A Eleição presidencial e a sua trilha sonora

Publicado: 29 de outubro de 2014 em Fila Benário Fala
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Dilma e Aécio dançando
No último domingo (26/10), tivemos o segundo turno das eleições para a presidência do país, e para governador em alguns estados do Brasil. E a candidata Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), ganhou do seu oponente Aécio Neves (PSDB), em uma disputa acirrada por 51,64% a 48,36% dos votos validos respectivamente. Sendo assim reeleita ao cargo mais importante do país, a presidência da república.
Pois bem, passaram-se três dias do ocorrido, no entanto o assunto ainda é comentado à exaustão na mídia e principalmente nas redes sociais, local onde o tema tem fervilhado e gerado discussões acaloradas e repletas de calúnias, preconceitos, intolerâncias e falta de respeito ao próximo e a sua opinião.
Prometi pra mim mesmo, que independente do resultado das eleições, eu não viria a público debater o assunto, porém dada a repercussão do tema e a avalanche de baboseiras que tenho lido todos os dias, vi uma necessidade tremenda de expor a minha opinião, o meu ponto de vista. E respeitando obviamente a premissa desse espaço, que é integralmente sobre música, portanto destacarei alguns aspectos dessa eleição e a sua respectiva trilha sonora, para que possamos refletir a cada tema.

PT e PSDB, dois times de futebol disfarçados de partidos políticos
Com o fim da apuração de votos do primeiro turno, que colocaram os candidatos Dilma e Aécio disputando o segundo turno das eleições, o Brasil voltou a aquela velha polaridade partidária, PT e PSDB, essa foi à quarta vez consecutiva que os dois partidos se enfrentaram no segundo turno, reacendendo a velha rivalidade que existe entre ambos. O PT que tem a sua raiz na esquerda (mas que se perdeu ao chegar ao poder) tem um grande numero de militantes, todos engajados em causas sociais, em defesa da política voltada à população menos favorecida e quem for contrário a esse racionalismo, no caso o partido opositor, é ferozmente intitulado de “coxinha”, “elite branca”, “tucanada” e entre outros adjetivos. E já do lado oposto, o PSDB, que quando fundado pelo cientista político Luiz Carlos Bresser (que curiosamente declarou o seu apoio e voto em Dilma) tinha a intenção de ser um partido de centro-esquerda, mas que ano a ano tem se enveredado para a direita. O partido tem um grande numero de simpatizantes, principalmente no estado de São Paulo, onde reelegeram o governador Geraldo Alckimin no primeiro turno, e vêem nos simpatizantes do PT os seus inimigos mortais chamando-os de “Petralhas”, “Comunistas”, intitulando os intelectuais do partido de “esquerda caviar” e pedindo o exílio de todos para Cuba.
Resumindo, o futuro do nosso país virou uma discussão de pré-primário, virou um verdadeiro jogo de futebol, onde não se analisa propostas e melhorias, cada um escolhe o seu time, torce fervorosamente, e no fim, para os vencedores resta a comemoração e para os perdedores a ira e descontentamento nas redes sociais. A famosa composição de Milton Nascimento e Fernando Brant, que ficou eternizada na voz do grandioso Wilson Simonal reflete muito bem esse ponto discutido: “Aqui é o país do Futebol” até mesmo na hora de decidir o futuro dele

