O impacto da internet na indústria musical, vira tema de livro

Publicado: 12 de agosto de 2016 em Entrevistas
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A internet, a terra sem lei, tem moldado a forma como se lê notícia, como se assiste série e filmes e principalmente como se ouve música. Desde o surgimento de programas de compartilhamento de músicas, como Napster, na virada do milênio, que a indústria musical vem sofrendo uma grande mutação e tem tentado, na medida do possível, se adequar a esse novo mundo.
Mas como está música hoje em dia? É verdade que não há mais artistas de qualidade? O que aconteceu com os bons artistas? Por que as músicas atuais são tão vazias e parecidas? O Rock está próximo do fim? Por que os shows são tão caros? O advento da internet acabou com a música em geral?

Essas e outras perguntas serão respondidas no livro O Impacto da Internet na Indústria e no Marketing Musical, de autoria de César Ricardo Mendes.
Jornalista, professor universitário e músico profissional, César Ricardo Mendes durante meses se dedicou ao tema, realizando pesquisas quantitativas, entrevistas com produtores, empresários e demais pessoas renomadas no meio musical. O fruto desse ambicioso projeto será lançado amanhã em São Paulo, pela editora Multifoco.

E nas vésperas do lançamento, o jornalista bateu um papo com o Fila Benário Music, revelando os bastidores da concepção do livro, traçou um panorama sobre o cenário musical atual, além de nos levar a reflexão sobre o tema Música x Internet.

Confira agora.

 

Como surgiu a ideia de desenvolver esse tema do livro?

Eu sempre soube que um dia escreveria um livro, mas nesse caso específico, surgiu das pesquisas acadêmicas que fiz para as pós-graduações que estudei, somado à minha experiência como consultor de marketing para empresas do meio musical, jornalista no meio musical e músico profissional. E também pela falta de publicações nacionais sobre o tema marketing musical.

Como foram realizadas as pesquisas? Quais foram as principais fontes consultadas e que contribuíram para o formato e direcionamento do trabalho em si?

As pesquisas foram de várias formas. Entrevistei diversos músicos, produtores musicais e proprietários de empresas de equipamentos musicais que pudessem contribuir com todo assunto. Também parti para a pesquisa quantitativa, entrevistando pessoas sobre o consumo musical, o quanto a internet os afetou e coisas do tipo. E pesquisei em muitas revistas musicais, blogs americanos, documentários sobre o impacto da internet (principalmente sobre o Napster) que pudessem servir como forma de juntar tudo o que eu havia conseguido para fazer essa análise descrita no livro. Foi um trabalho de alguns meses, mas que valeu a pena.
E trabalhar no meio, tanto como músico como profissional de comunicação, faz com que você tenha uma visão de dentro do assunto. 

O jornalista, músico e escritor César Ricardo Mendes

O jornalista, músico e escritor César Ricardo Mendes

Falando no Napster, no final dos anos 90 houve toda aquela polêmica envolvendo a banda Metallica e o citado programa de compartilhamento musical. Muitos criticaram a postura da banda – principalmente do baterista Lars Ulrich – afirmando que a mesma já havia ganhado muito dinheiro com a indústria fonográfica. Analisando hoje a crise da indústria fonográfica, você acha que a atitude da banda foi correta?

Isso é algo curioso. Pablo Picasso tinha uma afirmação interessante: “Todo mundo que é contra uma vanguarda, na verdade faz parte dela”. No caso do Metallica, vejo por dois ângulos. Primeiro, se eu fosse um astro do rock na década de 90, vivendo com todos os louros que a indústria fonográfica permitia, sem dúvida alguma eu não iria gostar de que mexessem na minha fonte de renda. Nesse sentido eu compreendo a atitude dos caras do Metallica.
Segundo ângulo, eu poderia ser menos provinciano e tentar fazer daquilo um marketing para a minha banda, o que de certa forma me abriria novas formas rentáveis de lucrar. Até porque a tecnologia é algo que sempre se move para frente, nunca para trás, por isso é difícil lutar contra ela.
Há pouco tempo o Lars Ulrich afirmou se arrepender do levante que fez contra o Napster, o que achei interessante e até humilde da parte dele em se arrepender de toda briga. Mas acho que ele também teve uma motivação midiática para fazer o levante que fez na época.

