As músicas que retrataram a manifestação de ontem na Estação Sé contra o Abuso Sexual

Publicado: 3 de junho de 2015 em Fila Benário Fala, Notícia

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Na fria quarta-feira de 2 de Junho, por volta das 18h, uma estranha movimentação atraia olhares de curiosos e principalmente de seguranças na Estação Sé do Metrô de São Paulo. Mulheres, homens, jovens e até mesmo crianças empunhando cartazes, pediam o fim dos abusos sexuais no transporte coletivo, além de uma ação mais enérgica da administração do metrô, da segurança e do próprio governo do estado.

O protesto que foi marcado e impulsionado pela internet, através das redes sociais, surgiu após na última quarta-feira (27 de maio) a jornalista do portal R7, Caroline Apple, ter sofrido abuso sexual dentro do metrô. Um homem que estava atrás da mesma, se masturbou dentro do coletivo e ejaculou na calça da repórter. Desesperada, a mesma procurou a segurança do metrô, que por sua vez disse que nada poderia fazer a respeito.

Infelizmente a história de Caroline não é um caso isolado, segundo estatísticas, a cada 15 segundos uma mulher é abusada dentro do transporte coletivo. Informações colhidas com uma funcionária do metrô paulista comprovam que no ano de 2014 foram registradas 100 queixas de abuso sexual dentro do metrô.

Algo precisa ser feito já, as mudanças precisam ser imediatas, os abusadores devem ser denunciados, capturados e punidos, e as vitimas, no caso as mulheres, não podem em hipótese alguma ser culpadas pela violência e constrangimento sofridos, a vitima não tem culpa.

Apesar do chefe de segurança do metrô ter tentado por duas oportunidades retirar o protesto de dentro das imediações, alegando que esse tipo de manifestação não pode acontecer naquele espaço físico, os militantes da causa não deixaram se abater e alegaram que só sairiam do local retirados a força, afinal de contas, para conter abusadores a segurança não tem a mesma eficiência do que para retirar pessoas que apenas seguravam um cartaz, né?

Manifestantes na Estação da Sé

Manifestantes na Estação da Sé

Estando eu participando desse ato humanista, e respeitando a linha editorial desse espaço, que é a música, entrevistei as mulheres presentes na manifestação e perguntei qual a música que elas achavam que mais tinha ver com esse acontecimento, a luta das mulheres pela preservação do corpo, o fim do abuso sexual e o respeito mútuo.

As canções escolhidas com uma breve analise minha você confere logo abaixo

Sambei 24 Horas (Cristina Buarque) / Cinema Americano (Thais Gulin) – Por Ana Cotrim

A professora de antropologia na FAPSP e recém doutora em Filosofia, Ana Cotrim, rapidamente escolheu duas canções que muito tem a ver com a situação na qual lutávamos e exigíamos na estação da Sé.

Sambei 24 Horas é um samba de composição do genial Wilson Batista, que ficou eternizado na voz da sensacional Cristina Buarque. Um homem que deixa a mulher em casa e sai para sambar, curtir os amigos e tomar uma cervejinha, é a coisa mais natural do mundo, mas e quando os papeis se invertem e a mulher quer experimentar todo esse doce prazer?

Aquela visão hollywoodiana do homem macho, bruto, musculoso, saído do elenco de Os Mercenários, é retratada na canção Cinema Americano, da mais nova revelação da música popular brasileira, a jovem e talentosa Thaís Gulin.
O trecho que mais me chama atenção na música é:

“Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora […]
[…]Prefere ao invés de Slayer ouvir Caetano, ouvir Mano Chao
Não que Slayer não seja legal e visceral
A expressão do desespero do macho americano é normal”.

Sensacional.

Mulheres de Atenas (Chico Buarque) – Por Patrícia Paixão

Claro que não faltaria Chico Buarque nessa lista, e é claro que ele seria escolhido por uma das suas maiores fãs, a jornalista e professora Patrícia Paixão.

