“Talvez ela não tenha sido estimada como deveria ser”, afirma biógrafo de Elis Regina

Publicado: 26 de outubro de 2015 em Entrevistas
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Julio Maria conheceu a redação de um jornal através de um trabalho como Office boy no extinto Jornal da Tarde. Apaixonou-se pela profissão e decidiu cursar a faculdade. Formado pela PUC (Pontífice Universidade Católica) SP, em 1998, Julio começou a trabalhar na área, por uma incrível coincidência na mesma redação em que ele já havia trabalhado antes como Office Boy. Atualmente, Julio é um dos mais respeitados críticos musicais do país e lançou no dia 17 de março deste ano, o livro Nada será como antes, que pretende ser a biografia daquela que é considerada a maior cantora brasileira de todos os tempos, Elis Regina. Julio esteve presente na Semana Estado de Jornalismo, organizada pelo jornal O Estado de São Paulo, para conversar com os futuros profissionais da comunicação sobre o processo de produção de uma biografia. “Foi fazendo o livro que eu passei a defender que a biografia tem que fazer parte da formação das faculdades”, afirmou ele nessa entrevista onde ainda comentou a questão das autobiografias no Brasil, o jornalismo de sofá e a falta de um novo assombro na música brasileira. Isso e muito mais você confere abaixo!

 

Por Fila Benário e Beatriz Sanz

Beatriz Sanz: Como você iniciou a sua carreira no jornalismo?

Tem uma curiosidade nessa história, quando eu tinha 14, 15 anos eu vim trabalhar nesse jornal como office boy, trabalhei nessa redação aqui (apontando de dentro do estúdio da Rádio Estadão, local no qual acontecia a entrevista, para a redação), ali funcionava a redação do Jornal da Tarde [o antigo JT, extinto desde 2012] aqui no Estadão. Eu trabalhei no JT por quatro anos, até completar 18 anos. Nisso eu sai para servir o quartel e já estava com ideia de jornalismo na cabeça, mas não tinha faculdade e nem nada [risos]. Ai eu servi ao quartel, não porque eu queria, mas porque fui obrigado mesmo. E quando eu saí eu entrei na faculdade de jornalismo. Comecei fazendo Anhembi-Morumbi e depois eu fui para a PUC. E quando eu estava no segundo ano de curso, o primeiro lugar que apareceu para trabalhar foi na mesma redação de quando trabalhei na adolescência, e não foi nenhum contato meu, é até engraçado, foi coincidência mesmo. A menina que estava na minha sala de aula falou: “Olha, eu estou saindo de onde eu trabalho e estão pedindo para indicar alguém e eu estava querendo te indicar”, e nisso eu perguntei: “Aonde que é?”, e ela respondeu: “É no Jornal da Tarde” [risos].
Nisso eu vim tremendo, nervoso pra caramba. Entrei, subi os elevadores, que eu já conhecia desde aquela época. Enfim, eu comecei na época no Jornal da Tarde, em um caderno chamado Divirta-se, cobrindo música já. E isso foi uma coisa legal porque eu tocava, me formei em música também, tive banda, tocava contrabaixo e guitarra profissionalmente na noite, e vim trabalhar em lugar falando justamente disso, acho que foi sorte. Mas depois quando os caras veem que você também tem um jeitinho pra coisa, que quem toca instrumento tem um olhar diferenciado, então eu fui subindo, comecei como estagiário, nisso eu virei o que chamavam de freela-fixo, que era uma mistura de estagiário já virando profissional. Fui contratado e fiquei como repórter por um bom tempo e depois fui subindo, cheguei a ser editor do caderno de Variedades, que era o caderno de cultura do JT, e fiquei 10 anos no jornal.
Em 2009 o Estadão resolveu fazer um caderno de música, o C2+Música, e me chamou para editar. Sai do JT feliz da vida e vim para o Estadão, comecei a editar um caderno semanal e só tinha música, eram oito páginas limpas somente daquilo. Fiz edições incríveis, sabe? De poder fazer reportagem, aprofundar, críticas, um monte de críticas. Eu ia para a terra do Luiz Gonzaga e contava toda a história dele, fazia um especial gigante sobre a sanfona. Também ia para terra do João Gilberto, contava a história dele. Fazia reportagem mesmo.
Até que o caderno durou quatro anos, teve uma reformulação no Estadão e eles tiraram todos os cadernos, o Link, Sabático, o de música, simplesmente tiraram, por crise e tal. E eles mandaram os editores desses cadernos embora, só que o Bira [Ubiratan Brasil] que é o nosso editor no Caderno 2 me falou: “Eu queria que você continuasse com a gente, cobrindo música, fazendo reportagem”. Então eu sou editor de fato, mas na condição de repórter. Eu nem falo que sou editor, eu me apresento como repórter. E apesar de ser muito gostoso fazer [o caderno] música, é muito complicado ser editor e ter que lidar com os egos dos repórteres que se acham, que quer mais espaço, que não sei o que, que eles são incompreendidos. Tem que ter muita paciência, na verdade eu nunca briguei com ninguém, mas depois eu comentava para mim mesmo: “Meu, esses caras são muito chatos” [risos].
E o editor também sai um pouco do combate, sai da rua, que é o lugar onde eu quero morrer, eu quero morrer fazendo matéria na rua. Eu troco 50 cargos de diretor de jornal por isso, eu já falei para o meu editor: “Me deixa como repórter, por favor”. De vez em quando, quando sai algum sub [chefe], eles vem sondar, até porque eu estou ai mais tempo, então eu poderia assumir, mas eu falo: “Oh, vocês vão acabar com a minha carreira sinceramente [risos], eu não vou aguentar e vou ter que sair”.
A reportagem pra mim é o coração da profissão, não tem nenhum cargo pra mim mais tentador do que escrever e descobrir as histórias. Sem isso não faz sentido nenhum pra mim a profissão.

Julio Maria: "Eu quero morrer fazendo matéria na rua"

Julio Maria: “Eu quero morrer fazendo matéria na rua”

Fila Benário: Hoje no jornalismo musical, principalmente com a proliferação da internet, a reportagem tem sido engolida pelo jornalismo de opinião, muito embasado em críticas. O que você acha disso?

