As trilhas sonoras da guerra política brasileira

Publicado: 18 de março de 2016 em Especial, FBM Convida, Fila Benário Fala

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Atualmente a política brasileira está de causar inveja a qualquer roteirista da série House of Cards. O governo Dilma Rousseff, que foi eleito democraticamente em 2014 e assumiu o seu segundo mandato em 2015, não fez outra coisa a não ser tentar se manter no poder , driblando toda e qualquer denúncia de corrupção. Com isso, a economia brasileira despenca, a inflação sobe e o desemprego cresce de maneira absurda. E quando se achava que dessa cartola não poderia sair mais nenhum coelho, o ex-presidente Lula foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, sendo que foi citado na operação Lava Jato.

Do outro lado, existe uma oposição que não aceitou o resultado das urnas e tenta de todas as formas derrubar a presidente do poder, mas coloca para baixo do tapete todos os seus escândalos de corrupção, envolvendo, inclusive o ex-candidato à Presidência em 2014, Aécio Neves, que teve o seu nome diversas vezes citado na operação Lava Jato, mas que acabou de ter seu processo arquivado.

Ao redor, temos uma mídia totalmente parcial, que mais confunde do que informa, colaborando abertamente para esse grande Fla x Flu político na sociedade brasileira, que não aceita mais opiniões adversas e já partem pra porrada.

Respeitando o espaço primário desse blog, que é falar exclusivamente de música, o Fila Benário Music convidou jornalistas, professores, psicólogos, blogueiros e outros intelectuais para tentar explicar esse cenário de guerra que vivemos na política brasileira, mas sendo o ponto de partida da análise uma música de escolha dos mesmos. O resultado, que ficou impressionante, você confere abaixo.


Vale Tudo (Tim Maia) – por Adriana Carranca

Vale Tudo, de Tim Maia, exprime bem o momento atual. Estamos vendo um vale tudo em Brasília e, ao mesmo tempo, a ascensão da direita homofóbica, xenófoba, racista. A lembrança da música veio com um post do cronista Antônio Prata: ‘Só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher”. Achei genial.

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Adriana Carranca é colunista no jornal O Globo e autora dos livros: Malala, a menina que queria ir para a escola, O Afeganistão Depois do Talibã e O Irã Sob o Chador.

 


Tá Todo Mundo Louco (Silvio Brito) – por Vitor Guedes

Vivemos um momento de insanidade, pessoas querendo justificar o injustificável. De um lado, ignoram os sinais claríssimos de roubo e pilantragem, do outro, ignoram roubo de merenda, helicóptero e qualquer outra ladroagem. É um fanatismo cego.
Já não bastava não poder andar de verde em Itaquera e de preto e branco na Barra Funda, agora não se pode mais usar vermelho ou verde amarelo, virou briga de torcida. É o fim do mundo.
São discursos em nome da legalidade e da democracia, mas com atitudes patéticas contrárias a tudo que pregam.
Vivemos nas trevas, e a treva é o palco perfeito para eleger algo pior do que um “coxinha” ou “petralha” picareta qualquer.
O fundo do poço ainda não chegou.

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Vitor Guedes assina, diariamente, a coluna Caneladas do Vitão no jornal Agora São Paulo, participa semanalmente do programa Seleção Sportv, é professor universitário na UNG e autor do livro Paixão Corinthiana.

 


Roda Viva (Chico Buarque) – por Patrícia Paixão

Nesse momento em que a democracia conquistada arduamente neste país, à custa de muita luta, tortura e sangue, é ameaçada por um golpe arquitetado (de novo!) pelas forças conservadoras, com o apoio de uma justiça e uma mídia que se dizem independentes, mas são partidárias desde criancinha, me lembro, com um forte aperto no peito, da canção “Roda Viva”, de Chico Buarque (#chicólatrasempre).

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”

Incrível como nosso povo esquece fácil das coisas e como a juventude atual ignora os livros de história. O direito a termos “voz ativa”, de votarmos em quem quisermos e definirmos o nosso destino ainda é tão recente na nossa República e já tem gente querendo desrespeitá-lo.

Crianças birrentas, que não se conformam de terem perdido nas urnas. Ignoram as regras do jogo democrático. Não defendo o indefensável PT, mas sim o meu voto em Dilma no segundo turno das eleições de 2014, para evitar um mal que considero maior: o PSDB, um partido que, além de ser especialista nos esquemas de corrupção, prega, por meio de muitos dos seus quadros, o ódio às classes menos favorecidas, às minorias e à classe trabalhadora.

