MUITO ALÉM DO BUG DO MILÊNIO #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000)

Publicado: 11 de fevereiro de 2016 em Muito Além do Bug do Milênio
Tags:, , , , , , , , ,

At The Drive-in

DISCO: Relationship of Command
BANDA: At The Drive-In
LANÇAMENTO: 12 de setembro de 2000
ORIGEM: Estados Unidos
GÊNERO: Post-Hardcore
FORMAÇÃO DO DISCO: Cedric Bixler (Vocal, Percussão e Sintetizadores), Omar Rodríguez (Guitarra e Vocal), Jim Ward (Guitarra, Teclado e Vocal), Paul Hinojos (Baixo) e Tony Hajjar (Bateria)
PRODUCÃO: Ross Robinson (Sepultura, Korn, Slipknot e Limp Bizkit)
INDICADO PRA QUEM GOSTA DE: MC5, Fugazi, Bad Brains, Sunny Day Real Estate, Pink Floyd, The Stooges, Hüsker Dü, Sonic Youth, Biffy Clyro, James Brown, Funkadelic, Parliament e George Clinton.

HISTÓRIA

At The Drive-In

At The Drive-In

Formado no ano de 1993 na cidade de El Paso, no Texas, o At The Drive-In é o que podemos classificar de um dos grupos mais criativos, inventivos e diferentes da cena musical da década. Claramente influenciados pelo Hardcore Melódico de Washington DC, de bandas como, Minor Threat, Bad Brains, Rites Of Spring e Fugazi, o grupo ainda adiciona em seu caldeirão musical, psicodelia, elementos do Rock Progressivo de Pink Floyd e Yes, e até mesmo o groove e o swing da Soul Music.

A primeira formação do At The Drive-In contava com o Cedric Bixler nos vocais, Jim Ward na guitarra, Jarrett Wrenn na outra guitarra, Kenny Hopper no baixo e Bernie Rincon na bateria. Com esse line up, o grupo gravou o EP Hell Paso (1994). Em 1996 Omar Rodríguez entra na banda, a princípio como baixista, gravando o primeiro álbum, o Acrobatic Tenement (1996), no mesmo ano, após o lançamento do disco, Paul Hinojos e Tony Hajjar entram na banda assumindo os postos de baixista e baterista, respectivamente, deixando Omar livre para assumir a segunda guitarra do grupo e assim consolidar a formação mais emblemática da banda, que lançaria os EP’S: El Gran Orgo (1997) e Vaya (1999) e os álbuns In/Casino/Out (1998) e Relationship of Command.

No começo de janeiro de 2000, a banda assina com o selo independente DEN Records e começa as gravações do disco que viria a ser o Relationship…, sob a produção de Ross Robinson, que já havia trabalhado com o Sepultura no disco Roots e no álbum de estreia do Korn, a mixagem e masterização ficou a cargo de Andy Walace, que também já havia trabalhado com o Sepultura. Durante as gravações do disco, a DEN Records se funde com a Grand Royal Records, gravadora criada pelos membros do Beastie Boys após deixarem a Def Jam Recordings do produtor Rick Rubin, e assim Relationship of Command se torna um dos principais lançamentos do selo naquele ano.

No dia 12 de setembro de 2000, o álbum enfim é lançado e nota-se uma tremenda evolução no aspecto musical e instrumental da banda. As composições estão mais complexas, fortes e pesadas, a produção, mesmo que cristalina, não tirou o característico peso e brutalidade das canções, que soam sônicas, velozes destrutivas e ao mesmo tempo melódicas, sensíveis e belas.

Relationship of Command foi o disco que levou o som do At The Drive-In ao grande público. O foi o primeiro trabalho da banda que gerou os primeiros singles do conjunto: One Armed Scissor, Invalid Litter Dept. e Rolodex Propaganda, esse último conta com a participação mais do que especial do ídolo Iggy Pop. O disco chegou a figurar as listas dos mais vendidos em diversos lugares do mundo, ficando em 33º lugar na UK Albums Chart do Reino Unido, em 25º na Australian Albums Chart da Australia, além de figurar a posição 116º na Billboard 200 e durante uma semana apareceu no topo do acompanhamento semanal da Billboard Heatseekers. Sem contar as menções em diversas revistas do segmento musical como a edição da Guitar Player de 2006 que colocou Relationship… na posição 94º da lista dos 100 melhores discos de guitarras de todos os tempos.

Definitivamente é o álbum que apresenta para o mundo a força e o poder do At The Drive-In.

 

FAIXA A FAIXA

1 – Arcarsenal
Uma bateria tribal chama o início da canção que vai criando um ambiente fantasmagórico com o baixo fazendo a cabeça das notas e as duas guitarras solando frases diferentes, mas se completando. Até surgir um pequeno break ficando apenas o baixo distorcido para de repente entrar uma paulada sônica e pesada, até finalmente os vocais de Cedric aparecerem cantando de forma berrada e insana em cima de uma melodia funkeada e grooveada.
Se o James Brown cantasse Hardcore, com certeza Arcarsenal seria a sua primeira música de trabalho.