Essa questão que você levantou é muito importante, porque, tem duas frentes do jornalismo musical, tem reportagem e tem a crítica. E às vezes a gente mistura as coisas. Nesse momento eu estou questionando isso, e questionando comigo mesmo.
É assim, quando você faz uma reportagem sobre um disco, você vai ouvir o músico. O cara dá entrevista, você ouve o produtor. A reportagem é isso. Nós estamos muito mal acostumados na redação com uma matéria com uma fonte só, entrevistar um cara ta bom. 80% das matérias que saem nos jornais tem uma fonte só, pode até ser falta de tempo, mas eu acho que a gente não pode se contentar. Vamos atrás de mais, vamos atrás, reportagem é isso. A capa do Caderno 2 hoje por sinal [uma matéria sobre a volta da Legião Urbana] é uma reportagem. Fiquei ouvindo um monte de caras, teve uns que não falaram ainda e querem falar agora depois que saiu a matéria, isso é reportagem, você ir atrás de várias fontes e fazer a reportagem.
Quando sai um disco, por exemplo, a Zélia Duncan lançou um disco novo [o disco Antes do Mundo Acabar], o que a gente fez aqui no Estadão? A Adriana Del Ré, que trabalha com a gente, foi lá e fez uma entrevista com a Zélia e publicou uma matéria. O que difere matéria de reportagem é que a matéria tem uma fonte só, nesse caso foi a Zélia. Reportagem pra mim é uma coisa mais sagrada [risos]. Voltando, ela fez uma matéria com a Zélia Duncan, e isso é uma matéria, não uma crítica, mas ela pode trazer um tom crítico, mas eu estou achando que isso não dá certo, não está dando certo. Porque quando você entrevista um artista, você cria um vínculo com ele, e não raramente você começa a defender um pouco a posição que ele te passou. Então isso não é crítica.
Eu já fiz de tudo, eu já fiz esse mix de crítica com matéria, ouvindo o cara e dando a minha opinião, mas esse não é o modo ideal, porque se você contradiz o cara, tudo bem, você pode contradizer, mas você batendo no cara, como você fez a entrevista, não é muito honesto com o entrevistado até porque você estava em um papo descontraído, e de repente no texto você apareça com uma postura de crítico. Eu acho estranho esse formato, pessoalmente eu vou contra agora esse formato que eu mesmo já usei, de juntar crítica com entrevista.
O que, que é ideal hoje a gente fazer? Uma matéria do disco, o repórter vai lá e faz, e o outro faz a crítica. A Folha [de São Paulo] faz isso de vez em quando, e O Globo faz melhor, ele é o que mais está demarcando território nessa área, com selo de crítica, com cinco, quatro, três estrelas, e matéria com o personagem falando. E um detalhe, com repórteres diferentes.
Claro que existem as limitações, aqui no jornal, por exemplo, além de ter pouco repórter de música, os que têm são de áreas diferentes da música. Eu sou da música brasileira, tem um cara que dialoga muito comigo que é o Renato Vieira, que é um cara muito legal, faz um trabalho muito interessante, ele é novo, muito novo, recém-saído da faculdade e sabe tudo de música brasileira, esse vai crescer muito, tenho certeza. O João Paulo faz Rock, ele ta pegando muito a praia de Rock Nacional, anos 80, mas também fazendo a linha underground de bandas novas e tal. E o Pedro Antunes que senta do meu outro lado faz uma coisa mais Rock Internacional, POP mainstream e tal. Então eu tenho dois caras que eu me dou super bem, a gente é superamigo, mas é difícil.
Dando um exemplo, a cantora Roberta Sá lançou um disco novo [Delírio], eu fiz uma entrevista com ela, mas quando eu sentei eu passei por esse dilema: “E agora, eu faço uma crítica ou eu faço uma matéria?”, Qual foi a minha opção? Eu joguei fora a entrevista, claro que eu não joguei ela totalmente fora, ela serve pra embasar a crítica, o que se sabe da história, como ela chegou até aquele disco. Mas eu tinha tanta coisa pra dizer de crítica, que eu achava que era o momento de falar algumas coisas pra Roberta Sá, mas sem ofender, sem ofensa. É como se você estivesse no bar e o músico fosse o seu chegado e você tivesse ali dando um toque pra ele: “Pô cara, se você tivesse feito isso, você tem uma voz tão legal, se você tivesse usado essa voz naquela música teria ficado muito legal”, eu acho que a crítica é isso, você falando com o seu amigo, mas ele não é seu amigo, você nem conhece a pessoa, e é melhor que não seja pra assim você não ficar puxando o saco dela [risos]. Mas é como isso, um papo de bar, com o músico e você dando uns toques pra ele.
Essa crítica da Roberta Sá repercutiu muito e foi muito legal, o editor até me perguntou: “Mas você não entrevistou a Roberta Sá?”, e eu respondi: “Entrevistei, eu tenho a entrevista”, e ele retrucou: “Mas eu pensei que você fosse usar”, e eu não usei justamente pra isso, eu queria demarcar o território, se tivesse mais espaço eu faria a matéria com a crítica junto e eu mesmo faria os dois, o que não está 100% legal também. Mas não, eu fiz só a crítica, uma opção editorial.
Então eu acho que sobre crítica tem um estudo a ser feito porque a gente ainda está em um momento de muita covardia na crítica, a crítica está muito covarde. Eu acho que os jornalistas não querem implodir as pontes. O que, que é isso? Chama-se “queimar as fontes”. Porque o jornalismo está em crise, e o cara fica se perguntando: “E se eu sair daqui pra onde eu vou? Então eu não posso me queimar com fulano”, isso é uma coisa. A segunda coisa, se chama Redes Sociais, por exemplo, o cara fala mal do disco do Emicida, ele vai ser imediatamente exposto na rede social do Emicida que tem 700 milhões de seguidores e vão acabar com esse cara. É verdade, já aconteceu comigo em relação à crítica que fiz ao [rapper] Criolo. Então eu acho que esses são os dois pontos principais do o porquê a crítica estar se acovardando. Eu ainda vou escrever sobre isso, pois está me incomodando muito e tenho pensado bastante sobre isso.
Outra coisa sobre as redes sociais, quem são as pessoas do seu Facebook? Ai você como crítico tem lá o Dado Villa-Lobos (Guitarrista da Legião Urbana), Zélia Duncan, Zeca Baleiro… Aí você vai fazer uma crítica de um trabalho que tem esses caras envolvidos, você vai ficar com receio. Cara, isso é a pior coisa. Se o cara souber separar as coisas você pode ser amigo dele. Vou dar um exemplo, os Titãs, eu fiz uma crítica deles há muito tempo, em 1998, eu estava começando na profissão e quando você está começando você tem um “sangue nos zóio” [risos], e eu peguei pesadíssimo com os Titãs. Não acho que crítica tem que ser assim, mas o empresário deles chegou a mandar uma carta para o jornal pedindo que me demitisse, foi na época que eles lançaram o disco Volume Dois, que veio na cola do Acústico e eu estava indignado com essa postura oportunista deles, enfim eu fiquei indignado. Mas na próxima entrevista eles me trataram muito bem: “Pô, você fez polêmica lá com o nosso disco…”, mas me trataram bem. Todo mundo sabe que o jogo é esse, tem os personagens, eu sou o crítico, tem o produtor, tem o empresário da casa noturna, e o show é feito pelos personagens desse jogo, e o crítico é um deles. Então as pessoas têm que saber os seus lugares.
Então eu acho que essa questão de manter as relações, de quebrar as relações, de manter as amizades está acovardando a crítica. Eu estou muito disposto para voltar a fazer crítica sistemática como eu fazia, separando a crítica de matéria e eu estou pronto para implodir as pontes, eu acabei de implodir uma [risos]. No domingo saiu uma crítica do disco da cantora Célia [o disco Aquilo que a Gente Diz], uma cantora de música brasileira dos anos 70 que teve uma importância, mas ninguém conhece, e eu… é porque eu tenho texto que é bem bonitinho, poétiquinho [risos], e às vezes as pessoas falam: “Ufa, o texto tá com o Julio Maria, ele vai fazer uma matéria”. Aí o cara me mandou o disco achando que ia sair uma coisa assim, bem bonita, poética, falando da vida da Célia, mas não, eu fiz crítica mesmo. Eu ouvi o disco, ouvi o disco, ouvi o disco e comecei a achar muito frágil, e a Célia muito desafinada. Eu juro pra vocês, que pra tirar dúvida, pra embasar mais eu sentei com uma colega minha que é cantora, e eu falei: “Escuta, isso aqui não está desafinado ou eu que estou muito chato?”, e ela disse: “Tá muito desafinado esse disco, ela está muito desafinada”. O produtor jamais deveria ter deixado passar, porque hoje em dia tem o Pro Tools, que não é o correto, mas pelo menos sai afinado, e o produtor não usou nada. Quando eu parei para escrever eu falei: “Não, eu tenho assunto pra fazer uma crítica, eu não vou ficar contando história e nem vou fazer entrevista”, não pedi entrevista, você vê, é uma diferença da reportagem, é o extremo oposto, é melhor não entrevistar nesse caso do que entrevistar e criar vínculo com o artista, então eu fiz a crítica e imediatamente no domingo o empresário dela que era um amigo meu, acredito que ainda seja amigo meu, o Thiago Marques, ele me escreveu dizendo: “Se eu soubesse que você não iria gostar do disco eu teria passado pra outro jornalista que gosta”. Entramos aí em um terceiro ponto, as pessoas não estão aceitando críticas, elas só querem que sai se você falar bem, então são vários pontos que eu tenho percebido que tem deixado os críticos da grande imprensa covardes, amedontrados é melhor. Eles não falando o que deveria falar.