Não sou palhaça de ter ido às urnas para agora essa “roda-viva de birrentos” passar por cima do meu poder de decisão.

Vou continuar lutando em defesa da democracia, que garante, inclusive, o direito dessa roda-viva (formada por uma parcela significativa de pessoas que não podem mais ir a Miami. Que dó…) estar nas ruas. A democracia é “a mais linda roseira que há”.

“Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá”.

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Patrícia Paixão é jornalista, professora universitária nas faculdades: Rio Branco, Anhembi Morumbi e Mackenzie e editora do blog Formando Focas.

 


Coração Tranquilo (Walter Franco) – por Fausto Salvadori Filho

Porque numa hora tão conturbada, em que é tão fácil se deixar levar pelo ódio, pelos alinhamentos automáticos e pela violência, é a hora de respirar e lembrar de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

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Fausto Salvadori Filho é repórter da Ponte Jornalismo.

 


Get Up, Stand Up (Bob Marley and The Wailers) – por Cinthia Gomes

O reggae pra mim sempre foi uma música de resistência, e essa letra em especial me remete à  compreender as coisas com clareza, desvendar o que atrapalha a nossa consciência, não ser iludido e não desistir, jamais. A luta continua!

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Cinthia Gomes é repórter da Rádio CBN e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de SP

 


Eu Protesto (Charlie Brown Jr.) – por Juliana Almeida

“Aquela creche que deixaram de ajudar tá por um fio
E a ganância está matando a geração 2000
E a sua tolerância está maior do que nunca agora”

O momento é caótico. A nossa política parece briga de criança, “o doce é meu e eu não divido com ninguém”. A briga pelo poder, está passando do limite. As manifestações exigindo intervenção militar, ou que a presidenta saia do poder. As investigações onde até o sistema judiciário está envolvido, telefones grampeados, conversas distorcidas, mídia manipuladora convencendo o telespectador que o golpe é viável.

“Foi você quem colocou eles lá, mas
Eles não estão fazendo nada por vocês
Enquanto o povo vai vivendo de migalhas
Eles inventam outro imposto pra vocês”

Parece surreal, mas ainda vivemos uma democracia, onde, por mais que pareça uma maioria, segundo a PM e a grande mídia, afinal 2 milhões parecem aos olhos deles representarem um sentimento coletivo. Ainda existe uma democracia, que colocou a presidenta lá. Que você votou, não tão conscientemente em deputados, senadores tão corruptos quanto o partido que acusa. Por que a elite menospreza os outros protestos? Aliás, por que agora protesto não é mais coisa “de vagabundo, que não tem o que fazer em casa”?

Eu Protesto do Charlie Brown Jr, traz sem rodeios, um sentimento gigante “sua tolerância está maior do que nunca agora”. Delação premiada, um juiz achando que é Deus, um conselho de ética que esqueceu seus deveres. As periferias mais abandonadas do que nunca. A educação sofrendo cortes e mais cortes. Partidos políticos que são intocáveis. Uma parte da população pedindo intervenção militar é nossa tolerância indo às alturas. Não vai ser assim que vamos chegar a uma solução. Não é tirando o direito de um que ganharemos alguma coisa.

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Juliana Almeida é estudante de jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul e editora do blog Desarmando a Censura.

 


O Que Será – Flor da Terra (Chico Buarque) – por Ricardo Roca

As razões, primeiro porque a letra é totalmente pertinente.com a situação atual, segundo porque estamos em um momento de total indefinição e turbulência, sem clareza “sobre o que será” e por fim, porque é Chico Buarque, oras.

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Ricardo Roca é professor universitário na Universidade Cruzeiro do Sul e editor do blog Futebol-Arte.

 


Killing In The Name (Rage Against The Machine) – por Luíza Caricati

Acho que, em termos simbólicos, retrata o ódio e à intolerância que vivemos hoje, às custas da política. Um acaba indo na onda do outro e presenciamos cenas lamentáveis de violência, em todas as suas formas de representação.

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Luíza Caricati é jornalista e escreve no blog Merdando.

 


Meu Caro Amigo (Chico Buarque) – por Patty Farina

Foi a música que ele fez para o Augusto Boal (teatrólogo) quando Boal estava no exílio. Os trechos que mais gosto são os que dizem: Que a coisa aqui tá preta, mas a gente continua amando de pirraça porque sem um carinho ninguém segura esse rojão =]

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Patty Farina é psicóloga no SUS e integrante do Coletivo de Teatro do Oprimido Pagú prá Ver.