Bolsa Família
O ponto mais discutido durante as eleições e agora vociferado à exaustão nas redes sociais é o programa social Bolsa Família.
Durante os debates no segundo turno, a paternidade do programa era sempre levada em cheque, Aécio Neves afirmava que o programa havia sido criado em seu partido durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso nos anos 90, já Dilma, defendia a tese que foi no governo do seu sucessor Lula. Não entrarei na questão de quem é o verdadeiro pai da criança, mas sim de como o assunto tem tomado proporções perigosas nas chamadas redes sociais.
Com fim das eleições, os mais absurdos comentários apareciam na timeline do Facebook, coisas do tipo: “trabalhar pra sustentar milhões de vagabundos que recebem o bolsa família”, uma conhecida minha, que chegou a passar férias no exterior esse ano, teve a capacidade de escrever: “Bora fazer uma penca de filhos e me mudar para o nordeste e viver de bolsa família”. Nos principais jornais do país no espaço dedicado ao leitor, era possível ler mensagens do tipo: “Estou de luto, é a vitória do Bolsa Família sobre o trabalho e progresso”, “lastimavelmente, venceu a turma do bolsa…”.
Para levar assunto adiante, eu volto a minha memória e lembro exatamente do ano de 1998, o Jornal Nacional exibiu uma matéria gigantesca sobre a seca e a fome no nordeste brasileiro, as cenas e os depoimentos eram de embrulhar o estomago, eu me recordo de duas cenas que me chamaram a atenção em especial, uma era de uma mãe com um bebê no colo que não parava de chorar de fome, a mãe foi até o quintal, apanhou um limão já estragado, cortou, fez uma limonada sem açúcar e colocou na mamadeira para criança tomar, enquanto chorava de desespero. A outra era de uma criança também, aparentando os seus nove anos de idade, lamentando que não agüentava mais comer insetos e calangos.
Tais imagens mobilizam o país de tal forma que foi realizada uma arrecadação monstruosa de alimentos para a região nordeste, empresas, igrejas, escolas, todos se uniram para ajudar a mais necessitada região do país. Na escola onde eu fazia o ensino fundamental na época saíram dois caminhões lotados de alimentos.
Com certeza essas mesmas pessoas que tiveram esse ato de compaixão em 1998, são as mesmas que hoje criticam a criação e implementação do programa social Bolsa Família.
Mas será que todas essas pessoas que batem no peito e criticam o governo e o programa como se todo dinheiro investido no programa saísse diretamente da conta bancária delas, conhece realmente a fundo esse projeto? Sabe de verdade quem são os verdadeiros beneficiados? O que precisa ser feito para receber uma quantia mensal equivalente a que muitos jovens gastam nas baladas nos finais de semana? E quantas pessoas saíram da pobreza e passaram a ter vida digna graças a esse programa social?
O que o Bolsa Família quer, é que histórias tristes e reais como essa retratada na belíssima música Asa Branca de Luíz Gonzaga, não seja mais cantada e principalmente vivida.

O “Hater” da Internet
E no conforto do seu lar, na internet de banda larga, no computador de última geração que se esconde o Hater, o ser que o odeia tudo e a todos, que bate no peito dizendo que teve que dar um duro danado na vida pra conquistar o que tem, e por isso é contra as políticas sociais, mas ganhou um carro zerinho do papai que também paga a sua mensalidade na faculdade.
Que registrou nas redes sociais os comentários mais preconceituosos contra o povo nordestino, taxando-os de burros, ignorantes, que não sabem votar, mas o Hater em sua primeira oportunidade compra um abada pra passar o melhor carnaval do mundo em Salvador, e quando ele se casa, o primeiro destino da Lua de Mel são as belíssimas praias nordestinas. Fala em separar o país, mas não sabe separar a letra A da palavra gente.
Ai o Hater não sabe diferenciar mais de mas, escreve concerteza dessa forma, faz uso do vocabulário “internetês” em trabalhos acadêmicos, mas corrige com rigor a palavra PRESIDENTA, e repete a exaustão a gafe cometida pela candidata no debate político com tamanha soberba.
Posta nas redes sociais “Vamos trabalhar pra sustentar milhões de vagabundos” mas enriquece o patrão que chega no serviço de carro importado, que passa direto por ele sem ao menos dar um bom dia, mas que na primeira crise que a empresa atravessa te demite.
Para você meu amigo, fica aqui o meu abraço e te dedico essa canção da banda de “Country-Core-Metal” Matanza, A Arte do Insulto, que foi muito bem lembrada e sugerida pela minha grande amiga e afilhada Fernanda Maria, canção que tem tudo a ver com você Hater, você e o seu caráter duvido que cheira à hipocrisia.

A xenofobia e preconceito foram tão alarmantes por esses dias, que até a nossa recém colaboradora aqui do blog, a Beatriz Sanz, foi vitima de insultos nas redes sociais.

