Foo Fighters e a Demo de Um Milhão de Dólares

Publicado: 7 de agosto de 2015 em Foo Fighters, Lançamentos e Novidades
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Após 13 anos de espera, na última quarta-feira finalmente os fãs mais ardosos dos Foo Fighters tiveram motivos de sobra para comemorar, finalmente vazou na internet a versão completa da “Million Dollar Demos” (A Demo de 1 Milhão de Dólares), o verdadeiro “Santo Graal” da banda.
Não sabe do que se trata? Calma que nós explicamos, mas para isso precisamos voltar no tempo.

O ano de 2001 não foi um dos melhores para Dave Grohl & Cia, mesmo depois de ter lançado um álbum grandioso como o There Is Nothing Left to Lose (1999) repleto de hits (Breakout, Learn To Fly, Generator e Next Year), conquistando até então o inédito prêmio Grammy, na categoria “Melhor álbum de Rock”, ocasionou uma turnê gigantesca que passou por terras tupiniquins, onde a banda se apresentou pela primeira vez em Solo Brasileiro no festival Rock In Rio na mesma noite que R.E.M e Beck.
O ano ficaria marcado pela quase perda de um integrante da banda. Enquanto o Foo Fighters fazia uma turnê por Londres, o baterista Taylor Hawkins, na época usuário declarado de drogas, sofreu uma overdose quase fatal de heroína ficando em coma por dois dias. E foi nesse clima de pós overdose e reabilitação de Taylor que a banda inicia as gravações do que seria o seu quarto álbum.

COMEÇAM AS GRAVAÇÕES
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Seguindo a mesma lógica do antecessor, o futuro álbum foi gravado no próprio estúdio da banda, o 606 Studio, na época localizado no porão da casa de Dave Grohl em Virginia – Washington. Hoje o mesmo se encontra em Encino, no estado da Califórnia, próximo à residência de Grohl.
No entanto a vontade do grupo em realizar e finalizar o trabalho era pequena.
Trancafiados no estúdio pouca coisa era produzida, e o que era feito não era do agrado de todos.
Chris Shiflett, guitarrista do grupo, que na época gravava o seu primeiro álbum com a banda chegou a declarar: “Era minha primeira vez no estúdio, era tudo muito estranho, pois eu chegava ao meio-dia, comia alguma coisa, tomava um café e ia embora sem ter tocado absolutamente nada”.
Nate Mendel, o discretíssimo baixista, também demonstrava insatisfação com as gravações meia boca: “Eu estava com saco cheio, eu tocava sem vontade e o Dave vinha e dizia: Isso que você está tocando não casa com o vocal”.
E Dave por sua vez também se demonstrava totalmente descontente com rumos que tomava o novo álbum do conjunto: “Sempre quando eu ouvia o que já tínhamos gravado eu pensava: Não sei se quero que outra pessoa ouça isso”.
A princípio havia 18 músicas gravadas, e um possível tracklist do que viria ser o disco contava com as canções Have It All, Come Back, Burn Away, Halo, Gun Beside My Bed, Lonely as You, Tired of You, além do futuro clássico All My Life.
O álbum ainda não havia titulo, mas recebeu o carinhoso apelido de Tom Petty. As gravações finalizaram no mesmo ano, mas o resultado final desagradou até o empresário da banda, Jon Oliva, que disse que o mesmo poderia ser lançado, mas que ele não tinha certeza se conseguiria vender alguma coisa.
Outro fator conturbado dentro das gravações de Tom Petty, foi a troca de produtor durante a conclusão do álbum. Inicialmente Adam Kasper, também produtor do álbum anterior da banda, o There Is Nothing Left To Lose, havia assumido a produção do disco, no entanto abandonou a mesma na metade, sem motivo aparente, e quem assumiu foi Nick Raskulinecz, conhecido por trabalhos com Rush, System of a Down, Alice In Chains, Stone Sour, e que já tinha trabalhado com o Foo Fighters na produção da música A320 (ouça aqui) que integrou a trilha sonora do filme Godzilla (1998) e depois ele voltaria a trabalhar com a banda nos discos In Your Honor (2005), Skin and Bones (2006) e Echoes, Silence, Patience and Grace (2007).

