Mamonas Assassinas, time de músicos de qualidade ofuscado pelas letras engraçadas

Publicado: 2 de março de 2016 em Fila Benário Fala, Homenagem
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Hoje completa vinte anos do acidente aéreo que ceifou a vida e colocou um ponto final na curta carreira de oito meses dos Mamonas Assassinas.
Voltando de um show em Brasília em seu jatinho particular, no dia 2 de março de 1996, a banda teve o seu veículo aéreo chocado contra a Serra da Cantareira em São Paulo matando a todos que estavam a bordo.

O Brasil que ainda se recuperava das recentes partidas dos seus “heróis nacionais” como o humorista Mussum e o piloto de Formula 1 Ayrton Senna, ambos falecidos em 1994, também chorou a perda do quinteto musical que, de certa maneira, trouxe alegria a remanescente cena musical da época que tentava de todas as formas se reciclar e atender os anseios da juventude.

As letras divertidíssimas dos Mamonas eram cantaroladas por crianças e senhoras, e muitos temas como traição, de ideologia de gênero, consumo de drogas, xenofobia e educação infantil passavam despercebidos no tom escrachado e verborrágico que era abordado pela banda.

Hoje a lembrança que se tem dos Mamonas Assassinas e que é retransmitida incansavelmente pela imprensa, pelos fãs e admiradores nas redes sociais é daquela banda divertida que se fantasiava de super-herói e em tão pouco tempo se apresentou em diversos programas de TV, aquela banda que tinha a música do Sabão Crá-Crá, ou aquela que falava de uma tal suruba, mas que ninguém fazia ideia absolutamente do que era aquilo. A primeira lembrança agridoce que vem da banda para muitos é da famosa Brasília Amarela retratada na letra de Pelados em Santos. É natural que essas sejam as maiores recordações que a população brasileira tem do grupo e na presente ocasião, do “aniversário” de morte da banda, ela vem sido compartilhada aos montes. Mas será que por trás de todas essas letras divertidas, polêmicas, que hoje faria suar a patrulha do politicamente correto, ninguém prestava a atenção na musicalidade da banda? Ninguém notou várias menções e “easter eggs” perdidos em várias canções do grupo?

Alguém será que já teve a imensa curiosidade de ouvir a primeira encarnação dos Mamonas Assassinas, antes do sucesso e até mesmo do nome Mamonas, que era a banda Utopia, que carregava uma temática mais séria em uma sonoridade vasta que fundia entre o Rock Progressivo, o Funk Rock de Red Hot Chili Peppers e a new wave de The Cure e The Smiths?

Portanto é nesse texto que iremos recordar os bons momentos musicais dos Mamonas Assassinas que com certeza muitos deixaram passar em branco, o que é de certa forma tolerável, já que a grande maioria era pequena demais para captar tamanhas referências.

OUÇA O UTOPIA

Toda banda e artista tem o seu início, isso é fato. Antes de se tornar um grande Soulmen que foi, Marvin Gaye cantava grandes standards da música americana, como Frank Sinatra. Alanis Morissette antes de ser aclamada a nova deusa do Rock pela geração de adolescentes nos anos 90, foi uma cantora de hits Pop com um certo sucesso no seu país de origem, o Canadá. E vindo aqui para o Brasil, o funkeiro Mr. Catra já foi guitarrista de banda de Rock na adolescência. E isso aconteceu com os Mamonas Assassinas também, não pense vocês que a banda nasceu com a sua dose cavalar de humor e ironia, pelo contrário, antes de se chamar Mamonas e tomar o Brasil de assalto, a trajetória de Dinho (Vocal), Bento Hinoto (Guitarra), Júlio Rasec (Teclados), Samuel Reoli (Baixo) e o seu irmão Sérgio Reoli (Bateria) começou como banda Utopia, com letras sérias e uma sonoridade inspirada em Rush, Guns N’ Roses, Red Hot Chili Peppers, The Smiths e os Titãs. Em 1992 a banda lança o seu primeiro vinil autointitulado, mas ao contrário da catarse que a banda causaria três anos depois, o disco vendeu apenas 200 cópias, mas ali já é perceptível a musicalidade aprimorada do grupo já no solo inicial de Bento Hinoto na baladinha new wave Horizonte Infinito, além dos slaps no baixo de Samuel em Utopia 2, enquanto Dinho faz um vocal falado no estilo Anthony Kiedis.
Após a morte do grupo, no ano de 1997 foi lançado o disco A Fórmula do Fenômeno, que trazia o primeiro e único disco do Utopia com diversas sobras de estúdio, entre elas a primeira versão de Pelados em Santos que se chamava Mina.