Nenhum homem cantou às mulheres do Brasil como Chico Buarque. A mulher que sofre, a mulher discriminada, a mulher que com açúcar e com afeto faz o doce predileto do esposo na esperança que ele fique em casa, exibindo a todos a sociedade patriarcal e vexatória que vivemos.

A escolha de Paixão foi a famosa canção feminista de Chico, Mulheres de Atenas, e eu dedico essa canção a própria Patrícia, ela foi uma das incentivadoras desse ato ontem em plena a estação da Sé, e foi ela com muita garra e coragem, vinda de Atenas, que peitou o chefe de segurança do metrô dizendo: “vai ter manifestação sim, e se não quiserem, que me tirem a força”.

Patrícia Paixão batendo de frente com o chefe de segurança do metrô

Patrícia Paixão batendo de frente com o chefe de segurança do metrô

Carta de Amor (Maria Bethania) – Por Karem Izitocadi

A recente composição de Maria Bethania (lançada em 2013) foi a escolha da militante feminista Karem Izitocadi.

Karem chegou à estação da Sé acompanhada da sua filha pequena, que por sua vez estava toda elétrica e com uma camiseta com o símbolo do feminismo no peito. Empunhando um cartaz que dizia: “A segurança protege as catracas, mas não protege as mulheres”, Karem, ao lado de amigas que militam juntas no grupo feminista “Pagú pra Ver”, já entoava o trecho da canção de Bethania:

“Não mexe comigo, que eu não ando só.”

E que fique o recado: Abusadores, não mexam com elas!!!

Antipatriarca (Anita Tijoux) – Por Carou

A maior surpresa dessa lista pra mim com certeza foi essa canção na qual eu não conhecia e bastou uma simples ouvida para eu me tornar um grande admirador. Antipatriarca é de autoria da cantora chilena Ana Tijoux, também conhecida como Anita.

Antes, era Mc do grupo de Rap Makiza, mas foi a partir do ano de 2006 que Anita iniciou em carreira solo pregando claramente o feminismo, as injustiças sociais, o ambientalismo, entre outras questões humanitárias.

Confira a letra aqui e delicie-se com essa canção escolhida pela militante Carou: “é Carou com U no final mesmo, mano”, como me disse a mesma.

Fuck You (Lily Allen) – Por Beatriz Sanz

Quem esteve presente também no protesto, foi a nossa colunista aqui do FBM, Beatriz Sanz. Feminista assumida, Bia era a manifestante mais “serelepe”, não parava em nenhum momento, ora estava convidando a todos os usuários do metrô a aderirem à campanha tirando foto com os cartazes, ora berrando palavras de ordem, e ora me abraçando feliz e satisfeita por estar ali e engrossando essa luta em liberdade pelas mulheres.

E quando perguntei qual seria a sua música escolhida, ela não pestanejou: Fuck You, da Lily Allen. Traduzindo: Um FODA-SE bem grande para esses abusadores doentes que constrangem e violenta as mulheres.

Ela Vai Voltar (Charlie Brown Jr.) – Por Rosângela Tomas

O fato de ter morrido nas circunstancias nas quais foram evidenciadas, não tira o mérito dele de ter sido um dos maiores letristas entre anos 90 e 2000 do rock brasileiro.

Alexandre Abrão, mais conhecido como Chorão tinha a sensibilidade de tratar, às vezes na mesma canção, de problemas políticos, questões sociais, e falar de amor, com refrões fáceis e grudentos.

Em Ela Vai Voltar, canção do sétimo álbum da sua banda, o Charlie Brown Jr, Chorão reforça o papel da mulher forte:

“Ela tem força, ela tem sensibilidade, ela é guerreira
Ela é uma deusa, ela é mulher de verdade”

Essa canção foi à escolhida da jovem estudante de jornalismo Rosângela Tomas, que emocionou a todos os presentes na manifestação, dando um triste depoimento sobre os recentes abusos que a mesma vem sofrendo no metrô a caminho da faculdade.