 


Eu quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio) – por Caroline Apple

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Se eu pudesse sonorizar o momento político do Brasil seria sem dúvida com Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio. Passamos tanto tempo “dormindo de touca” e “fugindo da briga” e é natural que na hora de colocar o bloco na rua muitas dúvidas, confusões ideológicas e impasses aconteceriam. É o que acontece com tudo que nos predispomos a fazer pela primeira vez. O erro só não vem quando não há a tentativa.
Claro que esse é o lado romântico da coisa, porque a realidade é dura e fere. Resolvemos nos separar em grupo quase que para simplificar a complexidade da heterogeneidade. Facilita dividir em tucanalha x petralhas, coxinhas x comunistas, esquerda x direita. Mas, a verdade é que essa polaridade tira o que temos de mais valioso, a diversidade.
Mas temos coisas em comum. Mais uma vez invoco Sérgio Sampaio, quando ele diz “Há quem diga que eu não sei de nada. Que eu não sou de nada e não peço desculpas”. Essas palavras poderiam ser ditas por qualquer pessoa de qualquer grupo para o seu “adversário” político. Estamos aí, batendo cabeça diariamente, tentando convencer os outros dos nossos pontos de vista em vez de dizer que querendo “todo mundo nesse carnaval”.
Já que os blocos não querem se unir, que pelo menos saibam a hora de se recolher para o próximo bloco passar e os respeite. Isso é democracia. “Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso”, já dizia a canção.

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Caroline Apple é repórter de cidades do Portal R7 e “setorista” na cobertura de protestos. Já passou por jornais como Agora São Paulo, Folha de S.Paulo e Diário de SP.

 


Cálice (Chico Buarque) – por Beatriz Sanz

O que vemos no Brasil é uma ascensão nervosa e generalizada de uma direita que não se importa com mulheres, negras e favelados. Ou seja, eu e meus pares ficamos de fora da festa.
Agora é a hora da luta, é a hora de explicar história pra esse povo e mostrar que não queremos um novo 1964, assim como não queremos um novo holocausto. Já nos basta o genocídio da população negra. Então eu peço ao pai, que nos afaste desse cálice ou ele virá com muito sangue.

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Beatriz Sanz é correspondente do Blog Mural da Folha de São Paulo e editora e colunista do Fila Benário Music.

 


Panis Et Circenses (Os Mutantes) – por Matheus Pichonelli

O debate político atual é uma grande sala de jantar na qual todas as diferenças se aglutinam à mesa em dois grupos principais. Há os ocupados em nascer e morrer e os que, indispostos a viver em vão, buscam compreender o mundo e transformá-lo.

Nas grandes e melhores famílias, o primeiro grupo, até pouco tempo atrás, era dividido entre os contentes e os descontentes. Os contentes acompanhavam tudo com uma determinação bovina: acordavam, ruminavam, ligavam a TV, e voltavam a dormir. Os descontentes acreditavam fazer parte do povo escolhido e culpavam todos os desvalidos da vizinhança pelas desgraças do mundo. Tratavam mal a empregada, caçoavam do filho manco do vizinho, comentavam as aleivosias da atriz, o andar rebolante do filho da prima. Tudo, para eles, era uma afronta a uma moral sob perigo naquela fronteira confusa entre liberdade e libertinagem (eles adoravam usar este termo).

O segundo grupo gostava de provocar. Quando alguém manifestava alguma maledicência, como, por exemplo, aquela impronunciável, em outras mesas, sensação de que no fundo Hitler era só incompreendido, seus representantes entravam em ação como uma espécie de superego do jantar. Condenavam os discursos racistas e homofóbicos e não se constrangiam em classificar o primeiro grupo como alienado e ignorante.

Estes não levavam desaforo. Chamavam os ativistas do segundo grupo de intransigentes quando ouviam que era moralmente condenável não se indignar com as distâncias entre ricos e pobres num país governado durante séculos pelas mesmas oligarquias políticas, econômicas e midiáticas. Muitos do segundo grupo, é bem verdade, eram também ricos, e pegavam no sono tão logo encerravam o discurso. Mas se negavam a ensinar aos filhos o que haviam aprendido com os velhos à mesa. Coisas como lugar de mulher é na cozinha, mendigo não gosta de trabalhar, o certo é louco tomar eletrochoque ou que torturando-se corrigem-se os costumes.

