50 Tons de cinza + o desabafo de uma feminista

Publicado: 12 de fevereiro de 2015 em Beatriz Sanz Fala, Cinema, Fila Benário Fala, Livro
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50 Tons de cinza
E estreia hoje nos cinemas de todo mundo o filme Cinquenta Tons de Cinza, baseado no Best seller da escritora inglesa E L James.
O filme é aguardado com tamanha ansiedade pelos fãs da saga na literatura, desde o vazamento do primeiro trailer no ano passado até a data de hoje, fotos de perfil das redes sociais tem sido trocadas pelo cartaz do filme, e a contagem regressiva pelo dia esperado iniciou-se com veemência. Nos cinemas aqui da região os ingressos antecipados já esgotaram, e salas extras irão exibir o filme.
E é dentro desse cenário caótico e de pura Beatlemania que me pergunto, será que vale tudo isso mesmo? O produto final corresponde a esse ardor e fervor por parte da mídia e dos fãs? Quando eu comentei com algumas amigas que pensei em escrever algo a respeito do livro rapidamente elas me alertaram que eu deveria tomar cuidado. Fiquei sem entender o porquê do receio, seria medo de escrever algo que derrubaria toda a farsa que é o livro/filme? Ou será que estamos diante de uma obra tão sagrada quanto à bíblia e o alcorão?
Não vou entrar no mérito da qualidade do livro, afinal de contas eu li o primeiro volume da saga até a metade e não tive o prazer de terminar de ler e muito menos de ler os restantes, então não sou a pessoa adequada para dizer se o produto é bom ou ruim. Assim como expor a minha estranheza de um livro que fala sobre agressão física e tortura psicológica contra mulher, ser campeão de vendas em um país onde a cada três minutos uma mulher é violentada. Mas enfim o Christian Grey é bonito e bilionário, e o que sentimos é inveja dele, diz o coro feminino.
No entanto a minha reflexão é referente à relevância e o legado que isso deixará, será que daqui trinta anos, alguém se lembrará de 50 tons de Cinza? Será que essa adaptação será tão histórica como foi Carrie, O Iluminado, Christine e outras obras adaptadas do gênio da literatura Stephen King? Ou será apenas uma comoção módica e daqui algum tempo ninguém se lembrará disso, ou pior, lembrará com vergonha de ter gostado?
Foi pensando justamente nisso, já que o nosso espaço aqui é extremamente musical, que eu separei algumas bandas que causaram o mesmo furor e estardalhaço na mídia em seu anuncio assim como o livro/filme Cinquenta Tons de Cinza, mas que depois caiu no total ostracismo, o mesmo destino que essa “obra” pode estar condenada:

Nove Mil Anjos
O primeiro exemplo que me vem à cabeça é essa banda brasileira. Na época em que foi anunciada a união de Champignon (Ex- Charlie Brown Jr.), Peu (Ex- Pitty), Junior Lima (Ex- Sandy & Junior) com o estreante vocalista Peri, o mundo voltou às atenções ao Nove Mil Anjos.
A banda foi gravar o primeiro (e único) cd na Califórnia, no estúdio ao lado do colégio onde Flea e Anthony Kiedis do Red Hot Chili Peppers estudaram. A MTV que na época já sofria uma crise criativa, abraçou a causa e fez a estreia da banda em um VMB, com uma propaganda tão forte que parecia mais a reunião do line up original do Smashing Pumpkins.
E o que aconteceu depois?

All Saints
Com o surgimento e a explosão das Spice Girls na indústria musical nos anos 90, a concorrência agiu rápido e tratou de lançar um novo grupo para rivalizar com as garotas apimentadas. A demo das All Saints chegou a London Records e foi aquele estardalhaço. O single Never Ever foi um sucesso chegando a ganhar o Brit Awards de 1998 de melhor música e clipe.
Enquanto de um lado Mel C das Spice Girls dizia ser fã do grupo rival, do outro Shaznay Lewis dizia cheia de empáfia e arrogância que o seu grupo era infinitamente melhor.
Como a vingança vem a cavalo, hoje ninguém se lembra delas.

Fort Minor
Nos anos 2000 o Linkin Park era o grupo mais bem sucedido da década. Hybrid Theory e Meteora eram nomeados os melhores álbuns dos últimos tempos e a popularidade do conjunto estava lá em cima. E foi nesse cenário favorável que Mike Shinoda responsável pela parte mais Hip Hop do conjunto resolveu lançar um projeto paralelo de Rap que segundo o mesmo revolucionaria a história do gênero.
Sob a produção executiva do rapper Jay-Z e com a participação especial de nomes como John Legend e Kenna, o Fort Minor estava formado
Alguém mais ouviu falar do grupo depois?

Rockstar Supernova
Pegando carona na onda dos Reality Shows, o canal musical VH1 teve a ideia de fazer um programa onde montaria uma superbanda com músicos renomados com a premissa de escolher um vocalista para o grupo. A banda formada por nomes como Gilby Clarke (Ex- Guns n’ Roses – Guitarra), Jason Newsted (Ex- Metallica – Baixo) e Tommy Lee (Motley Crüe – Bateria) contou com o vencedor Lukas Rossi.
Estava formada a Rockstar Supernova, que explodiu como a estrela e sumiu.

