Willian Abreu Fala

Prelúdio à Música de Cinema

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Por Willian Abreu

Devido aos lançamentos de grandes blockbusters nesse mês como Velozes e Furiosos e Os Vingadores trago um texto sobre a música de cinema. Porém, acredito ser importante voltar um pouquinho no tempo e levantar, além de sua origem, um pouco da base que os grandes mestres deixaram pronta para que os compositores modernos como John Williams pudessem criar as grandes trilhas que fazem parte dos nossos filmes favoritos. Farei em dois textos para que melhor compreensão. Espero que gostem.

A música como a primeira das artes vem sendo desenvolvida por séculos a fio com a finalidade de entreter, contar uma história, representar uma atividade cotidiana ou simplesmente transformar os sentimentos humanos em som.
Ao longo do processo de evolução de nossa espécie desenvolvemos a capacidade de contemplar e buscar respostas para todos os fenômenos que encontramos na natureza. O ser humano é o único dos animais que tem “a consciência do ser”, busca respostas e até mesmo contesta e procura definir sua própria existência.
Acredito que a necessidade de nos expressarmos através da música vem pelo dom de poder observa-la na natureza e criar algo característico para nossa espécie, afinal de contas todas as culturas buscam maneiras das mais variadas de se expressar através da música.
Maior ainda foi a capacidade de transformarmos a música em uma ciência. Calma aí Willian. Ciência?

Sim, pois não é a música capaz de ser representada matematicamente? Suas regras e equações não são tão desenvolvidas como as leis da física?

A partir do momento que temos como representar matematicamente a música, escrevê-la e definir as leis que a compõe pode-se desenvolver uma infinidade de combinações de som que representam o que o compositor deseja passar ao ouvinte.
Bach consegue através de sua música representar, por exemplo, “A Paixão Segundo São Mateus”, onde transforma o texto bíblico em um marco da música ocidental. Sua composição vai além da liturgia e é capaz de expressar o sentimento contido nas escrituras em todas as suas passagens.

Johann Sebastian Bach
Johann Sebastian Bach

É uma obra de arte completa, que na ocasião foi composta para ser apresentada na Sexta-feira da Paixão do ano de 1727. Bach era um homem a frente de seu tempo, sua música sobrevive até os dias de hoje e a sua Paixão Segundo São Mateus ganha as salas de concerto e igrejas de todo o mundo principalmente na semana da Páscoa Cristã. Mas acredito que sua linguagem musical vá além de qualquer religião, a obra em si liberta-se do contexto religioso e independente se você é católico, protestante, judeu ou não tenha religião é praticamente impossível ser insensível à música de Bach.

Aqui um A Paixão Segundo São Mateus em versão completa e legendas em português. Para quem não puder ver o vídeo completo vale a pena se deliciar com a música de Bach nos primeiros 5 minutos.

Um pouco mais tarde no ano de 1797, já no período do Classicismo, Haydn compõe o seu oratório “A Criação” onde sintetiza toda a natureza contida nas palavras do Gênesis em música. Claro, esse tipo de composição não era exclusividade de Bach e Haydn, mas Bach no período barroco estabelece todas as bases de composição para quem vem a seguir, já Haydn no período clássico consolida essa base para quem vem depois.

É importante destacar que o período que vai do início do século XVII até a primeira metade do século XX foi muito fértil para a música, é onde a música atinge seu ápice e é onde os compositores modernos buscam inspiração.

Avançando um pouquinho no tempo Beethoven (sempre ele) dá um passo à frente com a sua Sinfonia nº6 “A Pastoral” considerada precursora da música programática. Foi composta em um período em que a surdez de Beethoven já estava em estado mais avançado e ele se refugia no campo. A sinfonia descreve em cada um dos seus cinco movimentos a sensação experimentada por Beethoven no ambiente rural.

Vejamos a descrição de cada um deles:

  1. Allegroma non troppo (em forma-sonata) – “Despertar de sentimentos alegres diante da chegada ao campo”
  2. Andante moltomosso – “Cena à beira de um riacho”
  3. Allegro – “Dança campestre”
  4. Allegro – “A tempestade”
  5. Allegretto – Hino de ação de graças dos pastores, após a tempestade

Vejam que cada movimento descreve algo específico, programado, não é música abstrata. Musicalmente foi muito impressionante para a época e pavimentou o caminho para o que seria feito depois.
Esse é um dos trechos mais famosos. A tempestade. O som nos violoncelos e contrabaixos são as nuvens se aproximando e logo em seguida os trovões na percussão. Sensacional.

Mas algo surgiu na metade do século XIX que revolucionou a música. Richard Wagner.
Wagner cria uma verdadeira revolução e representa ainda hoje o novo. Sua música revolucionária rachou o meio musical entre os que veneravam o passado e os que viam em Wagner a expressão da arte do futuro.
Wagner estabeleceu o que ele mesmo chamou de “Obra de Arte Total”. Suas Óperas buscavam a interação entre música, canto e artes plásticas em uma maneira de expressão completa. É com Wagner também que o conceito de leitmotiv se consolida, sendo o leitmotiv uma técnica de composição empregada em suas óperas onde um ou mais temas são apresentados na música e caracterizam os personagens em cena. O leitmotiv é o tema, a alma musical de cada personagem, e é repetido ao longo de toda a ópera quando o personagem entra em cena ou é citado.

Richard Wagner
Richard Wagner

Wagner amplia a orquestra utilizada em suas produções operísticas. Enquanto em uma sinfonia de Beethoven trabalham em média 60 músicos, nas óperas de Wagner os integrantes somente da orquestra podem chegar a 120 músicos. Além da grandiosidade musical Wagner cria instrumentos para caracterizar as suas obras. A Tuba Wagneriana, por exemplo, é um instrumento de metal concebido especialmente para as composições de suas óperas.
Sua música é tão rica que pode ser completamente separada e apresentada sem os cantores, é um personagem a parte em suas obras e tem vida própria, não existe somente para acompanhar os cantores ou o coro.

As óperas de Wagner tem caráter cinematográfico, mesmo antes de o cinema existir, unem música grandiosa, canto, cenários magníficos e uma direção de cena digna das grandes produções de Hollywood. Aos cantores não cabe apenas o cantar, mas também a atuação no palco. Assistir a uma de suas óperas é como ir ao cinema, só que ao vivo.
Aqui a abertura da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberg uma obra prima interpretada pelo grande maestro LorinMaazel.

E esse um trecho da famosa Cavalgada das Valquírias que foi inclusive utilizado em um trecho do filme Apocalypse Now. Aqui na produção cinematográfica da Ópera de Copenhagen, detalhe, orquestra e cantores como de costume sem amplificação eletrônica.

Bach, Haydn, Beethoven e Wagner são a fonte na qual os compositores modernos sempre buscam inspiração.
Portanto, sempre que forem ao cinema lembrem que por mais sofisticada que seja a trilha sonora do filme ela nada de braçada na fonte que os grandes compositores do passado deixaram.

No próximo artigo: A Música de Cinema

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Um comentário em “Prelúdio à Música de Cinema”

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