Zé Henrique & Gabriel encerra a Virada Jundiaí com direito a show de burocracia da produção

Publicado: 25 de maio de 2015 em Fila Benário Fala, Shows
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Uma das maiores críticas que leio dos leitores do Fila Benário Music, é pelo fato blog abordar apenas shows e artistas de Rock e MPB, não abrindo espaço para outros estilos e ritmos. Em partes eu discordo, afinal temos o Willian Abreu que é um grande entendido de Música Clássica e escreve muito acerca do tema. E com a entrada dos demais colunistas o site tem ficado mais diverso e plural, musicalmente falando.

Mas foi ouvindo o clamor desse povo, que ontem eu fui ao Parque da Uva (Jundiaí – SP) fazer a cobertura do show da dupla sertaneja Zé Henrique & Gabriel, no encerramento da Virada Jundiaí (leia a cobertura completa do dia anterior aqui). Porém não foi uma tarefa fácil, e não me refiro a música.

Conforme a orientação da organização do evento, a secretaria da cultura da cidade de Jundiaí, a dupla iria atender a imprensa no camarim após o show. A única exigência era a apresentação da credencial para a entrada ser liberada. Como eu estava devidamente credenciado, e no dia anterior tudo havia funcionado tranquilamente, pensei que seria fácil. Logo no início do show, fui tentar entrar na famosa “zona mista”, a área entre o palco e a plateia, local onde fica a imprensa, o pessoal da produção e os seguranças; porém a minha entrada foi barrada, apresentei a credencial para o segurança, mas a resposta dele era negativa.

Quando olhei pra dentro da zona mista, o espaço, ao contrário do dia anterior, estava lotado, abarrotado de gente, de fãs, com suas latinhas de cervejas, celulares fazendo selfies e curtindo uma grande balada. Perguntei novamente para o segurança: “porque eu não posso entrar amigo?”, mas ele não me respondia. O segurança era o mesmo do dia anterior, de uma empresa terceirizada contratada pela prefeitura da cidade, ai eu chamei ele de novo e falei: “amigo, você não lembra de mim? Eu sou da imprensa, eu estava aqui ontem, nós conversamos o dia todo, eu cobri os shows de ontem ai dentro”, disfarçadamente ele chegou no meu ouvido e cochichou: “não sou eu não, mano, é a produção dos caras que não quer deixar”.

A grade que separava o "público" do outro público, e eu barrado do lado de fora

A grade que separava o “público” do outro público, e eu barrado do lado de fora

Mas não queria deixar porque? Mas e aquele monte de gente ali curtindo uma balada? Continuei na grade a espera de alguém da organização, eis que apareceu uma moça, chamei ela e contei toda história, nisso ela me disse: “a produção só deixa entrar com essa pulseirinha preta no pulso, quem não estiver não entra, nem com o crachá da imprensa a entrada é liberada”. Ouvi aquilo incrédulo e aproveitei para questionar a presença daquele público enorme na área reservada a produção e a imprensa: “eles são do fã clube”, disse ela, “eles tem passagem livre”.

Comecei a guardar as minhas coisas para ir embora, quando a moça compadecida com o ocorrido, implorou uma tal pulseira para a produção da dupla, e assim a minha entrada foi finalmente liberada.

Com toda essa confusão eu perdi mais da metade do show, mas o pouco que assisti trata-se daquele mais do mesmo dos shows de sertanejo, quem já esteve presente em um conhece o script. A dupla começa tocando os seus principais sucessos, depois passa a interpretar canções de outras duplas e os sucessos radiofônicos do momento. Prestam uma homenagem a verdadeira música de raiz, tocando clássicos de moda de viola. E aproveita a oportunidade para fazer o jabá dos filhos cantores, Zé Henrique no caso, levou para o palco os dois filhos, um, o João Pedro, é cantor gospel, e junto com o pai cantou a música Faz um Milagre em Mim. Já o outro, o Rafael Lima, subiu no palco de calça apertada cantando um arrocha com a seguinte letra: “Eu já peguei a sua amiga, mas vou pegar você também”. Como dizia o Smashing Pumpkins, era o “Sagrado e o Profano” na mesma moeda.

