Fila Benário Fala

Oração do refugiado

A young migrant, who drowned in a failed attempt to sail to the Greek island of Kos, lies on the shore in the Turkish coastal town of Bodrum
Essa foto… essa simples foto te causa várias sensações: perda, tristeza, descontentamento, dor, revolta e vergonha.

A imagem do pequeno Aylan Kurdi, de apenas três anos de idade, morto na praia da Turquia, retrata de forma direta e assustadora o drama vivido por diversos refugiados que tentam deixar os horrores do seu país de origem, mas que são impedidos de viver em outra nação.

Aylan e toda sua família, a mãe Rehan, o irmão Galip de cinco anos e o pai Abdullah, vinham de Kobane, cidade síria conhecida pelos ataques e conflitos de grupos extremistas conhecidos como “estado islâmico”. Como a família tinha parentes no Canadá, foi feito um pedido de asilo político no país, no entanto foi negado pelo governo canadense.

Para a família não restou outra escolha a não ser fugir, e todos embarcaram em uma viagem de barco que passaria pela Turquia, finalizando na Grécia, e dali eles partiriam para o Canadá, porém minutos após a viagem iniciar, uma forte ventania contribuiu para que altas ondas invadisse a embarcação. O capitão que conduzia o barco entrou em estado de choque e pulou no mar e fugiu, Abdullah tentou tomar o controle do barco, mas o mesmo virou no mar. Ele foi o único sobrevivente, e a imagem do pequeno Aylan ficou como símbolo do sofrimento de milhares de refugiados que morrem na tentativa de deixar o país.

Segundo a guarda costeira turca, em 2015 já foram resgatados 42 mil pessoas do Mar Egeu, e no mesmo dia que Aylan fora encontrado, mais 100 pessoas também foram resgatadas.
Um número aterrorizante.

O fato da União Europeia não aceitar refugiados asiáticos e africanos em seu país é de tamanha inquietação, além de negar os fatos históricos.

No final do século 19, a África e a Ásia eram até então os continentes com maiores riquezas em recursos naturais, sendo elas, minérios, diamantes, petróleos, entre outras. E isso despertou os olhares dos países do continente europeu que iniciaram uma invasão em ambos continentes e instalando um regime colonial, apropriando de vez de sua cultura.

O continente africano depois da colonização européia
O continente africano depois da colonização européia

A invasão da Europa na Ásia e na África, não apenas deixou a população em condições miseráveis, como também criou conflitos entre a própria população. Na África o mais notório é o Massacre de Ruanda, que aconteceu no ano de 1994, e ganhou uma cinebiografia hollywoodiana em 2004 com o filme Hotel Ruanda, que conta justamente a história de quando o imperador da Bélgica que dominava Ruanda dividiu o povo do país em dois grupos, os Hutus e os Tutsis, com o fim da colonização belga, os Hutus afirmavam que os Tutsis eram a classe protegida dos belgas e resolveram se rebelar.

O conflito existente na Siria, que dizima hoje milhares de inocentes e faz a outra metade fugir e tendo a morte como o seu fim também, como foi o caso do pequeno Aylan, também teve origem com a colonização europeia.

Portanto é inaceitável uma união de países que espalha a miséria e o caos em uma nação, não aceite em seu território as vítimas de suas próprias negligências.

No Brasil, principalmente no estado de São Paulo, muitas pessoas ficaram chocadas com a imagem do pequeno Aylan. Mas tal comoção soa ilógica, se levarmos em consideração que no país vive-se a mesma situação e muitos fingem não ver.

Quantos ônibus, peruas e carretas chegam trazendo haitianos, angolanos, homens e mulheres da República do Congo, da República Dominicana, enfim, todos para o Estado de São Paulo e demais estados do país, também refugiados de guerras, conflitos armados, fome, destruição e miséria, e encontra aqui no país as portas fechadas, o preconceito da população, são desprezados e humilhados, e por fim são as primeiras vítimas de chacinas policiais.

“Mas eles estão aqui roubando o nosso emprego” diz a senhora gaúcha em entrevista na rua para um programa de TV. No ano passado, eu tive a oportunidade de conhecer o trabalho realizado pela “Missão Paz”, entidade criada e mantida pela Igreja Católica, com a ajuda de alguns parceiros, com a finalidade de acolher, dar moradia e emprego para os imigrantes. Durante o dia todo participei de palestras, debates, seminários e inclusive de apresentações musicais feitas pelos refugiados. E durante uma das palestras, um executivo da Ambev pediu a palavra e disse: “Eu dou emprego para muitos imigrantes e refugiados, e quando sou questionado se isso não é deixar de dar emprego para milhões de brasileiros que estão desempregados, eu simplesmente respondo, ‘ninguém tá roubando emprego de ninguém, emprego tem pra quem quer trabalhar’”.

