Querem “Intervenção Militar”? Então antes ouçam essas músicas aqui…

Publicado: 4 de novembro de 2014 em Fila Benário Fala

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Aconteceu no último final de semana no centro de São Paulo, uma manifestação que reuniu cerca de 2.500 pessoas pedindo o Impeachment da candidata reeleita a presidência da republica Dilma Rousseff.
No entanto o tal movimento nada mais era do que uma marcha onde se clamava por um novo golpe militar e que o governo fosse entregue novamente aos militares.
É do conhecimento de todos que há exatos 50 anos o Brasil sofreu um golpe militar e durante 21 anos a população sofreu as mais duras barbáries em nome da liberdade de expressão e do direito ao voto, portanto é insano e inconsequente alguém sequer desejar a volta da temida ditadura militar.
Portanto para essas pessoas sem alma e sem ética, que eu dedico esse post de hoje, as canções abaixo retratam claramente o que foi o nebuloso regime autoritarista:

Para Dizer que Não Falei das Flores – Geraldo Vandré
Umas das mais conhecidas canções desse período, composta e interpretada pelo paraibano Geraldo Vandré, em 1968 ela ficou em segundo lugar no 3º Festival da Canção, gerando revolta na platéia que queria a mesma como vencedora do concurso.
Com o refrão:
“Vem vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”
A canção se tornou um hino de resistência do movimento estudantil contra a ditadura militar.

Apesar de Você – Chico Buarque
Outra canção conhecidíssima e aclamada desse período nebuloso. Lançada originalmente em 1970 em um compacto simples, e depois sendo incluída no álbum Chico Buarque (1978), Apesar de Você foi a primeira canção que Chico escreveu após o auto-exílio na Itália, ao voltar para o Brasil e perceber que a Ditadura ainda imperava em solo Brasileiro, Chico Buarque compôs essa canção que a princípio parece um homem lamentando a convivência ao lado de uma mulher mandona:
“Hoje você é quem manda
Falou ta falado
Não tem discussão”

Mas na verdade era uma critica ferrenha ao regime autoritário que fica claro nos versos:
“Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia…”

E principalmente no trecho:
“Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar”

Uma clara referência à censura que ele e os parceiros musicais recebiam na época.

Opinião – Nara Leão
Compositor: Zé Keti
A bela Nara Leão era tida como a musa da Bossa Nova, foi em seu apartamento em Ipanema que a turminha da Bossa se reunia em uma cantoria que permeava até o raiar do sol.
Porém ao gravar o seu primeiro disco, Nara subiu ao morro e gravou canções dos principais poetas da favela, entre eles o sambista Zé Keti. Em seu segundo álbum, intitulado de Opinião de Nara (1964), a Musa gravou a canção Opinião, de autoria de Zé Keti, a música na verdade era um manifesto contra a violência sofrida na favela, que fica explicita logo no primeiro verso:
“Podem me prender, podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião.
Daqui do morro eu não saio não
Daqui do morro eu não saio não.”

Porém Nara incorporou o tema para o difícil momento na época, a canção foi censurada e Nara com medo de sofrer repressão policial auto-exilou na Europa.

O Bêbado e a Equilibrista – Elis Regina
Composição:
Aldir Blanc e João Bosco
Uma das mais belas canções da história da música popular brasileira, O Bêbado e a Equilibrista vem cheia de metáforas e poesia, no entanto ela registra as saudades dos artistas que lutaram ferozmente contra o Regime Militar, e auto-exilaram pra fora do país.

Cálice – Chico Buarque (Part. Especial: Milton Nascimento)
Composição:
Chico Buarque e Gilberto Gil
Lançada originalmente em 1973 e lançada apenas oito anos depois, Cálice é o caso mais famoso de uma letra trocada pra driblar a censura ferrenha na época, a frase:
“Pai, afasta de mim esse cálice”

Na verdade se referia ao Cale-se imposto pelo regime militar na época.

