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A Legião Urbana vai voltar, devemos nos empolgar com isso?

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A Legião Urbana vai voltar. É isso mesmo que você acabou de ler. Uma das maiores bandas nacionais de todos os tempos voltará às atividades após quase 20 anos do seu término, com a morte do líder, compositor e vocalista, Renato Russo, no ano de 1996.

Os dois outros legionários: Dado Villa-Lobos (Guitarra) e Marcelo Bonfá (Bateria), ganharam na justiça o direito de usar a “marca” Legião Urbana, que até então pertencia a Giuliano Manfredini, o único filho de Russo, hoje com 24 anos.
Então com o nome de volta, Dado e Bonfá chamaram para empreitada o vocalista André Frateschi e anunciou turnê por todo o país a partir de outubro.

É claro que a notícia já se alastrou como fogo em pólvora, e não se comenta outra coisa nas redes sociais. Da mesma forma que muitos ficaram felizes com o anúncio e não vê a hora de reencontrar a velha/nova Legião Urbana, outros já teceram as suas críticas com a justificativa de que “Não existe Legião Urbana sem Renato Russo”.

Homenagem? Sacrilégio? Manter o legado? Se aproveitar de algo? As perguntas são inúmeras por trás dessa volta tão tardia. Tá, essa não é a primeira vez que a Legião volta após o fim das atividades, no ano de 2012 a já moribunda MTV Brasil organizou um show da banda no Espaço das Américas em São Paulo, com o ator Wagner Moura no vocal, mas aquilo foi apenas um tributo, uma singela homenagem ao legado da banda, mesmo com Wagner desafinando praticamente a apresentação inteira, alias um “troféu joínha” para o diretor artístico da MTV que teve essa “brilhante” ideia de convidar Moura pra ser Renato por um dia.

Mas agora a banda volta pra valer, para fazer mais shows e quem sabe soltar um material inédito, após 18 anos do lançamento de Uma Outra Estação (1997), o último disco da banda, já póstumo.

Sinceramente, não vejo problemas na volta da banda sem Renato Russo, porém tenho algumas preocupações.
Não vejo problemas, porque convenhamos meus jovens, essa não é a primeira e nem última vez na história do Rock que um grande vocalista já falecido é substituído.
O primeiro exemplo que me vem à cabeça a respeito disso é o AC/DC, que era uma banda grandiosa e gigantesca quando perdeu o seu vocalista Bon Scott em 1980, e no mesmo ano o grupo anunciou Brian Johnson  e simplesmente lançou um dos discos mais importantes, e mais vendido da história do Rock, Back In Black.

O Alice In Chains também é outro exemplo perfeito. No ano de 2002 com o falecimento do vocalista Layne Staley por overdose, o grupo havia praticamente encerrado a carreira. No entento surgiu em 2011 com William Duvall nos vocais lançando um novo álbum, o sensacional Black Gives Way To Blue.

O Queen mesmo é outro grande exemplo. É claro que quando falamos da banda, a primeira imagem que nos vêm à cabeça é de Freddie Mercury sem camisa, com uma calça branca justíssima correndo pelo palco com o seu mini pedestal. Mas a banda está ai na atividade, fazendo shows e mantendo vivo o seu legado. Se Adam Lambert não foi a escolha mais perfeita para assumir o posto de Freddie no momento, lá atrás eles acertaram e muito, quando convidaram Paul Rodgers (Free e Bad Company) para uma turnê.

The Doors já voltou com Ian Astbury do The Cult no lugar de Jim Morrison, o Barão Vermelho continuou após a saída do Cazuza, que era um grande compositor assim como Renato Russo, e depois da sua morte a banda manteve o legado deixado por pelo mesmo e se tornou umas das mais  importantes do País, ao lado justamente da Legião.

Então quanto a isso eu não me preocupo, alias, eu acho que hoje o excesso de informação atrapalha e muito o andamento das coisas, as redes sociais deu voz aos idiotas, então hoje todo mundo opina sem antes pensar, refletir e analisar o contexto.
Na época que o Bon Scott morreu e Brian Johnson entrou no AC/DC, não havia Facebook para o fã choramingar: “Não existe AC/DC sem Bon Scott”, “Eu me recuso a ouvir essa nova banda”, “Esse AC/DC não me representa”. Não teve nenhuma dessas papagaiadas, os fãs simplesmente esperaram o lançamento de Back In Black, compraram, ouviram e assim tiram as suas próprias conclusões. Agora é um tal de “Não existe Stone Temple Pilots sem Scott Weiland”, “Black Sabbath sem Bill Ward na bateria, não é Black Sabbath” e outras chatices.