Eu moro em Várzea Paulista, interior de São Paulo, e a cidade vizinha, Jundiaí, é conhecida por ter sido no passado uma grande colônia italiana. Existem muitas famílias italianas na cidade e todas têm orgulho do seu sobrenome italiano, bate no peito dizendo: “O meu avô veio da Itália”. Mas se a gente for parar pra analisar a história mundial, esse avô italiano também veio como um refugiado, veio também escondido em navios, fugindo da fome e da guerra, e hoje todo mundo aplaude os italianos entre nós e chora a foto do pequeno Aylan, mas porque então não dar uma oportunidade para os africanos e muçulmanos quem vem para o nosso país?

Já imaginou o quanto essas pessoas poderiam colaborar para o nosso país que tanto anda em crise? Já imaginou a riqueza de ritmos, culturas e ideias que teríamos.
Esse refugiado que você rejeita, se for investido na educação dele, ele poderia ser o médico que viesse descobrir a cura do câncer.

Pra abrir um pouco mais a mente de quem tem esse pensamento desumano e retrógrado, que eu fiz uma pequena listinha de grandes músicos que também se encontravam em situação de guerra e miséria no seu país de origem, e refugiados, fizeram a história da música. Talvez se eles estivessem encontrado uma nação de portas fechadas e uma população preconceituosa, nós não teríamos a oportunidade de conhecer e cultuar essas bandas hoje

Refugiados da Música

Gene Simmons (Kiss)
Gene Simmons

Sim meu amigo, você que idolatra Kiss, que acha a banda mais sensacional da história do Rock, mas que acha também que todos os haitianos no Brasil devem morrer como o pequeno Aylan. Saibam muito bem que Gene Simmons, o baixista da língua grande, que cospe fogo, é também um refugiado.
Chaim Weit, o nome verdadeiro de Gene, nasceu em Israel, no ano de 1949. Sua mãe, Flóra Klein, foi uma sobrevivente do holocausto durante a segunda guerra mundial.
Com nove anos de idade, Chaim e sua mãe se mudaram para Nova York, no bairro do Queens, e o resto da história você já sabe.

Geddy Lee e Alex Lifeson (Rush)
Rush

Outros dois filhos de sobreviventes de holocaustos é a dupla Geddy Lee e Alex Lifeson do Rush, a mãe de Geddy é de origem polonesa, e com os horrores da segunda guerra mundial, ela se refugiou no Canadá, assim como a família de Lifeson.
Imagina o se ambas famílias tivessem suas entradas barradas, ou se morressem em naufrago tentando atravessar o país? Não teríamos hoje essa banda genial.

Wyclef Jean
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Revelado e aclamado no extinto grupo de rap Fugees, junto com Pras Michel e Lauryn Hill. Wyclef Jean veio do Haiti, país miserável situado no Caribe, na América do Norte.
Wyclef deixou o país e se mudou para os Estados Unidos, onde conheceu os outros dois parceiros e juntos montaram o Fugees, que o nome simplesmente significa refugiados, já que os outros dois membros, Lauryn e Pras, também são filhos de imigrantes.
O álbum The Score é um dos mais cultuados do hip hop na década de 1990, e com o fim do grupo da virada do milênio, os demais integrantes seguiram com sucesso em suas carreiras solo, inclusive Wyclef, que não deixou de militar pela causa haitiana. No ano de 2010 ele tentou se lançar como candidato a presidência do país, mas teve o seu pedido negado pelo conselho eleitoral haitiano.

System of a Down
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Um grupo formado totalmente por refugiados e filhos de imigrantes é o System Of a Down.
O vocalista Serj Tankian e o baterista John Dolmayan vieram de Beirute capital do Libano. Os pais do guitarrista Daron Malakian, vieram da Armênia, já o baixista Shavo Odadjian nasceu na Armênia e veio para os Estados Unidos com sua família aos 5 anos de idade.
Todos refugiados de guerras civis e conflitos internos em seus países de origem se encontraram em Glendale na Califórnia e formaram a banda, que é uma das mais ativistas e defensoras da cultura armênia.

Omar Rodriguez-Lopez e Tony Hajjar (At The Drive-In)
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E por fim o extinto At The Drive-In tem em sua formação dois refugiados, o guitarrista genioso Omar Rodriguez-Lopez, que veio de Porto Rico, e o baterista Tony Hajjar que também veio de Beirute, no Libano.
Ambos foram para os Estados Unidos, na cidade texana de El Paso, e lá encontraram os demais integrantes do grupo e formaram uma das bandas mais criativas e sensacionais do Punk/Hardcore.

Pra finalizar o texto, deixo a canção Prayer Of The Refugee (Oração do refugiado) da banda americana Rise Against.
Lançada no The Sufferer & The Witness (2006), o quarto álbum da banda.

A música retrata a sofrimento de milhares de refugiados ao redor do mundo, além das dificuldades de deixar o seu país de origem, os que conseguem deixar são submetidos ao trabalho escravo em nome do consumismo e imperialismo, como se pode ver no videoclipe abaixo.

Segue a letra e a tradução aqui

Descanse em paz, pequeno Aylan

 

 

 

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