Jornalista é agredido pela PM em manifestação. Qual é o papel dela afinal?

Publicado: 17 de dezembro de 2015 em Fila Benário Fala
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O jornalista Kaique Dalapola após sofrer agressão da PM

O jornalista Kaique Dalapola após sofrer agressão da PM

“Dizem que ela existe pra ajudar
Dizem que ela existe pra proteger
Eu sei que ela pode te parar
Eu sei que ela pode te prender

Polícia! Para quem precisa!
Polícia! Para quem precisa de polícia!”

Essa famosa canção do Titãs, inclusa no disco ‘Cabeça Dinossauro’ (1986), foi composta pelo guitarrista Tony Belotto após a sua prisão, em 1985, por porte de drogas. O contexto da canção dentro do ocorrido talvez não faça tanto sentido como ela faz hoje, 30 anos depois, na vida do jovem Kaique Dalapola.

Estudante de jornalismo da Faculdade do Povo (FAPSP) e editor do blog Fala, Kaique, no qual presta serviço e denuncia as injustiças sociais e mazelas ocorridas nas periferias de São Paulo, Kaique esteve presente no vão livre do Masp na última terça-feira, dia 15 de dezembro, fazendo a cobertura da manifestação dos alunos da rede pública de ensino contra o projeto de reorganização escolar imposto pelo governo do estado de São Paulo, na pessoa do governador Geraldo Alckmin, que prevê o fechamento de 94 escolas estaduais.

A manifestação seguiu até a sede da secretaria da educação, situada na Praça da República, no centro de São Paulo, e lá os jovens foram recebidos com truculência pela Polícia Militar que agrediram os estudantes com cassetetes, socos e pontapés. Kaique, no exercício da sua profissão, foi abordado por policiais que golpearam com cassetete em sua cabeça fazendo um corte no supercílio e obrigaram o mesmo a descer a escada rolante do metrô República que fazia o movimento inverso.

Todo o terror vivido por Kaique foi noticiado pelo portal ‘Comunique-se’, lamentado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e retratado pelo coletivo ‘Ponte’, sendo esse último escrito pelo próprio Kaique Dalapola que narrou com frieza e mágoa todo o acontecimento.

Antes de proferir qualquer comentário que venha ferir a moral e bons costumes dos defensores dos profissionais fardados que conclamam com toda a infantilidade existente: “Quando você precisar de um policial, chama o Batman”, mas que fogem de uma blitz quando a documentação do veículo está atrasada. O intuito desse texto é simplesmente questionar o papel da polícia em determinadas situações.

No último domingo, a Avenida Paulista foi tomada também por uma manifestação, que por sua vez, pedia o Impeachment da presidente Dilma Rousseff. Portanto a Paulista, que recentemente virou alvo de criticas constantes por estar aberta aos finais de semana proporcionando lazer a toda família e fechada para os carros, dessa vez foi tomada por camisas verde e amarela, por bonecos infláveis e “viúvas” saudosas que clamavam a volta do regime militar e não houve nenhuma reclamação. E ao contrário dos adolescentes e do Kaique Dalapola que foram recebidos com chutes e pontapés da PM de Alckmin, os manifestantes de domingo recebiam sorriso e pose dos policiais para as selfies feitas à exaustão.

Resumindo, o que vale mais? Um jovem que pede por educação e manifesta contra o fechamento da sua escola, ou dúzias de “manifestantes” que apoiam um pedido de Impeachment acolhido e conduzido por político mais corrupto que a própria indiciada?

Os mesmos Titãs que questionaram o papel da polícia nos anos 80, retornaram com a mesma dúvida e intensificando outra ótica. A canção ‘Fardado’, presente no disco ‘Nheengatu’ (2014), traz em seus versos iniciais um exercício de consciência para os profissionais armados, com a frase:

“Você também é explorado, fardado”

A música mostra o quão marionete e também vítima é a Polícia militar na mão dos governantes. Se a manifestação da juventude era contra o governo do estado, porque o mesmo não se fez presente para dialogar com os jovens e juntos chegarem em um acordo? Se o projeto de reorganização é tão viável como dizem, porque não explicar a todos de forma clara e concisa? Mas pra que se dar esse trabalho se eu tenho uma PM despreparada, mal paga, mas que faz tudo que eu peço com truculência e sem dialogar?

Enquanto a classe dominante ganha sorrisos na fotografia na sua passeata, o jovem jornalista sonhador da periferia jorra lagrimas de sangue de uma ferida que jamais irá cicatrizar.

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comentários
  1. […] nossa colaboradora Beatriz Sanz e o aluno Kaique Dalapola (que foi notícia recentemente aqui no FBM) integram a equipe da Agência Mural da Folha de São Paulo, um blog feito por alunos de […]

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