Você acredita que devido ao novo consumo de música, por meio digital, tem contribuído nos últimos tempos para o aumento de artistas de qualidade musical duvidosa?

 Sem dúvida alguma.
Quando as gravadoras e os produtores musicais estavam no comando havia um certo critério de escolha e produção, e mesmo com aquele critério já existiam coisas ruins. Mas se você observar, até mesmo estilos musicais mais populares, como o sertanejo, tinham melhor qualidade (compare Chitãozinho & Xororó com os sertanejos atuais).
Ao mesmo tempo que ficou mais fácil se lançar como artista, o filtro de qualidade também “abriu o funil”. E o critério artístico de qualidade se perdeu um pouco, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

Pra você, o encarecimento dos ingressos de shows e espetáculos musicais é fruto do impacto da internet no meio musical?

Essa é uma questão que afeta mais diretamente a nós, brasileiros. Em nosso país o ingresso para um show nunca foi barato. Eu sempre fui frequentador de shows e nunca me lembro de ter pagado barato num ingresso.
Como nossa situação econômica é muito instável e o dólar está nas alturas, sofremos também com o abuso dos organizadores de eventos que precisam lucrar no investimento feito para a realização de um show, por isso nossos ingressos são tão caros.
Mas eu me lembro que em 2013, quando eu estava nos Estados Unidos, vi que teria um show do John Mayer na cidade onde eu estava, por um valor de ingresso que seria em torno de R$150,00 aqui no Brasil. Não estou dizendo que R$150,00 é pouco, mas perto dos R$360,00 cobrados para ver um show internacional atrás de um “pilar”, como é o caso no Brasil, sem dúvida a diferença é grande.
Acho que embora o artista, atualmente, lucre com o show ao invés da venda de CDs, essa questão é mais econômica do que de responsabilidade da internet. 

Você faz parte de uma banda, a Tehilim Celtic Rock. Queria que você nos contasse um pouco da experiência da banda em relação a distribuição dos seus próprios discos. Houve a possibilidade de estender a distribuição para o exterior? E analisando o mercado musical independente atual, se esse tipo de coisa ainda é possível nos dias de hoje para uma banda iniciante?

Como com a minha banda, o Tehilim Celtic Rock, minha experiência é pós-advento da internet, não consegui ter os benefícios desse tipo de distribuição. Algo curioso que me aconteceu sobre as facilidades da internet, foi que certa vez eu estava no centro de São Paulo, e vi um camelô vendendo diversos CDs piratas ali, e entre aqueles CDs estava o meu! Eu fiquei com tanto ódio, que cheguei na minha casa, liberei tudo para download gratuito e como estava passando por um período ruim com a distribuidora de CDs, rompemos o contrato.
Já tem uns quatro anos que faço uso de plataformas como o NoiseTrade para lançar meus CDs virtualmente e gratuitamente. A experiência tem sido muito boa, principalmente no que diz respeito ao mercado internacional, que é maioria que baixa nossos álbuns.

César e Jaqueline Massagardi a frente da "Tehilim Celtic Rock"

César e Jaqueline Massagardi a frente da “Tehilim Celtic Rock”

De qualquer forma, acho que não tem como ser um artista adaptado nos tempos que vivemos sem estar presente nos serviços de streaming (Spotify, Deezer, Google Play etc.). É um investimento que vale a pena.
Fora isso, toda banda precisa estar presente no Youtube, pois é o primeiro lugar onde a maioria das pessoas procuram conhecer uma banda (conforme pesquisas realizadas). Pode ser que futuramente procurem mais pelos serviços de streaming? Claro que pode. Mas por enquanto o Youtube é o “cara”.
Se a banda tiver esse empenho, acredito que é muito possível conseguir um certo público consumidor da sua música. 

