Fila Benário Fala

Sobre o tema da redação do Enem 2015? Os Titãs já cantaram isso!

Titas-3

No último final de semana, dias 24 e 25 de outubro, aconteceu em todo o país o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), concurso realizado anualmente que seleciona candidatos para cursar nas faculdades publicas e privadas do país, através dos programas propostos pelo governo federal como Sisu, Fies e Prouni.

Como um imenso confessionário que virou, as redes sociais foi o primeiro lugar que os candidatos vieram depositar as suas lagrimas após dois dias e dez horas provas ao todo. Mas para o espanto geral, ao invés de reclamações de quão difícil estava prova e talvez tão distante o desejo de cursar o ensino superior, a principal queixa foi o tema da redação proposto na avaliação desse ano: “A persistência da violência contra mulher na sociedade brasileira”.

É do conhecimento de todos que em redações de vestibulares e concursos públicos como o Enem, os temas são selecionados a partir da vivencia cotidiana. O primeiro Enem que eu prestei no último ano de ensino médio, em 2005, o tema era “O Trabalho Escravo Infantil”. Sete anos depois quando prestei o Enem novamente, o tema por sua vez era “A Lei Seca”, e no ano seguinte quem prestou se deparou com o complexo tema da “Publicidade Infantil”. Portanto não deveria ser motivo de espanto a temática proposta pelo MEC (Ministério da Educação) nesse ano.

No entanto o regresso que tem caminhado a nossa sociedade brasileira, acabou reclamando e acusando o tema de ser voltado apenas para classe feminista e afirmando ser um assunto levantado e conclamado apenas pela classe de orientação política à esquerda.

É possível ver em algumas postagens em blogs, páginas e perfis nas redes sociais, manifestações preconceituosas, machistas e contrárias à proposta do tema, o que nos leva a discutir e refletir: para onde está caminhando a nossa sociedade? Que mundo pretendemos deixar para os nossos filhos quando o tema “Violencia contra mulher” virou apenas um panfleto da turma da esquerda, dos comunistas e petralhas?

Entre muitas das barbaridades que li e reli à exaustão nas redes sociais, um ser teve a capacidade de dizer que “91,5% dos homicídios que acontecem no país as vitimas são homens, e porque as mulheres se sentem no direito de se vitimar por ‘apenas’ apanhar em casa? E o que que o Enem tem a ver com isso?”.

Nos homicídios que acontecem em nosso país em que as vitimas são homens, nenhum deles foram mortos pelo simples motivo de serem homens. Com certeza nenhum deles foram estuprados em uma viela escura no meio da noite por apenas estar trajando uma saia ou um shorts.
Eu utilizo o transporte metroviário todos os dias e nunca fui encoxado ou sofri qualquer tipo de constrangimento ou violência sexual, no entanto tive que intervir diversas para que mulheres não passassem por essa situação deplorável.

As mulheres que sofrem violência doméstica elas conhecem o seu agressor, por muito tempo foi aquele homem que na juventude tratou com carinho, respeito, fez juras de amor, deu flores, cortejou e a fez sentir amada e desejada, e que após o matrimônio consumido ele tirou a sua liberdade e o sorriso dos lábios. Em seus olhos no lugar dos brilhos de outrora uma grande mancha roxa estampa o drama vivido por milhares de mulheres que o Enem resolveu dar voz e principalmente conscientizar a população desse drama existente e recorrente. Mas a segunda parte, para muitos, infelizmente não funcionou.

No Brasil, segundo as estatísticas, a cada 5 minutos uma mulher é agredida em casa. Em pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), 48% das mulheres entrevistadas declararam que sofreram agressão dentro de casa. 3 em cada 5 mulheres já sofreram agressões em relacionamentos.

Desde que foi sancionada em 2006, a Lei Maria da Penha, que pune e coíbe a violência doméstica praticada contra as mulheres no Brasil reduziu em 10% o número de homicídios domésticos, mas ainda tem muito o que lutar para extinguir de vez a violência contra mulheres, e quando a gente percebe que debater um assunto como esse ainda causa desconforto e rispidez no próximo a ponto de afirmar que o tema proposto pelo Enem na redação não passou de uma doutrinação feminista, percebemos que o caminho será longo.

Maria da Penha, que deu nome a lei que coíbe a violência doméstica.
Maria da Penha, que deu nome a lei que coíbe a violência doméstica.

Só espero que nenhum desses babacas que foram contrários à proposta do Enem sejam fãs dos Titãs ou tenha o cd Nheengatu na sua prateleira.
Lançado em 2014, o 12º álbum do estúdio dos paulistanos do Titãs foi uma verdadeira volta às origens, tanto pela sonoridade, que veio pesada, coesa e direta como nos melhores momentos da banda nos célebres discos Cabeça Dinossauro (1986) e Jesus não tem Dentes no País dos Banguelas (1987). Como nas letras, o seu grande trunfo, carregando temáticas políticas e sociais como a violência policial (Fardado), o preconceito racial e homossexual (Quem São os Animais?), fofoca (Fala, Renata), Pedofilia, na música de mesmo nome, e principalmente a violência doméstica sofrida pelas mulheres na letra Flores pra Ela.

Composta pelo tecladista Sérgio Britto e cantada com muita maestria e força por Paulo Miklos, a letra sintetiza muito bem o universo das mulheres que sofrem agressão do esposo. A mulher tem a sua liberdade tirada, ela não pode vestir as roupas que quer, algo que fica explicito no trecho: “Cala essa boca que isso não é direito, troca essa roupa que isso eu não aceito”. No entanto ela a música também faz uma critica a sociedade machista que se esconde atrás de supostas gentilezas, que como diz a o título da canção e fica a mostra no refrão da: “E leva flores pra ela, e faz loucuras por elas”, e está tudo bem assim.

Flores Pra Ela

Letra: Sérgio Britto

Diz ele que é
Um homem qualquer
E é louco por ela
Diz ela que é
Que é só uma mulher
E aceita ou lhe espera

Ele é o dono, ela é o cão
E não tem nem como
Ela dizer não

Ele é o senhor
Ela é a escrava
Ele é o doutor
Ela não é nada

Mata e leva flores
Mata e morre de amores
‘Cala essa boca que isso não é direito
Troca essa roupa que isso eu não aceito’

Mata e leva flores
Mata e morre de amores
‘Cala essa boca, tira esse sapato
Troca essa roupa e vai chorar no quarto’

E leva flores pra ela
E faz loucuras por ela
E leva flores
E faz loucuras

Ele é o dono, ela é o cão
E não tem nem como
Ela dizer não

Ele é o senhor, ela é o bicho
Ele é o doutor, ela é o lixo
E leva flores pra ela
E faz loucuras por ela
E leva flores
E faz loucuras
E leva flores pra ela
E faz loucuras por ela
E leva flores
E faz loucuras
E leva flores
E faz loucuras
Por ela
Por ela
Por ela

Se alguém lembrou dessa letra ao fazer a prova, meus parabéns. Agora se alguém já até cantarolou essa música, diz ser fã dos Titãs, mas achou o tema do Enem uma doutrinação feminista, marxista, comunista e assunto da turminha da esquerda. Talvez o seu lugar não seja em uma universidade.

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