As semelhanças coorporativas entre o Sertanejo Universitário e o Grunge de Seattle

Publicado: 29 de julho de 2015 em Fila Benário Fala
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Grunge Sertanejo

Nessa madrugada não se falava outra coisa nas redes sociais, o programa Profissão Repórter da TV Globo, comandado pelo jornalista Caco Barcellos, foi o assunto da vez por exibir uma matéria mais do que interessante sobre a indústria da música sertaneja.

Durante todo o programa, Caco e os aspirantes a jornalistas ficaram lado a lado de grandes e novos nomes da música caipira com o objetivo de descobrir o quanto vale esse gênero, o quanto o mesmo lucra no país, e até mesmo o quanto fatura cada dupla ou artista sertanejo.

Enquanto Barcellos acompanhou o dia do maior vendedor de discos do Brasil atualmente, o Padre sertanejo Alessandro Campos, que em meio a crise da indústria fonográfica vende cerca de 1 milhão de cópias, e o seu cachê para apresentações ao vivo chegam em torno de 70 a 90 mil reais. A outra parte do programa se dedicou a projeção do possível ídolo sertanejo, o jovem Jefferson Moraes que fora contrato pelo maior escritório artístico do país e se tornou a grande aposta para ser o futuro popstar do gênero.

Jefferson Moraes

Jefferson Moraes

Com toda essa abordagem envolvendo o mundo coorporativo da música, foi que eu recordei uma recente leitura que fiz e que de certa forma há algumas semelhanças com o programa da Rede Globo.

Lançado no ano passado em virtude dos 20 anos sem o grande astro, Kurt Cobain – A Construção do Mito, escrito por Charles R. Cross (o mesmo da Biografia de Cobain ‘Mais Pesado que o Céu’) traça um paralelo de como o líder do Nirvana foi importante para a música, para a moda, para a cidade de Seattle e até mesmo como a trágica morte do mesmo ajudou psiquiatras desenvolver estudos sobre o suicídio.

Kurt livro

Em determinado momento de Kurt Cobain…, o livro aborda o estouro mundial do Nirvana e como aquilo mudou para sempre a indústria musical e a cena de Seattle, e é justamente nesse ponto, por incrível que pareça que notamos semelhanças com a indústria do Sertanejo Universitário.

As similaridades começam com as cidades: Goiânia e Seattle
Antes de se tornar a capital da música sertaneja, Goiânia era apenas uma cidade roceira do estado de Goias que vivia exclusivamente da agricultura, não é a toa que os nomes mais famosos do sertanejo, como Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano, começaram a vida trabalhando em plantações de tomates na cidade.
Já Seattle, a cidade gélida e chuvosa do noroeste dos Estados Unidos, vive das grandes madeireiras. Grandes hectares de florestas são desmatados para a produção de madeiras que posteriormente serão comercializadas para o resto dos Estados Unidos para fins diversos. Da cena Grunge, nomes como Jeff Ament, baixista do Pearl Jam, e o próprio pai de Kurt, o Sr. Don Cobain, trabalhou na indústria madeireira.
Resumindo, como não havia lazer em ambas as cidades, a música acabou se tornando um alento na vida desses jovens e assim nasceram os gêneros tão impares: Sertanejo e o Grunge.

A necessidade de alguém de fora olhar para eles
Zezé Di Camargo já era conhecido nas festas de Goiânia e ganhava inúmeros festivais de música da cidade, mas foi na capital paulista que ele finalmente conheceu o sucesso, quando ao lado do irmão Luciano gravou a canção É o Amor, tornando o seu maior hino.
Leandro & Leonardo também deixaram a sua querida Goiânia para desbravar o sudeste e enfim desfrutar do sucesso que tanto mereciam e almejavam.
A mesma coisa acontecia nos EUA. A cena Grunge perpetuava em Seattle, bandas não paravam de surgir entre o final dos anos 80 e início dos anos 90, só para citar as mais relevantes: Green River, Mother Love Bone, Soundgarden, Alice In Chains, Mudhoney, Pearl Jam e Nirvana.
Nesse período o selo Sub Pop, famoso por gravar e lançar todos esses nomes, já estava consolidado. Revistas como a The Rocket, criada por Charles R. Cross divulgava a cena musical. Porém, ela não saia de Seattle, fora dali ninguém conhecia aquelas bandas. Foi então que Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, fundadores da Sub Pop tiveram a brilhante ideia de convidar um crítico inglês para conhecer Seattle e a sua cena musical, e o que aquele jornalista escreveu naquela matéria mudaria para sempre a história da cidade e de suas bandas, em especial, de uma delas.
A reportagem dizia: “O Nirvana é a resposta da Sub Pop para os Beatles”.