Julio Maria: "A crítica musical está muito covarde"

Julio Maria: “A crítica musical está muito covarde”

Bia: Recentemente, a jornalista Marina Santa Clara Yakabe, que faz assessoria de imprensa dos rappers Emicida e Rael disse em uma palestra para estudantes de jornalismo que: “A importância dos críticos tinha diminuído bastante, porque na década de 90, se um crítico soltasse uma crítica ruim o disco não seria vendido, e hoje se crítico solta uma crítica ruim, o público nem liga”, então como que você avalia essa fala dela?

Ela tem razão, nos anos 90 tinha peso mesmo à crítica da imprensa: “Não vou atrás do disco porque o crítico disse que é ruim”, é mais ou menos o que cinema ainda mantém, e a música tinha isso, mas era na época do vinil, do CD que vendia. Agora as pessoas não estão nem aí, você fala mal, elas não importam, elas vão lá e baixam o disco na frente do computador e tiram suas próprias conclusões. Mas o crítico continua com uma grande importância, sabia? Não querendo puxar sardinha para o nosso lado, mas se não tivesse importância eu não teria tanto pedido por dia pra fazer matéria e crítica como eu tenho agora, eu não dou conta da quantidade de material que eles mandam pra redação. Se não é importante, por que eles pedem tanta matéria?

Fila: Mas esses materiais que você recebe são de artistas consagrados ou de bandas novas?

Dos dois, o problema é que o artista que já está na mídia, a intenção é outra, é se manter no mercado e ter o disco avaliado, cara. É muito louco como a crítica legitima o disco, parece que o disco só passa a existir quando se faz uma crítica dele. Vários artistas dizem: “Pô, por que você não fala da gente?”, “Vocês não deram uma linha pra gente”, eu ouço muito essa frase: “A gente lançou um disco e vocês não deram uma linha”. Então significa que tem uma importância, porque quando você faz, o disco aconteceu, mesmo quando você fala mal. Agora, falar mal é difícil, de verdade. Eu saí daqui na sexta, por causa da crítica da Célia, às 3h da manhã. Se eu tivesse falado bem eu teria saído ás 11h da noite, porque falar bem é ficar fazendo release. Quando um trabalho é bom, ele merece ser dito, você não vai ficar procurando pelo em ovo, ta bom e já era. Agora falar mal requer embasamento, não é só falar que tal música é chata e eu não gostei, que essa ta parecida com outra e tal. Tem gente que faz isso e tem gente que descamba, que começa a justificar que o disco é ruim porque o artista é sem noção, descamba para um linguajar que é muito ruim.
Quando eu faço crítica eu penso assim: “Como fazer esse artista entender que ele pode ser melhor no próximo disco?”, é só isso, eu não quero dizer que ele é ruim, não quero dizer que ele errou, não é julgamento. Sobre a Roberta Sá eu escrevi: “Se você cantar com o coração e deixar essa preocupação técnica que ela tem…”, eu até escrevi que: “A parte técnica está envernizando o canto e é um verniz impede que chegue ao coração das pessoas”. E eu terminei a crítica dizendo: “A voz que sai do cérebro da Roberta é incrível, o dia que ela fazer essa voz sair do coração vai ser um som arrebatador”.
Então é impossível, se o artista ler isso, eu tenho certeza que ele pode me odiar, mas ele vai pensar a respeito. Muitas pessoas vieram me procurar depois dessa crítica e disseram: “Mas é exatamente isso que eu sinto dela e eu não conseguia dizer”, então as pessoas também gostam de ler críticas. A da Célia me falaram: “Poxa que bom, você ta escrevendo com coragem”. Coragem? Mas eu não estou denunciando ninguém [risos] é só uma crítica.
Então eu estou muito envolvido com a crítica de novo, por um tempo eu deixei mesmo de fazer, eu gosto de reportagem, mas eu acho que a gente tem que treinar as duas veias, a crítica e a reportagem.

Julio Maria: "Se a crítica não é importante, por que eles pedem tanta matéria?"

Julio Maria: “Se a crítica não é importante, por que os artistas nos pedem tanta matéria?”

Bia: E qual a relação do crítico com o fã?

Essa relação é tensa, você tem que ter muito estômago, cara. Isso pode acabar com o seu dia, com a sua semana, porque o fã não tem noção, ele xinga a sua mãe, xinga seu pai, ele xinga você, fala que você é um bosta, e nisso você vai treinando. Eu já fiquei chateado pra caramba, eu fiz uma vez uma crítica do Philip Philips, ele foi vencedor do American Idol em 2012, cantou no palco principal do Rock In Rio em 2013, e eu fiz a crítica de uma música que foi Let’s Get it On que é do Marvin Gaye, que eu acho sensacional, está em um altar pra mim essa música, e o cara vai e faz uma versão que não tem o porquê dele fazer aquela versão. A crítica que eu fiz da Célia eu disse que o artista ele tem que sempre fazer uma pergunta pra ele mesmo que é “Por que eu estou fazendo isso?”, tem que ter um motivo, se for exatamente igual o que o outro já fez, não precisa. Se for uma coisa que não trouxe uma informação nova, uma sensação nova, também. E ele não só cantou tudo desafinado como não sei o que aconteceu ali, mas estava muito equivocado o formato que ele apresentou ali, era como se tivesse pegado um violão em casa e tocado, tudo bem, isso pode funcionar, mas ali eu como crítico, com visão você tem a liberdade de expressão de dizer gostei ou não gostei disso. E ai imediatamente os fãs entraram e fizeram uma corrente de trilhões de adolescentes, que não sabem quem é você, e estão detonando você, como se você fosse um monstro.
O pessoal do Rap é um pessoal bem difícil, cara. Eu adoro Rap, eu adoro o fazer matéria com grupo de Rap, tipo o Racionais Mc’s. Eu gosto do fenômeno, de analisar o fenômeno do Rap, e também tivemos vários problemas na redação, o [grupo] ConeCrewDiretoria destruiu um colega nosso. O Rappin’ Hood ameaçou um outro amigo nosso aqui, falou que ia pegar na rua, que ia processar. E era tudo besteira, eles nem lembram mais disso, esqueceram.
Enfim, essa relação é muito tensa, essa relação do crítico com o fã, é uma relação que requer muito estômago e preparo, porque você vai tomar, o crítico faz a crítica, mas a crítica é criticada.