Com as recentes mortes de Scott Weiland (Stone Temple Pilots), Lemmy Kilmister e David Bowie, a imprensa musical especializada escreveu que a ida desses, e demais, ícones do Rock somados a não existência novos artistas no mesmo impacto artístico, faz do Rock, daqui alguns anos, um estilo fadado ao ostracismo, assim como o Jazz. Você também compartilha desse pensamento?

Acho difícil o rock cair no ostracismo por toda história que existe por trás dele. A grande verdade é que até mesmo o pop existe por causa do rock. Essa enorme segmentação de estilos musicais que temos hoje em dia, lá atrás, na década de 1960, nasceram do rock.
Porém, sempre tem uma questão que levanto: Quem é o grande nome do rock surgido nos últimos 15 anos? É complicado responder essa pergunta, pois até mesmo o Coldplay (que é mais pop do que rock), tem mais de 15 anos! Infelizmente, e por causa de tanta segmentação que o rock tem, não temos um grande nome que seja unanimidade entre as pessoas. Até mesmo o Michael Jackson que era um artista pop, era uma unanimidade entre os rockers!!!
Talvez, o rock sobreviva de muitas bandas surgidas e que surgirão cada uma fatiando seu pedaço do bolo (e assim não morrerá), mas no que diz respeito a existência de um grande nome, pode ser que fiquemos somente nos livros de história. É duro, mas temos que encarar essa verdade.

A figura do produtor musical tem mudado no decorrer dos anos, De mentes brilhantes como Phil Spector, George Martin, Rick Rubin e Steve Albini, que além de engenheiros de áudio eram compositores e instrumentistas, o produtor hoje está mais focado na questão administrativa e empresarial do artista. Esse assunto também é discutido no seu livro? Como você analisa a produção musical hoje com o advento da internet?

 No livro eu faço essa análise fazendo uma ligação com o papel da gravadora. Se você observar, esses grandes produtores são fruto de grandes gravadoras como a Atlantic, EMI, Warner, Sony, Geffen, Motown e tantas outras de extrema importância.
A figura da gravadora era um “pacote completo”, com produtor musical, trabalho de marketing, personal stylist e todo tipo de coisa possível. A independência artística era quase nula, porque o artista tinha um direcionamento completo para absolutamente tudo em sua vida.
Caras como Bob Rock (Metallica e Mötley Crüe) e Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash e Black Sabbath) tem um histórico de assinar alguns dos maiores trabalhos do rock. Sem dúvida o “dedo” artístico desses caras foi fundamental.

Rick Rubin (deitado ao fundo) produzindo o Black Sabbath

Rick Rubin (deitado ao fundo) produzindo o Black Sabbath

Eu já tive a oportunidade de trabalhar com produtores musicais na gravação de CDs para os quais fui contratado como guitarrista. Já trabalhei com produtores que sabiam música, sabiam o que fazer para melhorar, e também já peguei uma série de “pangarés” que tinham um título de produtor musical, mas mal sabiam o que fazer no estúdio. E infelizmente, hoje em dia existem muitos desses “pangarés”.
Mas é óbvio que ainda existe a figura do produtor musical, só que boa parte desses caras se resumem a donos de estúdio que vendem o trabalho de gravação e nem todos eles, de fato cumprem a função de um produtor musical (a não ser que você o contrate para essa função). O que acaba fazendo com que nem todos os trabalhos tenham o melhor de si.
Porém, no Brasil mesmo existem uma série de produtores musicais excelentes (conhecidos e desconhecidos), sendo contratados e fazendo trabalhos de qualidade excepcional. Entre eles eu cito o Paulo Anhaia, que é um cara excelente e conhecido no meio nacional.

