Quem tem medo de música clássica?

Publicado: 14 de janeiro de 2015 em Willian Abreu Fala
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Metallica e Orquestra Sinfonica
Por Willian Abreu

Era eu um adolescente de 15 anos no início dos anos 2000 quando comecei a formar o meu gosto musical.
Nessa idade, um pouco tardio até, eu não tinha definido ainda o que eu gostava ou não. O fato era que eu simplesmente não ligava muito para esse negócio de música.
Foi quando por curiosidade o namorado da minha prima (que já era metaleiro de carteirinha) comprou um álbum do Metallica intitulado S&M.
Tratava-se de um show ao vivo gravado em 1999 em São Francisco no qual a já consagrada banda era acompanhada pela Orquestra Sinfônica de São Francisco.
Ele me emprestou o cd duplo e eu com pouco entusiasmo comecei a escutar.
Para quem conhece o álbum, a primeira faixa traz o famoso tema de Ennio Morricone para o faroeste Três Homens em Conflito (em inglês The Good, the Bad and the Ugly) do grande cineasta italiano Sergio Leone, o Metallica utiliza esse tema há muitos anos como uma breve introdução aos seus shows.
A segunda faixa do álbum é a completamente instrumental The Call of Ktulu do álbum Ride The Lightning.
Para mim, que como qualquer adolescente de 15 anos tem um alto poder de absorção, essas duas faixas iniciais foram o suficiente para me tornar fã da banda.
O Metallica já faz música grandiosa, mas a junção com a orquestra, que foi além do acompanhamento e se torna tão protagonista quanto a própria banda no show, foi essencial para que eu me entusiasmasse em ouvir o restante do álbum.
Os arranjos feitos pelo maestro Michael Kamen, que já havia colaborado com a banda no famoso Black Album, fizeram toda a diferença. Ele encaixou perfeitamente a sonoridade da banda com os arranjos orquestrais, é um show de proporções épicas.  Muitos metaleiros puristas à época contestaram esse álbum, mas a meu ver é um dos grandes trabalhos do Metallica, até porque com a roupagem clássica músicas dos álbuns controversos da banda como  Load e Reload ficaram muito melhores do que as versões originais.
O fato é que eu me interessava cada vez mais por aquela sonoridade maravilhosa que acompanhava a banda e que deixava sua música ainda mais grandiosa.
Tentem ouvir a consagrada Master of Puppets na versão do S&M e vocês entenderão o que eu estou querendo dizer.

Essa roupagem sinfônica me chamou muito atenção. Quando adquiri o dvd, havia a opção de ouvir somente o áudio da banda, somente a orquestra e claro o áudio original.
Na opção de áudio somente da orquestra que eu comecei a exploração de sons que aquele conjunto podia proporcionar.
Engraçado como a partir de uma banda de metal adquiri o meu gosto pela música clássica e a partir daí comecei a procurar mais informações.
Nos dias de hoje é muito fácil encontrar informação, mas na era da internet discada e pouco acessível às casas brasileiras não era tão simples, a maioria das pessoas sequer tinha computador em casa. Portanto, ouvir um fagote, uma trompa e até mesmo tentar distinguir a diferença de um clarinete para um oboé não era tão simples como pode parecer. E vindo de uma família que nunca teve contato com a grande música ficava mais complicado ainda.
Complicado para um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior…
Se os jovens de hoje são a geração Internet, acredito que os adolescentes dos anos 90 e inicio dos anos 2000 foram a geração TV. Da TV vinha a maior parte da informação, diversão e as influências, fossem elas boas ou ruins.
Entediado eu estava passando os canais da nossa parabólica quando parei na TV Senado atraído pelo programa que estava começando. A introdução trazia os primeiros acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven e o título Quem tem Medo da Música Clássica?
Interessei-me e comecei a assistir para ver do que se tratava.
Um senhor à época com os seus 65 anos de idade fazia a apresentação, a cada semana ele tratava de um compositor e de um período na história, sua abordagem de linguagem simples me chamou muito a atenção.
Tratava-se do grande Artur da Távola, escritor e senador da república.
Ele começava o programa falando primeiramente do período que o compositor abordado no dia viveu, depois de maneira muito simples começava a contar a história do compositor, sua vida, suas influências. Tudo era abordado de maneira que o leigo, meu caso, conseguisse entender.
Após essa introdução ele falava da obra que seria exibida no programa, para que o espectador compreendesse de maneira mais ampla o que seria apresentado.
Foi dessa maneira que conheci Haydn, Mozart, Beethoven, Mahler e os grandes compositores da história.
A grande sacada do programa foi exibir pelo menos um dos movimentos de uma sinfonia, por exemplo, com os comentários do Artur.
Era esse o momento mais importante do programa, a obra sendo tocada e o Artur explicando instrumento por instrumento o que estava sendo apresentado. Falava o nome do instrumento, seu funcionamento, qual o contexto que o compositor o utilizou. Explicava a gesticulação do maestro, de como todos os músicos precisavam estar consolidados dentro do conjunto e muito mais.
Dessa maneira ele trazia informações muito ricas para quem nunca teve contato com a grande música. De forma leve e bem extrovertida explicando cada movimento, cada andamento. Essas informações são muito preciosas no âmbito da música clássica, mesmo acreditando que a mesma é abstrata e não há a necessidade de um entendimento profundo para apreciar as composições, é música para ser absorvida, assimilada, sentida. Algo pouco comum nos dias de hoje, onde acabamos vivendo de música feita para ser consumida e descartada.
A contribuição que o Artur fez nesse sentido foi essencial e acredito que ímpar.
Infelizmente, devido a problemas cardíacos Artur faleceu no ano de 2008. Após o seu falecimento a TV Senado deixou de exibir o programa e acredito que não temos hoje alguém à altura para substitui-lo. Sua contribuição para divulgação e formação de plateia para música clássica foi única nesse sentido. Tenho certeza que seu programa foi responsável pela formação de gosto musical de muita gente e que o objetivo foi atingido. Resta saber quem fará isso para as novas gerações. E isso é muito importante, porque como dizia Artur da Távola ao final de cada programa:

artur da tavola

 

 

“Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”.

 

 

Perfil - Willian Abreu

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