Como os Nossos Pais – Elis Regina
Composição:
Belchior
Com certeza a mais famosa e bela canção interpretada pela grandiosa e saudosa Elis Regina. Composta pelo cearense Belchior, Como Os Nossos Pais, é um verdadeiro manifesto da juventude da época, inconformada com o regime político e autoritário, porém reprimida assim como os pais, que sofreram o mesmo abuso.

Alegria, Alegria – Caetano Veloso
Uma das finalistas do Festival da Canção de 1967, Alegria, Alegria é um grande manifesto da Juventude retraída pelo regime militar.
Narrada em primeira pessoa, à música fala claramente de um militante caminhando pelas ruas em busca de liberdade, a frase “caminhando contra ao vento, sem lenço e sem documento” é uma forte alusão a lei que proibia qualquer cidadão de andar nas ruas sem estar portando qualquer tipo de documentação, caso contrário o “meliante” seria enquadrado conforme a lei vigente.

Acorda Amor – Chico Buarque
Para fugir da censura que vetava a maioria de suas canções, Chico Buarque adotou o codinome Julinho da Adelaide, e sob o falso nome que compôs a canção Acorda Amor, que foi lançada no disco Sinal Fechado (1974).
O fato dela ter passado ilesa pela censura é um mistério, pois de todas as canções de Chico, essa é a que denuncia explicitamente o regime militar.

Deus Lhe Pague – Chico Buarque
Lançada originalmente no álbum Construção (1971), a maior obra prima da carreira de Chico Buarque, Deus Lhe Pague é um manifesto lírico, poético, irônico e cínico contra a ditadura militar.
Na letra Chico “agradece” copiosamente todos os feitos do governo pela população nos versos:
“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir.
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir.
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague”
.

É – Gonzaguinha
Outro grande artista que cantava as mazelas impostas pelo regime militar foi Gonzaguinha, filho de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha seguiu a veia artística do pai, porém em caminhos opostos, enquanto o Rei do Baião tentava fazer vista grossa para o governo autoritário, o seu filho por sua vez criticava o regime na maioria de suas letras, chegando a ter 54 músicas do total de 72 censuradas pelo DOPS.
Em 1982, em pleno governo do presidente General João Figueiredo, Gonzaguinha lançou É, o seu maior sucesso e canção mais panfletária que o país já teve.

E Vamos à Luta – Gonzaguinha
Outro grande sucesso de Luiz Gonzaga Jr. E Vamos à Luta é muito mais que uma simples homenagem, é uma verdadeira declaração de amor a todos os militantes que se opuseram contra o regime militar, Gonzaguinha “Acreditava na rapaziada”.

Angélica – Chico Buarque
A canção mais melancólica de Chico, nela o autor narra o drama da estilista Zuzu Angel, que teve o seu filho e militante do movimento estudantil, Stuart Angel Jones, capturado pela polícia durante o regime.
Morto no quartel da polícia no Rio de Janeiro, o Stuart teve o seu corpo jogado no mar. Cena que inspirou Chico Buarque a escrever o trecho:
“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar”.

É proibido proibir – Caetano Veloso (Part. Especial: Os Mutantes)
Também apresentada no Festival da Canção, É proibido Proibir é um claro manifesto contra a censura que reinava e imperava no período do regime militar.
Nos versos:
“Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim…”

O autor fazia uma clara alusão à revolução importa pelos jovens que enfrentavam a ditadura militar a ponto de queimar veículos nas ruas para obstruir a passagem dos militares, além de saquear lojas e outros estabelecimentos.

Mosca na Sopa – Raul Seixas
O maluco beleza nunca foi da MPB, tampouco da Tropicália, ele andou na contramão da música na época e garantiu o seu próprio sucesso e prestigio.
A maioria de suas canções – principalmente às compostas em parceria com o Paulo Coelho – defendia a liberdade de expressão, mas também o livre direito à escolha no amor, na fé e no comportamento pessoal.
Mas a canção Mosca na Sopa, é um manifesto de Raul contra a ditadura militar. A Mosca era o povo inconformado com o regime e a Sopa os militares.