No ano passado a indústria musical respirou aliviada com as vendas do novo disco da cantora Adele (que só na primeira semana no Reino Unido vendeu um total de 800 mil cópias, batendo o recorde da banda Oasis em 1997 com o álbum Be Here Now, que na primeira semana vendeu 696 mil). Você acredita em futuro otimista para a indústria musical e fonográfica, mesmo com a proliferação da internet?

Uma coisa devemos observar: o hábito de comprar CDs online (que é de onde vem a maioria dessas vendas) é muito mais comum no exterior do que aqui no Brasil. Comprar pelo iTunes ainda é caro para o brasileiro, sem falar que os produtos da Apple beiram o absurdo em nosso país. Esse tipo de coisa intimida a compra online.
Eu acredito que se houver uma adequação desses valores para os diferentes mercados mundiais a venda de músicas pode crescer. Mas, atualmente ela tem um inimigo legal, que são os serviços de streaming (onde a maioria dos usuários permanecem com contas gratuitas ao invés de pagar pelo “premium”).
Eu sou saudosista no que diz respeito a CDs, sinto falta do físico, do encarte e de tudo o que acompanhava a audição. A qualidade também era melhor do que o MP3 que nos adequamos a ouvir (obs: no iTunes os álbuns, em sua grande maioria, não estão no formato MP3).
Particularmente, e posso até me enganar, mas acho que o futuro dos álbuns está nas mãos do streaming.

O crítico musical Regis Tadeu, disse certa vez que: “O melhor da música brasileira atual não está no mainstream e sim no circuito underground”. Você concorda com tal afirmação? Se sim, cite quais as bandas e artistas que mais te chamou atenção nos últimos tempos.

Embora o Régis Tadeu seja extremamente ácido em suas colocações, eu gosto muito das coisas que ele fala. E eu concordo com essa afirmação.
Temos uma quantidade enorme de boas bandas totalmente desconhecidas da maioria das pessoas, mas que fazem um trabalho com nível internacional. Nesse caso, eu poderia até mesmo “puxar sardinha” para a minha banda, o Tehilim Celtic Rock, que com 10 anos de estrada, tocando celtic/folk/rock, jamais saiu do underground.
Entre essas bandas underground nacionais, eu gosto muito o pessoal do Terra Celta, que faz um trabalho incrível dentro do estilo. E também acho muito bom o trabalho do meu amigo André Moraes, que faz um MPB na linha do Lenine, que é de qualidade altíssima. Eu poderia citar também o pessoal do Project 46, que hoje estão na crista da onda do metal nacional.

Agora que o livro será lançado, quais serão os seus projetos de divulgação do mesmo? Pretende palestrar ou ministrar cursos a respeito do tema?

Por eu ser da área de comunicação – além de ser músico –, palestrar é algo que já faço em diversas empresas através do DUO in Workshop, trabalho de palestras corporativas que tenho com a minha esposa.
No caso do livro, espero realmente conseguir palestras dentro do tema proposto, ainda mais, se considerarmos que quase não existe literatura dentro desse tema no Brasil. Obviamente, isso não faz com que eu me considere uma sumidade no assunto, de forma alguma. No livro, fiz questão de citar meu amigo Célio Ramos (dono do EMT – Escola de Música e Tecnologia –  e um conceituado profissional de marketing), que é uma pessoa que considero como um dos mais hábeis no assunto.
A Multifoco Editora também fará um trabalho de divulgação interessante, principalmente em livrarias e eBook. Acho que nesse momento, estou aberto para diversas propostas sobre o livro, desde palestras até cursos e o que mais vier.

Lançamento do Livro: O Impacto da Internet na Indústria e no Marketing Musical
Local: La Quiche Bistrot – Rua: Artur de Azevedo 657 – Pinheiros – SP
Horário: 13h às 17h

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