Fila Benário Entrevista “Dead Fish”

Publicado: 17 de março de 2015 em Entrevistas
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Dead Fish
No último domingo, dia 15 de Março, enquanto o Brasil sediava uma manifestação que mais parecia uma comemoração de final de copa do mundo, a verdadeira instituição do Hardcore nacional fazia o show de lançamento do seu mais recente álbum, Vitória, na cidade de Jundiaí (Interior de SP).
Estamos falando do Dead Fish, banda mezzo capixaba, mezzo paulista, que há mais de 24 anos carrega o esquerdismo e o inconformismo em suas letras.
Rodrigo Lima (Vocal), Alyand (Baixo), Marcos Melloni (Bateria) e Rick Mastria (Guitarra), subiram no palco do Clube Ipiranga, para um show antológico em diversos aspectos: primeiro pelo lançamento do cd Vitória, que já entra para história da música brasileira, por ter batido o recorde de arrecadação via financiamento coletivo. Segundo, por mostrar o quanto a nova formação está entrosada e eficaz, executando as canções com perfeição e maestria. E por último, a devoção dos fãs, afinal de contas o show fora interrompido faltando dez músicas no repertório, devido problemas de energia, e um maestro Rodrigo conduziu o coro de mil vozes nas duas últimas canções. Surreal.
No final da apresentação, Rodrigo Lima e Alyand bateram um papo exclusivo com o Fila Benário Music, falando justamente desse momento único no palco, além do mais recente lançamento, das manifestações que aconteciam no mesmo dia “com os proprietários do 3º mundo, vestidos com a camisa do Kaka”, como disse Rodrigo durante o show. E por fim sobre a polêmica envolvendo a banda nas vésperas do show de lançamento do disco Vitória, no tradicional Hangar 110, sobre a sua orientação política.

Senhoras e senhores, com vocês: Dead Fish

Fotos por Renata Korogui

Antes de mais nada, eu gostaria que vocês falassem desse momento surreal que aconteceu agora pouco, mesmo com a falta de energia a galera cantou duas canções à capela, o que vocês acharam disso tudo?

Rodrigo Lima: Animal né cara, mas uma baita falta de sacanagem da organização com o público. A gente tinha lá (apontando para o set list pendurado na parede do camarim) dez músicas ainda pra tocar. Eu fico puto pra caralho, mas é porque meu… Eu jogo futebol estilo argentino né? Não tem seleção brasileira aqui, então a gente tem que manter a marra.
Mas a manifestação da platéia foi legal, pelo menos não subiram no palco, não quiseram me dar porrada.

Falando em Show, vocês se lembram da primeira apresentação do Dead Fish em Jundiaí? Que aconteceu no 1º Festival de Hardcore organizado pelo Fistt no Grêmio CP, e contou com vocês e o CPM 22, e na época vocês divulgavam o disco Sonho Médio?

Rodrigo: Cara, o CPM já estava assinado (com a gravadora Arsenal)… A gente veio com o Afasia? (perguntando para o Alyand) ele ta falando que foi o Sonho Médio…

Alyand: Foi 2002 não foi? Então foi com o Afasia.

Rodrigo: É verdade, foi com o Afasia, o Sonho Médio ajudou a gente se consolidar muito aqui no estado de São Paulo e ai eu acho que isso fez toda a diferença. Se eu não me engano o CPM 22 tinha acabado de assinar e tal, e a gente tava ali no Afasia. Foram belos anos… se bem que 2002 já foi um ano bem azedo, a banda já não estava tão amiga.

Me recordo que vocês chegaram a gravar um registro ao vivo, mas a banda estava quase acabando naquela época, vocês estavam inclusive com um guitarrista temporário, o Xande.

Rodrigo: Nossa cara é verdade, estávamos com o Xandinho, nem lembrava.

Falando do presente agora, o mais recente lançamento da banda, o álbum Vitória, conseguiu o incrível recorde no financiamento coletivo, em algum momento vocês acreditavam que isso iria acontecer?

Rodrigo: Cara, eu só acreditei quando rolou quatro horas depois, eu estava no trampo (na época ele trabalhava em um escritório de advocacia), ai o André Pastura que trabalha na produção da banda falou: “olha já conseguimos”, e ai me xingou é óbvio, porque eu já havia xingado geral, tinha xingado ele, toda a galerinha mais nova que tinha colocado o crowdfunding. Mas ai estourou e veio esse recorde, ai eu fiquei de mais mau humor ainda. Mas já recebemos a grana e está bom [risos].

