BLOG ACTION DAY 2014: Há 28 anos, Selvagem? dos Paralamas do Sucesso, cantava a desigualdade

Publicado: 16 de outubro de 2014 em Especial
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selvagemcapa
Hoje dia 16 de Outubro de 2014 é o dia do Blog Action Day (Dia de Ação dos Blogs)

Blog Action Day é um evento anual que busca unir blogueiros do mundo todo em torno de um mesmo assunto, gerando reflexões, desencadeando discussões positivas, aumentando a consciência e levando a mudanças.

BlogActionDay2014
Portanto aceitei o desafio proposto e aqui estou eu participando pela primeira vez dessa ação, e o assunto escolhido pra esse ano não poderia ser melhor: DESIGUALDADE.

No mês passado já havia escrito algo relacionado quando houve a reintegração de posse na cidade de São Paulo virando notícia no mundo todo graças à ação truculenta da polícia à pedido do próprio governador do estado e milhares de famílias desabrigadas sem terem pra onde ir.

E curiosamente essa semana, me peguei ouvindo um dos meus discos favoritos, e um dos mais importantes dentro do Rock Nacional, o disco Selvagem? Dos Paralamas do Sucesso.
Lançado no ano de 1986, Selvagem? O terceiro disco do trio formado por Herbert Vianna (Voz e Guitarra), Bi Ribeiro (Baixo) e João Barone (Bateria), foi o primeiro sucesso comercial da banda, sendo até hoje o álbum mais vendido do conjunto, e o mais cultuado. Além de marcar o novo direcionamento musical dos Paralamas, que abdicavam o tom Pop apresentado no álbum de estréia, Cinema Mudo (1983), e vinha mais calcado no rock, o que projetaria Herbert Vianna como um dos melhores guitarristas do gênero.
Produzido por Liminha (Ex-baixista dos Mutantes), Selvagem? Vinha ao todo com dez faixas (a instrumental Teerã Dub entrou depois na versão em CD) moldadas em uma sonoridade que mesclava o Reggae, o Ska, com o Rock n’ Roll clássico e um quê de Punk Rock à The Clash, e assim nasceram os grandes hinos que definiram a carreira do trio, músicas como Alagados, Melô do Marinheiro, a versão romântica e dançante do clássico Você do Tim Maia, além da faixa-título, tornaram-se pilares de sustentação da carreira da banda e são lembradas até hoje.
Herbert Vianna, já se tornava um grande Hit-Maker com notáveis composições que fazia a cabeça do povo. No disco anterior à Selvagem? O também genial O Passo de Lui (1984), as canções Óculos, Meu Erro e Romance Ideal se tornaram hits instantâneos, porém as letras de Herbert eram ingênuas, adocicadas e românticas demais, e foi justamente em Selvagem? Que Herbert amadureceu e conseguiu expressar o sentimento de inconformismo em relação a desigualdade social que imperava (e sempre imperou) o nosso país.
Mesmo em melodias animadas e canções divertidas, o assunto desigualdade vinha à tona em Selvagem? O Melô do Marinheiro é um grande exemplo.
A canção, composta pelo baterista João Barone, narra a história de uma pessoa que foi convidada a conhecer uma embarcação:

Aceitei, me engajei, fui conhecer a embarcação
A popa, o convés, a proa e o timão
Tudo bem bonito pra chamar a atenção

Porém no verso seguinte fica explicita emboscada armada para o mesmo, colocando-o em um trabalho escravo:

Foi quando eu percebi um balde d’água e sabão
Tá vendo essa sujeira bem debaixo dos seus pés?
Pois deixa de moleza e vai lavando esse convés

Na estrofe seguinte ele ressalta que conheceu o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão, porém com uma ressalva:

Quando dei por mim, eu já estava em alto-mar
Sem a menor chance, nem maneira de voltar
Pensei que era moleza, mas foi pura ilusão
Conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão

Liverpool, Baltimore, Bangkok e Japão
E eu aqui descascando batata no porão.

Outro exemplo irônico e desigual dentro de Selvagem é a canção A Dama e o Vagabundo, que mostra o relacionamento amoroso de duas pessoas em condições sociais diferentes, e logo nos primeiros versos, fica claro que uma das partes do relacionamento se preocupa apenas com futilidades:

Eu fico sentado rindo te ouvindo reclamar
há coisas mais importantes lá fora do que os quadros por pregar.