2 – Pattern Against User
Mal acaba a insanidade berrada da faixa anterior, uma virada de bateria seguida pelo grito Yeah de Cedric já anuncia a próxima faixa de Relationship… Pattern Against User mantém o pique Soul Core, com batidas swingadas, passagens melódicas com os vocais chegando a sussurrar alguns trechos, mas as guitarras continuam gritantes e o baixão distorcido dando toda tônica a canção.
Quando as músicas do At The Drive-In começaram a chegar no Brasil com a proliferação da internet nos anos 2000, Pattern Against User era a que mais causava reboliço entre os fãs pelo fato de antes de refrão o guitarrista Jim Ward canta algo impronunciável que ninguém entendia, muitos achararam até que Jim estivesse falando Badauí (o nome do vocalista do CPM 22) antes de Cedric cantar “Pattern Against User, dilated, bastards waiting for nothing”.

3 – One Armed Scissor
O hit supremo do At The Drive-In. Quem não conhece a banda, mas que tem um pouquinho de conhecimento de Rock com certeza já ouviu essa canção que é emblemática e destrutiva.
A introdução dela já é explosiva, tocando um curtíssimo trecho do empolgante refrão que virá a seguir. Do resto ela vai criando um ambiente suspense com a bateria fazendo rimshot (técnica que a baqueta bate no aro da caixinha da bateria), o baixo vai seguindo as linhas vocais faladas de Cedric e enquanto a guitarra de Jim Ward vai dedilhando singelamente, a de Omar Rodríguez vai esgoelando distorções à Thurston Moore, até finalmente entrar no refrão pesado e ao mesmo tempo chiclete: “Cut away, cut away Send transmission to The one armed scissor”.

4 – Sleepwalk Capsules
Já inicia esporrenta com a banda toda entrando junto e Cedric berrando insanamente os rápidos versos: “Taser taser kindergarten nap nap time pacifier pacifies”. A bateria leva a música toca praticamente no prato de ataque que é espancado furiosamente.
Após o segundo refrão a canção entra em um ritmo cadenciado com guitarras dedilhadas e Cedric sussurrando as palavras: “Lazarus threw the party, lazarus threw the fight, snuck inside the sound of sleep” até voltar a catarse inicial.

5 – Invalid Litter Dept.
Depois de toda insanidade e explosão inicial, Relationship of Command dá o seu primeiro respiro com a belíssima e tocante balada Invalid Litter Dept.
A letra da canção é tristíssima e ao mesmo tempo um lamento pulsante e inconformado em relação aos 700 homicídios que aconteceram na cidade de Juárez no México, desde 1993, no qual as vítimas foram apenas mulheres.
No clipe abaixo é possível ver os locais que ocorreram os assassinatos e um relato escrito de cada um deles.
O grito desesperador de Cedric no trecho final da canção resume o sentimento revoltante de todo o contexto da música.

6 – Mannequin Republic
Uma alta microfonia toma conta da introdução, até a banda toda entrar em uma batida compassada que se transforma em um Hardcore à Bad Brains, com destaque para a sólida linha de baixo, e com um refrão funkeado. Empolgante, barulhenta e insana.

7 – Enfilade
É uma das canções mais esquizofrênicas do disco, primeiro que começa com uma ligação de um suposto sequestrador falando com “mãe leopardo” dizendo que está com a “sua cria” e o valor do resgate será “Dez mil nozes da marca Kola, que devem ser embrulhadas em um papel marrom e colocadas atrás da caixa a meia noite”, no final ele se despede dizendo: “Eu serei a Hiena, você verá” (A título de curiosidade, esse trecho inspirou o nome da banda brasileira de Hardcore Instrumental ‘Eu Serei a Hiena’).
Se a loucura ficasse apenas nessa curta introdução, a música em si é uma insanidade ambulante com batidas eletrônicas logo no início, com vocais dobrados e após um pequeno break no qual percussões são tocadas em claro ritmo latino, o refrão vem um poderoso Eletro-Rock de fazer o Skrillex corar.

8 – Rolodex Propaganda
Para muitos a canção mais importante do disco, pelo simples motivo de ter a participação mais do que especial do pai do Punk Rock, Iggy Pop, cantando com a sua voz gravíssima, hilária e arrastada todos os versos junto com a voz aguda e berrada de Cedric. Mas o brilhantismo de Rolodex Propaganda vai muito mais além, a começar pelo fato de Cedric assumir a guitarra base na gravação (e também nos shows) enquanto Jim Ward toca teclado, sintetizadores e maracas.