Rodrigo Lima e Fila Benário

Rodrigo Lima e Fila Benário

Rodrigo, recentemente você deu uma entrevista dizendo que o Vitória ao lado do Sonho Médio e o Contra Todos, eram os únicos discos da banda que você realmente gostava. Os que demais discos do Dead Fish tem que você não gosta?

Rodrigo: Não cara, tem discos que eu não gosto. O Afasia tinha um clima ruim, é um baita disco, mas que não me agrada, a energia era outra. Já o Sonho Médio é um puta disco foda que eu até hoje choro. E eu falei bem do Zero e Um também, acho que você esqueceu de mencionar. O Zero e Um, e o Sonho Médio são os meus dois discos favoritos, e eu gosto muito do Contra Todos também. O Um Homem Só é um álbum que eu acho ok, porque foi uma tentativa de mudar, de botar a banda mais pesada, eu acho que a gente perdeu a mão das ideias ali em muitas coisas.

Como fã da banda eu acho o Um Homem Só uma mistura das influências de cada integrante da banda na época, e não um álbum de Hardcore como o Dead Fish é acostumado a fazer.

Rodrigo: Eu como um líder que não se põe como líder, porque os caras acham que eu não sou, mas eu na verdade eu sou líder, eu acabei sendo muito permissivo com os membros da banda e até com a gravadora mesmo. Se eu tivesse batido o pé, beleza, mas o que aconteceu naquela época? Naquela época os caras se diziam músicos, e eu nunca me botei nesse patamar de músico, então eu aceitava a coisa como “a vai ser um passo a frente do Dead Fish musicalmente falando”, e eu tentei fazer alguma coisa de letras, isso falando de longe agora, na época eu não senti nada disso, na época eu era um baita mau humor e só. Ai a coisa não aconteceu da forma que os caras queriam. Eu acho que o Alyand poderia falar bem sobre esse período.

Alyand: A história mais resumida para Um Homem Só é a seguinte: Você tem ideias , uma banda como o Dead Fish tem uma história, uma conotação, como o Rodrigo sempre fala, de esquerda, e nessa época a grande maioria da banda tinha outras ideias, tinha outros anseios, e talvez por isso eu e o Rodrigo ficamos um pouco mais reprimidos, e até com mais dificuldade em compor pra finalizar o disco.
Mas eu acho assim, foi um puta disco, mas não foi um disco honesto com própria proposta da banda musicalmente falando. Mas é o momento que a gente viveu e a gente precisa aceitar, eu não tenho nada contra a nossa obra, eu só acho que você induzir uma música para algo x, você está errado, a música é uma coisa do coração. Pelo menos pra mim como compositor, a música vem do coração, não me interessa se você vai gostar, se o Rodrigo não vai gostar, se alguém vai gostar, a música ela flui. E daí as pessoas que vão ouvir e se vão gostar ou não essa crítica é legal, tanto a positiva quanto a negativa. No caso do Um Homem Só, eu acho que as pessoas fizeram escolhas erradas, mas ainda bem que deu certo e é isso ai.

Alyand e Fila Benário

Alyand e Fila Benário

Na época do lançamento do DVD de 20 Anos de carreira, o Rodrigo deu uma entrevista dizendo que o próximo de álbum de estúdio da banda estava com uma sonoridade ainda a definir, já que ele queria algo bem Hardcore, e o restante da banda queria algo mais trabalhado. Ouvindo hoje o Vitória, se nota um grande álbum de Hardcore, será que pelo fato dele ser um álbum financiado pelos fãs, que em sua maioria é fã do Dead Fish tocando Hardcore, foi uma forma da banda agrada-los?

Rodrigo: Não cara, o disco saiu porque deveria sair assim

Alyand: Todos os nossos discos são feitos para a banda, tirando o Um Homem Só que foi uma coisa mais estranha como eu te falei antes, todos os outros discos são feitos pra banda, o que me agrada, o que agrada ao Rodrigo, o que agrada ao Rick e o que agrada ao Marco. É meio estranho falar isso, mas estamos sendo honestos, a gente não faz nada pra agradar ninguém.

Rodrigo: Talvez por isso a gente não seja maior, fazer parte desse joguinho de: “Ah meus fãs, eu adoro vocês, vocês são a minha vida, vou cheirar pó e vou me matar”, entendeu? [risos].