Bia: Que foi que aconteceu com o Zeca Camargo quando ele falou do Cristiano Araujo…

Exatamente, é isso ai. Eu não sei a opinião de vocês a respeito, mas eu achei até coerente algumas coisas que ele falou ali. Em momento algum ele estava menosprezando a família do cara, houve uma corrente de pessoas comentando sem saber o que estava comentando sem conhecer nada e virou o “Tribunal do Facebook” como dizia Tom Zé, tendo as suas execuções sumárias.

Fila: Ainda sobre o novo jornalismo pós internet, hoje existem muitas pessoas dando opiniões do sofá graças as transmissões de festivais ao vivo pela TV, como Rock In Rio, SWU, Lollapalooza e entre outros. E tudo isso vai para um blog na internet. Como você avalia esse tipo de jornalismo?

A gente lê essas coisas assim, tá compartilhado no Facebook, a gente compartilha também, mas eu não vejo uma produção de profundidade. Tem cara que entende muito, mas não tem uma discussão. Eu não lembro de ter lido uma grande crítica vindo de um blog, pode ser que eu não conheça mesmo, mas como o Ricardo Gandour [Diretor de conteúdo do Grupo Estado] falou na Semana Estado de Jornalismo, “Tem que tomar muito cuidado, hoje como todo mundo está escrevendo estão fazendo de tudo, mas nem tudo é jornalismo”. E a crítica é um produto do jornalismo, sou um produto do jornalismo.
Então esses textos traz muita paixão, muita visão de fã, que é uma coisa que nas redações a gente tem que evitar, apesar de ter também . Teve o show do A-ha, veio uma menina lá do Jornal do Carro [Suplemento do Estadão], aí liga lá para assessoria dizendo: “Não, sou eu que vou cobrir o A-ha, porque a gente tem uma sinergia dentro jornal”, não tem nada, ela inventou essa história por quê? Porque ela é fã do A-ha, ela queria ver o show. Olha, o que vai sair dessa crítica eu não tenho certeza se vai sair uma coisa boa. Então existe muito jornalista fã e a morte do jornalismo é essa, o jornalista fã, o cara nem viu, mas ele já gostou, ta emocionadíssimo de estar ali, então ele só vai jogar pra si. E o artista odeia isso, ele odeia babação de ovo, na verdade o cara quer ler uma crítica do cara que vai dizer algo que vai falar: “Puta, o cara viu isso, e eu não tinha pensado”, fala se o cenário não estava legal, a iluminação, ele vê tudo, o show como um todo.
Isso é um preparo, pode ser que tenha uns caras muito bons em blogs, até porque existe jornalista que sai da redação depois de muito tempo e faz um blog.

Fila: Como o próprio Régis Tadeu (Ex-editor da revista Cover Guitarra e atual blogueiro do Yahoo) e o André Barcinski (Folha de São Paulo e blogueiro do R7)

Sim e vários outros. Então, a repercussão ainda é saindo da nova imprensa, dos sites. Saindo da velha imprensa, dos jornais. A verdade é a seguinte, quando você faz um puta de um texto, qualquer um, ele vai repercutir, as pessoas vão compartilhar, você vai ganhar visita, ibope, e a grande imprensa vai atrás de você, você está chamando muita atenção, e é simples blog que pode acabar incorporado na Veja, na Folha, entre outros.
Eu acho que tem espaço para todo mundo, mas ainda é necessário ter embasamento, ter uma proposta mais profissional na crítica convencional.

 Bia: Na sua palestra na Semana Estado de Jornalismo você falou sobre estilo literário. Que quando você vai escrever uma biografia você vai criar um estilo literário. Então como se cria esse estilo literário e como você criou o seu?

Olha, o meu foi muito no dia-a-dia de escrever na redação, eu não sabia pra onde ir, eu não tinha texto, o meu texto era horrível, não estou dizendo que ele é maravilhoso, mas ele era horrível mesmo. Mas eu tentava uma coisa que eu sabia: ou que ou iria dar errado ou iria dar certo, mas eu procurava sempre uma coisa diferente, e nessa procura por uma coisa diferente você erra muito né?
Então pra abrir um texto eu lembro que nunca queria abrir pela notícia, eu queria criar um lead que fosse levar para notícia, mas não como todo mundo faria, então isso me deu problemas também. O meu editor me chamava e dizia: “Pô Julio, o que você escreveu aqui? Nada a ver esse lead aqui, vamos mudar isso”, aí eu mudava o texto, colocava a informação direto, e eu passei uns três anos procurando um estilo.
Mas sabe de uma coisa boa, é ler. Mesmo quando você está na redação, que o seu tempo é pouco, mas comece lendo grandes mestres do jornalismo como Gay Talese, e grandes escritores também, eu acho o Gabriel García Márquez um grande jornalista, e dá pra usar muito no texto, sem poetizar muito, mas às vezes até poetizando, gosto do Mia Couto, eu leio e penso: “Puta, isso aqui eu vou usar um dia, essa sacada do cara é muito boa”.
Então a leitura vai te dando uma identidade e a sua busca vai te dando também. Então eu senti que eu fui criando um jeito de escrever dentro do jornalismo trazendo informação, tá em criação ainda o meu estilo. Hoje se eu for pegar o inicio do livro pra ler, eu vejo umas partes que eu falo: “Eu teria feito isso diferente, com certeza, teria soltado mais”. Eu acho que o texto biográfico pode ainda ser mais solto do que é. A biografia tem um texto muito travado, as biografias em geral. E a cobertura também musical, tem uns clichês que a gente se apega, então tem que tomar cuidado com “Levou o público ao delírio”, ou “Eclético”. Eclético é uma palavra que eu nunca mais li, ainda bem, é uma palavra detestável nas redações. Eclético não quer dizer nada. Dá pra fazer uma lista de termos de crítica musical clichês que quando você não tem muito assunto você começa a usar, tem que evitar [risos].

Fila: Há alguns veículos de comunicação que proíbem o uso da palavra ‘Genial’ pra qualquer tipo de artista em resenhas, críticas ou reportagens, porque é difícil você descrever o que é ser genial.

É aí que o cara se entrega né? É um puta fã que está ali escrevendo! Não tem problema em ser fã, eu sou fã de um monte de cara que eu já escrevi, mas cara não deixa passar isso para o texto né?

Bia: Então nessa área tem que ser praticada a imparcialidade?

