invadir um prédio é ilegal, a polícia só agiu porque estava dentro da lei…”, Lei, lei, lei e mais LEI “Dura lex, sed lex” já dizia o ditado romano: “A lei é dura mas é a lei”. Mas aqui fica o meu questionamento, porque a lei foi feita para ser cumprida apenas pelas as classes menos favorecidas? Porque os proprietários de imóveis em áreas irregulares e públicas não tiveram o seu rico empreendimento embargado pela justiça e não foram despejados como animais ao relento como os moradores do edifício Aquarius ontem?
É do conhecimento de todos que o grandiosíssimo Shopping Center Norte foi construído em uma área pública e irregular, e porque ainda não vi a tropa de choque invadindo o espaço com o blindado e botando todos pra correr com bombas de gás e balas de borracha deixando orgulhoso o governador do estado?
A lei é para o mais fraco e, nesse caso, eu estou com o Emicida: “F***-se você, f***-se suas leis”.

Veraneio Vascaína – Capital Inicial
A polícia foi acionada para fazer a retirada dos moradores do edifício e em questão de minutos o cenário virou um caos generalizado. A imprensa sensacionalista obviamente deu ênfase aos ônibus queimados, as lojas saqueadas e atribuiu tudo isso aos moradores do edifício esvaziado, mas a truculenta ação policial que atirou bombas de gás e balas de borrachas em direção de grávidas, idosos e crianças a grande mídia não mostrou.
Na década de 80 o jovem Renato Russo à frente ainda do Aborto Elétrico compôs a canção Veraneio Vascaína que retrata justamente a errônea ação policial, e não importando se há inocentes:

“Se eles tem fogo em cima, é melhor sair da frente
Tanto faz, ninguém se importa se você é inocente
Com uma arma na mão boto fogo no país
E não vai ter problema eu sei estou do lado da lei”.

Com o fim do Aborto Elétrico tantos os integrantes quanto as músicas da finada banda se dividiram entre Legião Urbana e Capital Inicial, e essa última teve o privilégio de ficar com Veraneio Vascaína.

Fardado – Titãs
Porém não posso que ser preguiçoso e oportunista como os demais corneteiros de rede social e generalizar dizendo que toda polícia é violenta e sem caráter, acredito que dentro dessa instituição há pais de família que desse trabalho que tiram o seu sustento, e acredito que diante do caos e terror que virou o centro de São Paulo muitos também deveriam estar com medo de algum tipo de represália de manifestantes exaltados e de vândalos oportunistas.
A banda paulistana Titãs que lá na década de 80 já vociferava a sua raiva contra a violência policial com a canção Polícia, trouxe o tema à tona novamente no século XXI porém sobre uma nova ótica: Fardado, a música que abre Nheengatu, o mais novo álbum da banda exprime o verdadeiro papel do policial: “Servir e proteger” e faz um lembrete aos fardados com a frase:

“Você também é explorado
Fardado
Você também é explorado
Aqui”

Cade que o governador tucano, líder nas pesquisas para a reeleição, foi lá no Aquarius dialogar com as lideranças do movimento sem-teto para ambos tentarem chegar a um acordo? Não, ele mandou a força tática porque ele sabe que contra homens fardados de escudo e cassetete ninguém pode contra.
Fuja fardado explorado, se alie ao povo e vamos juntos lutar contra esse sistema truculento.

Que Espécie de Vermes São Vocês – Charlie Brown Jr.
E no meio de todo o caos o Governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin aparece na TV dando entrevista dizendo ser “favorável à ação policial” pois se trata do cumprimento de uma ação judicial e terminou dizendo que não tolera atos de vandalismo.
Sim senhor, Governador, mas os atos de vandalismo (incluindo as lojas saqueadas e o ônibus incendiado) foram ações isoladas de vândalos que sim devem ser presos e responder pelos atos e não associar tal ação às famílias que ali estavam sendo desabrigadas.
Cumprimento de uma ordem judicial? mas e os inúmeros estabelecimentos e empreendimentos privados construídos em áreas públicas? esses vão ser desocupados quando?
Quando ele acabou o discursinho reacionário e típico da elite branca paulistana, eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser no saudoso Chorão do Charlie Brown Jr. cantando “Que Espécie de Vermes São Vocês”, com a participação mais do que especial de Markon, vocalista do Lobotomia, principal banda de Punk Rock paulistana dos anos 80.

Anjos das Ruas – Rosa de Saron
Ai o Governador foi pra aconchegante mansão dele, o corneteiro do Facebook esquentou o seu leitinho com toddy e deitou bem gostoso na cama quentinha com a TV ligada no Danilo Gentili, enquanto isso centenas de famílias andavam pelas ruas de São Paulo sem terem pra onde ir.

Andando pelas ruas
Eu vejo algo mais do que arranha-céus
É a fome e a miséria
Dos verdadeiros filhos de Deus

Anjos das ruas
Anjos que não podem sonhar
Pois a calçada é um berço
Onde não sabem se vão acordar.

Ao som de Charlie Brown Jr. – Que Espécie de Vermes São Vocês (Part. Especial Markon Lobotomia)

 

 

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comentários
  1. Neila Feliciano disse:

    Parabéns pelo belíssimo texto.

  2. […] os sem tetos em marginais. Diante de tudo aquilo eu sentei a frente do computador e escrevi um texto demonstrando a minha opinião a respeito do caso e baseado nos fatos eu citava uma canção que […]

  3. ERICK disse:

    Show amigo…..adorei as musicas….

  4. […] Intercom na categoria “Jornalismo Literário e Artigo de Opinião“, com o texto “As Musicas que retratam a reintegração de posse ontem em São Paulo“. Não veio o título, mas o fato de estar concorrendo o prêmio, como um dos melhores da […]

  5. […] No ano de 2014, uma reintegração de posse no centro de São Paulo é televisionada ao vivo e divide opiniões da população. Em casa, impedido de ir para faculdade, que estava situada no meio do cenário de guerra, eu acompanhei todos os boletins e reportagens ao vivo. Aquele acontecimento foi me consumindo de tal forma que eu também me senti na obrigação de expor a minha opinião acerca do tema e disso nasceu o texto As músicas que retratam a reintegração de posse ontem em São Paulo. […]

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