Willian Abreu Fala

Música de cinema (Parte 2)

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Confira abaixo a segunda parte do especial sobre a música no cinema, com o nosso expert em música clássica: Willian Abreu.

Caso tenha perdido a primeira parte, acompanhe aqui.

Por Willian Abreu

É inegável a capacidade que os Estados Unidos da América têm de disseminar sua cultura mundo afora, isso não é novidade para ninguém. Mas o que muitas pessoas não sabem é que os americanos sempre investiram no enriquecimento de sua cultura.

Sempre tiveram a consciência de o que diferencia uma grande nação é a capacidade de produzir cultura. Nesse sentido estamos falando de boa produção artística em música, artes plásticas e dramaturgia.

Assim como o Brasil, a capacidade dos americanos de produzir uma cultura própria foi o que fez com que o país deixasse o status de colônia. Por aqui esse processo foi mais tardio, mas mesmo assim aconteceu.

Para adquirir o conhecimento que em muitos campos não tinham, os americanos foram buscar além de suas fronteiras pessoas que estivessem dispostas a ajudar no processo de criação dessa nova nação. Isso aconteceu de maneira muito forte no campo científico e artístico.

Só como exemplo, Albert Einstein, o grande cientista alemão, foi por muito tempo um dos queridinhos da América. Suas visitas ao país foram sempre muito esperadas. Em uma delas, em 1933, Einstein resolveu não voltar para a Alemanha onde Hitler já havia chegado ao poder. Contribuiu muito com as universidades americanas. Imaginem ter um cientista desse porte com residência no país. Posteriormente obteve a cidadania americana e lá permaneceu até sua morte em 1955.

No campo musical não foi diferente. Antonín Dvorák, o grande compositor tcheco viveu durante muitos anos nos Estados Unidos, onde contribuiu com o desenvolvimento dos compositores e das orquestras daquele país. Emigrou para os Estados Unidos em 1892 aceitando um convite para dirigir o Conservatório de Nova Iorque. Muitas de suas obras mais famosas foram compostas naquele país. Sua famosíssima Sinfonia nº 9 “Do Novo Mundo” descreve o impacto que Dvorak teve ao chegar a uma América fervilhante em pleno crescimento e é peça fundamental do repertório das grandes orquestras.

Antonín Dvorák
Antonín Dvorák

Aqui um trechinho do último movimento da sinfonia interpretado pela Filarmônica de Nova Iorque sob-regência do grande Lorin Maazel.

No cinema não foi diferente. Assumimos claro que os Estados Unidos não foram os pioneiros do cinema e nem o único país com grandes produções, porém, é necessário reconhecer que os americanos transformaram o cinema na grande indústria que é hoje e é inegável a sua influência. Mas o cinema americano contou com a colaboração de muitos estrangeiros para dar mais vida às suas produções cinematográficas.

O austríaco Erich Wolfgang Korngold foi um dos pioneiros de Hollywood. É considerado o pai da música de cinema moderna. De ascendência judaica, Korngold muda-se com a mulher e os filhos para Hollywood em 1934. Sua colaboração para a indústria cinematográfica é incontestável. Em 1938, ganha o seu primeiro Oscar pelo trabalho na partitura para o filme Robin Hood.

Erich Wolfgang Korngold
Erich Wolfgang Korngold

Nesse trecho reparem no tema heroico da personagem e na vivacidade da música. Voltando ao meu texto anterior, lembrem um pouco de Wagner. Reparem na grande orquestra e o quão moderna e virtuosa é essa composição realizada na década de 30 do século XX.

O pioneirismo da música de Korngold pavimentou e facilitou muito as coisas para quem veio depois.  Suas composições são um divisor de águas no cinema.

Mas como eu disse os grandes filmes e as grandes trilhas não são privilégio dos americanos. Vale destacar o grande momento que o cinema italiano viveu até meados do século XX.

Nino Rota foi grande colaborador do grande cineasta italiano Federico Fellini. Mas também colaborou e fez história em Hollywood. Rota assina a trilha, nada mais nada menos, do que de O Poderoso Chefão de Francis Ford Copolla uma das obras primas do cinema e uma das trilhas mais conhecidas.

Outro italiano que colaborou muito com o cinema americano foi Ennio Morricone. São Mundialmente conhecidas as suas composições para os “spaghetti” (filmes de faroeste produzidos por diretores italianos) de Sergio Leone. A música de Morricone é extremamente original e belíssima.

Ennio Morricone
Ennio Morricone

Aqui uma de suas mais famosas obras, The Ecstasy of Gold composta para o filme Três Homens em Conflito  de Sergio Leone que tinha no elenco Clint Eastwood. Muito conhecida também por ser introdução dos shows do Metallica. No primeiro vídeo a incrível interpretação da Orquestra Sinfônica de São Francisco regida pelo maestro Michael Kamen na abertura do show do Metallica em 1999. Coloco também a versão original regida pelo próprio Morricone em um concerto em homenagem à sua obra.

Reparem no caráter épico da música de Morricone principalmente na versão regida pelo compositor. Nos filmes do Sergio Leone a trilha sonora de Morricone tem papel protagonista. Essa versão é sensacional. Reparem na grandiosidade de sua música.