Embora unidos pela ideia de que o mundo, feito de nuances e contradições, era implacável com as soluções rasteiras e resumíveis em uma só frase, repetida sem reflexão até o fim da vida, o segundo grupo tinha lá suas divisões. Uns acreditavam que as coisas só mudariam quando todos tivessem acesso aos mesmos direitos e que era papel do Estado garanti-los. Outros acreditavam que esses direitos já estavam consolidados e que o Estado muito ajudaria se não atrapalhasse. Ambos concordavam que a fome e a pobreza alheias eram moralmente inaceitáveis, o que levou alguns deles a se engajarem em estudos e mutirões pelos lugares que o primeiro grupo sentiria asco só em pisar.

Para o primeiro grupo, a pobreza era um cálculo: quanto maior, melhor as condições de negociação entre patrão e empregado. Uns ofereciam menos do que podiam pagar; outros aceitavam menos do que mereciam porque a outra opção era a fome. Esta condição era sempre lembrada pelo contratante do primeiro grupo quando falava “aquele(a) pobre diabo passava fome quando resolvi ajudar e a gratidão dele(a) é essa: arrumou outro emprego e foi embora”.

(PS: O segundo grupo nem sempre conseguia abrir mão de contratar serviços domésticos; muitos tinham a culpa como a única diferença em relação aos primeiros, mas desconfiavam que aquele jogo de posições não era um direito natural de brancos bem nascidos).

Com propósitos tão distintos em relação ao tema “existência”, os dois grupos juntavam de tempos em tempos as suas facções e protagonizavam batalhas memoráveis quando o assunto era política. Os primeiros viam a política como uma hierarquia similar à que reinava na alta sociedade: um espaço no qual os doutores mandavam e o povo ignorante servia ou obedecia. Era uma relação de confiança num dom natural disponível apenas entre bem-nascidos.

O segundo grupo dizia que dom natural era o caralho. Que essa interpretação do mundo servia apenas aos grupos hegemônicos e que o nome disso era ideologia. Mal resumindo, ideologia, naquele tempo, era a arte de explorar e convencer o explorado de que ele agradava a Deus com a sua servidão e ainda fazia um bom negócio. Foi assim que os defensores da ruptura com essa ideia passaram a receber convites para ir a Cuba ou à União Soviética, quando ainda estava de pé. A falência das ditaduras comunistas era sempre levada à mesa pelo primeiro grupo para lembrar aos demais o que dá mexer no nosso direito natural de explorar as classes inferiores (sic).

Contrário a essa ideia, o segundo grupo percebeu que apenas falar alto na mesa era insuficiente para quebrar o ciclo da canalhice reinante no Brasil. Como não adiantava convencer o primeiro grupo de que os grupos historicamente marginalizados tinham tanto direito a comer, estudar e consumir quanto eles, pararam de dar murro em ponta de faca e começaram a pensar em saídas políticas. Lá, as leis anti-privilégio chegariam antes da vergonha à mesa.

Muitos então começaram a se identificar com o Partido dos Trabalhadores, fundado por um certo ex-operário que se um dia chegaria à Presidência. Durante um tempo, este partido serviu como baliza nas conversas sobre política à mesa. Uns simplesmente não o suportavam pela simples ideia de que a política poderia ser ocupada por quem vinha de baixo, e não apenas pelos mestres e doutores da lei a quem aprenderam a prestar continência.

Outros abraçaram a ideia de que finalmente os anseios populares tinham uma bandeira. Para quem entendia as desigualdades do mundo como uma chaga incapacitante e moralmente condenável era difícil não se identificar com uma legenda que prometia emplacar projetos populares e levar os trabalhadores para o centro das decisões.

Foi assim que a briga entre o primeiro e o segundo grupo à mesa familiar pararam de debater política em si para debater “o PT”. Até a legenda chegar ao poder, não se sabia até onde poderia ser levada a sério, mas era possível discutir o que ela representava: uma possibilidade de participação para além dos grupos dominantes.

O primeiro grupo achou a ideia um horror já de saída. Mesmo quando, já no poder, o partido começou a dar sinais de que podia conciliar os interesses do capital e do trabalho, no tempo em que a economia crescia e até a conservadora Economist via o país decolar, os refratários seguiam dizendo ser um absurdo ver a política ser ocupada por analfabetos e/ou deficientes. Quando inventaram de colocar uma mulher no ministério e, depois, na campanha para a sucessão, a objeção virou uma metralhadora.

Estes vibravam quando o partido errava. Mas se enfureciam quando acertava. Ou quando o grosso da população demonstrava apoio ao projeto que, ao menos na propaganda oficial, tirara milhões de pessoas da pobreza e levara luz, médicos e universidades para localidades até então esquecidas do globo.

