Caso Charlie Hebdo, “Pena de morte aos linchadores, ou não?”

Publicado: 9 de janeiro de 2015 em Fila Benário Fala
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Je suis Charlie
O dia 7 de Janeiro de 2015 que amanheceu com uma piadinha relacionada ao fatídico jogo da seleção brasileira contra a seleção alemã na copa do mundo no ano anterior, que terminou com o placar de 7×1 para os alemães, adormeceu de luto pelo o atentado na redação da revista Charlie Hebdo, famosa publicação esquerdista francesa. Ao todo foram assassinados 12 pessoas, 10 Jornalistas e Cartunistas, e 2 policiais.
O contexto todo da ação que gerou toda essa reação, com certeza você está mais do que careca de saber, nos principais portais de notícias, nos telejornais, na mídia impressa e principalmente nas redes sociais – o novo jornal do século XXI – não se fala em outro assunto, porém com opiniões divergentes.
O famoso cartunista Ziraldo, criador dos celebres personagens Menino Maluquinho e Professora Maluquinha chamou os cartunistas mortos de “heróis”, Laerte, outro famoso cartunista, prestou uma série de homenagens aos membros da Charlie Hebdo e disse que muito dos seus desenhos foram inspirados em obras saídas na publicação. A tresloucada “jornalista” Rachel Sheherazade aproveitou a situação para comparar a publicação com a execrável revista Veja, chamando-o de corajoso.
Porém as Charges de conteúdo Xenofóbico, preconceituoso e intolerante foram apresentadas como o principal motivo de tal ataque.
E assim o assunto virou uma imensa bola de neve, de um lado comoção, do outro incômodo, de um lado passeata e protestos, do outro o apoio a “justiça muçulmana”, a morte da liberdade de expressão versus o fim do preconceito radical. Je suis Charlie (Eu sou Charlie) contra Je ne sais pas Charlie (Eu não sou Charlie).
Porém e nós? De qual lado estamos?
Como todo ser humano eu me compadeço sim pelas mortes ocorridas, pelas vitimas e seu trágico final, e pelas famílias que terão que conviver com o gosto amargo da perda pelo o resto de suas vidas. Condeno a violência de qualquer forma, não acredito que seja por esse meio que se resolve qualquer assunto independente da natureza, o diálogo é forma mais pacifica, sensata e coerente de chegar a algum acordo e resultado. E chego à conclusão que por mais errados que agiam os editores e cartunistas da publicação, o ataque não justifica. Portanto me compadeço e solidarizo.
Porém me incomodo com a sensibilidade módica sem consentimento do ser humano, de repente tudo mundo é Charlie, Je suis Charlie está como assunto mais comentado no twitter há dias. Não, não estou me contradizendo em relação ao que escrevi acima, não retiro o sentimento de compaixão, me compadeço das vitimas, mas não defendo a revista Charlie Hebdo e tampouco me sinto ela, como a grande da maioria da população mundial tem se sentido desde a última quarta-feira.
É do conhecimento de todos o tom abordado com veemência pela publicação, a religião mulçumana sempre foi retratada na revista com escárnio e violência pelas mãos dos cartunistas da Charlie Hebdo. Para os conhecedores da religião mulçumana um dos seus principais princípios é que o profeta Maomé não pode em hipótese alguma ser retratado. E o que fazia a revista francesa? Preenchia suas páginas com desenhos do profeta repletos de conotações sexuais.
Sim, isso não justifica a morte dos envolvidos pelos terroristas radicais, mas também não me faz empunhar um cartaz com os dizeres “Eu sou Charlie” sendo que eu jamais agiria dessa maneira, desrespeitando a crença do próximo.
A própria Charlie Hebdo estampou em uma de suas publicações uma imagem que desrespeitava o cristianismo, onde apresentava uma orgia entre a santíssima trindade.
charlie6 Para eu que sou cristão/católico, foi uma agressividade sem tamanho contra mim e principalmente contra a crença que eu professo, portanto não levanto um cartaz dizendo que “Eu sou Charlie” porque jamais serei conivente com tamanha heresia, mas também não chegaria ao ponto de tirar a vida dos responsáveis por tamanho desrespeito, afinal de contas a minha religião prega o amor. Jesus diz que devemos amar o próximo como a ti mesmo, e tenho certeza que dentro da religião mulçumana esse preceito deve ser propagado também.
Ai caímos no famoso papo da Liberdade de Expressão, a frase mais proferida por Rafinha Bastos, Danilo Gentili e entre outros que optam pelo humor não transformador que ao invés de atacar o sistema opressor, pisa sem piedade na cabeça dos oprimidos. Como estudante de Jornalismo, prezo sim e muito pela Liberdade de Expressão, porém com ética, a famosa característica inerente da ação humana. Sempre antes de escrever qualquer texto aqui, mesmo que seja uma resenha de um artista que eu não tenho o maior apreço, eu penso se eu gostaria de ver a minha banda favorita achincalhada em uma resenha em outro veículo. Isso é empatia, é se colocar no lugar do próximo, um dos princípios fundamentais da ética, e algo que nenhum dos lados tiveram, nem os editores da Charlie Hebdo, nem os assassinos radicais e muito menos os manifestantes de plantão, principalmente esses, afinal de contas a empatia e a comoção surge quando o assunto é do seu interesse, aqui no Brasil mesmo, quantas barbaridades acontecem diariamente e cadê essa mesma comoção da população, eu não vi em nenhum Facebook os dizeres: “Eu sou Amarildo”, ou “Eu sou os moradores do edifício aquarius” quando houve a reintegração de posse no centro de São Paulo. O crime da Claudia Silva Ferreira só teve toda repercussão na mídia porque ela caiu do porta-mala da viatura da polícia e foi arrastada no chão, senão seria mais uma mulher negra e pobre assassinada na favela. Aposto que todos os “Je suis Charlie” são os mesmos que afirmam que “toda mulher de roupa curta, andando a noite na rua sozinha, merece ser estuprada”. Cadê o senso? Cadê a ética?
Em 1998, o ano de ouro do pop-rock nacional, o quarteto mineiro Pato Fu lançava um dos maiores álbuns de sua estonteante carreira, o sensacional Televisão de Cachorro, e entre as canções, há uma cacofônica, anárquica e disléxica chamada Licitação, e em sua letra surreal há uma frase em tom interrogativo que cai perfeitamente nesse contexto “Pena de morte aos linchadores, ou não?”
Digamos que os linchadores são os jornalistas da Charlie Hebdo que durante anos “lincharam” a classe muçulmana, cristã com as suas publicações, mereciam eles essa pena de morte?
Ou não?

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comentários
  1. Richard Dawkins disse:

    Discordo. Acredito que a religião como qualquer outra instituição, independente de qual seja pode e deve ser contestada. Temos o direito de ser impertinentes, provocativos. A religião não está acima de tudo, não é intocável.

  2. José Paulo disse:

    Foda-se Charlie!

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