Aqui mais um tema famoso regido pelo próprio Morricone. Dispensa apresentações.

Até o momento estamos falando das grandes trilhas de cinema de meados dos anos 30 até meados dos anos 60. Mas em tempos de tanta mudança como foram os anos 60 e 70 em todos os sentidos, desde os movimentos hippie e toda a liberdade sexual a partir dali, vimos no cinema uma grande fase de experimentalismo, principalmente com a introdução dos sintetizadores e da música eletrônica. Em alguns filmes perdeu-se muito do que foi conquistado e, muitas vezes, por uma questão de redução de custos se optava por uma trilha completamente sintetizada (a meu ver sem vida).

Claro que isso não foi unanimidade. E temos muitas boas composições nesse período. Porém no final dos anos 70 John Williams foi o grande responsável pela volta das grandes composições para cinema.

John Williams
John Williams

O trabalho de Williams em Hollywood começa no início dos anos 60, mas o sucesso vem com a parceria com Steven Spillberg principalmente para a trilha do filme Tubarão de 1975. Vejo em John Williams a mesma originalidade de Korngold, Rota e Morricone. Sua música é original e como nos casos anteriores é sempre protagonista nos filmes.

No vídeo abaixo um trecho da composição para o filme Tubarão regida pelo próprio Williams. Além de ter todas as qualidades que verificamos nos compositores anteriores é incrível como esse acorde nos contrabaixos nos leva diretamente para a lembrança do ataque dos tubarões.

Lembra-me o artigo anterior quando comentei sobre os motivos tema (leitmotiv) de Wagner, onde assimilamos imediatamente a música ao personagem. Williams se utiliza da mesma técnica só que de maneira extremamente original. Suas composições são obras primas assim como as óperas de Wagner.

Só para se ter uma ideia, o acorde em Si bemol maior mais conhecido da história da música não é de uma sinfonia de Beethoven ou de uma ópera de Wagner, mas sim da abertura do tema principal de Star Wars de George Lucas. O Filme já começa grandioso, com aquele acorde em Si bemol maior explodindo como uma Supernova na orquestra.

É até hoje uma das, ou senão, a mais conhecida trilha sonora. Nem é preciso falar do caráter épico da música ou de como é bem escrita e orquestrada. O tema nos metais é de arrepiar.

Aqui uma versão com uma das melhores orquestras do mundo, a Filarmônica de Viena, em uma interpretação eletrizante. Em seguida a mesma trilha regida por John Williams.

Entre as duas versões eu fico com as duas. Coloco as duas só pra mostrar como a música ainda é atual. Reparem no virtuosismo dos violinos e como a partitura é exigente para metais e percussão.

Claro que o universo das trilhas de John Williams é muito vasto. Não se podem deixar de lado as trilhas de Indiana Jones, Harry Potter, E. T, Jurassic Park e mesmo Esqueceram de Mim, que são trabalhos extremamente originais.

O cinema deve muito a esse grande mestre que trouxe ao cinema mais brilho, emoção e fez muitos de nós sair do cinema assoviando a trilha do filme. Seu trabalho continua, vem aí Star Wars Episódio VII, George Lucas pode até ter deixado a direção dos novos filmes, mas John Williams está lá assinando a música.

Para finalizar acredito que seja necessário ressaltar o trabalho de Howard Shore, outro grande compositor. Recentemente uma das melhores trilhas que pude ouvir foi a que ele compôs para a trilogia O Senhor dos Anéis. Que o filme foi uma grande empreitada do diretor Peter Jackson todos sabemos. Filmado nas incríveis paisagens da Nova Zelândia e um recordista de Oscars o filme não sairia vencedor sem uma trilha de nível tão alto.

Howard Shore
Howard Shore

Howard Shore explora profundamente o universo do filme, é uma trilha extremamente bem orquestrada, grandiosa. Requer grande orquestra, instrumentos utilizados especialmente para as gravações como um violino norueguês, um coro gigantesco cantando no idioma élfico criado pelo próprio J.R.R Tolkien escritor dos livros.

Shore tem todas as grandes qualidades dos compositores citados aqui e mostra que a música de cinema ainda pode ser grande e original dando sequencia ao legado dos grandes compositores. É daquelas trilhas que quando se ouve dá saudade do filme e daquela sensação de ter saído do cinema completamente satisfeito.

Aqui uma das minhas partes preferidas. Do filme As Duas Torres, a Batalha no Abismo de Helm.

Aqui os excertos da trilha regidos pelo próprio Howard Shore, grande orquestra, coral e grande música.

Há algum tempo já não ouço uma trilha sonora original de presença. Numa época de mesmice em Hollywood e no cinema mundial fica difícil destacar algum trabalho. E há tempos não saio do cinema com a trilha sonora do filme na cabeça. Hoje qualquer filme vira trilogia. O recente Vingadores fechou franquia para três filmes, 50 tons de cinza três e por aí vai. Enquanto isso fico à espera do próximo John Williams.

Perfil - Willian Abreu

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