Rafael Lima mandando o seu arrocha

Rafael Lima mandando o seu arrocha

Porém a verdade tem que ser dita, a banda que acompanha a dupla é fenomenal, músicos de altíssima qualidade, tocando com maestria, técnica apurada e com tamanho profissionalismo. O guitarrista jundiaiense que acompanha a banda, o músico Fernando Gambini, é um artista excepcional, além de ser um excelente cantor. Em determinado momento da apresentação, ele assumiu os vocais e fez a alegria do público roqueiro presente tocando um medley com as canções Hey Brother (Avicii), It’s My Life (Bon Jovi) e Sweet Child o’ Mine (Guns n’ Roses).

Fernando Gambini fazendo o seu show

Fernando Gambini fazendo o seu show

Zé Henrique merece também uma atenção especial por dois motivos, primeiro pelo excelente músico que é, fazendo bons solos de guitarra e hipnotizando a todos no toque da viola caipira. Porém o campo onde artista melhor atua é na composição, Zé Henrique, ou João Rodrigues, seu nome de batismo, é compositor de mais de 400 músicas gravadas pelos maiores nomes da música sertaneja. De Milionário & José Rico, passando por Daniel, Rio Negro & Solimões, Rick & Renner, Bruno & Marrone, Zezé Di Camargo & Luciano, até chegar na nova geração do sertanejo como Jorge & Mateus.

Hoje, 90% da música sertaneja tocada nas rádios do país, tem a assinatura do compositor Zé Henrique, portanto é aceitável a inclusão de muitas dessas canções no repertório da dupla, afinal é tudo dele mesmo.

Fim de show, não é um show para mim, afinal não sou nada amante do gênero, mas é um show bem feito, muito bem estruturado, com uma banda profissional, com som de primeira. Pra quem gosta é um prato cheio e diversão garantida.

Eis que começa o meu drama: mais do que depressa eu fui resgatar na plateia a minha grande amiga e fotografa Juliana Pavan, que estava credenciada, mas que não tinha a bendita pulseira preta que dava passagem para o camarim e entrevista com a banda, conversei com o segurança novamente dizendo que ela era minha fotografa, que ela estava com a credencial da prefeitura e que ela estava acompanhada comigo que estava com a pulseira preta, mas resposta obviamente foi negativa, mas ele deu um suspiro de esperança: “vai lá dentro e pede  você mesmo para a produção”. Entrei correndo nos backstages e trombei com um brutamonte vestindo a camiseta da produção da banda, com o enorme logo da Som Livre estampado na manga, falei que eu era da imprensa, que a minha fotografa estava do lado de fora, que se ele não autorizava a entrada dela, mais do que depressa ele não autorizou. Com muita dor no coração eu sai para arena e dispensei a mesma, peguei a câmera fotográfica com ela, e eu mesmo ficaria incumbido de fazer a entrevista e tirar as fotos. Jornalismo mais independente do que esse, impossível.

Fui pra porta do camarim que estava abarrotada de gente em uma fila quilométrica para tirar fotos e pegar autógrafos. Nisso passou uma funcionária da organização da Virada e eu rapidamente perguntei: “a imprensa vai entrar depois desse pessoal todo, ou teremos acesso antes?”, ela respondeu: “a imprensa já entrou, você não vai entrar mais não”. Mais do que depressa eu retruquei: “como assim a imprensa já entrou? O show acabou agora de pouco, não faz nem cinco minutos, você viram eu aqui lutando pra tentar colocar a minha fotografa aqui dentro, e como assim a imprensa já entrou? A dupla está dando entrevista de 30 segundos agora?”. Nisso ela disse aquilo que era esperado: “ordens da produção, agora entra só os fãs, se você quiser esperar todo mundo entrar e depois tentar a sorte, espera ai, mas tenho certeza que você não vai conseguir”, disse ela completando: “eles proibiram até filmagens e fotografias em cima do palco”.

