“O Hardcore da educação”, professores analisam as letras do ‘Dead Fish’

Publicado: 15 de outubro de 2015 em Especial, FBM Convida, Fila Benário Fala
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Aproveitando que hoje, dia 15 de Outubro, é comemorado nacionalmente o Dia dos Professores. O profissional que deveria ser o mais respeitado por todos, pelo simples e poderoso fato de ter passado por suas mãos os futuros profissionais de todas as áreas existentes. Mas que na prática ele é marginalizado graças a um governo (seja ele estadual ou federal) que não trata a educação como prioridade no país.

Portanto, foi pensando nisso que eu convidei para esse espaço alguns professores dos quais muitos eu tive (e tenho) o prazer de ser aluno, e outros eu acompanhei a sua jornada heroica desde a faculdade até o patamar onde ele se encontra no momento. Para cada um dos professores eu dei uma letra diferente do Dead Fish, famoso grupo de Hardcore nacional que está em atividade desde 1991, com sete discos lançados e traz em suas ácidas letras os conflitos existentes na nossa sociedade: a reforma agrária, o preconceito racial, o machismo, a má distribuição de renda, as desigualdades raciais, a população indígena, o capitalismo subversivo e falta de investimento na educação.

Dead Fish

Dead Fish

Alguns docentes já tinham familiaridade com a banda, outros nunca tiveram contato com a obra musical de Rodrigo Lima e sua turma, o que de certa forma torna o texto ainda mais prazeroso e autêntico.

Enfim, chega de blá, blá, com vocês agora “Os Professores e as Canções do Dead Fish”


MST

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sirva-se (1997)

Quem você pensa que eu sou
Aquele que você viu na TV
O que te faz pensar que sou tão diferente de você?
Pois eu tenho família e filhos pra criar
E sou que estou aqui
Lutando pelo que é meu por direito

Devo ocupar
Devo produzir
Devo resistir

Pouco me importa se você não gosta
Da cor da minha bandeira
Pois sou eu que estou aqui
E sou eu que tomo bala dos que deveriam
Me defender
Falsos amigos de uma nação
Não querem ensinar o que é um cidadão

Devo ocupar
Devo produzir
Devo resistir

“O campo brasileiro continua produzindo sangue e assistindo como no passado a um desfile de bandeiras vermelhas entre multidões de miseráveis sob o comando do MST, combater um latifúndio, desapropriar, ocupar e distribuir as palavras de ódio que resistem ao tempo como resistem a concentração diária; 0,9% dos produtores detém mais de 35% das terras”

A ganância dessa elite já foi demais
400 anos de massacre também já é demais

Vou ocupar
Vou produzir
Vou resistir

PODER AO POVO

Vermelho como o sangue, vermelho como a terra

Por Michele Escoura

O Dead Fish me levou para as Ciências Sociais, para a universidade pública, para o feminismo e para os movimentos sociais. As letras da banda foram minha primeira escola de política e era minha principal fonte de sensibilização para as questões sociais. Eu era uma adolescente do interior de São Paulo em uma época em que a internet ainda engatinhava e, por isso, a cena de rock da minha cidade acabava sendo o principal espaço de circulação de idéias.

Pingava suor das paredes dos clubes lotados de adolescentes ansiosos para ver as bandas que passavam pela cidade. Foi num cenário destes que eu vi a força política vibrante do Rodrigo Lima. Era assustador, e incrível! Eu tinha um cdzinho com as cópias dos discos da banda em MP3 e não demorou muito para que eu decorasse todas as letras (cantar tudo nos shows também dava o maior status!!).

Nos anos 1990, época de lançamento do disco Sirva-Se (1997), eram recorrentes as notícias de ocupação do MST. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra durante décadas foi um dos principais movimentos sociais brasileiros e uma referência a ele era mais que justa. Em um país onde sua história é contada a partir da chegada de um monte de branco disposto a matar o povo originário e extorquir suas terras, não à toa a questão latifundiária é um problema fundamental na distribuição (ou falta) da riqueza.