Lobão e os seus discípulos reacionários
E de repente, um humorista chulo, racista e de quinta categoria vira formador de opinião, uma jornalista louca que é a favor do linchamento é beatificada por todos. Um atorzinho fajuto com um histórico de agressão às mulheres, fala que apoiar tal candidato é o mesmo que contrair ebola. Um coronel eleito deputado federal no estado de São Paulo, o Sr. Coronel Telhada (PSDB) publica em seu Facebook a seguinte frase: “Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT, entendo que o Sul e Sudeste iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que trabalho”. Uma revista de extrema direita servindo de fonte para argumentos, assim como uma pagina no Facebook intitulada TV Revolta.
Essa eleição foi de muitos personagens que escancararam de certa forma o que a humanidade tem de pior, o seu preconceito, a sua soberba, a sua intolerância e a falta de respeito e amor com o próximo e suas escolhas.
Mas nenhum deles ganharam do músico Lobão, se outrora ele apoiou a candidatura Petista, chegando a cantar o jingle eleitoral de Lula em 1989 em pleno domingo de eleição no programa do Faustão, hoje ele destila ódio pelo governo Dilma e chegou a dizer que se a candidata fosse reeleita ele sairia do país, assim como um político que não cumpre com as suas promessas, Lobão não saiu, mas eu teria o imenso prazer de arrumar as suas malas, de levá-lo ao aeroporto, e enquanto o avião levantava vôo, eu cantaria com entusiasmo “Obrigado, por ter se mandado” de autoria de Cazuza e eternizada com muito mais punch e sarcasmo na voz de Cássia Eller.

As manifestações de Junho de 2013
As manifestações que aconteceram no mês de junho do ano passado, foi também o assunto mais comentado pós-eleição, as redes sociais foram tomadas pelos dizeres “era só pelos R$ 0,20 mesmo…” fazendo uma alusão à manifestação que tinha a sua raiz inicial no aumento da tarifa do transporte público e depois foi se tornando volumosa com pedidos de combate à corrupção e mais investimentos em saúde, saneamento, educação e a não realização da Copa do Mundo em solo nacional.
Levando em consideração que o centro das manifestações foi o Estado de São Paulo que em sua grande maioria votou no candidato tucano Aécio Neves (64,31 % dos votos contra 35,69 da candidata Dilma), é correto afirmar que quem saiu nas ruas para protestar não votou na candidata petista.
Mas quando envolve assuntos como saúde e principalmente educação, isso cabe também ao governo do estado, que recebe verbas do federal e tem por obrigação atuar nessas áreas emergenciais.
São Paulo é prova do caso da falta d’água, algo que estava premeditado a acontecer, mas que foi escondido até o fim da reeleição do governo tucano, e hoje o estado sofre com a escassez, porém a sua grande maioria voltou em Alckimin que foi eleito sem precisar de segundo turno.
Sou a favor de que o povo manifeste, que saia nas ruas e reivindicam os seus direitos, e que haja sim cobrança e acompanhamento do que acontece no governo, ou o plano seria colocar Aécio na presidência e ficar sentado em casa vendo a vida passar, enquanto o tucano mineiro vestiria uma capa e salvaria o país?
A política foi feita para se envolver e contestar com o que não concorda. E nessa canção do grupo de Hardcore capixaba, Dead Fish, intitulada Venceremos, principalmente no trecho abaixo fica claro o que houve nas manifestações e o que deveria acontecer sempre:
“Veja, os garotos ainda estão aqui
Gritando por mudança
Veja, eles ainda acreditam
Em se unir, lutar, ganhar poder”
.

Muito mais do que mostrar que o Brasil é regido por dois partidos políticos, que foi a disputa mais acirrada de todos os tempos, e que as redes sociais tiveram um papel fundamental; essas eleições vieram pra mostrar uma coisa: o verdadeiro caráter do ser humano.
E que o Brasil, o “País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” só servirá de registro na letra da canção de Jorge Ben

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comentários
  1. […] receita foi repetida em outras duas ocasiões: no fim das eleições presidenciais, e nas manifestações em apoio a volta da ditadura […]

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