“A música jovem que está aí só existe porque a raiz foi bem plantada”, diz ‘As Galvão’

Publicado: 4 de dezembro de 2015 em Entrevistas
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Marilene e Meire: As Galvão - Foto por Clarissa Zuza

Marilene e Meire: As Galvão – Foto por Clarissa Zuza

No dia 25 de novembro, o Bar Brahma, situado na esquina mais famosa do Brasil, o cruzamento entre a Ipiranga e a Avenida São João, no coração de São Paulo, foi palco do lançamento do livro ‘Música Caipira’ do jornalista José Hamilton Ribeiro.
Com mais de 70 anos dedicados ao jornalismo, José Hamilton, hoje repórter especial do programa Globo Rural, é tido como o repórter do século. Em sua mais nova obra literária, Zé Hamilton, como é carinhosamente chamado por amigos e admiradores, presta uma singela e ao mesmo tempo grandiosa homenagem ao cancioneiro caipira, selecionando algumas das letras mais importantes e entrevistando os seus compositores e interpretes mais simbólicos.
E entre as celebridades notórias da música caipira, estavam presentes na grande festa as cantoras Marilene e Meire Galvão, mais conhecida como As Galvão. Em outrora as Irmãs Galvão.
Com quase 70 anos de carreira, “Que serão completados em 2017”, diz Marilene, com o sorriso no olhar, a trajetória das Galvão inicia em 1947, quando Meire com sete anos e Marilene com cinco, se apresentaram na Rádio Club Marconi de Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. De lá pra cá a dupla se tornou referência na música caipira, chegando a lançar mais de 60 discos, com um total de 800 músicas gravadas. O seu principal sucesso, ‘No Calor do Teus Braços’ lançado em 1986, vendeu 800 mil cópias.
Enquanto Meire fazia o papel de mestre de cerimônias apresentando e acolhendo as duplas que se apresentavam no Bar Brahma naquela noite especial, Marilene assistia tudo sentada no meio da multidão. Ao ser convidada para bater um papo exclusivo para o Fila Benário Music, mais do que depressa ela levantou da cadeira e nos dirigimos para um ambiente menos barulhento. Meire nos acompanhou logo em seguida e a entrevista, que contou com a participação das alunas de Jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo), Tatiane Cordeiro e Rosangela Tomaz, além da nossa repórter Beatriz Sanz, com certeza entrará para história do Fila Benário Music, dada a importância que As Galvão tem para a música brasileira.

“Com vocês uma sanfona e um violão, duas alegres jovens e lindas criaturas formando as Irmãs Galvão”

As fotos por Clarissa Zuza
Tatiane Cordeiro: Como é ver a música caipira sendo homenageada hoje por um grande jornalista como o José Hamilton Ribeiro?

Marilene Galvão: Esse grande jornalista é o nosso amigo, já é o segundo livro que ele faz e nos dois nós estivemos com ele. Ele é uma gracinha, ligou pra gente nos convidando pra vir aqui, veja só a Meire, está lá no palco acolhendo todos os nossos companheiros. Então nós estamos muito felizes por ele porque ele é uma pessoa maravilhosa, sabe? Querido mesmo.

Tati: Vocês chegaram a participar da escolha de algumas das canções que ele incluiu no livro?

Marilene: Não, do que tem no livro não, até porque nós temos os nossos companheiros, nossos compositores que a gente faz o trabalho, mas com ele mesmo é uma amizade de papo.

Fila Benário: Então a participação das Galvão no livro ficou restrita as entrevistas? Ele escolheu as canções na qual julgou ser as mais importantes da música caipira e vocês colaboraram com as entrevistas? E essas entrevistas, eram sobre o que?

Marilene: Olha, ele já sabe toda a nossa vida, sabe tudo da gente e a gente frequenta a casa dele. Ele liga pra gente e diz: “Vem almoçar que já está tudo pronto”, e a gente vai. Ele é uma gracinha. E todas as vezes que ele pôde fazer alguma coisa por nós dentro do programa que ele faz aos domingos de manhã [Globo Rural], então ele sempre foi muito amigo, ele gosta muito da gente e tem amizade com a maioria dos caipiras. Então eu acho que todos estão com o prazer que nós estamos sentindo também, estamos muito felizes e ele está feliz demais também.

Fila: Tem uma parte no livro que ele fala que “A música caipira retrata uma determinada época e uma determinada região”. Você acha que nos tempos atuais aquelas músicas caipiras soam atemporais, ou representa somente aquela época?