OS EASTER EGGS MUSICAIS

Quando o primeiro disco dos Mamonas Assassinas foi lançado no dia 23 de junho de 1995, instantaneamente ele se tornou um imenso sucesso, faixas como O Vira, Pelados em Santos, Chopis Centis e Sábado de Sol tocavam incansavelmente nas rádios de todo o país. O que ninguém havia percebido é que no decorrer das 14 faixas e 38 minutos de músicas haviam ali muitas referências pertinentes e geniais:

Chopis Centis tem o seu riff inicial totalmente chupado e copiado do grande clássico do Punk britânico Should I Stay Or Should I Go do The Clash.
Ouça as duas.

A melodia e a frase Doce Doce Amor de Jerry Adriani aparece em Robocop Gay.

Bois Don’t Cry faria o Capitão América chorar com tantas referências soltas. Primeiro a começar do título, uma clara sátira ao sucesso Boys Don’t Cry do The Cure. No meio da música há uma passagem Heavy Metal muito parecida com The Mirror do grupo de Metal Progressivo Dream Theater. E no último trecho onde é cantado “Veja só como é que é, a ingratidão de uma mulher” um trecho da seminal Tom Sawyer do Rush é tocado.

Uma Arlinda Mulher remete claramente a dois clássicos de uma banda britânica que estava despontando para o sucesso na época, o Radiohead. A introdução tocada no violão é semelhante a de Fake Plastic Trees. E antes de entrar no primeiro refrão a guitarra faz a mesma entrada distorcida de Creep.

Baby Elephant Walk a famosa canção que no Brasil ganhou uma versão do grupo Trio Esperança Olha o Passo do Elefantinho, é lembrada em Cabeça de Bagre II, que o título é uma clara homenagem ao Cabeça Dinossauro dos Titãs.

E esse Heavy Metal chamado Débil Mental, com os vocais guturais de Dinho emulando um Max Cavalera, que na época estava ainda no Sepultura e acabava de lançar o importantíssimo disco Roots?

Sábado de Sol e Sabão Crá-Crá são os únicos covers do disco, o segundo é uma versão de uma canção popular, já a primeira é uma regravação da banda Baba Cósmica formada pelo, hoje produtor, Rafael Ramos.

MUSICALIDADE APURADA

Além das canções citadas acima, duas canções que mostram a tamanha versatilidade musical do conjunto são 1406 e Jumento Celestino.

A primeira já impressiona logo na introdução com baita slap de baixo de Samuel que salta aos ouvidos na primeira audição e depois muito bem acompanhado com o excelente fraseado de guitarra de Bento Hinoto.

E se os Mamonas Assassinas “chupinhou” melodias e arranjos de outros artistas, saiba que a introdução de 1406 é muito parecida com a introdução de People Passing By, lançada no disco Entropia (1997) da banda Pain of Salvation. Segundo o vocalista do grupo, Daniel Gildenlöw, tudo não passou de uma mera coincidência.
Ouça abaixo e compare.

E por fim Jumento Celestino trazia o tal Forró-Core já apresentado pelos Raimundos no seu álbum de estreia em 1994, com uma guitarra pesada na parte acelerada da canção.

Saudades.

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