Symfonia
Seria o maior supergrupo de Heavy Metal melódico, reunindo os maiores nomes do gênero, André Mattos (ex-Angra e Shaman) nos vocais, Jari Kainulainen (ex-Stratovarius) no Baixo, Mikko Härkin (ex- Sonata Arctica) nos teclados, o monstruoso Uli Kusch (ex-Helloween) na batera, todos chefiados pelo insano guitarrista Timo Tolkki (ex-Stratovarius).
O único cd do grupo, o In Paradisum, foi tão ruim, que o projeto simplesmente morreu sem deixar saudades.

E ai 50 Tons, vai aguentar o tranco e mudar a história do cinema e da literatura, ou vai sumir sem deixar vestígios?

Daqui 30 anos a gente lê esse texto de novo!


Quando a Beatriz Sanz ficou sabendo que eu iria escrever um texto a respeito do tema, rapidamente ela me mandou uma mensagem dizendo: “Ahhhhhhhhhh deixa um espaço pra mim???”, como o seu pedido é uma honra, leiam abaixo a opinião da nossa querida Bia, a feminista:

A FEMINISTA CHEGOU PARA DERRUBAR ESSE FORNINHO HEIN

Por Beatriz Sanz

Assim como meu amigo Vinicius, eu não perdi meu tempo lendo a trilogia. EU SOU FEMINISTA. Mas eu irei ver o filme, aliás, eu estou participando de um “rolezinho 50 tons” com as minhas amigas. Provavelmente eu faltarei, pois estarei curtindo meu Carnaval, mas eu estou com uma curiosidade tremenda em torno deste filme.
Acontece que mesmo sem ter lido, eu posso criticar sim, porque 70% das minhas amigas leram e, portanto, eu já me sinto conhecedora da história. A minha primeira crítica é quanto à profissão da nossa querida mocinha indefesa! Ela precisava mesmo ser jornalista?
EU SOU JORNALISTA (ainda não formada e ainda sem diploma, mas sou). A questão não é que ela teria sujado a minha adorada profissão, mas cadê a criatividade, amigas? Lois Lane é jornalista, a Catwoman vivida por Michelle Pfeiffer em Batman – o retorno também. Além disso na atual série “The Flash”, a melhor amiga e bromance do herói que dá nome a série também é. Isso porque eu só citei histórias em quadrinhos da DC Comics. Bem, nossa querida heroína desta trama sexual poderia ter outra profissão, né?
O segundo ponto, me foi mostrado por uma das jornalistas (e essa sim já formada) que mais admiro no mundo, que leu (com muito sacrilégio) toda a trilogia. Ela me disse que são livros mal construídos, ruins mesmos e que a Anastásia é uma boba-alegre. As meninas ficarão alegres em saber que o único ponto alto da trama é o drama psicológico vivido por Christian Grey.
Terceiro e agora eu entro no mérito do feminismo. A MULHER É AGREDIDA SEXUAL E PSICOLOGICAMENTE, MAS TUDO ISSO É PERDOADO PORQUE O CARA AMA ELA? Bem, peço licença a todas as mulheres já agredidas no Brasil, pois eu irei rasgar a Lei Maria da Penha. Qual é mesmo a desculpa do agressor quando ele quer voltar pra casa? QUE ELE AMA A MULHER A QUEM AGREDIU.
Mas tudo isso é pouco num País onde a cultura é de que “mulher que apanha em casa é porque gosta de apanhar. Tem é que apanhar mesmo”. Então peço gentilmente a todas vocês que defendem a trilogia, que apanhem dos seus parceiros, porque vocês com certeza devem gostar de apanhar.

Para finalizar, eu deixo como dica para todas vocês, leitoras de E.L. James, a campanha #50DollarsNot50Shades. Esta ação consiste em você doar 50 dólares para uma associação que luta contra a violência doméstica ao invés de ir assistir ao filme. É uma boa causa e vale apena!

Campanha #50DollarsNot50Shades

Beijos, da feminista louca.
Perfil - Bia Sanz

Em tempo: Há um ano, as meninas do site Omelete fizeram um vídeo falando sobre o Cinquenta Tons, vale e muito a pena conferir.

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comentários
  1. Juriene disse:

    Gosto do que vocês escrevem, mas os 50 tons já deu mais de cem discussões e para quem sabe contar 100 é demais. Se daqui há 30 anos… como não viverei o suficiente, não esperem minha opinião. Mas mulher que apanha em casa não gosta de apanhar, não moça. Isso se chama violência doméstica, sadomasoquismo é outra coisa, é jogo, tem gente que gosta e não é só mulher não. Valeria a pena uma matéria sobre isso? Não sei. Freud chamava de neurose, eu gosto dele, o Sigmund, claro. Será que vocês não fariam uma discussão entre violência doméstica, sadomasoquismo sério, que existe, e as músicas do Chico Buarque? Sei lá é só uma ideia. E viva Maria da Penha. Ah! Uma dica de leitura do gênero para quem gosta e, no caso, ela é fotógrafa. kkk “A história de O”. Literatura da boa.

  2. Nem sei medir o quanto amei essa matéria! Só não li aplaudindo porque o celular cairia da mão. Vocês são demais e tenho muito, muito orgulho de vocês!

  3. […] Beatriz Sanz, também compartilhava do mesmo sentimento. Unimos forças e juntos escrevemos o texto 50 Tons de cinza + o desabafo de uma feminista. Eu levando a discussão, como sempre, para o viés musical, e a Beatriz Sanz, feminista ferrenha, […]

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