*Será que é por isso que não tem espaço na grande mídia para vocês? Vocês teria pretensão de um dia voltar a tocar na rádio para grande massa?

Rodrigo: Isso tinha que ser pra todo mundo cara, a gente como brasileiro tem essa mania sudarca horrível de achar que a rádio é pra poucos, que a televisão é pra poucos, que o jornal diário só pode dar tais informações. É pra todo mundo cara, as ondas do rádio são pra todos, se você não tem direito o acesso a ela você tem que dar um jeito de arrumar roubando, baixando, pirateando…
E quanto ao Dead Fish na grande mídia, a gente nunca teve essa intenção, durante o tempo que estávamos na gravadora (Deck Disc), ela queria ganhar uma grana, porque a gravadora queria fazer alguma coisa, eu era tipo o chatão que dizia “puta a gente vai ter que ir naquele programa chato? Puta aquele baita apresentador péla saco que não entende nada do que eu to fazendo”, e os caras me diziam: “você está sendo bobo, conservador, você está deixando de dar um passo a frente”, é um argumento sabe, era um argumento. Mas o meu argumento é que: “toda informação, toda cultura, toda música, toda arte, tudo de tudo, todas as pessoas tem que ter acesso”, talvez isso seja um dos grandes motivos da gente não submeter a essa minoria que detém a grande maioria da difusão da informação no Brasil. A gente está vivendo hoje dia 15 de março de 2015, um grande boom midiático, não que o governo Dilma e a esquerda, no caso a esquerda estabelecida, seja uma coisa boa, não é, é uma merda, eles cagaram no pau, fuderam tudo, a gente vai viver dez anos de muito conservadorismo, mas a gente vive um fenômeno midiático e quem plantou esse fenômeno não foi a população, não foi a maioria. Foram cinco pessoas, ou dez caras, os caras da Veja, os Marinhos (donos da Rede Globo), e o povo compra fácil, porque o Brasil não é Síria, e ainda não é a Ucrânia, mas pode vir a ser.

Rodrigo, aproveitando a oportunidade, eu gostaria de perguntar sobre um fato que aconteceu na semana passada, às vésperas do lançamento do Vitória no Hangar 110?

Rodrigo: Ih cara, isso vai virar polêmica.

Vai dar polêmica mesmo, posso fazer essa pergunta?

Rodrigo: Claro, por favor.

Você publicou no evento criado do show no Facebook a seguinte frase: “o Dead Fish é uma banda de Esquerda, pra Esquerda e da Esquerda. Se você é de Direita e cola nesse role, deve ter algo meio errado com você…”, e a publicação deu muita repercussão, eu gostaria que você falasse a respeito disso.

Rodrigo: Eu não li a repercussão, mas eu odeio ter que me explicar, é extremamente desagradável, principalmente para fãs que são muito péla saco, mas me explicar é terrível porque, quando eu falo direita, eu falo do cara racista, homofóbico, preconceituoso, que tem preconceito de classe, nacionalista babaca, paulistano bandeirante. Puta meu, eu vi gente do meu bairro, eu moro em Perdizes (SP), dizendo: “Eu sou bandeirante”, ai eu olhava e falava: “caralho, você veio de toda sífilis mesmo?”, pensava alto né? Não podia falar senão ia tomar um pau.
Mas cara, quando eu falo que é uma banda à esquerda, eu provavelmente sou o cara que tem mais leitura esquerda aqui, o Alyand ele veio da classe trabalhadora, provavelmente não precisa nem provar que é esquerda. Eu vim da classe média, então eu li muitas coisas da esquerda. Quando eu falo esquerda, é o contrário do cara racista, homofóbico, preconceituoso de classe, que quer uma república temente a Deus e não uma república leiga e que tenha um senso de estado forte, entendeu? É sobre isso que eu falei: “se você é da direita, não apareça, não faz sentido você ouvir o Dead Fish, se você pensa assim”.

Alyand: Estamos falando da direita de verdade, não a direita política. A direita viva

Não à direita Aécio Neves né?

Rodrigo: Cara a direita é a Dilma, o Aécio é à direita da direita. A Dilma não é uma presidente de esquerda, ela é uma presidente de centro direita, cara. Ela tem um acordo político e várias facções do PT tem um acordo político de centro direita, desde sempre. Os caras falam: “o Rodrigo vota em tal partido…”, eu não voto cara, eu não voto desde a primeira eleição do Lula, que a gente tava em João Pessoa (PB) fazendo um show. Ninguém tem mais título de eleitor aqui, estamos mais a esquerda ainda. É mais pra lá galera, é mais pra lá. Foi isso que eu disse na frase.

