Enquanto lá o Noel Gallagher anda de metrô, aqui proíbem bicicletas e a Paulista aberta

Publicado: 28 de outubro de 2015 em Fila Benário Fala
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Uma simples foto circulou com gana e vontade na internet no dia de ontem, a imagem do Noel Gallagher (ex-guitarrista e líder do Oasis), sentado no metrô indo participar do show do U2 em Londres.

A imagem virou alvo de comoção coletiva nas principais redes sociais, eu que sou adepto do transporte sobtrilhos todos os dias na minha ida para a capital paulista, senti representado vendo o meu grande ídolo usando o mesmo transporte do que eu. Claro que com mais eficiência, velocidade e menos problemas do que a linha paulistana.

Noel Gallagher andar de metrô não é novidade, quem conhece a história do músico sabe muito bem que nem habilitação para carro ele tem, portanto ele faz o uso diário do transporte público. Em entrevista para a revista Rolling Stone em 2011 ele afirmou: ”Eu não dirijo, é mais fácil andar de transporte público. O máximo que acontece é alguém pensar: ‘Hum… esse é o… não, não pode ser…’ E se alguém chega e diz: ‘Você é o Noel Gallagher?’ É só responder: ‘Não. Não’. E a pessoa olha e pensa: ‘Não é mesmo?’ E você só diz: ‘Não’. E a pessoa vai embora.

E não é só Gallagher que faz uso do transporte público na Inglaterra, Paul McCartney já revelou para mesma Rolling Stone, em 2010, que utiliza o metrô e que passa despercebido entre os anônimos que pensam: “Deve ser um sósia, jamais Paul McCartney estaria usando metrô”.

Tais atitudes mostram o quanto a mentalidade da sociedade brasileira está em ligeira desvantagem quando se trata de muitos assuntos. Esse texto pode soar como a chamada “síndrome de vira-lata”, mas convido a todos para fazer um pequeno exame de consciência para refletirmos sobre o caso.

Enquanto Noel Gallagher utiliza o transporte público no seu dia-a-dia em Londres, aqui no Brasil, principalmente na maior cidade do país, marginais são engarrafadas diariamente com carros portando apenas o condutor. Pesquisas realizadas pela CET (Companhia de Engenharia e Tráfego) mostram que a média de passageiros por carro no trânsito de São Paulo é de 1,4. E a mesma pesquisa revela que apenas 42% dos carros carregam mais de um passageiro.

Trânsito paulista em um dia comum

Trânsito paulista em um dia comum

Em outra pesquisa da CET feita em 2011 revelou o perfil do motorista paulistano, o perfil motorista solitário. Cinco motoristas diferentes moram no mesmo bairro, trabalham na mesma empresa, no entanto os mesmo vão em carros diferentes. As cinco pessoas poderiam dividir o mesmo carro, ou utilizar o mesmo transporte público, que ocuparia menos espaço na pista do que os cinco veículos.
“Mas vai comparar o metrô que o Noel Gallagher usa em Londres com o transporte daqui”, diz um qualquer e até mesmo eu utilizei essa fala no início do texto.

E não dá mesmo pra comparar. O site do G1 publicou recentemente uma matéria mostrando quais as linhas da CPTM (Companhia Paulista de Transportes Metroviários) deram mais problemas em 2015, e a linha Rubi, que interliga as cidades do interior paulista como Jundiaí, Francisco Morato, Franco da Rocha, Caieiras, com a capital paulista, foi campeã com 82 falhas em um ano que ainda não terminou. Eu utilizo essa linha todos os dias, vivi na pele cada uma das 82 falhas e paralisações descritas pelo G1.

Linha Rubi em dia comum

Linha Rubi em dia comum

E pra isso eu levo a outra reflexão, em 2012 o governo federal liberou para o governo do estado de São Paulo uma verba no valor de R$ 3,3 Bilhões destinados para manutenção do transporte público e criação de novas linhas metroviárias. O governo do estado, na pessoa do governador Geraldo Alckmin prometeu novas linhas de metrô em bairros como Vila Sônia, São Joaquim, Brasilândia e Chácara Klabin.
Resumindo, quatro anos se passaram e os trens e metrôs de São Paulo continuam com a mesma ineficiência de sempre, e as novas linhas não só não foram criadas como o mesmo governador colocou um sigilo de 25 anos nos documentos do metrô, evitando por parte pública, do ministério público e da imprensa qualquer especulação e descoberta de corrupção  entre o governo do estado e as empresas de transporte sob trilhos.

Então pra onde foi todo esse dinheiro? E cadê o povo com as camisas amarelas fechando a Avenida Paulista para protestar por isso, exigindo um transporte público de qualidade?

São coisas que não entram na minha cabeça, a prefeitura da cidade de São Paulo fecha a principal avenida da cidade aos domingos para proporcionar lazer e cultura para as famílias e é duramente criticada pelas mesmas pessoas que fecham a mesma rua para protestar contra o governo corrupto, mas nesse mesmo protesto não se vê uma faixa levantada contra a corrupção no metrô e na CPTM proporcionada pelo próprio governo do estado.

Avenida Paulista aberta aos domingos

Avenida Paulista aberta aos domingos

Enquanto a nossa sociedade tiver essa mentalidade tacanha e essa indignação seletiva, a imagem de Noel Gallagher andando de metrô será apenas um objeto de admiração para nós e não uma realidade.

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