Jorge Maravilha – Chico Buarque
Mais uma composição de Julinho de Adelaide – o codinome de Chico Buarque – Jorge Maravilha era nada mais que a história de um sujeito boa praça.
Porém o refrão deixava bem claro a mensagem que Julinho Buarque queria passar:
“Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”

Questionado anos depois sobre o trecho citado, Chico Buarque disse que diversas vezes quando era enquadrado pelo DOPS, os oficiais lhe pediam autógrafos para as suas filhas.
Surgiu até um boato que a canção era uma referencia a filha do Presidente e General Ernesto Geisel que havia declarado ser fã de Chico.

Roda Viva – Chico Buarque
Finalista do festival da canção de 1967, ficando em terceiro lugar no concurso, Roda Viva foi à primeira canção de Chico Buarque a expressar a sua revolta com ditadura militar, que fica explicita no trecho:
“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”.

Não Chores Mais (No Woman, No Cry) – Gilberto Gil
Lançada no álbum mais pop da carreira de Gilberto Gil – o disco Realce de 1972 – Não Chores Mais é uma versão do sucesso No Woman, No Cry do Rei do Reggae Bob Marley.
A letra foi feita durante o exílio de Gil no período da ditadura, onde ele relembra o período nebuloso que viveu no país:
“Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Pra nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar pra trás”.

Mil Faces de Um Homem Leal (Marighella) – Racionais Mc’s
Hoje, dia 04 de Novembro, completa-se 45 anos da morte de Carlos Marighella, deputado pelo Partido Comunista na Bahia, Marighella era tido como o inimigo numero 1 da Ditadura Militar.
Carlos Marighella foi preso e torturado no governo Vargas pela polícia de Filinto Müller – o mesmo que deportou a judia/comunista Olga Benário para a Alemanha de Hitler – com o golpe militar, Marighella sofreu um atentado do DOPS dentro de um cinema, no Rio de Janeiro, foi preso e libertado no ano de 1965, onde iniciou uma luta armada contra a ditadura militar fundando o grupo ALN (Ação Libertadora Nacional).
Foi morto em 1969 uma emboscada armada pelos agentes DOPS.
Essa canção composta pelo grandioso grupo de Rap Racionais Mc’s foi trilha sonora do documentário sobre o guerrilheiro que incendiou o mundo, lançado em 2012.

Retrocesso – Ratos de Porão
E pra encerrar a lista de forma sublime, fugindo completamente do lirismo da MPB e caindo de cara na agressividade do Punk Rock, a canção Retrocesso da banda Ratos de Porão, conjunto capitaneado por João Gordo, foi composta e lançada no álbum Brasil, no ano de 1988, período onde já havia encerrado a ditadura militar, porém na canção, João Gordo grita de forma insana o medo da volta do regime autoritário que assolou e atrasou o país.
Confira a letra completa abaixo e veja se ela não encaixa perfeitamente com o momento atual:
Cuidado com o poder do regime militar
O tempo vai retroceder
O DOI-CODI vai voltar no
BRASIL, BRASIL, BRASIL

Por trás da festa do tri
Tortura e podridão
Milhares de inocentes
Sofreram porque queriam o bem do
BRASIL, BRASIL, BRASIL

Ame-o ou Deixe-o
Essa era a solução
De Médici e sua corja
Imposta para o povo do
BRASIL, BRASIL, BRASIL”
.
http://www.youtube.com/watch?v=KgFDQoQRZUc

 

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comentários
  1. […] receita foi repetida em outras duas ocasiões: no fim das eleições presidenciais, e nas manifestações em apoio a volta da ditadura […]

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