Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Lírico interpretam o ‘Réquiem de Verdi’ no Theatro Municipal

Publicado: 11 de novembro de 2015 em Willian Abreu Fala
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Por Willian Abreu

A palavra Réquiem em latim pode ser traduzida literalmente como “descanso” ou “repouso”.

Dentro da liturgia católica a Missa de Réquiem é oferecida para o repouso da alma de uma ou mais pessoas falecidas. Segue a forma do Missal Romano e é celebrada na ocasião do funeral ou homenagem póstuma.

Dentro da história da música muitos compositores tomaram por encomenda a composição de peças em forma de missa, seja solene ou fúnebre, onde o compositor trabalha sobre o texto (no rito católico em latim) de maneira a transformá-lo em música. Temos, portanto uma missa cantada de forma completa.

De Bach a Villa-Lobos o repertório de composições realizadas sobre o texto católico é imenso. Mozart escreveu diversas missas, e uma de suas composições mais famosas é uma Missa de Réquiem, a qual não se sabe ao certo quem foi o autor da encomenda, mas Mozart trabalhou nessa missa durante um tempo e não conseguiu termina-la antes de sua própria morte. É uma das obras mais enigmáticas do repertório clássico e envolta em muito mistério. Após a morte do compositor foi concluída por um de seus alunos e é uma das peças fundamentais do repertório clássico.

O fato é que ao longo do tempo os homenageados por essas missas caíram um pouco no esquecimento e a música permaneceu no repertório, sendo que hoje não necessariamente essas peças são executadas na ocasião de morte de alguém ou para homenagear uma pessoa que já morreu, mas devido à beleza, complexidade e riqueza de orquestração muitas dessas missas fazem parte do repertório das orquestras e são programadas dentro das temporadas regulares dos teatros.

Seguindo essa linha, o grande compositor italiano Giuseppe Verdi compôs por ocasião da morte do poeta, também italiano, Alessandro Manzoni uma missa de réquiem que foi estreada em 22 de maio de 1874 um ano após a morte do escritor como homenagem póstuma.

Sobre o texto católico Verdi realiza uma composição com uma carga dramática intensa em todas as passagens. É impossível não notar o caráter operístico de sua Missa de Réquiem. Como grande compositor de ópera que foi, Verdi compõe para uma grande orquestra, coro duplo e 4 solistas vocais. Sua missa é composta por passagens corais gigantescas, duetos, trios e quartetos com os solistas que são de uma beleza incrível.

Nesta última quinta-feira (05/11) estive no Theatro Municipal de São Paulo para acompanhar a apresentação dessa grande obra. Subiram ao palco a Orquestra Sinfônica Municipal acompanhada pelo Coral Lírico do Theatro Municipal e pelos solistas Lidia Schaffer mezzo-soprano, Elaine Morais soprano, Fernando Portari tenor e Carlos Eduardo Marcos baixo-barítono todos sob regência do maestro John Neschling.

Antes de entrar nos pormenores da interpretação paulistana mostro abaixo a descrição da peça:

  • Requiem:
    • Requiem e Kyrieeleison (coro, solistas)
  • Dies irae:
    • Dies irae,
    • Tuba mirum, Mors stupebit(coro, baixo)
    • Liber scriptus(mezzo-soprano, coro)
    • Quid sum miser(soprano, mezzo-soprano, tenor)
    • Rex tremendae majestatis(solistas, coro)
    • Recordare(soprano, mezzo-soprano)
    • Ingemisco(tenor)
    • Confutatis(baixo, coro)
    • Lacrimosa(solistas, coro)
  • Ofertório(solistas):
    • Domine Jesu Christe
    • Hostias et preces
  • Sanctus(coro duplo)
  • Agnus Dei(soprano, mezzo-soprano, coro)
  • Lux aeterna(mezzo-soprano, tenor, baixo)
  • Libera me(soprano, coro):
    • Libera me
    • Dies irae
    • Requiem aeternam
    • Libera me

Devo dizer que a interpretação não me agradou por completo, a peça demanda uma orquestra grande e um coral com pelo menos 80 vozes e solistas de fôlego. A Orquestra Sinfônica Municipal sob regência de seu maestro John Neschling proporcionou momentos de grande beleza, mostrou que tem força suficiente para encarar o poderoso Dies Irae mas também sutileza ao iniciar a execução em pianíssimo (tocando bem baixo) no começo da peça, onde contrabaixos e violoncelos fazem uma breve introdução para acolher a entrada do coro cantando em um sussurro “Requiem Aeternam, dona eis Domine” (Descanso eterno, dai-lhes Senhor).

O sussurro no coro é interrompido por uma entrada forte do tenor entoando a parte inicial do Kyrie, devo dizer que houve problemas sérios na entrada do tenor Fernando Portari com relação à afinação. Aqui Verdi faz com que todos os solistas entoem um após o outro o Kyrie eleison (Senhor tende piedade) o baixo-baritono Carlos Eduardo Marcos, a soprano Elaine Morais e a mezzo-soprano Lidia Schaffer tiveram desempenho correto, porém, me pareceu haver certo desequilíbrio nas interpretações.

Encerrada essa parte o coro entra forte entoando o Dies Irae (Dia da Ira do Senhor onde tudo terminará em cinzas), devo destacar o bom desempenho da orquestra e do coro que realizaram uma bela interpretação. Após o Dies Irae a obra se torna completamente operística, a exigência de Verdi para os cantores solistas é imensa e a meu ver faltou à direção do espetáculo selecionar cantores com maior capacidade vocal. Para uma obra dessa magnitude digamos que uma orquestra com 70 músicos mais 80 coralistas seja uma barreira praticamente intransponível para solistas de pouca potência vocal.

Em muitas passagens era visível o esforço dos solistas para serem ouvidos perante uma massa orquestral tão intensa. Nas passagens onde haviam os belíssimos duetos, trios e quartetos escritos por Verdi para os solistas não pareceu haver qualquer interação na interpretação, soando um pouco frio. No Recordare espera-se um entrosamento entre soprano e mezzo-soprano que não houve.

O Ingemisco é uma parte solo para o tenor, Fernando Portari foi correto e devo dizer que diminui um pouco o estrago que fez no começo da peça. No Confuntatis parte solo para o baixo-barítono me pareceu um pouco tenso o cantor Carlos Eduardo Marcos, no Liber Scriptus parte solo para a mezzo-soprano faltou a Lidia Schaffer potência vocal para alcançar as notas mais altas.

Fiquei especialmente decepcionado com a interpretação da parte final, o Libera Me, onde deve brilhar a voz da soprano solista. Uma interpretação apagada da Elaine Morais que não esteve à altura de seu desafio ou simplesmente estava poupando a voz para o concerto do dia seguinte.

De maneira geral valeu ter ido ao concerto para acompanhar uma obra dessa magnitude com um elenco 100% nacional. Devo dizer que todos são grandes cantores e com muito potencial, porém, uma obra pesada como essa exigiria cantores mais robustos.

A vida de quem acompanha a música clássica é assim mesmo, dias muito bons e dias mais ou menos. Quando voltamos pra casa pensando: Poxa, achei que poderia ter sido melhor.

Veja abaixo alguns vídeos do Réquiem de Verdi em diversas apresentações:

Perfil - Willian Abreu

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