A faixa-título, é na minha opinião, uma das melhores músicas do Rock brasileiro, é a canção onde o autor mais destila o seu inconformismo com a situação social.
Selvagem, a canção, é um retrato da sociedade brasileira, esquecida, oprimida e perdida em meio a tanta desigualdade.
A população que sofre violência da polícia que tem “a determinação de manter tudo em seu lugar”. E refém de uma cidade que cria um monstro em formato de mendigos pelos cantos e meninos nos sinais.
O governo que apresenta sempre o seu discurso reticente, mas de nada válido.
E finaliza mostrando a raiz da desigualdade, o preconceito racial, mostrando o negro de costas marcadas e mãos calejadas, revelando uma esperteza de quem já está cansado de apanhar.

Alagados, o maior sucesso da carreira dos Paralamas abre o disco de forma dançante e swingada, com raízes calcadas na música jamaicana, porém a letra segue o mesmo manifesto de Selvagem, mostrando claramente logo nas primeiras duas estrofes a desigualdade que reina em solo nacional. No mesmo lugar onde o belíssimo Cristo Redentor faz do Rio de Janeiro o cartão postal do Brasil, há favelas, pobreza e miséria:

Todo dia o sol da manhã 
Vem e lhes desafia 
Traz do sonho pro mundo 
Quem já não o queria 
Palafitas, trapiches, farrapos 
Filhos da mesma agonia 

E a cidade que tem braços abertos 
Num cartão postal 
Com os punhos fechados da vida real 
Lhes nega oportunidades 
Mostra a face dura do mal

O forte refrão que todos cantam esboçando uma alegria contagiante, fala na verdade de três grandes favelas do mundo, a favela de Alagados na Bahia, a famosa favela de Trenchtown, localizada em Kingston, na Jamaica, onde moraram os gênios do Reggae: Bob Marley e Peter Tosh.  Finalizando com a Favela da Maré no Rio de Janeiro, local por onde passava o jovem Herbert Vianna quando fazia faculdade de Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Porém nenhuma letra de Selvagem? Fala de forma tão explicita sobre a desigualdade como o Reggae A Novidade, feita em parceria com o Gilberto Gil.
O Baiano, autor da letra musicada pelos Paralamas deu uma declaração à respeito da composição:

“O tema da desigualdade sempre fez parte do modo de inserção da minha geração na discussão dos problemas da sociedade; do nosso desejo de expressá-los. Universitário por excelência, o tema é portanto anterior e recorrente em meu trabalho. Está em Roda, em Procissão, em Barracos. Agora, em A Novidade, a imagem da sereia é que dá a partida para o tratamento da questão; a novidade é essa. Pode-se imediatamente pensar no Brasil, mas é sobre o Terceiro Mundo em geral; mais: sobre todo o ‘mundo tão desigual’, mesmo, de que fala o refrão”.

Selvagem? completou 28 anos esse ano, é com certeza o melhor disco da carreira dos Paralamas do Sucesso, e chegou a ser tocado na íntegra em dois shows especiais no Rio de Janeiro no ano de 2011, homenagens merecidas. O único inconformismo em relação ao álbum são as letras continuarem atuais depois de tanto tempo, e a grande parcela de culpa disso tudo é da própria população, é nossa, que nos acomodamos com a situação e não tomamos nenhuma atitude repudiante para melhorar, criticamos programas como o Bolsa Família que tem como premissa acabar com a desigualdade social e levar dignidade e melhoria de vida à quem nunca teve, deixamos o preconceito racial, a intolerância, o machismo e a homofobia direcionar a nossa linha de pensamento.
Dia 26 está chegando, teremos o segundo turno das eleições que definirá quem será o novo presidente do Brasil, a decisão é sua. Leia, se informe, estude a proposta e a vida dos candidatos, reflita e se for preciso ouça Selvagem? para ajudar na inquietação.

#BAD2014 #Inequality

PS: Ontem (15 de Outubro) teve coluna minha no blog Futebol-Arte, na ocasião falei dos 100 da Sociedade Esportiva Palmeiras, e a ligação do time com o Rock, leia aqui

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