A galera pulsava pelo interior do país e a mídia seguia em sua dinâmica de criminalização dos movimentos sociais. Fazendeiros apareciam nos jornais do horário nobre indignados por terem suas “propriedades” invadidas, enquanto as vozes dos trabalhadores rurais que ocupavam as terras improdutivas jamais eram ouvidas. O mote era seguir o exemplo de nossos vizinhos de América Latina: México, Bolívia, Cuba, Chile, Venezuela, Peru e Nicarágua foram o cenário de intensos processos de revolta popular e consolidaram a redistribuição das terras entre os trabalhadores rurais. As bandeiras vermelhas do MST tremulavam alto nos campos ocupados pelo Brasil reivindicando a reforma agrária que aqui, até hoje, ainda está por vir.

Neste ano de 2015, dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) revelaram que 2,3% dos imóveis rurais concentram quase metade de toda área do país registrada pelo órgão. São 244 milhões de hectares concentrados em latifúndios que, seguindo à velha dinâmica das capitanias hereditárias, restringe o acesso à terra para poucas famílias e para a produção agrícola no modelo de exportação e nem sempre para consumo humano (dados oficiais da União estimam que 70% dos alimentos que chegam na minha ou na sua mesa vem de pequenas propriedades e da agricultura familiar, modelo defendido pelo MST). Além disso, estima-se que dessa área concentrada, 175 milhões de hectares são considerados improdutivos e estariam legalmente aptos para a redistribuição fundiária.

Terra equivale à riqueza. Seja a riqueza mantida pelas tradicionais famílias latifundiária, ou seja, a riqueza buscada pelos pequenos trabalhadores rurais: o direito de garantir seu sustento a partir de seu próprio chão. E terra, também por isso, equivale às disputas. Amargamos com a ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e representante do modelo agrícola latifundiário, Kátia Abreu, no Ministério da Agricultura brasileiro. Com ela, assistimos também o agravamento do genocídio indígena, o emperramento das demarcações ou redistribuições de terra e o sucateamento dos programas de incentivo à agricultura familiar.

Cinco séculos de história banhada a sangue se passaram, ainda tem gente morrendo por sua terra. Mas há também resistência, e é por justiça que pulsavam as veias do Dead Fish. E também a minha. Quando, em 2014, pela primeira vez estive de frente ao vermelho da bandeira tremulante e daquele infinito de barracos de lona preta que protegiam os velhos sonhos por igualdade, meus olhos marejaram, minhas pernas adormeceram e meu pensamento não saia do refrão: “Devo ocupar, devo produzir, devo resistir – PODER AO POVO”.

Foto tirada por Michele Escoura no acampamento do MST no município de Abelardo Luz (SC), onde viviam 500 famílias em 2014

Foto tirada por Michele Escoura no acampamento do MST no município de Abelardo Luz (SC), onde viviam 500 famílias em 2014

Dead Fish foi minha escola.

2 - MicheleMichele Escoura é antropóloga, graduada pela UNESP, mestra pela USP e doutoranda pela UNICAMP. Milita nos campos do feminismo, dos direitos humanos LGBT e da educação. Mas só chegou nisso tudo porque, antes, teve a escola do Hardcore em sua formação.


 

SONHO MÉDIO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sonho Médio (1999)

Amanheceu mais uma vez
É hora de acordar para vencer
E ter o que falar
Alguém para mandar
Uma vida pra ordenar
Poder acumular
E ai então viver, viver e prosperar,
Mais nada a pensar,
Me myself and I,
E assim permanecer,
Credicard e status quo é tudo que
Penso ser, ilusão é questionar.

O sonho médio vai, vai te conquistar
E todo dia iremos juntos ao shopping pra gastar.

Ter e sempre acreditar, princípio meio e fim
A hipocrisia vai vencer
Vou sorrir para você
Será uma festa em meio a caos
E as pessoas feias pagarão.
Pois somos os eleitos, pelo menos achamos ser
Nossa raça é superior
Pois vou fingir ser daquela cor,
Roberto Campos é o nosso guru e para sempre seremos liberais
Pra trabalhar, pra viver!
Não me importa se meus filhos não terão educação,
Eles têm que ter dinheiro e visual.