Nesse momento sim. A imparcialidade não quer dizer “Não se envolver no contexto”, até porque tem alguns textos chatos que você lê e você não está sentindo nada, e isso pra mim é um problema, pois o texto é tão imparcial que chega a ser técnico, distante e que não envolve. Você tem que se envolver com o texto, eu não conseguiria fazer um texto sem emoção na morte do Dominguinhos, por exemplo. Ou da morte do Ray Charles, ou do Wando, não dá, você tem que transmitir uma emoção, claro que tem que tomar cuidado para não se tornar uma coisa piegas, mas esse não envolvimento pra mim é perigoso, o leitor gosta de envolvimento, cara. Ele não gosta que você fique conduzindo ele pra ele ter a sua opinião, mas ele gosta de envolvimento sim.

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Júlio Maria: “O jornalismo musical tem que tomar cuidado com frases como ‘E levou o público ao delírio'”

Bia: Você falou de envolvimento, principalmente em textos de mortes de grandes artistas, e texto que você escreveu recentemente sobre o [Luís Carlos] Miele foi muito sentimental. Qual foi a sua aproximação com ele principalmente durante o processo de produção do livro?

Foi fundamental, o Miele foi o cara que mudou todo o projeto do livro graças às histórias que ele contou, e várias vezes como fonte eu ia até o Miele e perguntava: “Miele, foi assim mesmo?”. Então ele virou uma fonte do livro, aí quando ele morreu não tinha como. Primeiro que eles (o jornal) queriam dar a contracapa, e eu disse: “Não, ele tem que ser a capa de qualquer jeito, ele foi um cara importantíssimo”.
E o mais engraçado é que eu tinha um lead, que eu devia ter guardado ele, eu não estava nada contente com ele, não estava à altura do cara que tinha morrido, o cara merecia muito mais do que aquilo. Não que eu tive um lead genial depois, mas foi tão melhor, que na verdade ele abria o quarto parágrafo, eu peguei aquela frase e fiz ela virar o lead. Na verdade se torna aquela obsessão pelo lead, e eu lembro que a primeira frase era: “Os vivos ficam mais vivos e os mortos ressuscitam quando o Miele fala sobre eles”. Isso é Miá Couto.
Esse surrealismo de envolver Gabriel García Márquez no texto, eu adoro isso, e o Miele no fim da vida falou que a Elis Regina apareceu pra gente no quarto, é um realismo fantástico, tem uma coisa de Gabriel García Márquez ali.
Então você vê que o jornalismo ele comporta gêneros literários, e quando você pega frações isso faz toda a diferença, uma sacadinha no meio do texto faz algo como “Nossa!”, até porque o texto é tudo igual, mas é um tempero que o leitor vê e diz: “Nossa, me emocionei”, porque ele foi pego por aquilo, por aquele trechinho.

Fila: Agora entrando na biografia da Elis Regina, Nada Será Como Antes, conte para os nossos leitores como foi que você recebeu esse convite e abraçou essa ideia.

Exatamente, eu tive o convite da editora, a Master Books pra fazer a biografia da Elis. Mas a proposta inicial era pra fazer um livro em homenagem a Elis. Livro fácil de fazer, ouvir os amigos da Elis, aspas grandes, nem história eu ia fazer, era só aspa e foto. Aí eu pensei “Puta, tem muita história que eu estou ouvindo”, aí que entra o Miele, que me contou coisas maravilhosas e eu fui lá no livro da Regina Echeveria (Furacão Elis – 1985 – Editora Nórdica) e não tinha nada e eu falei: “Nossa, a gente tem que contar a biografia”. Ao todo, são cinco anos fazendo a biografia, 135 entrevistados nesses 5 anos. Foi aí que eu passei a defender que a biografia tem que fazer parte da formação das faculdades. Eu curti muito e quero fazer outra muito em breve. O que eu aprendi de jornalismo, apuração, coisas que eu já pensei que soubesse, mas quando você está com uma biografia você pensa !cara, esse negócio não pode ter erros”, esse é o drama, não pode ter erros! Porque é uma vida e tem muitas vidas que são afetadas por aquela vida. E os caras estão vivos, os herdeiros, os filhos. Imagina se você põe um termo errado, uma pessoa dizendo uma coisa que ela não fez e depois tem umas 50 mil pessoas que vão ler e isso vai repercutir. Vai falar que a mulher consumiu drogas, que a outra mulher consumiu com ela, que o marido traiu com uma menina nova. Eu coloquei tudo, mas pra isso eu fiz uso de muita apuração. E é um terror! Às vésperas de lançar você não dorme mais, não come, fica só tendo pesadelo de que vão te processar. Graças a Deus, foi lançada em 17 de março e não teve uma pessoa que me procurou pra reclamar. E que bom, porque é muito espinhosa essa história, mesmo que os fatos tivessem acontecido tinha gente que não gostaria de lembrar desses fatos. E ver que saiu e ninguém reclamou me deixa bastante aliviado.

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Bia: Você falou que ninguém reclamou e também já conversou sobre a sua relação com os fãs em geral, mas durante o processo de produção do livro e depois, com o lançamento da obra qual foi a sua relação com os fãs da Elis?

É muito engraçado, os fãs até hoje, eles acham que eu só vivo pra isso (risos), que eu só vivo pra falar de Elis, porque os fãs são assim. A vida dos caras é a Elis, camiseta, no facebook das pessoas é só Elis Regina. E eu tento atende-los legal. Eles me mandam coisas, objetos, depois que o livro saiu eles ainda me mandam coisas. Tudo bem, eu aceito, acho legal. É engraçado porque eles veem você como um contato entre eles e a Elis e é muito louco isso. Os caras vão no lançamento! Eu ainda estou fazendo lançamento. Semana que vem (esta semana) tem em Londrina (PR), depois tem em Santarém (PA), só lugar longe, o que é mais legal.

Fila: Falando da Elis musical agora, porque a Elis é um mito e muitas vezes só se aborda o lado da Elis polêmica ou da Elis mãe, mas falando da Elis musical, alguns críticos afirmam que a Elis foi uma cantora superestimada. O argumento desses críticos é que ela era apenas uma intérprete de músicas de Adoniran Barbosa, Tom Jobim, João Gilberto, ou seja, ela não era uma compositora. Mas muitos outros, a clamam como a maior cantora brasileira de todos os tempos. Nesse caso, você, fazendo a biografia, o que você descobriu da Elis musical: ela era superestimada ou era a maior cantora brasileira?