Dinheiro investido
Na matéria do Profissão Repórter foi revelado que o investimento para a “criação” de um novo ídolo sertanejo gira em torno de 3 milhões de Reais e que esse dinheiro é recuperado em um ano de atividade do artista.
Um grande choque para todos, no entanto, o Nirvana também foi alvo de uma grande quantia de dinheiro quando fora contratado pela grande gravadora Geffen, que na época tinha em seu cast artistas como Guns n’ Roses, Aerosmith, Cher e Sonic Youth.
O primeiro álbum do Nirvana, o Bleach, lançado em 1989 pela Sub Pop custou cerca de 600 dólares e foi custeado por Jason Everman, amigo de Kurt Cobain, que em retribuição creditou o mesmo no álbum como guitarrista, sendo que Jason não tocou absolutamente nada nas gravações. No livro, Charles diz que Everman não viu a cor do dinheiro até hoje.
Quando a declaração sobre o Nirvana saiu na imprensa britânica, a Geffen viu a banda como uma grande oportunidade e decidiu investir na mesma. E o orçamento para a gravação do segundo álbum do conjunto foram “orbitantes” 65 mil dólares!

A cidade banalizada virou referência
Com o estouro de Nirvana nos Estados Unidos e das duplas sertanejas no Brasil, e a revelação de que um vinha de Seattle, e os outros de Goiânia, as cidades se tornaram os centro das atenções na mídia, e a cobertura em cima de ambas era exaustiva.
Claro que a porta foi aberta e grandes talentos de lá foram finalmente ouvidos e revelados.
Em Seattle, nomes como Soundgarden, Pearl Jam e Alice In Chains, tiveram sucessos com os seus discos de esteia após a explosão do Nirvana.
Já Goiânia, não parou de revelar nomes da música sertaneja, como por exemplo a dupla Zé Henrique & Gabriel, e o finado cantor Cristiano Araújo.
Porém ao buscar por um novo Nirvana de um lado, e um novo Leandro & Leonardo de outro, fez com que a industria musical se calcasse apenas no interesse. Inúmeras bandas americanas se mudaram para Seattle com a esperança de serem ouvidas e reveladas. As que não mudaram de cidade, optaram por repetir a formula musical. Algumas tiveram sucesso como foi o caso do Stone Temple Pilots que veio da California. Mas outras como Bush, Days of the New,The Nixons entre muitas outras ficaram só na promessa.
E a culto da música Sertaneja Goiana no país, fez o gênero ser repetido a exaustão, também de forma genérica e sem conteúdo. E a cidade acabou se tornando a parada obrigatória para quem quer ser o novo popstar brasileiro.
Não é a toa que Jefferson Moraes, o possível novo ídolo da música sertaneja, é natural de Londrina (PR) e se mudou para Goiânia justamente pela referência da cidade para o gênero musical.

Mas o que teve o Grunge que faltou ao Sertanejo?
Mas em meio há tantas semelhanças coorporativas, qual seria a principal diferença entre o Grunge e o Sertanejo?
A LIBERDADE
Quando Kurt Cobain e o seu Nirvana foram contratados pela Geffen e teve revelado o seu orçamento mais caro da história da indústria fonográfica na época, a banda teve a liberdade de escolher o produtor do seu álbum, no caso optaram por Butch Vig, que além de baterista do recém fundado Gargabe, produziria o álbum Dirty do Sonic Youth um ano depois, entre outros trabalhos como Siamese Dream do Smashing Pumpkins, 21st Century Breakdown do Green Day, e Wasting Light e Sonic Highways do Foo Fighters.
As composições foram todas escritas por Kurt Cobain e ele falou claramente de diversos temas sem restrições, como é o caso da canção Polly, na qual ele narra um acontecimento verídico de uma jovem que foi mantida em cativeiro.
Quando Nevermind foi lançado em 1991 e se tornou o álbum mais aclamado dos últimos tempos, o óbvio seria a banda repetir a mesma fórmula no lançamento seguinte. Porém sob a produção de Steve Albini (The Breeders, Pixies, Jesus Lizard e Bush) o Nirvana vomitou o In Utero, álbum pesado, barulhento, coeso e com letras mais doentias que o antecessor.
Já os novos astros da música sertaneja, como Jefferson Moraes, não tem autonomia alguma em sua carreira.
No programa de ontem ficou bem claro que as suas composições, as melodias de suas canções, e até mesmo o corte de cabelo e um tratamento odontológico para correção da arcada dentária com a premissa de ficar mais atraente ao público feminino, é tudo encomendado e imposto pela empresa que agencia a sua carreira.
O produtor musical de Jefferson, famoso por ter composto sucessos para Daniel, Rio Negro & Solimões, deixou bem claro qual é a formula da música sertaneja de sucesso: “Refrão simples que cai no gosto popular”.
O que evidencia que nesse aspecto o Sertanejo é mais um produto midiático e fabricado do que o Grunge.

E para comprovar a autenticidade do Grunge nesse aspecto em relação a música sertaneja, encerro esse texto com uma frase extraída do livro Kurt Cobain. Em determinado momento Charles R. Cross pega diversas citações de vários nomes da música a respeito de Cobain, e a que mais sintetiza a independência artística de Kurt e a sua genialidade como compositor foi justamente essa frase da cantora Patti Smith:

“Eu amava Kurt e o Nirvana, me identificava pra valer com as letras. Eu as sentia. Ele deu tudo de si naquelas canções e esse é sempre o desafio de qualquer artista”.

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