O sonho médio vai, vai te conquistar
Mentalidade de plástico e uma imagem a zelar.

Rock Contestação

Por Luiz Antônio Farago

O rock, desde sua origem, nunca foi “ostentação”, sempre foi o som da contestação.

No Brasil, não foi diferente, sobretudo ao longo dos anos 80. Após um longo período de ditadura, o que equivale dizer de censura e perseguições, os jovens não queriam sussurar a bossa nova, queriam gritar ao som do rock.

Neste contexto, os anos 80 foram anos mágicos para o rock nacional, surgindo a todo o momento bandas e roqueiros icônicos como: Ultraje a Rigor, Inimigos do Rei, Camisa de Vênus, Biquíni Cavadão, Legião Urbana, Barão Vermelho, entre outros. Roqueiros como Raul Seixas, Lobão e Cazuza (o poeta da contestação). Todos cantando o Brasil e suas mazelas.

Hoje o rock nacional, atravessa uma fase de abstinência contestatória por razões que não cabem aqui discutir. O fato, é que o rock ficou comportado e careta, com raras exceções.

A banda capixaba Dead Fish surgida em 1991, é um exemplo. Já tendo lançado sete CDs e tocado em todos os cantos do Brasil, busca pontuar suas canções com a essência do bom e velho rock contestação. Entre outras, destaco a música “Sonho Médio”, que ao som de uma guitarra nervosa e uma letra repleta de ironia (estilo que muito me agrada), desfere um soco na boca do estomago dos valores e comportamentos da sociedade capitalista moderna tupiniquim.

Em trechos como “é hora de acordar para vencer”; “Credicard e status quo que é tudo que penso…”; “E todo dia iremos juntos ao shopping pra gastar”; “Roberto Campos (para quem não lembra guru do neoliberalismo tupiniquim) é nosso guru…”, questiona os valores e comportamento presentes em nossa sociedade de hoje. Pena não serem compreendidos pela geração “ostentação”.

7 - FaragoLuiz Antônio Farago é mestre em Ciências Sociais pela PUC. Especialista em Sócio Psicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e graduado e Licenciado em Ciências Sociais pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira. Autor dos livros Conhecendo o Brasil, Atlas Histórico e Geográfico e co-autor de Minimanual Compacto de Geografia Geral e do Brasil, todos pela Editora Ridel. Professor universitário na Faculdade do Povo (FAPSP) para os cursos de Jornalismo, Rádio e TV e Publicidade e Propaganda.


MULHERES NEGRAS

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sonho Médio (1999)

E se um dia tivéssemos que resistir,
E se tudo que fizéssemos fosse em vão?
A vida mesmo assim teria uma razão.
Manter-se de pé e esperar.

E se não fossemos tão jovens ainda estaríamos aqui?
E se não pudéssemos mais cantar,
Nem reclamar
Nem protestar?

Fingiríamos esquecer nosso ideal
Ou lutaríamos agora pra valer?
Os tombos da vida nos fazem crescer
E não devemos desistir…

Mas então vamos lá,
Lutar por um ideal.
Se viver é resistir,
Então será…

E ai poderemos sorrir como mulheres negras,
Que apesar de todo sofrimento se negam a chorar.

“E aí poderemos sorrir como mulheres negras, que apesar de todo sofrimento se negam a chorar”

Por Ana Paula Vieira de Oliveira 

O tempo passa, a tecnologia favorece a vida humana, descobertas cientificas beneficiam nosso cotidiano, porém, cada dia mais as relações humanas se tornam difíceis. A violência sem sentido que tira vida de pessoas inocentes por conta de uma ignorância velada, por não aceitar o que o outro é ou representa, está estampada nas manchetes dos jornais, nas redes sociais. Já se tornou algo costumeiro, como a previsão do tempo, não causa sentimento de repulsa ou revolta. E quando alguém se manifesta contra essas situações, logo é recriminado, levando o nome o título de chato ou aquilo que ele questiona é muito “mimimi”.