Eu fico bem preocupada com esses críticos. Eu não entrei como fã, foi uma encomenda, como o editor na redação, me dando uma missão, eu fui atrás da Elis Regina. Então eu não tinha que provar nada, se era ou não cantora. Então eu fui descobrindo detalhes técnicos da Elis, ouvindo, falando com os caras que gravaram com ela, e é absurdo, Elis é um domínio técnico e uma cabeça de instrumentista. A Elis não tem cabeça de cantora, tem cabeça como se fosse de um trompetista, um baixista, um pianista, ela conduz a banda com diálogos rítmicos como um baterista, com improvisos, como se fosse, às vezes, um trompetista também, porque ela possui um recurso de trompete. O Zuza Homem de Mello [jornalista e musicólogo] que me mostrou, ele falou: “Olha só vou te mostrar uma coisa”, me chamou na casa dele só pra mostrar isso, a Elis Regina fazendo um recurso em que ela só mexia a cabeça e é um recurso que eles chamam no trompete de Shaking, que é um vibrato de trompete, ela faz isso na voz. E é só um dos recursos que ela tem. Então, a forma como ela cantava, você pode incluí-la como uma compositora, porque ela recriava. Os caras mandavam as músicas pra ela e às vezes nem reconheciam porque a interpretação da Elis deixava mesmo a marca. Então é inquestionável, talvez ela não tenha sido estimada como ela deveria ser. Ela não foi subestimada, mas jamais ela foi superestimada. E eu te falo, mesmo depois de falar com todos esses caras, de tentar achar desafinação, pra poder falar no livro “A mulher errou aqui”, tanto é que eu faço isso várias vezes, onde ela errou na vida, mas musicalmente falando ela estabeleceu um parâmetro que colocou a música brasileira dos anos 70 lá em cima porque os artistas queriam compor pra Elis. Isso passou a ser uma obsessão do artista da época. Então compondo pra Elis, ele teria o passaporte pra ser um artista de sucesso. Então todos começaram a compor pensando na interpretação da Elis, então tinha que ser algo que ela gostasse. Então o efeito disso foi, mesmo os músicos Gil, Edu Lobo, Chico, Caetano, os músicos já gravados pela Elis tinham esse patamar, mas outros vieram buscar isso como o Ivan Lins, o Hyldon, que nunca foi gravado, o João Donato, o Tim Maia. Mas o Tim Maia era uma coisa a parte, porque ele não estava nem aí, ele era um furacão sozinho. Mas os outros artistas estavam centrados na Elis. Então indiretamente ela fez com que, essa teoria foi criada pelo Ivan Lins e depois o Nelson Motta apoiou o Ivan, então você percebe que existe um crescimento no rendimento da música brasileira muito grande nos anos 70. Isso aconteceu também graças a Elis Regina, a presença dela já fazia com que a cabeça do compositor funcionasse daquele jeito, o cara que queria ser composto por ela tinha que gravar no padrão dela, e o padrão dela era uma poesia refinadíssima, uma harmonia encrencada, não era qualquer uma. Então é uma mulher que tinha uma noção instrumental absurda, de ir ao instrumento e falar “Edu Lobo, esse acorde do piano não é assim”, o Edu me contou isso. E ela não sabia o nome dos acidentes, aí o Edu ia procurando, até achar o acidente. Aí ele falava “Puts, essa mulher tinha razão, era isso que faltava.”, aquele dedinho no piano. Então musicalmente, hão de me desculpar nossos amigos críticos, mas é preocupante isso que eles dizem.

Elis Regina e Edu Lobo

Elis Regina e Edu Lobo

Bia: Nunca haverá outra Elis Regina?

Não. Não pela qualidade, pode aparecer um assombro de novo na música brasileira, porque a palavra que eu uso pra descrever a Elis é assombro. A Elis assombrou a geração dela e a nossa geração não tem um assombro. Eu perguntei esses dias em uma palestra na UNIP se a geração de vocês tem algum assombro, aí alguns meninos falaram Emicida, Criolo… Será que é assombro mesmo o que os caras estão sentindo? Assombro é assombrar! Não é uma expressão, é um assombro mesmo! Esse assombro não acontece, mas eu diria que é pelo momento, A Elis veio num momento de gravadoras, onde você criava ídolos de massa, hoje a internet cria também, mas em menor número. As pessoas não gravam mais obras, álbuns, LPs. Hoje em dia é a faixa, a Elis sofreria muito porque ela gostava de pensar o LP. Imagina a Elis vivendo de clipe? Não ia rolar, então por isso acho que não vai ter outra. Eu acho que a Elis foi única e acho que ela foi a melhor até ela aparecer, tiveram várias maravilhosas, Dolores Duran, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, várias grandes cantoras, aí apareceu a Elis, foi um grande fenômeno. E de lá pra cá, 30 anos se passaram e a gente não tem. “Ah, a Marisa Monte é”, não acho que seja, não com essas qualidades, Tulipa Ruiz não é, Cássia Eller não foi. A Cássia tinha outros atributos, mas não o de grande cantora. Aprendeu a cantar num certo momento, graças ao Nando Reis que domesticou um pouco aquela voz muito selvagem, pro rock era maravilhoso, mas fica só um recurso. Eu vejo cantoras de um recurso, a Tulipa, por exemplo, fui num show dela anteontem e ela tem um recurso que é um vibrato que ela adora usar, ela usa muito aquilo, ela queima muito aquilo aquele recurso dela, em toda música e parece que ela só sabe fazer aquilo então fica muito estranho. Roberta Sá que eu já falei, super cantora técnica, mas não entra em você, sabe, não dá porrada em você, sabe? Fica tudo muito igual. Então, uma dica que eu dou é quando você assistir um show, ouvir um disco, observa se aquilo só te dá uma sensação. Porque tem que ter cores diferentes, tem que ter sensações diferentes. Tem hora que te joga pra cima, tem hora que te joga pra baixo, põe você só pra dançar, põe você pra pensar, acho que isso enriquece o trabalho. E tem artista que é chapado, a mesma vozinha em várias músicas, parece que ele está cantando a mesma música sempre. Então é um momento curioso.

Fila: Sobre isso que você falou, eu estava aqui pensando, eu gosto muito do Pato Fu, acho uma banda maravilhosa pra época em que surgiu, mas a Fernanda Takai não tem variação nenhuma, não é?

Sim, ela não tem muito pra onde ir, mas ela usa essa limitação a favor dela. O Pato Fu soube fazer isso, usar menina sem voz pra ficar fofa. Legal, ficou fofa mesmo, eles conseguiram. Mas ela precisa do Pato Fu. A Fernanda sem o Pato Fu fica meio arriscado, nesse caso, as cores são os arranjos e a banda, mas nunca pela voz dela. Então a Fernanda é um exemplo de linearidade, nunca vai ser uma grande cantora e acho que ela mesma sabe que não é.

Fila: Você mesmo comentou que a Elis teve vários desafetos durante a carreira dela com muitos músicos, muitos artistas. Tem um que parece ser muito histórico, mas muitas pessoas tratam mais como mito do que como verdade, que é a rixa dela com a Nara Leão, outra grande intérprete, mas elas nunca cantavam juntas, nunca fizeram parceria. Quando houve aquela grande Marcha Contra a Guitarra Elétrica [Movimento idealizado em 1967 por artistas da MPB contra americanização da música brasileira], a Elis participou junto com o Gilberto Gil a favor da marcha e contra a guitarra elétrica e a Nara junto com o Caetano Veloso foram contra a marcha. Então, houve mesmo algum atrito entre as duas?

Teve! A Elis foi muito grosseira com a Nara. A Nara era um doce e ela tinha sido quase mulher do Ronaldo Bôscoli, que traiu ela com a Maysa. Foi Nara, Maysa e Elis. Então eu acredito que morava aí um certo rancor da Elis com relação à Nara. E tem outra coisa, a Elis estava sozinha quando ela chegou ao Rio de Janeiro, Bossa Nova rolando, mas ela estava sozinha. Ela não foi da Bossa Nova, nunca gostou. A Nara estava muito enturmada com a bossa, absolutamente querida. Rolou uma ciumeira. E a Elis foi para o ataque, ela sabia que tinha um potencial de voz maior do que a Nara, e eu acredito que ela tenha se encorajado por isso. Tem um episódio, que as duas vão fazer uma foto para a Revista Manchete e as duas se encontram no estúdio pra fazer a foto, e a Elis fala umas besteiras pra Nara e sai. A foto é feita, a foto é maravilhosa, aliás. E o repórter liga pra Elis e liga pra Nara depois. E a Elis solta os cachorros na Nara. Ela diz que a Nara só canta conforme a música porque ela é aproveitadora, e que ela quer se dar bem e é por isso que ela se aproxima do Roberto Carlos, e que ela não sabe o que quer… E quando liga pra Nara, a Nara fala que a Elis é ótima, que elas estão juntas, ela não sabia o que a Elis tinha falado antes. Mas também se ela soubesse, talvez tivesse tido a mesma postura, porque a Nara era assim. Então a Nara ficou muito magoada. E a Elis mostrou quem era, o temperamento de ir para o ataque.