O produtor Nick Raskulinecz

O produtor Nick Raskulinecz

E o ponto máximo que necessita ser frisado é que nessa brincadeira toda entre custos de produção, locação de equipamentos e o tempo ocioso de pré e pós produção do disco, o mesmo chegou ao assustador valor de 1 milhão de dólares.

UMA PEDRA NO CAMINHO
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No meio das gravações do tal disco conturbado, a banda de Stoner Rock Queens Of The Stone Age sofria a saída do seu baterista Rob Oswald e recruta Dave Grohl para a gravação do próximo álbum, este por sua vez não apenas aceita o convite como também sai em turnê com o conjunto para a divulgação do mesmo, deixando para trás o Foo Fighters com um péssimo disco inacabado nas mãos e o futuro incerto, instalando assim de vez a crise na banda.
Em 2002 Songs For The Deaf é lançado e aclamado pela critica como um dos melhores álbuns do QOTSA.
DavE Grohl em sua melhor forma, relembra os velhos tempos de Nirvana em um disco onde esbanja técnica e fúria, os principais destaques são os singles Go with the Flow e No One Knows no qual ganhou um videoclipe com a participação de Grohl.

A banda sai em turnê durante seis meses e um desses shows era no festival Coachella na Califórnia, no entanto o Foo Fighters também foi convidado para participar do festival, tocando como um dos principais na noite seguinte do Queens.

Cartaz do Coachella 2002: Queens Of The Stone Age no sábado e Foo Fighters no domingo

Cartaz do Coachella 2002: Queens Of The Stone Age no sábado e Foo Fighters no domingo

Era chegado o momento de resolver de uma vez por todas o rumo da banda.

O QUASE FIM
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Com o convite para o Coachella a banda se reuniu para ensaiar, porém clima não era dos melhores, afinal de contas, fazia nada mais, nada menos que seis meses que a banda não se encontrava e ainda havia um imenso espinho entalado na garganta que era o tal álbum maldito de 1 Milhão de Dólares.
Durante o ensaio o clima esquentou e farpas foram trocadas, principalmente entre Dave e Taylor que guardavam magoas um do outro, Taylor não aceitava o abandono do líder da banda para seguir o Queens em turnê, e Dave por sua vez se mostrava ressentido pelo baterista não ter apoiado a sua volta ao instrumento que o projetou ao sucesso, e não achou nada demais ter saído em turnê com o Queens of The Stone Age, levando em consideração que a banda também não estava emprenhada como deveria estar na gravação do novo álbum, a briga encerrou com Taylor anunciando a sua saída da banda após o show no Coachella.
Porém o show no festival foi espetacular, a banda se mostrou gigante e empenhada e após o show Taylor confessou a Dave que continuaria na banda, e o Dave por sua vez optou por voltarem para o estúdio e refazer todo o álbum novo.