Dentro desse grupo de pessoas que sofrem com a violência gratuita, aqueles que ainda estão à margem da situação, está a comunidade negra. Hoje, como diria o rapper Emicida: “Ser preto ficou legal”. A cultura étnica está cada vez mais presente no cotidiano. Observemos as mulheres negras e seus cabelos se antes para se sentirem aceitas na sociedade, se viam obrigadas a alisa-lo, hoje os blacks e cachos ganharam status de cabelo estiloso, e são copiados por muitas pessoas. Roupas e adereços, também caíram no gosto popular e são vistos desfilando pelas ruas. Quem observa essa “evolução”, pode pensar assim: “Cara, o preconceito no Brasil não existe mais”. Será?

Em pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um jovem negro tem 2,5 vezes mais chance de ser assassinado do que um jovem branco. Não por coincidência, o salário dos negros ainda é inferior ao salário dos brancos. Muitos dirão, mas isso não é preconceito, se eles se envolvem no mundo do crime e não são bem preparados para o mercado de trabalho, é isso que merecem, estão colhendo o que plantaram. O que dizer então, dos inúmeros casos de racismo impregnados nas redes sociais, contra homens e mulheres negros? Como por exemplo, o caso da jovem jornalista, Cristiane Damacena de Brasília, que ao postar uma foto em sua página na rede social, foi chamada de macaca e perguntaram qual o valor da escrava, sugerindo que a mesma estivesse à venda como acontecia no período da escravidão. Ah, claro, isso não é preconceito ou racismo, é só exagero por parte de um grupo politicamente chato, que não sabe levar as coisas na esportiva, foi tudo brincadeira.

Diante de um cenário marcado por situações como essas, a palavra de ordem para as vítimas disso tudo é RESISTÊNCIA. Do latim resistere, resistir significa aguentar firme, manter a posição. É segurar a onda, não baixar a cabeça, mas antes disso tudo é ter orgulho de ser o que é. Ter consciência de que podemos tudo e não existem limites para os nossos sonhos.

A letra de Mulheres Negras, da banda de Hardcore, Dead Fish, compara a resistência humana diante de uma situação de sofrimento, a força das mulheres negras, que mesmo na dor não deixam a lágrima cair. É a lágrima que não caiu no rosto daquela escrava que foi estuprada pelo seu senhor, a mesma lágrima que ficou guardada nos olhos daquela mãe preta que viu seu filho ser covardemente assassinado, pois foi confundido com o bandido que roubou um celular. É também a lágrima que foi contida pela jovem que foi chamada de macaca no colégio onde estuda. São lágrimas que não caíram, para mostrar a força que esse povo carrega.

Na dor, no sofrimento, que o povo negro encontra força para não desistir e lutar por mais dignidade, mesmo diante de uma cultura opressora.

E se um dia tivéssemos que resistir, e se tudo que fizéssemos fosse em vão? A vida mesmo assim teria uma razão. Manter-se de pé e esperar.

4 - Ana PaulaAna Paula Vieira de Oliveira é Pós Graduada em Ensino Religioso na UNISAL e formada em Teologia pela mesma instituição. Atua como professora no núcleo “Centro Catequético Dom Gabriel” na Diocese de Jundiaí – SP


PROPRIETÁRIOS DO 3º MUNDO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Afasia (2001)

Promessas eternas por cumprir e mortos demais a esperar,
Sobre uma terra fértil à espera de mãos pra plantar.
Mas os punhos fechados e amargos dos proprietários do 3º mundo
Beberam sangue demais pra perdoar.
Mentalidade tacanha e assassina nas favelas do 3º mundo.
Mortos, suicídios, chacinas somados é o que se vê.

Minério, violência, especulação.
Bens materiais a amar.
Prédios altos que mostrarão quão grande o tombo será.
Mas a ordem e progresso assassina dos educados
Do 3º mundo são cegas demais pra perceber.
Mas o ódio e a fome dos sem teto do 3º mundo.
Justiça por caos podemos ver.

Liberdade.

Paz, força e coração.
Vida, amor, libertação.
Um desejo incontido nas cabeças do 3º mundo.
Tudo isso virá se pudermos perceber.