Surgiram assim expressões como “bolsa esmola” e “malditos nordestinos” naquela mesa de jantar. Surgia também uma saudade esquisita de antigos governantes que deixaram o poder desmoralizados mas protegidos pela comodidade do discurso segundo o qual são “todos iguais”.

Como a vida naquela mesa seguia igual – o filho paparicado crescera e não virara exatamente um Mark Zuckerberg – era mais fácil atribuir a miséria da própria existência à ignorância dos pobres diabos que vendiam a consciência política por política de distribuição de renda, ação afirmativa e crédito barato para comprar futilidades como arroz, feijão e geladeira.

Durante algum tempo, o segundo grupo gozou uma certa satisfação em ver a ala dos “nascer e morrer” constrangida em desdizer aquilo tudo o que haviam dito antes. O próprio ex-operário dizia: não podemos errar. Mas erraram. E muito, e antes mesmo do primeiro grande escândalo vir à tona as coisas já não eram as mesmas naquela ala da família.

De cara alguns começaram a discordar dos métodos do partido para chegar e permanecer no poder. Parte deles amadureceu a ideia de que o Estado não tinha capacidade para assumir todos os serviços e caminhava para se tornar um gigante irremovível. Passaram a alimentar outras preferências eleitorais.

Outros desconfiaram das alianças do Partido dos Trabalhadores com os patrões e partidos de sempre. E aposentaram o broche antes do Roberto Jefferson abrir a boca. Quando este anunciou o quiproquó, o grupo rachou de vez.

Uns seguiram apoiando o que chamavam de projeto popular sob o argumento de que muita gente melhorou a vida nos últimos anos. Outros, cinicamente, diziam que para governar para os pobres era preciso fazer concessão aos ricos e/ou sujar as mãos. Outros declaravam apoio crítico por não visualizar opções melhores no tabuleiro político. Outros ainda disseram que aquilo era inadmissível e prometeram nunca mais votar na legenda.

Uns migraram o voto para partidos ao centro, como o PSB de Marina Silva em 2014. Outros, à esquerda, como o PSOL de Marcelo Freixo. Outros viraram liberais e passaram a defender a social-democracia tucana.

A maneira como uns e outros defendiam suas posições dentro do mesmo grupo era mais ou menos agressiva conforme a aproximação das eleições. Todos concordavam numa parte: o mundo era injusto e precisava ser mudado. O “como” é que estava em discussão.

Para o primeiro grupo, aquela discussão pouco importava: quem, em algum momento da vida, manifestara qualquer apoio à legenda estava condenado pelo resto da vida a ser chamado de petralha. Eram eles, e mais ninguém, os responsáveis por tirar o Brasil das mãos de pessoas de bem, que jamais haviam desviado um puto em benefício próprio, para colocá-lo nas mãos dessa gentinha.

Durante anos, alimentaram a impressão de que todo voto ou discurso à esquerda era, por natureza, hipócrita, e qualquer argumento em contrário ou era financiado pelo partido ou era resultado de uma lobotomia. Encontraram eco em colunas e blogs editados por quem se indignava com o preço do iPad e se encantava com o Pateta quando ia para a Disney.

Quando o projeto petista entrou em colapso de vez, sobretudo após o escândalo na Petrobras, quem havia abandonado o barco por considerar que o partido havia se tornado igual aos demais e quem ficou nele por opção ou falta de opção compartilharam um último sinal de solidariedade: a tristeza.

Daquele tempo em que eram motivo de piada do primeiro grupo, ficou somente, e não apenas, a convicção de que o mundo ainda está aí para ser mudado. E que dessa compreensão novas alternativas precisarão a ser desenhadas.

Os demais, convictos de que ganharam a parada e podem agora cuidar dos próprios umbigos em paz, estão onde sempre estiveram. Essas pessoas na sala de jantar seguem ocupadas em nascer e morrer.

Matheus

 

Matheus Pichonelli é colunista na revista Carta Capital e no portal Yahoo.

 


 

 

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comentários
  1. […] um texto passado publicado aqui, a jornalista Juliana Almeida, do Desarmando a Censura, citou essa canção como a trilha sonora do […]

  2. […] “Qual a trilha sonora desse momento tão caótico”, o resultado foi grandioso e gerou o texto As trilhas sonoras da guerra política brasileira contando com Adriana Carranca, Vitor Guedes, Patrícia Paixão, Fausto Salvadori Filho, Cinthia […]

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