Maju e o Ilê Ayê

Publicado: 3 de julho de 2015 em Fila Benário Fala
Tags:, , , , , ,

Maju Desenho
No dia 2 de Julho, a página do Jornal Nacional no Facebook foi totalmente tomada por comentários racistas, onde o principal alvo era a jornalista e “moça do tempo”, Maria Júlia, carinhosamente apelidada de Maju.
Na foto abaixo vemos alguns dos mais nojentos insultos proferidos a jornalista:
Maju Face
Em menos de um ano essa é a terceira manifestação racista a uma pessoa pública, no ano passado tivemos o famoso caso do goleiro Aranha, na época jogador do Santos, em uma partida valida pela Copa do Brasil contra o Grêmio, Aranha foi chamado durante todo jogo, pela torcida do Grêmio, de macaco.

Nesse ano, precisamente no mês de maio, tivemos o caso da também jornalista Cristiane Damacena, que foi alvo de injúria racial pelas redes sociais

E ontem foi a vez da Maju provar do veneno da geração internet fascistóide.

Citei esses casos de repercussão midiática para que sirvam apenas como uma lanterna para aqueles que insistem em afirmar que o racismo no Brasil não existe, que o Negro gosta de se vitimizar, se fazer de coitado, que hoje as coisas estão diferentes. Como disse o vereador do Rio Grande do Sul, Wilson B. Duarte da Silva: “Hoje o negro está comendo em restaurante e namorando loiras, já está quase branco”.

Porém o que aconteceu ontem com Maju infelizmente acontece diariamente na vida de cada negro no nosso país. Aqui no Fila Benário Music, além de mim, temos mais dois colunistas negros, pergunta para eles se o racismo realmente foi extinto do Brasil? Pergunta se a nossa cor de pele já não entrou em jogo quando o assunto era uma vaga de trabalho, ou quando fomos apresentados para a família da namorada branca?

Tenho ouvido constantemente, de pessoas bem próximas inclusive, que essa geração de agora é a mais chata dos últimos tempos, onde não se pode falar absolutamente nada porque tudo é racismo, homofobia, machismo e bullying. Mas agora eu lhe pergunto: Sobre o que você vai falar? Porque você tem que falar ou até mesmo brincar sobre algo que ofenda a minha etnia, minha opção sexual e o meu gênero?

Porque a pele negra tem que ser alvo de piadas e escárnio? Você acha que foi fácil, legal, simples e divertido, crescer ouvindo injurias e piadas como macaco, preto fedido, preto ladrão, piche, asfalto, lombada e entre outras coisas? E agora eu tenho que ser obrigado a conviver com o preconceito diariamente e nada posso fazer porque senão serei taxado de chato e politicamente correto?

Quantas Majus mais precisam ser ofendidas para que a sua piada e o seu direito a “liberdade de expressão” seja empregada, e que você continue vivendo no ápice da sua soberania racial?

O fato de termos hoje no país uma política de cotas, que insere o negro na sociedade, ainda causa desconforto em muita gente, confesso que essa que é a lei que a tal princesa Isabel deveria ter assinado em 1888, e não aquela que nunca me libertou da intolerância, do preconceito e do descaso.

Só pra fechar o contexto, no último final de semana tivemos a invasão colorida no facebook em comemoração a união homossexual aprovada nos Estados Unidos. Muita gente contrária a essa posição postou essa foto nas redes sociais:

Face

Alguém dúvida que as mesmas pessoas que compartilharam essa foto da criança negra e desnutrida, foram as mesmas que ofenderam a Maju e são contra ao sistema de cotas?
Quanta Hipocrisia não?

Por isso encerro esse texto, que mais soou como um desabafo pessoal, com essa belíssima canção de autoria de Paulinho Camafeu, um dos grandes percussores da Axé Music. A música: Mundo Negro, também conhecida como Ilê Ayê, ficou famosa na voz de Gilberto Gil, que gravou a mesma no álbum Refavela de 1977.
Ilê Ayê/Mundo Negro, já foi gravada também pelo grupo O Rappa.

Independente da versão musical, que fica essa sábia e direta mensagem:

“Que bloco é esse? Eu quero saber.
É o mundo negro que viemos mostrar pra você.

Branco, se você soubesse o valor que o preto tem.
Tu tomava um banho de piche e ficava preto também”

Chega de intolerância, alias, eu não quero tolerância, eu quero RESPEITO

#somostodosmaju

 

Anúncios
comentários
  1. JURIENE PEREIRA DA SILVA disse:

    Enfrentar essa luta todo dia é difícil para ela que pode se defender em rede internacional, assim como para todos nós que passamos situações ridículas em nosso cotidiano. Mas quando atentam para o racismo contra ela, é bom para nós também, porque a discussão vem à tona e discutir ajuda a superar. Parabéns pelo texto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s