Que amar,
Viver,
Cantar não será em vão.

A miséria ainda choca

Por Ricardo Roca

Ser professor é, antes de tudo, acreditar na mudança, crer que é possível contribuir para que alguém avance, aprenda, evolua. E é nesse processo que faz todo sentido a frase de Guimarães Rosa:

“Professor não é quem ensina, mas quem de repente aprende”.

A música é um dos melhores instrumentos geradores de mudança e o Fila Benário, de quem tive a honra de ser professor em algumas disciplinas no curso de jornalismo e com quem aprendo freqüentemente no convívio, percebeu isso bem cedo e nos presenteia com suas pesquisas e textos sobre música e vida.

Há algumas semanas ele me pediu para que escrevesse algo sobre a música Proprietários do 3º Mundo, do Dead Fish. Além de honrado, fiquei com receio, já que não conheço muito dessa banda.

Imediatamente associei a letra com a triste notícia lida alguns dias antes: “Em 2016 o grupo dos 1% mais ricos do mundo vai concentrar mais riquezas que o dos outros 99% da população mundial”.

A humanidade já conquistou muita coisa, a ciência avança e a expectativa de vida até aumenta, mas a miséria ainda choca. Ou deveria, apesar do amortecimento que a “ordem” vendida pela mídia gera em boa parte dessa população.

1 - RocaRicardo Roca é formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário na Universidade Cruzeiro do Sul, além de ser criador e editor do blog Futebol-Arte.


 

GIGANTE E INSEGURO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Vitória (2015)

O que despertou tão gigante insegurança?
Tão preguiçosa busca por informação
O que transformou o que era sede por mudança
Nesse discurso sobre Deus e tradição?

Perdão por me prender nesse assunto
Mas é um choque você não recordar
O quão de ponta-cabeça era o mundo
Que o tumulto de quem quis discordar

Com sua permissão e censura
ou se quiser posso sumir e não voltar
Siga em frente com seu conservadorismo
E ponha a ordem necessária a este lugar

Manter a tradição da exploração
Sua família é a eleita!
Foi de oposição a imposição
Toma um direto de direita!

Deixe os gritos nas ruas e não no porão!

Incorporou o ativista do Estado
E agora chama o Golpe de revolução
Copiou, colou essa imagem do passado
deletando todo o sangue pelo chão

Repetindo com a mesma arrogância
Mandamentos feitos pra te dominar
Entregando seu voto de confiança
para aquele que vai te crucificar

Progressistas retrógrados e sociais eleitores
dando direitos a humanos, não a pecadores

Livrai nos desse mal
Dessa falsa moral
Livrai nos desse mal!

Manter a tradição da exploração
Sua família é a eleita!
Foi de oposição a imposição
Toma um direto de direita!

Deixe os gritos nas ruas e não no porão!

Poder para o poder
Crescer, enriquecer
Escolher, não escolher
Livre para obedecer!

Livrai nos desse mal
Dessa falsa moral!
Livrai nos desse mal!

Dead Fish e uma ode à “indecência”

Por Patrícia Paixão

… Ah, esses gloriosos tempos em que exemplares guardiões da moral e da ética lutam, de forma veemente, para colocar ordem no país.

Que fascinantes esses tempos, em que numa atitude consciente e madura, as pessoas saem pelas ruas pedindo a volta da ditadura.

Em que eleitores, seletivamente revoltados, depositam seu voto em partidos genuinamente dignos, que livrarão, definitivamente, o Brasil dos ímpios (é claro que não tem a menor importância o PSDB ter sido considerado líder na lista dos partidos mais fichas sujas do país e o fato de seu presidente ter sido apontado dentre os que receberam propina na operação Lava-jato (leia aqui)

Em contrapartida a toda essa lucidez, existem militantes cegos e petistas (sim, porque todo mundo que é contra a ideia de enDIREITAr  o país é petista, óbvio!) , que criticam a volta dos militares contra a inteligência de milhares. Por exemplo, um grupelho musical chamado Dead Fish (o nome já diz tudo sobre a natureza fétida dessa “banda”, que insiste em atacar todos que são decentes) e professores de jornalismo “comunistas-cubano-venezuelanos-soviéticos” que defendem esses grupelhos e outros tipos de baderneiros…

———-

Meu nome é Patrícia Paixão e sou uma destas docentes indecentes, com muito orgulho. Estou aqui, a convite do Fila Benário Music, para exaltar a música Gigante e Inseguro, do referido “grupelho comunista”.