Vocês São Damas (Pregador Luo) – Por Jayane Condulo

O Cristianismo, que por muitas vezes é taxado de propagar o machismo pelo mundo, tem na sua figura mais importante, o próprio Jesus Cristo, o principal libertador e apoiador da causa feminina, basta uma simples leitura no evangelho de João, capítulo 8 e versículos de 1 a 11, que vemos que enquanto os homens queriam apedrejar Maria Madalena pelo “crime” de prostituição, Cristo calou a todos com os dizeres: “atire a primeira pedra quem nunca errou”.

Foi com essa santidade que a estudante de jornalismo e editora do blog Rotineiras, Jayane Condulo, escolheu essa canção do rapper cristão, Pregador Luo, onde ele exalta as mulheres e suas qualidades.

Menina Mulher da Pele Preta (Jorge Ben) – Por Kátia Barreto

A escolha da também estudante de jornalismo Kátia Barreto, me emocionou e me fez revelar algo que há muito tempo eu carrego com muita angustia no meu coração.

“A menina mulher da pele preta” de Jorge Ben, poderia muito bem ser a minha querida e saudosa mãe.

Mamãe, a mulher de pele preta, trabalhou a vida inteira como empregada doméstica, e em uma das casas onde ela trabalhava, ela lidou com uma situação de abuso por parte do patrão. Nessa casa, a esposa saia para trabalhar todos os dias, enquanto marido, que vivia fazendo pequenos bicos, ficava em casa praticamente o dia todo. Na casa minúscula, o homem imundo passava pelos corredores se esfregando na minha mãe, que se sentia constrangida com a situação. Até que um determinado dia, mamãe estava fazendo a faxina e da sala ela viu a porta do quarto aberta e o homem estirado na cama se masturbando ali tranquilamente. Mais do que depressa mamãe guardou as suas coisas e veio correndo pra casa aos prantos. Pedi que ela denunciasse o caso, mas a sua voz engasgada disse:

– E quem vai acreditar em mim? Quem vai acreditar nessa velha?

E é justamente isso que acontece, no Brasil a cada um minuto uma mulher é violentada, a cada 15 segundos uma mulher é abusada no transporte coletivo, e toda vez que elas vão fazer uma denuncia, o que elas ouvem? “Mas você estava sozinha?”, “mas ele era o seu marido?”, “Também, com essa roupa você queria o que?”

BASTA!!!

We Are The Champions (Queen) – Por Emily Santos

O protesto que durou cerca de uma hora, continuou quando as manifestantes que seguiam para estação república pegaram o trem na linha vermelha, e dentro do coletivo continuou exibindo os cartazes e berrando as palavras de ordem:

“Mexeu com uma, mexeu com todas”

Para a militante feminista e estudante de jornalismo, Emily Santos, aquele ato simbólico foi uma grande vitória, e We Are Champions do Queen é a canção que vem coroar o momento.

E se eu pudesse escolher uma canção, ficaria com Die Die, da banda paulistana e feminista de hardcore, Dominatrix.

Afinal de contas, como diz o único trecho em português da canção:

“Seu burro, seu idiota, que anti-social o quê
Anti-social é uma mulher tentando andar numa rua escura à noite.
Que tipo de vida é essa que eu tenho que ficar 24 horas por dia alerta igual a um cão-de-guarda?!
De quem são os olhos que te vigiam?
De quem é a mão que te ataca?

#MexeuComElas #MexeuComigo

Os blogs Rotineiras e Fala Kaique publicaram matérias excelentes sobre o ocorrido, vale muito a pena dar uma conferida aqui e aqui, respectivamente.

O portal R7 também esteve presente fazendo a cobertura completa do protesto. Confira aqui.

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comentários
  1. Sensacional. Vinicius, sou sua fã! Obrigada ❤

  2. Emily Santos disse:

    Mais uma vez você me emociona com o seu texto, o seu espírito de irmandade e a sua sensibilidade. Parabéns, Vini! Você é muito abençoado!

  3. Parabéns Vini, mais um texto maravilhoso.

  4. […] Essa já é a terceira vez que essa música aparece em uma postagem aqui (das outras vezes: aqui e aqui), mas dessa vez eu convido a refletir trecho a trecho. Die Die da banda paulistana de Hardcore […]

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