A famosa foto de Elis Regina e Nara Leão para a revista Manchete

A famosa foto de Elis Regina e Nara Leão para a revista Manchete

Fila: Ainda falando sobre as duas, você acha que a Elis soube escolher o repertório melhor que a Nara?

Foi. Eu acho que ninguém foi mais certeira que a Elis no quesito escolha de repertório nos anos 70. E era uma coisa impressionante, ela tocava na pessoa e a pessoa virava um sucesso. Então você pega tudo que ela lançou do Milton, o Gil, o João Bôscoli, Ivan Lins… Essas pessoas, ninguém dava bola pra elas, e a Elis tinha essa visão. A Nara não, ela já pegava coisas consagradas, menos risco. A Elis se arriscava, mas ela fazia aquilo ficar de um tamanho que ficava impossível não valorizar o artista que ela gravava. Então acho que a Elis nesse ponto teve uma vantagem boa. Ela era um Midas, ela tocava nos artistas e aquela produção toda apareceu através dela. E todo mundo corria pra ela também. Artistas que nunca foram gravados pela Elis foram atrás dela e me deram depoimento sobre isso, Alceu Valença nunca foi gravado, mas fez questão de ir lá, mostrar música pra ela. A mulher era impressionante!

Bia: Elis, Renato Russo, Cazuza, são artistas que nos dias de hoje, mortos, estão no patamar de inalcançáveis, mas eles fariam sucesso se estivessem vivos?

Acho que sim, teriam. Porque pega os contemporâneos, Gal Costa tem sucesso, o Ira! tem sucesso e o Frejat também, mas eles não são mitos. A morte traz a condição de mito. A mitificação vem com a morte. E se ela for trágica, então, é instantâneo. Agora é o tempo que faz a morte trágica se converter em mito. Mamonas Assassinas, por exemplo, não virou mito. É um grupo que todo mundo se lembra, teve uma morte trágica, mas ninguém fica regravando as músicas dos Mamonas. O tempo é que mostra. A Cássia Eller está rolando uma mitificação, está começando a ser beatificada. Mas a Elis, no dia seguinte era um mito. Tim Maia: mito! Morreu aos poucos, mas virou um mito. Mas se tivesse aí, não seria tanto, porque estaria gravando coisas muito ruins, como começou a gravar.

Fila: Em casa éramos fãs do Tim Maia, eu cresci ouvindo e me tornei também, mas os últimos discos do Tim Maia em vida eram horríveis e o livro do Nelson Motta afirma que ele já estava numa pindaíba danada, então a morte talvez até tenha feito um bem pra carreira dele…

Talvez ele estivesse gravando até hoje aquelas músicas melosas que não tinha nada a ver com o Tim Maia da década de 70, maravilhoso. O Roberto Carlos é um mito em vida, João Gilberto, mito em vida. Caetano, Chico, Gil, esses já possuem uma condição de mito e vão ser sempre. A morte por si só, não faz isso. Se fossem vivos estariam enfraquecidos. O João Marcelo [Bôscoli, filho de Elis Regina e produtor musical] mesmo diz que a mãe dele morreu na hora certa. Ninguém tem uma imagem dela gravando uma besteira, gravando Greatest Hits, disco de As dez mais, ela nunca fez besteira e não permitia que fizessem também. Então ela está intacta. Você não tem uma imagem dela velha e você não tem um disco dela ruim. Quer mais glória do que essa pra vida de um artista? Ela mesmo dizia que não queria ficar como a Elizeth Cardoso. A Elizeth era maravilhosa, mas estava envelhecendo. Ela dizia “Eu quero morrer como a Janis Joplin”, ela disse isso para o Guilherme Arantes e acabou meio que quase.

Fila: Se você pudesse indicar um disco da Elis pra essa juventude que ainda não a conhece, qual seria?

Sabe um álbum legal, é um disco chamando Em Pleno Verão (1970) que o Nelson Motta produziu e lá tem umas coisas legais, tem Elis cantando Beatles, uma música chamada Golden Slumbers. Porque a Elis se aproximou do rock, o Nelson Motta levava uns LPs pra ela ouvir. Imagina, ela fez uma passeata contra a guitarra! Eu acho que esse disco tem umas coisas interessantes. Mas outro álbum que precisa ser citado é o Elis e Tom (1974). O Falso Brilhante (1976) também é um puta disco, tem umas músicas de pegar os primeiros ouvintes. Porque tem uns discos que são mais pra baixo, eu particularmente gosto da Elis pra cima, não gosto muito dos boleros, [a canção] Atrás da porta [Do disco Elis de 1972] eu acho muito arrastada. É uma opinião minha. Mas eu indico o Elis e Tom e o Em Pleno Verão.

Em Pleno o Verão (1970) e Elis e Tom (1974)

Em Pleno o Verão (1970) e Elis e Tom (1974)

Fila: O mercado editorial está repleto de biografias, nacionais e internacionais. E existe o debate da biografia escrita pelo próprio artista e aquela escrita pelo jornalista. Você enxerga veracidades nessas autobiografias?

No Brasil não. Eu acho que o artista brasileiro se leva muito a sério, aí quando ele vai fazer a biografia dele, se coloca em um pedestal, ele deixa tudo muito denso. Não precisa. É o que eu digo sempre, pega as biografias dos caras lá de fora, Rod Stewart, por exemplo, a biografia do Rod Stewart pra mim é um exemplo de como deveria ser a biografia escrita por um artista. O cara se esculhamba o tempo todo e você passa amar aquele cara mais ainda. Ele fala sobre tudo, até sobre como o nariz dele estava furando de tanta cocaína. Como ele consumia cocaína em forma de supositório, mas ele se esculhamba o tempo todo. O Eric Clapton que lançou aquela biografia mais pesada porque ele é mais sério, mas também reconhecendo todos os pecados. Eu não vejo nenhum artista brasileiro capaz de fazer isso. Uma classe que formou um grupo pra trancar as biografias, você imagina esses caras escrevendo a verdade sobre eles? O Eric Clapton conta como ele ficou com a mulher do George Harrison, ele conta de uma maneira que não é sensacionalista como ele ficou com a esposa do amigo dele que havia morrido. Então você vai por isso na boca do Chico Buarque?

Bia: A própria biografia do Roberto Carlos que ele disse que vai escrever…

Isso vai ser uma tragédia! Você não pode falar nem da perna dele!

Fila: O que você acha da biografia dele, “Roberto em detalhes” feita pelo fã Paulo Cesar Araújo e que foi retirada de circulação pelo próprio Roberto Carlos na justiça?