Fiquei ali do lado camarim olhando aquela fila quilométrica, e nisso me veio uma lembrança da Virada Cultural do ano passado, que aconteceu no mesmo lugar, lembrei do Roger Moreira do Ultraje a Rigor, que me recebeu sorridente no camarim, e ainda me disse: “senta aqui amigo, vamos bater um papo”. Lembrei também da maravilhosa Bruna Caram, no mesmo evento, que durante a entrevista segurou nas minhas mãos e cantou um trechinho de “Indiferença” do Zezé Di Camargo & Luciano.
Rodrigo Lima do Dead Fish, que é considerado (até por ele mesmo) um chato, me deu um abraço bem apertado após a entrevista que fiz com ele, e ainda me disse: “essa entrevista foi polemica hein? Você me precisa me mandar ela depois”. E como esquecer a simpatia de Rodrigo Koala e Fábio Sonrisal do Hateen que me atenderam no bar do Inferno Club, com a maior alegria e disposição?
E nem precisei ir muito longe com as minhas lembranças, no dia anterior, naquele mesmo lugar, quando eu fui abordar o rapper GOG para uma entrevista, o mesmo disse: “meu amigo, você me espera só um minutinho que eu vou atender um pessoal que quer tirar uma foto comigo ali na frente? Eu já eu volto”, dali 20 minutos ele voltou sorridente e me disse: “bora bater um papo, Negrão?”. Sem contar o supersimpático Chico César, que me atendeu antes do show para entrevista, e no final do show ele me convidou para entrar no seu camarim e me serviu uma fatia bem generosa do seu lanche de metro, e ainda me deu um copo de whiskey, que aceitei por educação e depois deixei sobre a mesa do camarim, pelo fato de eu não beber.

Com todas essas lembranças eu voltei a realidade e me perguntei: “O que mesmo eu estou fazendo aqui?”

Guardei o bloco de perguntas e a câmera fotográfica na mochila e fui embora.

Se toda essa burocracia é uma exigência da gravadora, e a dupla é inocente? Isso eu não sei, só sei que eu não estava ali pedindo dinheiro emprestado e muito menos aprovando crédito para comprar um carro ou apartamento, eu estava apenas fazendo o meu trabalho e principalmente valorizando o deles, afinal de contas, o que seria de qualquer artista sem a exposição da mídia e sem os veículos de comunicação?

Agradeço a toda equipe da organização da Virada Jundiaí, que tentou fazer de tudo para que o meu trabalho fosse realizado, peço desculpas para fotógrafa Juliana Pavan por todo o transtorno. E quanto a tal produção da dupla, um recadinho:

Calma, vocês trabalham para o Zé Henrique & Gabriel e não para o U2.

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comentários
  1. JURIENE PEREIRA DA SILVA disse:

    Da próxima vez, não vá. Simplesmente não vá. E faça um favor para eles. Pois só aprenderão quando as pessoas derem a eles o valor que tem. Tenho pena dos fãs que se submetem ao desrespeito para ouvir um pouco de música ruim. Que pena. Daqui há seis meses. Quem eram eles mesmos?

  2. Fer Gambini disse:

    Fala Galera! Aqui é o Fernando Gambini. Primeiramente, parabéns pelo trabalho de vocês. Muito bem escrito.
    Acabei de ler sua matéria, e como jundiaiense, senti a necessidade de repondê-lo. Muito obrigado pelo elogio, fiquei muito feliz de saber que você gostou do meu trabalho e dos meus companheiros de banda.
    Estou acompanhando a dupla há quase 1 ano, e desde que eu entrei aqui, eu vejo o esforço de toda a equipe e da dupla pra conseguir atender todo mundo. Em muitas ocasiões, a dupla atende antes e depois do show pra poder dar conta, e já aconteceu até de atrasarmos pro segundo show da noite por conta da dupla ficar um pouco mais no camarim atendendo a imprensa e os fãs.
    Mas tudo precisa um pouco de organização, e essa organização é feita através das pulseirinhas. Muita gente imprime um crachá de imprensa (os ‘espertinhos’), só pra ir atrapalhar o bom andamento do atendimento. Essas pulseiras são normalmente distrubuídas antes do show (na passagem de som) ou por uma lista, que é só mandar email pra produção. Espero que vc entenda. Só um correção, o nome de um dos filhos do Zé Henrique é Rafael Líbi e não “Lima”.
    Estou sempre no meu estúdio aqui em Jundiaí. Quando puder, passe tomar um café pra batermos um papo e mais uma vez, obrigado pelos elogios e parabéns pelo seu trabalho.
    obs.: só um detalhe pra JURIENE PEREIRA DA SILVA, a dupla Zé Henrique e Gabriel está há 15 anos na estrada e tem o maior respeito com os fãs, pergunte para qualquer fã clube da dupla. Antes de sair metendo a boca, faça uma pesquisa simples, já existe o Google. Somos todos profissionais passíveis de erros e tentamos sempre melhorar.
    Um abraço

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