Falando de música agora, ultimamente temos vivido um período de grande saudosismo da era de ouro do Hardcore, muitas bandas que encerraram as suas atividades como A-OK, tem feito shows. A pergunta é, quando vamos ter um show especial do Projeto Peixe Morto?

Rodrigo: Nunca mais, esquece.

Nunca teve né?

Rodrigo: Teve, teve um que eu toquei com uma mascara de palhaço…

Alyand: Foram dois shows no Black Jack (São Paulo) se eu não me engano em 2005.

Rodrigo: Acabou, não existe mais, quem foi, foi, quem não foi, não vê mais.

Porra, que pena

Rodrigo: A gente faz outro projeto qualquer ai uma hora dessas [risos].

Agora pra encerrar, outra perguntinha polêmica, mas é que dessa vez nós gostaríamos de ouvir o seu lado. Recentemente o Nenê Altro (Vocalista do Dance Of Days), postou uma foto com você na página oficial da banda no Facebook, e a foto foi alvo de comentários do tipo: “ué, mas vocês não são rivais?”, e o Nenê disse que nunca houve rivalidade alguma na verdade. Mas acho que muitos associam essa rivalidade devido a um show que o Dance Of Days e o Dead Fish fizeram em BH há uns 10 anos, e o Dance Of Days foi vaiado pelo público do Dead Fish, e você subiu no palco depois dizendo que “não se constrói uma cena com intolerância”…

Rodrigo: Uma aulinha babaca do professor [risos].

Então gostaríamos de saber, o que você pensa a respeito do Nenê Altro?

Rodrigo: Nós temos muita divergência política, ele é radical, anarco-individualista, anarquista, e eu não sou anarquista, eu não acredito em 70% das ideias dele em muitas coisas. Eu acredito em partes das ideias dele, mas não em todas, nós conseguimos ter convergência em 30 e tantos por cento de alguma coisa. Além do respeito que eu tenho por ele, pela história que ele tem, ele é um cara muito odiado e muito amado e isso me atrai muito, porque quando você é odiado e amado ao mesmo tempo, quer dizer que você tem personalidade, que você foi uma pessoa livre para acreditar numa coisa e dali um tempo não acreditar mais e mudar de rumo. Ele é um cara muito corajoso, porque ele se expos muito, o ser humano é cruel cara, principalmente no meio do Punk, a gente acha que o meio do Punk é diferente do mainstream, mas é tão malévolo quanto qualquer fã de novela. Então como ele se expos muito, eu tenho uma admiração e respeito gigante pelo cara.
Não que ele não tenha errado, ele errou, mas eu errei, todo mundo erra, eu acho que ele errou mais, mas quem erra mais, no final das contas aprende mais.
Mas a minha relação com o Nenê Altro é de extrema admiração, gostaria de fazer muito mais coisas com ele, pra mim ele é o cara que mais escreve hoje e desde o final dos anos 90. Canta porra nenhuma, mas escreve pra caralho [risos].

Rodrigo Lima e Nene Altro

Rodrigo Lima e Nenê Altro

Ah, cantou um dia…

Rodrigo: Cantou um dia no Personal Choice, no Sick Terror. Mas o cara que mais escreve hoje na música independente é ele, pra mim é ele cara. Essa é minha opinião, é sempre bom frisar para os fãs pélas sacos que a opinião é minha e não do Dead Fish.
Essa entrevista foi bombástica hein? Você precisa me passar ela

* Pergunta feita pelo fã e amigo Wagner Sousa, que acompanhava a entrevista.

Veja as fotos do show na página oficial da fotografa Renata Korogui

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comentários
  1. rafaelpiu13 disse:

    Galera, o Black Jack era em São Paulo, corrijam aí! Bela entrevista! Abraços!

  2. pedro disse:

    Ae ta uma frase que todo mundo deveria ler ” a opinião é minha e não do dead fish ” camaradas vamos pensar antes de comentar e conhecer a ideologia …………..minoria de pela saco que não desgrudar do meio social de comunicação….vai capinar um lote seus fdp…

  3. […] No começo desse ano o Fila Benário Music fez uma entrevista exclusiva com o Dead Fish que vale a pena ser conferida. Leia aqui. […]

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