ENTREVISTA – Canisso (Raimundos): “A galera quer ouvir os clássicos e quer garantia de que a gente vai tocar”

Publicado: 30 de novembro de 2015 em Entrevistas
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Foto por Giuliano Martins

Foto por Giuliano Martins

Na última sexta-feira, dia 27 de novembro, o Sesc Jundiaí recebia em sua unidade um dos maiores nomes do Rock nacional dos últimos 20 anos, o Raimundos.
Com duas décadas de carreira, oito discos lançados e mais de 5 milhões cópias vendidas, o Raimundos tem o seu nome cravado na história do gênero no Brasil. Se no surgimento da banda, em 1994, a mesma causou furor devido a salada musical que mesclava o pesado Hardcore com elementos da música nordestina, três discos depois o Raimundos já era representante massivo de uma geração musical que ditava as próprias regras e tinha liberdade de escolha e sonora. Em 1999, com o lançamento do disco ‘Só no Forévis’, o grupo alcança um status inimaginável, com a sua música sendo consumida de maneira feroz pela massa e com apresentações diárias nos principais programas de TV.
Do topo para o lodo, com a saída do vocalista Rodolfo Abrantes, os Raimundos tentaram sobreviver, gravam mais um disco, EP virtual, perde integrantes fundadores, mas parafraseando o trecho de ‘Marujo’, “Quem disse que o Raimundos vai se acabar?”. Hoje a banda renasce como a fênix, saciando os velhos fãs e agregando novos para sua trajetória. Se guitarrista Digão assumindo os vocais do conjunto já era um sinal de inovação, hoje a banda mostra que inovar é um lema latente, afinal de contas o seu penúltimo registro de estúdio, o disco ‘Cantigas de Roda’ (2014), foi totalmente bancado pelos fãs via financiamento coletivo pela internet, e foi nessa mesma rede que os fãs votaram em vinte canções que forma o repertório dessa turnê que comemora os 20 anos da banda.
Antes de subir no palco do Sesc Jundiaí, o baixista Canisso bateu um papo conosco e falou sobre a participação dos fãs no setlist dos shows, além de revelar as suas canções favoritas da banda e contar um pouco também das gravações do CD/DVD ‘Cantigas de Garagem’.
O bate-papo, na íntegra, você acompanha abaixo.

Esse show que vocês apresentam aqui em Jundiaí, é a turnê que comemora os 20 anos de carreira dos Raimundos e o setlist dela foi montado pelos fãs através de votação pela internet. No entanto os fãs optaram por um repertório óbvio, com canções que já são costumeiras no repertório da banda, ao invés de votar em canções que o grupo nunca executou ao vivo. Como vocês reagiram a isso?

Eu tenho uma teoria pra isso. Quando a gente fez a turnê do ‘Cantigas de Roda’ (2014), muitas pessoas vinham até nós, na passagem de som, e perguntavam se a gente ia tocar os clássicos. Porque quando você lança um disco novo as pessoas têm medo que você pare de tocar as músicas antigas. Então muita gente chegava nos shows e perguntava: “Cara vocês vão tocar ‘Eu Quero Ver o Oco’? Vão tocar ‘Putero em João Pessoa’? ” E a gente respondia: “Mas é claro que vamos tocar, faz parte do repertório essas canções”, eles retrucavam: “Mas é que eu pensava que como vocês estão lançando disco novo, vocês só iriam tocar músicas novas”. Então tem uma tendência de as pessoas acharem que porque você lançou um trabalho novo você vai renegar o seu passado.
E quando a gente fez 20 anos do lançamento do primeiro disco [o disco ‘Raimundos’ de 1994], a gente não achou novidade fazer um setlist tocando as músicas do primeiro disco em ordem, porque a gente já tinha feito isso quando disco fez 15 anos, aí eu pensei: “Cara, a gente vai fazer isso de novo? Tocar as músicas do primeiro disco em ordem? ”, poderia até ser, mas os 20 anos de carreira da banda não poderia passar em branco, teria que ter alguma coisa de diferente. Aí no meu aniversário no ano passado, em dezembro, eu falei nas redes sociais: “Cara, sabe o que vocês poderiam me dar de presente de aniversário? Um setlist com as músicas que vocês querem ouvir no show dos Raimundos”. Eu provoquei a galera justamente pra ver se sairia nessas escolhas algum lado b, ou aquela música que você nunca iria imaginar que os caras queriam ouvir, mas é engraçado que rolou exatamente isso, 90% das músicas que estão no set são músicas que sempre estiveram, os clássicos mesmo.
Então chegamos aquela conclusão novamente, a galera quer ouvir os clássicos e quer garantia de que a gente vai tocar. Então quando a gente fez uma enquete, eles votaram nos clássicos. Tem pouquíssimos lados b, é tipo, basicamente se você tirar o setlist dos 20 anos é um show normal do Raimundos que a gente vinha tocando.