Como diz a letra da canção do Dead Fish (muitas vezes é preciso o cheiro de peixe morto para nos tirar da zona de conforto da burrice e nos fazer pensar), peço “perdão por me prender nesse assunto, mas é um choque você não recordar o quão de ponta-cabeça era o mundo, que tumulto de quem quis discordar”.

Realmente é um choque saber que você, defensor da ditadura, não lembra (ou, pior, lembra e acha justo) do grande número de inocentes que morreram e/ou foram brutalmente torturados, com o argumento de que era preciso colocar ordem no país.

Inclusive pessoas que não tinham NADA A VER com a política, como meu pai. Em 19 de maio de 1970, ele foi preso a coronhadas e pontapés por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), no segundo andar do edifício Santa Luzia, localizado à rua Siqueira Bueno, no Belém, zona leste de São Paulo.

Procuravam pelo meu tio, este sim militante político de esquerda (do qual tenho imenso orgulho, pois ajudou a construir a democracia neste país), e encontraram meu pai, que tinha ido ao apartamento do meu tio, com a minha avó, pegar umas coisas.

Meu pai, que não tinha NENHUMA LIGAÇÃO COM A POLÍTICA, foi torturado no Dops. Prenderam também meu avô. Minha avó ficou desesperada. Horas depois meu avô foi solto e meu pai continuou preso.

Felizmente meu pai escapou com vida, mas nos dias em que ficou no Dops testemunhou crueldades e experimentou, na pele, torturas que jamais sumirão de sua memória física e mental.

Em fevereiro de 2015, fui visitar com o papai o Museu da Resistência, no bairro da luz, onde ficava o Dops. A emoção foi incontrolável. Tivemos que sair às pressas do museu, pois o papai começou a passar mal, lembrando de tudo o que viveu naquele lugar.

Então, como dizem os “comunas” do Dead Fish, pare de incorporar o ativista do Estado e agora chamar o Golpe de “revolução”. Pare com “tão preguiçosa busca por informação”, que “copiou, colou essa imagem do passado, deletando todo o sangue pelo chão”.

Pare, simplesmente pare, de ficar “repetindo com a mesma arrogância mandamentos feitos pra te dominar, entregando seu voto de confiança, para aquele que vai te crucificar. Deixe os gritos nas ruas e não no porão! Livrai-nos desse mal! Dessa falsa moral”.

Pare de achar que é decente votar num governador que impõe sigilo a dados públicos (leia aqui) para esconder as merdas que fez na gestão do abastecimento de água de São Paulo, e para mascarar os erros e assassinatos grosseiros de sua PM, que banhada no ranço na ditadura, encara todos os que estão na periferia como inimigos do país, achando justo dizimá-los, mesmo que sejam inocentes.

Pare, pare, pare, paaaaaaaaaaaaaare!

Só quem já teve um familiar torturado ou morto pelo regime militar sabe quão imbecil e burra é essa sua defesa da ditadura! Ou a defesa que você faz de partidos que, em suas raízes, ajudaram a impor aquele regime, como o “democrata” DEM, aliado do PSDB.

De que adianta ser “gigante e inseguro”? De que adianta ser livre entre murros e muros??

Sinceramente, prefiro ser essa “comunista-cubana-venezuelana-soviética” (que você diz que eu sou) a pregar imbecilidades como estas.

E que o “Brilhante” coronel Ustra falecido hoje (leia aqui) tão endeusado pelos defensores da moral e dos bons costumes, possa prestar contas, do outro lado, aos milhares de “opositores” assassinados por ele, injusta e cruelmente, em nome de um país decente.