9 – Quarantined
Começa com trovões, barulho de chuva no telhado, até um “baixão” surgir gravemente tocando as notas da canção, enquanto os instrumentos vão entrando um a um sutilmente, até um pequeno break (perceberam que a banda adora pausar as suas músicas para criar o ambiente a seguir) dá a deixa para uma melodia cadenciada e mais puxada para a Soul Music. O Baixo de Paul Hinojos é com certeza a grande estrela da música que além de brilhar na introdução, também faz um solo magistral no meio canção.

10 – Cosmonaut
Quarantined foi apenas um fôlego para o caos a seguir que é Cosmonaut. A sua batida na introdução é impossível classificar, somada com a característica guitarra de Omar cuspindo um solo catatônico. Cedric berra frases velozes em cima de um Soul Core furioso.
Não há como explicar, tem que ouvir.

11 – Non-Zero Possibility
Na versão oficial do álbum essa é a última canção. Na outra relançada em 2004 pela gravadora Fearless Records, o disco ainda conta com os b-sides Extracurricular e Catacombs.
Mas a melhor maneira de encerrar um álbum vulcânico, pesado, insano e barulhento como esse Relationship of Command é dando um alento aos nossos ouvidos sensíveis com essa belíssima balada.

 

O AT THE DRIVE-IN HOJE

Anúncio da volta da banda em 2016

Anúncio da volta da banda em 2016

Em menos de um ano após o lançamento de Relationship of Command, o At The Drive-In, para o espanto geral, encerra as suas atividades. Em entrevista Cedric puxou pra si a responsabilidade do rompimento, que ele não estava satisfeito com o segmento musical da banda que estava a cada dia mais próximo do Punk Hardcore do início da carreira, e que tanto ele quanto o guitarrista Omar Rodríguez gostaria de fazer algo mais progressivo e abranger outros estilos musicais. Cedric chegou a afirmar na mesma entrevista que: Queríamos que o próximo álbum do At The Drive-In soasse como The Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd, enquanto os demais membros tinham a intenção de avançar em uma forma de Rock mais alternativo.

Assim a banda se dissolveu e dela foram gerados dois projetos, o The Mars Volta, capitaneado por Cedric e o Omar e que tinha uma sonoridade mais progressiva, com canções longas e esquizofrênicas. E do outro lado o Sparta, sob o comando de Jim Ward, com Paul Hinojos e Tony Hajjar.

Em 2012 para surpresa de todos a banda retornou as atividades para alguns shows especiais, entre eles o Lollapalooza de Chicago, mas era visível o descontentamento e a má vontade da banda com relação a volta vide o desinteresse nas performances. Obviamente a volta fajuta foi soterrada meses depois, o que deu a oportunidade para Omar e Cedric reaparecerem com um projeto musical em que muito lembrava o At The Drive-In nos áureos tempos, o Antemasque.

Eis que no dia 21 de janeiro de 2016 a banda anuncia um retorno definitivo, apresenta um trecho de uma possível música nova e solta esse comunicado, escrito pelo guitarrista Omar Rodríguez, no site oficial da banda:

Estamos todos empolgados por nos encontrarmos novamente, tocarmos no mesmo estúdio novamente e fazer música sob um novo contexto. É daqui que todos viemos. Temos famílias diferentes agora, moramos em lugares diferentes, mas essas são as nossas raízes, e uma pessao verdadeira jamais esquece as suas raízes. Há segurança em estar cercado das pessoas em quem você confia.

Será vem outra obra do calibre de Relationship of Command.

Até quinta que vem.

Veja as colunas anteriores:
#01: By The Grace Of God – The Hellacopters (2002)
#02: Contraband – Velvet Revolver (2004)

 

 

 

 

 

Anúncios
comentários
  1. Wag Souza disse:

    Sério… Aquele negócio de tocar esse album completo ta de pé? heh

  2. […] Veja as colunas anteriores: #01: By The Grace Of God – The Hellacopters (2002) #02: Contraband – Velvet Revolver (2004) #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000) […]

  3. […] The Grace Of God – The Hellacopters (2002) #02: Contraband – Velvet Revolver (2004) #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000) #04: Does This Look Infected? – Sum 41 […]

  4. […] The Grace Of God – The Hellacopters (2002) #02: Contraband – Velvet Revolver (2004) #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000) #04: Does This Look Infected? – Sum 41 (2002) #05: Siren Song Of The Counter Culture – Rise […]

  5. […] #01: By The Grace Of God – The Hellacopters (2002) #02: Contraband – Velvet Revolver (2004) #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000) #04: Does This Look Infected? – Sum 41 (2002) #05: Siren Song Of The Counter Culture – Rise […]

  6. […] #01: By The Grace Of God – The Hellacopters (2002) #02: Contraband – Velvet Revolver (2004) #03: Relationship of Command – At The Drive-In (2000) #04: Does This Look Infected? – Sum 41 (2002) #05: Siren Song Of The Counter Culture – Rise […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s