Eu tomei a liberdade de analisar o repertório e constatei que das 20 músicas escolhidas, 16 são sucessos radiofônicos.

Exatamente. E até as mais lado b que chegaram a atingir uma votação expressiva nessa enquete, são músicas que a gente já toca a bastante tempo. Nos ensaios até comentávamos: “A gente até vai tocar essa música, só que essa música a gente sabe que no show ela não funciona tanto”. Ela é uma música legal de ouvir, você ouvindo no seu carro, cantando junto, mas no show ela não representa tanto quanto as outras.
Eu sempre falo assim: “Dá um voto de confiança pra gente, a gente sabe o que estamos fazendo aqui em cima, sacou? ”. O setlist é basicamente isso, deram a carta branca porque já era o mesmo que a gente já vinha tocando, então tá tudo em casa.

Se você pudesse montar um setlist especial, quais músicas ele teria?

Seria só lado b. As que eu mais gosto são as mais obscuras [risos]. Do segundo disco mesmo [‘Lavô tá Novo’ – 1995] eu gosto de ‘Cabeça de Bode’, que eu conto nos dedos quantas vezes a gente tocou. Pô, no Lapadas [do Povo – 1997], tem várias músicas que eu adoro e poucas músicas entram no repertório. Acho que só na época que a gente fez turnê do Lapadas que a gente tocou elas.

O Lapadas do Povo é um disco difícil de entrar no repertório da banda, tanto que no MTV Ao vivo foi até surpreendente a presença de ‘Oliver’s Army’ [Cover do Elvis Costello gravado no disco] no show. Porque ele é renegado?

Mas nesse set agora a gente tem tocado ‘Andar na Pedra’ e temos tocado até algumas coisas do ‘Cesta Básica’ (1996), como ‘Papeau Nuky Doe’. Mas é aquela coisa, são músicas que são tão legais, mas são tão obscuras, que galera meio que fica assim [nessa hora Canisso faz uma cara de espanto], e a gente precisa do feedback, precisa da galera agitando se não a gente também dá uma broxada. Se o cara broxa ali a gente também broxa aqui, e acaba um vira pra um lado, um vira pro outro e bota a cabeça no travesseiro e vai dormir [risos], e não é isso, a gente quer pegada [risos]. Então a gente já tem uma noção do que funciona, então eu só quero isso, um voto de confiança. Deixa a gente “trabaia” [risos].

Foto por Geovana Martinez

Foto por Geovana Martinez

Falando do ‘Cantigas de Garagem’ que vocês lançaram recentemente, ele é um ao vivo no estúdio com o repertório do último disco de vocês, o ‘Cantigas de Roda’. Além da ausência da plateia, qual é a diferença da gravação de um disco dessa maneira, para um ao vivo “convencional”?

Vou te explicar, esse disco ‘Cantigas de Garagem’ ele é a reedição do ‘Cantigas de Roda’. O Cantigas de Roda é disco exclusivo para o crowdfunding [financiamento coletivo na internet]. Ou seja, só quem tem e ouviu esse disco foi quem contribuiu para o crowdfunding, não havia em nenhum outro lugar para ouvir.

