Entrevistas

Fila Benário entrevista GOG: “Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro”

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Com 50 anos de idade e quase trinta anos dedicados ao Rap, o brasiliense Genival Oliveira Gonçalves, mais conhecido como GOG, é referencia quando o assunto é Hip Hop nacional.
Após um show eletrizante e protestante na Virada Jundiaí, no interior de São Paulo, GOG, conhecido pelas suas parcerias inusitadas ao lado de grandes nomes da MPB, como Lenine, Zeca Baleiro e Maria Rita, bateu um papo conosco e de forma esclarecedora falou da sua carreira, do Funk carioca, do seu possível retorno à literatura, da situação política atual e relembrou com muita emoção do seu grande amigo e parceiro Chorão, ex- Charlie Brown Jr.

O resultado disso tudo, você confere abaixo.

GOG você faz parte da geração Old School do Hip Hop nacional, está nisso à quase trinta anos. Me diga, quais as dificuldades de fazer Rap naquela época em relação a hoje?

Então, a gente já andou nas ruas de terra e nas ruas de asfalto da mesma forma, entendeu? Então se a rua está asfaltada hoje, faz parte. Como a gente já rodou nas ruas de terra, andar no asfalto é relativamente mais fácil. As coisas caminharam bastante, mas essa caminhada foi proporcionada por aqueles que pavimentaram esse estado das coisas dentro do Hip Hop. Tem muita coisa a ser discutida ainda, muitos temas, os inimigos são fisiológicos, eles mudam de cara, hoje se tem discursos progressistas, mas continuam reacionários de plantão.

Uma das suas principais características é a sua pluralidade musical, você gravou com Lenine, com a Maria Rita, entre vários outros. Isso de certa forma não chocou os fãs mais ortodoxos do Hip Hop?

Essa forma de trabalhar o canto, trazendo gente diferente, sempre combinou comigo. Eu sempre quis ter uma família com muita gente, com muito primo, com muito amigo, e no mundo da música você quer ter várias participações, vários parceiros que façam parte do seu universo musical, como: Lenine, Maria Rita, Paulo Diniz, Gerson King Combo, Fernando Anitelli do Teatro Mágico…

O Teatro Mágico esteve se apresentando ontem aqui na Virada Jundiaí também.

O Fernando é meu parceiro, eu bato palma pra ele, tanto pelo trabalho artístico, como pelo engajamento. Ele poderia estar falando de outras coisas e ele fala de coisas muito pertinentes. Continuando, o próprio Zeca Baleiro, que vem nesse meu novo disco, Hamilton de Holanda, Di Ribeiro, entre outros. Então quero dizer que é uma salada de oportunidades e de engenhocas que a gente faz para apresentar para o nosso povo e falar: “Gente, olha, é tudo nosso”. Então foi muito importante. O Hip Hop já estranhou essas misturas, mas acabou todo mundo percebendo que era um caminho a seguir, não o único caminho, mas um dos caminhos que poderia nos colocar mais na casa do povo, no ouvido das pessoas como o prato do dia.

GOG, você que é um grande conhecedor da música negra americana, da Soul Music. Aqui no Brasil existe um grande equívoco com a palavra Funk, na verdade ela, que é denominada do Funk americano, acabou sendo utilizada para um estilo de música que não tem nada ver. Então relacionado a esse tipo de música, a esse Funk que o Brasil hoje cultua, você tem algum tipo de restrição? Você acha que ele não retrata a realidade? Ou é um estilo aceitável e que pode ser trabalhado de uma maneira legal?

Cantores de Funk, bailes funk’s, não são de marte, são do Rio de Janeiro, de São Paulo, das periferias brasileiras. O Funk, tanto o Original Funk que a gente conheceu do Soul, como o Funk Carioca, são músicas negras na sua diversidade. Quando as pessoas me perguntam: “GOG e o Funk Carioca?”, eu pergunto: “E a escola, vai bem?”. As discussões sobre o Brasil, sobre o que acontece no Brasil de hoje, se as periferias vão bem? Ai as pessoas me respondem não. Então a gente não pode exigir desse mesmo endereço, coisas tão diferentes que realmente fazem parte do dia-a-dia. Eu conheço o Funk Carioca, não só focado no que aparece na TV, mas, por exemplo, a APAFUNK, a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, o Mano Teco, o próprio Leonardo, da dupla Junior & Leonardo, o Pingo do Rap, cara, são letras que eu falo: “Eu gostaria de ter escrito isso”, e eu escrevi né? Por que são os meus parceiros e é uma continuidade dos nossos diálogos, mas as pessoas insistem em ver o Funk panfletário, em ver o Rap panfletário, porque isso vende, mano. Isso Vende. E a gente tem que entender que eles só fazem isso porque vende e a forma de tirar isso do dia-a-dia nosso é não comprando. O capitalismo é o gigante do pé de barro, ele depende de você para que continue gigante, mas a gente tem que derrubar esses gigantes, então, o Rap, o Funk, o Original Funk, o Funk Carioca, são músicas negras nas suas diversidades, na sua forma de expressão, e na sua forma de produzir a música.

Falando agora sobre a nossa situação política atual, temos hoje eleito o congresso mais conservador dos últimos tempos, qual é a sua opinião a respeito disso tudo?