As principais queixas é pelo fato de Renato Russo ter sido um grande letrista e que ninguém chegará aos pés dele.
Concordo em partes. Sim Renato sempre será um grande compositor, isso não tem o que discutir. A gigante letra de Faroeste Caboclo é uma prova concreta do domínio da escrita que ele tinha, ao criar uma história tão fulminante e transformá-la em música, além de outras grandes composições dele, principalmente nos tempos de Aborto Elétrico, como Veraneio Vascaína, Música Urbana, Despertar dos Mortos, Conexão Amazônica, Fátima, Geração Coca-Cola e outras grandes composições dos tempos de Legião Urbana: Tempo Perdido, Mais do Mesmo, Teatro dos Vampiros, Giz, Há Tempos e entre várias outras.
Mas agora endeusar como se fosse o único compositor relevante que existiu no Brasil é forçar muito a barra.
Renato Russo compôs Pais e Filhos, mas Chico Buarque fez Construção. Renato Russo compôs Eduardo e Mônica, mas Zé Keti fez Diz Que Fui por Ai. Russo escreveu Perfeição, Geraldo Vandré escreveu Para Dizer que Não Falei de Flores.

Não existiu só o Renato Russo de compositor no mundo e ele não será o único a ser relevante. Cazuza foi também um excelente letrista, tinha escrito o hino máximo do Barão Vermelho, Pro Dia Nascer Feliz. Quando ele saiu, Frejat escreveu Declare Guerra, que é de longe uma das melhores letras do Barão, e a banda continuou firme e forte. E ai?

No entanto, as minhas preocupações com esse retorno são duas.
A primeira é claro sobre o vocalista, como disse em cima e volto a repetir, não tenho dificuldades em aceitar um novo vocalista no lugar de um já consagrado, mas desde que ele seja bom.
Citei nomes como Brian Johnson, William Duvall, Paul Rodgers, Ian Astbury, Frejat que são pessoas livres de qualquer suspeitas, cantam maravilhosamente bem e souberam se impor na difícil tarefa que lhe fora proposta.
Não quero um vocalista que cante igual ao Renato Russo, de forma alguma, a voz de Renato é única e deve ser eternizada na memória dos fãs. Mas eu quero um vocalista com personalidade e que cante minimamente bem, que não lembra nem de longe os desafinos do Capitão Nascimento no show tributo (insulto?).
Fui pesquisar a carreira de André Frateschi, o novo vocalista da Legião Urbana, e ele já tem uma respeitosa carreira no circuito independente. Não é o estilo de música que eu consumo e sua voz não me agradou em primeiro momento, por isso me preocupo, mas o fato de preocupar não significa que ele não é digno de ser vocalista da banda, pode ser que interpretando os clássicos da Legião Urbana a sua voz se adéqua, enfim eu prefiro esperar e ser surpreendido, a pestanejar, reclamar e depois ter que colocar gelo na minha língua queimada.

E a minha outra preocupação é se o mundo de hoje está preparado para a volta da Legião Urbana? O cenário deixado pela banda após o seu fim, foi muito promissor para o Rock. Até o final da década de 1990 o Rock nacional sobreviveu muito bem, bandas como Raimundos, Little Quail And The Mad Birds, Autoramas, Rumbora, Planet Hemp, Charlie Brown Jr., Skank, Penélope, Pato Fu além dos “veteranos” Titãs, Barão Vermelho, Ira, Ultraje a Rigor, estavam em alta e tinha os seus principais hits tocados nas principais rádios hit parades do país.
Hoje a popularidade do gênero caiu, com exceção do fã que sempre ouviu o estilo musical, ele não atinge com a mesma intensidade a juventude de agora como em outrora, e é nesse cenário apocalíptico que voltará a Legião Urbana, a banda que lotava estádios em seus shows, provavelmente será a banda de abertura do show do NX Zero no Kazebre, tocará antes da Anitta no Planeta Atlantida, ou antes da Claudia Leite no Festival de Verão de Salvador.

Enfim, eu prefiro esperar e ver no que vai dar.

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Um comentário em “A Legião Urbana vai voltar, devemos nos empolgar com isso?”

  1. Eu particularmente não achei uma boa idéia voltarem com a banda. Tudo bem que agora o Dado e o Bonfá tem os direitos do nome e da marca ”Legião Urbana”, mais colocando outro vocalista no lugar e voltando a fazer shows não iria ter aquela magia de antes. Se eles tivessem colocado outro vocalista assim que o Renato morreu, que nem quando morreu o vocalista do AC/DC em 1980 talvez a banda aceitasse, mais agora não ficaria a mesma coisa e tanto que a maioria dos fãs não iam gostar. Qualquer fã que nunca teve a oportunidade de ir a um show deles gostaria muito de ver Dado e Bonfá tocando as músicas do Legião ao vivo novamente. Mais enfim, devemos esperar pelo que há de vir.

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