OBS: Pelo amooor de Deeeeus!!! Pare de dizer que vivemos em uma “ditadura-cubana-venezuelana-comunista”. Todo mundo que conhece o básico de política sabe o quanto o PT tem lambido o capitalismo, seguindo uma política econômica que faria Margaret Thatcher ter orgasmos simultâneos.

3 - PatríciaPatrícia Paixão é jornalista e professora de Jornalismo, progressista e alinhada à ideologia de esquerda. Também criadora e editora do blog Formando Focas.


 

No começo desse ano o Fila Benário Music fez uma entrevista exclusiva com o Dead Fish que vale a pena ser conferida. Leia aqui.

Feliz Dia dos Professores.

 

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comentários
  1. Cintia Passador Soares disse:

    Obrigada pelo carinho de sempre e parabéns por ter se tornado um ser humano maravilhoso

  2. alexk8 disse:

    pois a aproximadamente 8 anos anos atrás cursava o 1 ano do ensino médio e foi feito um trabalho de portugues onde grupos deveriam escolher uma musica de alguns determinados estilos e tocar essa musica em sala e explica-la com nossa interpretacao tao logo fiquei com o rock e escolhi tao iguais do dead fish assustei geral com o peso do som e o vocal f*** do rodrigo mas no fim não precisei explicar muito pois a música já faz isso muito bem por sí só e fomos a unica nota 10 nesse trabalho…
    obrigado dead fish e vão tomar no copo he he he

    rockinrollestanaalma

  3. Lucas Eduardo. disse:

    Show.

  4. Que matéria linda, emocionei e arrepie na maioria dos depoimentos, mas o de gigante e inseguro e mulheres negras foram comoventes demais.
    Eu cresci no HC e devo muito do que sou ao Dead Fish, serei professor de Geografia e com certeza aplicarei DF nas minhas aulas.

    • fbenariomusic disse:

      Muito obrigado, Fabrício.
      Realmente, as histórias verídicas que ilustram a análise das duas canções citadas são fortes e comoventes.
      Fico muito feliz que tenha gostado do texto. O Dead Fish marcou muito a minha adolescência e me marca até hoje, as letras de Rodrigo Lima eram a realidade que eu convivia diariamente e graças a banda eu aprendi a não abaixar a cabeça para qualquer situação conflitante.

      Que você seja um excelente professor de Geografia.

      Um forte abraço e curta a nossa página no Facebook pra ficar ligado em mais novidades.

  5. Loko disse:

    Pareço ouvir cantando mulheres negras, sonho médio e Afásia na.minha cabeça. Ótima reportagem, a ideia de uma educação emancipatória que fala Freire passa por isso! Alunos pensantes e críticos.

    • fbenariomusic disse:

      Loko
      Você citando Freire, me lembrou a frase mais famosa dele “Quando a educação é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor”.
      As letras do Dead Fish nos ensinam claramente sobre isso.

      Muito obrigado

  6. Danilo Fiotti disse:

    Que post (reportagem) sensacional, sem palavras. Parabéns!!!

  7. […] O texto mais lido da história do FBM, no qual professores analisam as letras da banda Dead Fish (aqui), contou com colaboração de três professores da FAPSP, o que demonstra claramente o bom […]

  8. Caras, muito obrigado por me fazerem enxergar um lado da politica do qual eu era extremamente arrogante e ignorante por apoiar. Desesperado pela decadente crise, eu estava cego e apoiando um lado do qual só viria afundar mais ainda. Vocês conseguem abrir os olhos de qualquer um com a musicas de vocês. DeadFish muito obrigado. ^^

  9. nelson disse:

    o texto da Patrícia é sensacional, TODOS os brasileiros tinham que ler isso. Parabéns pelo texto, e seguimos na luta juntos.

  10. pattypaixao disse:

    Muito obrigada, Nelson! Juntos na luta sempre ❤

  11. Paulo Monroe disse:

    Excelente matéria, meus parabéns !

  12. […] certeza o texto “O Hardcore da educação”, professores analisam as letras do ‘Dead Fish’ foi o mais lido de toda a história do Fila Benário Music, só no primeiro dia ele alcançou o […]

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