Marilene: Acontece o seguinte, nós não temos mais compositores de música caipira. Quando eu falo não temos é porque os mais famosos acabaram falecendo. Hoje mesmo é aniversário do Dino Franco [que fazia dupla com o Mouraí], um compositor maravilhoso que faleceu no ano passado. O Zé Fortuna [que fazia dupla com o Pitangueira] já é falecido também. Então os maiores compositores nós perdemos, infelizmente, mas tem uns novos aí, não dessa outra turma aí do sertanejo universitário, não tem nada a ver dentro da cultura caipira e daquilo que a gente faz. Apesar que até isso eles estão usando: “Fulano e fulano é sertanejo”. A gente não tem que criticar nada, porque eles cantam lindo, as duplas são maravilhosas, mas eles não podiam usar o nome sertanejo porque eles não são sertanejo, mas cada um é cada um. A gente não conhece nenhum deles, nunca tivemos juntos, mas se nós tivéssemos amizade com eles nós teríamos até alguma coisa juntos. A gente tem muita amizade com o [Michel] Teló, com o Teló é outra coisa, quando a gente vai pra Campo Grande, a família dele mora lá e eles vão buscar a gente pra almoçar com eles, a gente passa o dia com eles. Outro dia nós fizemos um programa na Globo com ele,e ele levou o arcodeon, a Meire levou também, e acabaram fazendo um musical os dois juntos. Então já é outra coisa, é amizade mesmo, mas os demais a gente não conhece, nunca tivemos com eles.

Para Marilene Galvão: "Essa nova música sertaneja não deve ser chamada de sertanejo"

Para Marilene Galvão: “Essa nova música sertaneja não deve ser chamada de sertanejo”

Tati: Ainda dentro dessa pergunta, eu acabei de entrevistar o Betto Ponciano, violeiro da Orquestra Paulistana de Violas, e ele explicou que a estrutura da música caipira tem começo, meio e fim, ou seja, ela conta uma história. A senhora acha que é isso mesmo?

Marilene: A música caipira é sempre uma história contada, do cara que matou a mulher porque ela arrumou outro, Chico Mineiro mesmo é uma história…

Fila: Menino da Porteira, também.

Marilene: Sim, claro, Menino da Porteira, também. Eu acho sim que a música caipira conta uma história, mas hoje os compositores estão fazendo outras coisas, com outros objetivos. Mas agora a gente encontra compositor no interior, nós temos aqui hoje o Paraíso [da dupla Mococa e Paraíso], o Paraíso é um compositor maravilhoso, porque ele é casado com a filha do Zé Fortuna e ele tem um segmento que é igualzinho do Zé. Então ele vê o momento e ele consegue fazer as músicas, mas são poucos que sobraram para nós.

Beatriz Sanz: E porque a senhora acha que esses compositores mais jovens que tratam da música caipira ainda hoje , como esses que a senhora acabou de citar, não tem espaço na mídia?

Marilene: É porque a mídia é terrível. A mídia é uma coisa muito difícil, sabe? Porque até chegar fazer uma entrevista como vocês me chamaram pra fazer essa, é difícil, sabe? Então a mídia procura só quem pode falar das coisas, e é difícil pra esses novos compositores. Veja só, quando nós começamos a cantar, eu tinha 5 e a minha irmã 7 anos de idade, então agora daqui dois anos, nós iremos completar 70 anos de carreira, até já estamos preparando uma festa. 70 Anos cantando juntas. Então a gente tem o que contar, é uma vida de música, nós começamos cantar e não paramos nunca.

Bia: E além dessa festa vocês têm mais algum plano, algum lançamento especial?

Marilene: Sim, já temos planos e vamos preparar algo bem especial. E foi feita uma pesquisa e me parece que nós somos as primeiras a fazer 70 anos de carreira cantando juntas, porque as duplas se separam, então nós somos as primeiras.

[Nesse momento uma jovem fã, de forma educada, interrompe a entrevista pedindo para tirar uma foto ao lado da Marilene Galvão, que prontamente atendeu o pedido]

Nós somos do tempo que respeitava os fãs, veja essa moça? Veio até nós e pediu uma foto, eu vejo o carinho que ela tem pelo nosso trabalho. O nosso show tem uma hora e meia de duração, e depois a gente fica duas horas com o fã. Eles fazem fotos, tem muita gente que chora, as pessoas de mais idade vem chorando. Então, nós somos da ala antiga que trata bem o fã, porque muita gente não sabe, mas é o fã que faz a carreira da gente. É aquele que liga na rádio pedindo pra tocar o nosso trabalho, é aquele que chora quando encontra com a gente, sabe? Então a gente tem um respeito imenso pelo fã.

Sentido horário: Marilene Galvão, Rosângela Tomas, Fila Benário, Tatiane Cordeiro e Beatriz Sanz - Foto por Clarissa Zuza

Sentido horário: Marilene Galvão, Rosângela Tomas, Fila Benário, Tatiane Cordeiro e Beatriz Sanz – Foto por Clarissa Zuza

Fila: Nesses 70 anos de carreira, que serão completados em breve, quantos discos as Galvão já lançaram?

Marilene: Entre CD’S e DVD’S nós temos mais de… [pensando], olha, nós somos do tempo, eu acho que vocês nem conhecem, mas daquele discão que tocava de um lado e tocava do outro [risos], o Disco de Vinil.

Fila: Opa, é claro que conhecemos!