Eu li e eu acho que é uma biografia de fã. Com todo respeito ao Paulo Cesar de Araújo, um colega, mas é uma biografia de fã. Não tem nada demais. O Roberto Carlos nem leu a biografia e o escritório dele que pediu pra tirar. Mas é uma imbecilidade, porque aquela biografia não tem nada demais. Não fala nem do processo que ele perdeu por plágio para o Sebastião Braga, que é um advogado. O Roberto deveria agradecer ao Paulo Cesar de Araújo e não caçar o livro dele porque fala da perna. Então eu acho que jamais o formato de autobiografia no Brasil vai dar certo. Talvez o Ney Matogrosso pudesse fazer, o Ney é foda. Só que ele receio do Secos & Molhados. A Rita Lee também não porque tem receio dos Mutantes. Ela vai falar que o cara se jogou do prédio por causa dela? Não vai falar. Erasmo Carlos fez um livro com um jornalista ajudando, um livro de “causos” que não machuca ninguém [o livro Minha Fama de Mau, lançado em 2009]. Então esses pudores que a nossa classe tem são muito pequenos. Os caras não estão prontos para fazerem biografias. Lá fora sim! Pega o Keith Richards [Guitarrista dos Rolling Stones] como exemplo. Ele só para de falar porque tem que acabar o livro e é um livro grosso, mas se deixar ele fala mais! Ele cheirou as cinzas do pai dele! Isso é um cara que não se leva a sério. Até o nosso rock é chato. Não vejo nem esses caras falando a verdade. Aí você tem o Lobão que tem mais coragem pelo menos, mas eu acho que é tudo coxinha. A biografia dos Paralamas [do Sucesso] também não tem nada demais. Claro que eles são mesmo mais sossegados, mas você percebe que o formato de autobiografia no Brasil não pega.

Fila: Falando de biografias, quais são as cinco melhores que você já leu, pra indicar para os nossos leitores?

Eu vou chamar os mestres: Chega de Saudade (Rui Castro), vou falar de um livro-reportagem que eu gosto muito que é o Corações Sujos (Fernando Morais), a do Rod Stewart também é sensacional, mas pela postura, o texto dele não é uma maravilha, mas vale a pena; a do Keith Richards também. E a biografia do Garrincha, também de autoria do Rui Castro, aquele lide da biografia do Garrincha pra mim é lindo.

1 - Chega de Saudade (Ruy Castro - 1990), 2 - Corações Sujos (Fernando Moraes - 2000), 3 - Rod, a Autobiografia (Rod Stewart - 2013), 4 - Vida (Keith Richards - 2010) e Estrela Solitária (Ruy Castro - 1995)

1 – Chega de Saudade (Ruy Castro – 1990), 2 – Corações Sujos (Fernando Moraes – 2000), 3 – Rod, a Autobiografia (Rod Stewart – 2013), 4 – Vida (Keith Richards – 2010) e Estrela Solitária (Ruy Castro – 1995)

Fila: Qual foi a entrevista mais marcante que você fez?

Eu lancei um livro só de entrevistas chamado Palavra Cruzada porque era uma sessão que eu tinha no Jornal da Tarde. Era uma página inteira só com entrevista pingue-pongue porque é uma coisa que eu adoro e acho que está em falta nas redações. Tem uma que eu tenho muito orgulho, eu fiquei muito tempo atrás do Mano Brown [líder do Racionais Mc’s]. Foram oito anos, até que um dia eu consegui. Eu lembro que foi uma conquista muito marcante falar com Brown, na época do JT ainda, que não era um jornal tão lido quanto o Estadão. Eu me lembro que logo depois disso o Mano Brown foi para o Roda Viva [Programa da TV Cultura], mas lá ele não rendeu muito, ele ficou nervoso [risos].

Fila: E qual a entrevista que você não fez, mas gostaria de ter feito?

Eu gostaria muito de ter entrevistado o Tim Maia. Ia ser muito divertido. O Tim Maia pra mim era um cara que tinha muito o que falar. Claro que ele devia mentir bastante nas entrevistas, mas era uma figura! Pena que eu não vivi no tempo dele, porque ele morreu em 1997 e eu entrei no jornalismo em 1998, então eu cheguei muito tarde. Mas é o cara! Queria muito ter feito uma pingue com ele.

Fila: Ainda falando sobre biografias, você afirmou em palestra para alunos de jornalismo que “O tempo ajuda o biógrafo” e foi assim com você. A biografia do Tim Maia escrita pelo Nelson Motta é completa [Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia]. Você acha que esses alunos de jornalismo conseguiriam extrair algo mais do Tim Maia?

É verdade, eu esqueci de citar esse livro! E eu acho que sim. A gente tem que encarar a biografia anterior como uma espinha dorsal, já foi traçada. Se for pra você entrar nessa história só pra traçar de novo, não adianta. Por exemplo Getúlio Vargas, vai ser muito difícil fazer uma biografia do Getúlio depois do que o Lira [Neto] fez, o cara virou o Getúlio do avesso. O Tim Maia eu ainda acho possível, porque tem muita história, esses caras deixaram muita história pra trás. Desanima um pouco porque você tem que passar de novo pelas histórias que já estão lá, o terreno já está muito pisado. O Tim Maia está lá, mas você vai ter que recontar a história da prisão nos Estados Unidos, como foi… Eu fugiria um pouco, se viessem me pedir. Acho que você tem que pegar outro enfoque, por exemplo um biografia do movimento Black na música brasileira dos anos 70, isso é uma biografia a ser feita porque os personagens são Tim Maia, Tony Tornado, Gerson King Combo, Hyldon, Cassiano, Carlos Dafé, que aliás o Dafé tem uma história maravilhosa e eu não pus no livro da Elis, mas ele estava preso, escreveu uma música na cadeia e foi levar pra ela. Tem o Dom Salvador, então eu não abandonaria a ideia do Tim Maia, mas eu daria esse enfoque. Aliás, o Sergio Martins da Veja está fazendo isso! Eu tive essa ideia, aí comentei com uma amiga minha e ela me disse que ele já estava fazendo. Aí eu falei pra ele “Sérgio, você não acredita, eu ia fazer isso”, mas ele está muito adiantado! Mas é uma missão fazer uma biografia que já foi feita. Eu acho válido se você estiver disposto a fazer melhor.

Fila: Tem aquela passagem do Tim Maia pela seita Universo em Desencanto que rendeu os discos Racionais (Vol. 1 e Vol. 2). A gente poderia fazer um livro só sobre aquilo ali.

Eu penso muito nisso! Mas você pode fazer (risos)

Fila: A gente faz junto!

Eu acho essa história incrível porque gerou um disco maravilhoso, Tim Maia cantando como nunca, e essa seita louca que ao mesmo tempo apaixonante porque é um personagem incrível, porque a gente tem que ir lá, desmembrar, entrevistar esses caras todos. Eu acredito que seria um puta livro!

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comentários
  1. A Elis não gravou João Gilberto,e eu nunca vi nenhum crítico dizendo que a Elis devia ser compositora.Se fosse, seria apenas uma cantautora e jamais uma grande cantora.Quanto ao disco preferido da Elis,eu concordo com ele,é lindo,só que ele errou o nome.Abs.

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