Mas teve muita gente que realizou download ilegal do ‘Cantigas de Roda’ em sites de compartilhamentos de música, não teve?

Teve sim, muito. O cara pode baixar o disco ilegalmente na internet, queimar as músicas em um CD ali, mas esse CD é um CD exclusivo. Ele não foi colocado para vender, ele foi vendido antecipadamente pelo crowdfunding, então ele é um projeto fechado, foi um sucesso, atingimos as metas, vendeu, e pum, encerramos o projeto. Só que o que que aconteceu? Surgiu uma demanda muito grande, as pessoas queriam ouvir as músicas. E quem não baixou, quem não comprou? E aí? Como é que faz? Eu quero! Eu quero comprar.
Até hoje muitas pessoas nos pedem, “Oh vende pra gente o Cantigas de Roda”, e não dá, porque a proposta é que ele fosse um disco exclusivo para os apoiadores. Uma das coisas que foi legal foi a oportunidade de propostas que foram surgindo, a gente vinha de um trabalho totalmente independente e o sucesso do crowdfunding nos deu a legitimidade de receber propostas de gravadoras. Várias, não foram poucas, foram várias, e a gente só se deu o trabalho de escolher qual deu mais liberdade de ação pra gente.
Nisso pensamos: “Agora nós estamos com um contrato, temos uma gravadora, o que, que a gente vai fazer? Qual é o primeiro produto que vamos fazer? “, meu, o primeiro produto que todo mundo quer, que nego quer ouvir as porras das músicas, é o Cantigas de Roda. Mas como que a gente vai fazer isso? Vamos fazer um DVD, pensamos. Mas como? Um DVD em um lugar? Não, vamos gravar tudo junto e vamos ver como é que fica. Mostrando a gente tocando e tal. E eu acho muito mais legal que o Cantigas de Roda, impressionante. Apesar da quantidade de recursos que em uma gravação separada é muito maior, eu acho que esse Cantigas de Garagem tem mais sangue, ele tem mais alma porque é a banda tocando, não tem overdubs ali, é só a banda tocando e eu acho muito mais foda. Até porque é o nosso som, os nossos timbres, os nossos amplificadores, é como você pegar o palco do Raimundos e gravar.

Quem assiste ao DVD realmente vê a banda vibrando tocando as canções.

Exatamente. Foi muito bom, na época foi muito bom. Mas eu volto para a primeira pergunta que você fez, a gente fez uma turnê dos dois Cantigas e uma das coisas que eu mais sentia era nego com medo da gente não tocar os clássicos, isso bateu na enquete. Nego falava: “Oh, Cantigas? Joia, músicas boas e muito legais, só que a gente quer ouvir os clássicos, vocês podem até tocar as ‘Cantigas’, mas queremos os clássicos”. Foi isso que a enquete mostrou pra gente.

Foto por Geovana Martinez

Foto por Geovana Martinez

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comentários
  1. […] estudante de jornalismo Vinícius Vieira de Oliveira, que comanda o blog Fila Benário Music estreia no Onde Ir em Jundiaí com sua coluna de entrevistas em grande estilo com Canisso, baixista […]

  2. Dione cardoso disse:

    Muito fã dos Raimundos desde garoto,sou de Manaus e todas vezes que eles vem eu estou presente,daleb Raimundo e nós ,nunca se esqueçan que Manaus e muito fã de vcs veleu.

  3. Henrique Moreira disse:

    Sei lá, o Raimundos lançou MUITA coisa boa para simplesmente voltar o foco para “clássicos”. O EP de 2005 (Ponto Qualquer Coisa) é perfeito e NENHUMA faixa é executada na nova turnê, triste.

    • fbenariomusic disse:

      Concordo contigo, Henrique.
      O próprio Kavookavala tem canções bacanas que poderiam ser aproveitadas no setlist atual.

      Um forte abraço, e continue ligado aqui no Fila Benário Musica =)

  4. […] a entrevista completa com o Raimundos aqui Ler a entrevista completa com o Ultraje a Rigor […]

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