Marilene: Então, de Disco de Vinil nós já lançamos 50 trabalhos! E depois vieram os CD’S, sendo assim nós temos mais de 800 músicas gravadas. E agora pra festa, a nossa festa [risos], muitas músicas que nós gravamos, há algum tempo, elas estão sendo aproveitadas agora com uma nova roupagem, porque aquele do bigode que está lá em cima do palco agora, é marido da minha irmã, ele é maestro, então é ele que faz todo o arranjo nosso.

[Nesse momento, Meire Galvão, que até então estava apresentando o evento no palco do Bar Brahma se juntou até nós]

Meire Galvão: Então vocês raptaram a minha irmã? [risos]

Tati: Estávamos aqui falando das 800 músicas gravadas em 70 anos de carreira

Meire: 70 anos! Agora o que é interessante é que algumas pessoas chegam até a gente, depois de estar cantando todos esses anos, e perguntam: “Mas vocês não têm profissão? Só fazem isso?” [risos]

Tati: Mas acredito que os 70 anos de carreira foram tão prazerosos que nem pareceu um trabalho, não é?

Marilene: Com certeza, estar com vocês aqui batendo esse papo gostoso é maravilhoso.

Fila: Recapitulando os números da formula do sucesso das Irmãs Galvão: Com 70 anos de carreira, vocês gravaram 800 músicas em 50 LP’S. Hoje com essa proliferação do Sertanejo Universitário a gente percebe que há uma profissionalização desnecessária, com produtor obrigando o músico a cortar o cabelo, deixar a barba por fazer, produzindo fotos, enquanto isso a música, que é o essencial, fica em segundo plano. Na época de vocês como era ser um artista sertanejo? Vocês tinham liberdade para compor e criar? Havia algum produtor que ficava exigindo algo de vocês?

Meire: Olha, na época que nós começamos nós éramos anunciadas assim: “Uma sanfona e um violão, duas alegres jovens e lindas criaturas formando as Irmãs Galvão”. Então, como você vê era só uma sanfona e um violão tocando em circo com o que se tinha na época, o som precário, não se tinha absolutamente nada. E nós fizemos a nossa carreira calcada nesse início, o circo foi uma grande escola, o início nosso foi uma grande escola, porque aprendemos a lidar com tudo, tudo que aparece para nós hoje é maravilhoso. Agora essa música jovem que está ai, graças a Deus fazendo sucesso, só existe porque a raiz foi bem plantada. É uma raiz forte, uma raiz sadia, uma raiz honrada, é uma raiz com muito respeito, e vai daí que a música sertaneja tá fazendo o sucesso que está. Se não tivesse essa raiz não existiria mais música caipira no país. Tanto que nós já estamos para completar 70 anos de carreira ainda fazendo shows, ainda frequentando estrada, não temos nada dessa coisa de produção, nós somos o que somos no palco, fora do palco, somos simpáticas, lindas e maravilhosas [risos]

Marilene: Vocês viram que eu não falei nada disso, né? [risos] Eu sou mais modesta [gargalhadas].

Meire: Então você vê que essa força da música caipira é o que traz o artista fazer tantos anos de carreira. Nós temos duplas caipiras fazendo 60 anos de carreira, 65 anos de carreira, nós só esperamos que essa força que está acontecendo agora que ela persista, que não seja um meteoro, porque é legal a música sertaneja tomar um outro rumo, então isso é bom, mas precisa ver a persistência, porque nós aqui, Meire e Marilene, As Galvão, nós somos persistentes, nós fomos cara de pau, nós que buscamos as nossas coisas e nós que fazemos tudo. Agora nós temos o respaldo de um maestro que é o Mário Campanha [esposo de Meire], que é o nosso diretor, o nosso violeiro.

Marilene: Nosso marido também [gargalhadas].

Foto por Clarissa Zuza

Foto por Clarissa Zuza

Fila: Pra encerrar o nosso bate-papo, se vocês pudessem indicar pra quem ainda não tem o profundo conhecimento da música caipira, cinco artistas que definem o gênero musical, quais seriam?

Meire: Vamos começar então pelas Galvão, nós temos um trabalho muito bonito e que merece ser ouvido. Depois você pode ouvir ‘Zico e Zeca’, ‘Liu e Léu’, ‘Moacyr e Sandra’, ‘Mococa e Paraíso’ e ‘Pedro Bento e Zé da Estrada’. E tem muita gente boa.
E o que é mais bonito e que nós estamos honradas, valeu né mana? Tudo que a gente enfrentou? Toda essa luta que nós tivemos, lutamos contra preconceito, lutamos contra uma porção de coisa que não fazia parte do nosso sonho, mas que nós conseguimos e chegamos aqui. Então o que é muito legal é o jovem procurar saber o que é música caipira, muitos jovens já tocando viola, muitos jovens fazendo a música caipira, procurando a história da música sertaneja, e vai encontrar esse pessoal todo que eu citei aqui.

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comentários
  1. […] como a entrevista com As Galvão feita em parceria com as supracitadas Rosângela e Tatiane (aqui), além da entrevista com a banda Androide Sem Par feita pelo aluno Lucas Fernandes (aqui) e o […]

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