Eu só tenho uma resposta para isso: “Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro”. A direita não tem resposta para as minhas questões, a esquerda também não tem respostas para as minhas questões. O dialogo nosso hoje com a esquerda, já é um dialogo mais facilitado, mas as questões não são facilitadas. Nunca se machucou tanto um tecido negro em um governo de esquerda, dito de esquerda, como agora. Mas essa é a realidade, sejam bem vindos a social democracia, que como eu te falei, os discursos são progressistas, mas muitas vezes eles são reacionários de plantão, e diante dessa constatação é claro, é claro não, é lógico que a gente tem uma perspectiva de ver diante da realidade exposta, o que a gente vai fazer, e a gente tem pensado que a gente tem que voltar para nossa base, que o movimento social tem que sentar mais, discutir mais, a gente quer e acha importante que deve ser discutido a seguinte fita: que encontros culturais são importantes, mas é preciso ter muito mais nesse momento uma cultura de encontro, dialogar, a bolinha dos olhos no país da bola.

GOG: "Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro"
GOG: “Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro”

Hoje temos diversas políticas públicas voltadas para a inclusão do negro na sociedade, como as cotas raciais nas universidades públicas e privadas. O que você acha que ainda falta para a classe negra brasileira dominar o mundo?

A questão não é dominar o mundo, mas fazer parte do mundo. Eu quero dizer pra você que as cotas raciais nas universidades brasileiras elas são apenas parte de um pacote chamado ações afirmativas, que são ações regulatórias e reguladoras, que são momentâneas. Eu vou colocar pra você, pensando em música, para quem me ouve, se você ouve uma música, ela pode ser maravilhosa, mas se você só ouve o bumbo, ela vai incomodar, então quer dizer, é preciso aumentar o canal da caixa, é preciso abaixar um pouco o chimbal, é preciso soltar mais a melodia, a harmonia da música, para que você diga: “Mano, olha que som louco?”. Na realidade, hoje quando você ouve a música social do Brasil você fala: “Mano, só tem bumbo, cadê a caixa? Aumenta a caixa”, e na realidade o tambor que toca essa caixa é exatamente negros e negras que não tem oportunidade nessa música. Então vamos mixar o Brasil, colocando os volumes com oportunidades que eles possam ser ouvidos. É isso.

Já conhecemos muito bem o GOG músico, mas quando teremos a volta do GOG escritor?

Eu gostaria até de falar em relação aos escritos, aos textos, queria dizer que agora, dia 14 de maio nós tivemos um lançamento, em Salvador (BA), de um livro que pra mim, na minha concepção, é o livro de literatura negra mais importante já escrito no Brasil até agora, chama-se A Gramática da Ira, do professor Nelson Maca, que é um professor de Salvador, e que também está no Hip Hop, ele criou um conceito de literatura divergente que é de ver gente também, de enxergar gente, olha que louco [risos]. Você divergir independente do território, mas enxergar as pessoas, e o próprio Nelson Maca que escreveu o prefácio do meu primeiro livro, a Rima Denuncia (2010), ele está na missão de que seja trabalhado e lançado no ano de 2016 uma biografia do GOG, uma biografia autorizada, mas não regulada, ou seja, vai ouvir os prós e os contras. Eles vão ouvir o BBB, o Boi, a Bala e a Bíblia, mas vai ouvir o povo também. Então, quer dizer, vão ter todas as opiniões e as pessoas vão tirar as conclusões de quem seja Genival de Oliveira Gonçalves.

Sobre essa nova geração do Rap, encabeçada por nomes como Emicida, Criolo e Projota, você tem acompanhado o trabalho deles? Tem afinidade?

Eu tenho uma relação de amizade com todos, de respeito e de carinho. O Emicida é um parceiro que me respeita bastante, já participamos de algumas oportunidades no palco. O Criolo é um amigo das antigas, que inclusive, quando nós estivemos no palco mais recentemente, foi um convidado meu do meu palco, mas antes até de lançar o (disco) “Nó na Orelha”, uns 15 dias antes, o Criolo foi lá e as pessoas olhavam dizendo: “Quem é esse cara?” e depois estava o Brasil todo aplaudindo. A gente aplaude o Criolo há muito tempo. O Projota, eu tive a oportunidade de ligar pra ele esses dias, e o Projota quando ele ouviu: “Mano aqui é o GOG”, ele respondeu: “Oh Mestre”. Então é muito louco você ouvir os meninos falar e ter esse respeito, eu torço muito por essa geração, quero te dizer que o Brasil tem gerado muita gente boa, muita gente que tem talento também e que deve ser ouvida.

Relendo uma velha entrevista do Chorão (ex-vocalista do Charlie Brown Jr, morto por overdose em 2013), quando lhe foi perguntado quais eram as suas principais influências no Hip Hop, o primeiro nome citado foi o seu. Qual era a sua relação com o músico?

Então cara, o Chorão era um parceiro que a gente se encontrava bastante, sempre que trocava uma ideia era uma ideia voltada pra música, voltada para as questões. Ele era um cara mais acesso, e eu falava: “Negão, vamos mais por aqui…” E foi uma grande perda, tanto pra música, como o grande parceiro que ele era, sempre ao lado da gente, a gente sabe que é importante falar agora o quanto o parceiro foi importante, pra deixar como sustento e base da música brasileira, da música protestante brasileira, protestante no sentido de protesto. E… eu sinto saudades do Chorão [emocionado], eu sinto saudades do parceiro, da troca de ideia e eu acho que musicalmente é um cara que faz falta como pessoa, e você sabe que pode trás das tragédias sempre tem um filho, uma família, alguém que está sofrendo e que vai sofrer pra sempre uma partida. Então todo o meu respeito e carinho ao Chorão eternamente.

Fila Benário e GOG
Fila Benário e GOG
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