ONE BY ONE CONCLUÍDO
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O Foo Fighters refaz todo o álbum que consumiu a banda e quase a fez encerrar as atividades, quanto tempo levou tudo isso? Apenas uma semana!
O Tracklist era o mesmo da outra vez, as únicas modificações foram a troca de titulo de Gun Beside My Bed para Overdrive, e a inclusão da poderosa Times Like These que tem a letra baseada nesse período turbulento que a banda passou nos últimos seis meses.
A produção continua a cargo de Nick Raskulinecz, e essa era a primeira vez que o Foo Fighters gravaria um álbum com recursos digitais, ou seja, com computadores. Levando em consideração que os três álbuns antecessores foram gravados de forma analógica, ou seja, em fitas, e curiosamente, nove anos depois do lançamento de One By One, o Foo Fighters voltava a gravar de forma analógica no álbum Wasting Light, lançado em 2011.
No dia 22 de outubro de 2002 One By One é finalmente lançado e o single All My Life apresenta a fúria do álbum para todo o mundo, afinal de contas é trata-se da canção mais forte, pesada e enérgica do álbum e de toda a carreira da banda.
O resto do álbum é formado por excelentes canções: Times Like These, que viria ser o segundo single da banda, se tornou uma das canções mais importante da mesma, chegando a ganhar dois videoclipes um veiculado em todo mundo que trazia a banda tocando em cenário psicodélico relembrando os clipes antigos de bandas como Black Sabbath e Deep Purple. E a versão americana, com a banda tocando debaixo da ponte de Victorville na Califórnia.
Outros principais destaques do disco são as pesadíssimas Have It All e Low, e a bela balada Halo.
No entanto é importante ressaltar que One By One não chega ser álbum ruim, longe disso, mas é um disco difícil de ser digerido na primeira audição, e isso cabe ao excesso de músicas longas, com bastantes passagens instrumentais de clima dark, parecendo até em certos momentos, obras do Rock Progressivo, Come Back, por exemplo, por mais que seja uma ótima canção, ela beira nove minutos de duração, com longas passagens sem vocais, tocadas no violão. Outro destaque negativo fica por conta de Tired of You, que apesar da participação mais do que especial de Brian May (Queen) nas guitarras, é tida por muitos como uma das piores canções da carreira do Foo Fighters, por ser monótona e sem variação.
Em algumas entrevistas após o lançamento de One By One, Dave Grohl chegou a afirmar que o disco não era um dos seus favoritos da banda e que apenas as quatro primeiras músicas se salvavam de lá, e que o resultado abaixo da média se dava ao fato dele ter sido refeito e gravado rapidamente para assim atender o prazo estipulado pela gravadora. Hawkins também complementa a sua opinião sobre álbum: “Deveria ser chamar Half And Half (meio a meio), ele é meio bom e meio ruim, provavelmente não é o melhor da banda, mas é a fotografia daquele momento em que quase terminamos. Nós não sabíamos o que fazer”, salienta o músico.
Mas One By One rendeu grandes frutos para o Foo Fighters, o disco ganhou o prêmio Grammy em 2003 de “Melhor Disco de Rock”, e All My Life abocanhou a gramofone dourado na categoria “Melhor Performance de Hard Rock”.
Em termos de venda, One By One se saiu muito bem, no Reino Unido ficou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos, batendo inclusive a coletânea do Nirvana recém lançada na época que ficou em terceiro lugar.
Outra curiosidade intrigante a respeito de One By One, é que a sua famosa capa, a ilustração de um coração preto no fundo branco, foi feita nada mais nada menos por Raymond Pettibon, renomado artista plástico Punk, conhecido pelas ilustrações nas capas de discos do Black Flag (além de ter criado o logotipo da banda), Sonic Youth e recentemente a banda OFF!

Algumas capas de Raymond Pettibon: Paranoid Time (Minutemen), Jealous Again (Black Flag), Goo (Sonic Youth) e álbum de estréia do OFF!

Algumas capas de Raymond Pettibon: Paranoid Time (Minutemen), Jealous Again (Black Flag), Goo (Sonic Youth) e álbum de estréia do OFF!

13 ANOS DEPOIS O MUNDO FINALMENTE CONHECE AS CANÇÕES ORIGINAIS
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No final de 2011 a banda lança o seu primeiro documentário intitulado de Back and Forth que conta toda a trajetória da banda em seus 11 anos de carreira na época, e no capitulo dedicado ao álbum One By One a banda relembra todas as dificuldades vividas durante as gravações do álbum, e as faixas que originaram o disco eram tão esculhambadas pela banda no filme que despertou a curiosidade dos fãs de ouvir como ficou o resultado final.
O que não esperávamos é que no ano seguinte, seriamos surpreendidos com trechos de quase todo o disco, que foi disponibilizado pela própria banda na internet, e a recepção por sua vez foi animadora, muitas canções se saíram melhor do que a versão que foi revistada e incluída no One By One, como é o caso de Lonely as You e Come Back com um resultado bem superior do que foi lançado em cd.
O que nos faz pensar porque será mesmo que ele foi refeito?
E no último dia 5 de agosto de 2015 que a página italiana do fã clube da banda no Soundcloud, o Foo Fighters Italian Fan Club, disponibilizou na integra as faixas da famosa Demo de 1 Milhão de dólares.
Nós do Fila Benário Music ouvimos inteirinha e as nossas impressões faixa-a-faixa você pode ler abaixo:

All My Life
O que diferencia da original é um começo mais demorado e fantasmagórico antes do famoso riff da introdução. Outro trecho diferente é na parte berrada “Done, done, and I’m on the next one”, que nessa versão o berro está mais comprimido e sem os efeitos da versão oficial.
Do mais é a mesma canção só que sem o brilho de produção, ou seja, com mais punch e peso.

Have It All
A introdução tocada pela guitarra aqui nessa versão é um pouco mais demorada do que a que saiu em One By One, demora cerca de 12 segundos, contra seis segundos da oficial.
O resto da canção não compromete.

Halo
Uma das mais belas baladas do Foo Fighters, em sua versão demo ela aparece com uma introdução mais longa também, e com efeitos bem precários de guitarras, no entanto a estrutura musical é a mesma, o refrão continua com a mesma carga emocional, o berro “Disappear before we fade away” antes das oitavadas de guitarra continuam firme e forte.
Foi a que menos mudou.

Lonely As You
Ao contrário da anterior, Lonely As You surge aqui irreconhecível e muito superior a versão que entrou em One By One, o que nos leva a questionar: porque essa ficou de fora?
Se na versão oficial a música começa com uma guitarra dedilhada sem efeitos com a voz de Dave Grohl sussurrando o trecho: “What would I do? Lonely as you”.
Nessa versão já começa com um riff distorcido de guitarra tocando as notas da estrofe da música, e minutos depois um alucinado Grohl entra berrando em tons altíssimos a letra da canção.
Se na versão oficial a banda inova fazendo passagens Ska que lembra em alguns momentos algumas coisas swingadas do The Police, aqui é tudo direto, bruto e reto.
Uma das melhores da demo.

Overdrive
Essa já era conhecida do público nos shows da turnê do There Is Nothing Left To Lose, no entanto ela atendia pelo nome de Gun Beside My Bed.
Mantém o pique poppy punk, mas por ser uma versão demo ela aparece sem peso e distorção nas guitarras, e a bateria segue uma batida mais swingada, ao contrário da batida seca e reta da versão original.

Burn Away
Se na versão original a canção começa com um curto riff de guitarra já dando a deixa para o resto da banda entrar na música. Aqui o riff se prolonga mais um pouco.
Considerada por Dave a música mais pesada da banda pelo fato das guitarras terem sidas afinadas com tom abaixo, na versão demo ela mantém o peso.

Come Back
Ao lado de Lonely As You é a canção mais irreconhecível da demo e que deveria estar no tracklist oficial do One By One.
Se a versão original dura cerca de nove minutos, com passagens monótonas no violão e com ar progressivo, aqui o que encontramos é Rock puro.
As diferenças já começa na introdução, enquanto a versão oficial começa com um bom riff de guitarra distorcida que dura 10 segundos, na versão de 1 milhão de dólares a música já começa de imediato com Dave solando uma guitarra na introdução, enquanto Chris faz uma base nervosa na outra.
A bateria também está diferente, e para melhor, Taylor Hawkins faz uma batida usando o os tons e o surdo ao mesmo tempo, dando mais peso e impacto a canção. E Dave Grohl mais uma vez berra os versos em tons altíssimos, uma das suas melhores interpretações vocais.
Enfim, deveria estar no álbum.

Balanço final
Com exceção de Come Back e Lonely as You, o resto não difere muito das versões que entraram oficialmente no tracklist de One By One.
Mas que esse apanhado de canções demo sem produção dá um show no mega ultra hypado e pomposo Sonic Highways, isso dá sim, sem sombra de dúvidas.
Fazendo reinar a lógica matemática da música: Onde menos é mais.

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