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A internet, a terra sem lei, tem moldado a forma como se lê notícia, como se assiste série e filmes e principalmente como se ouve música. Desde o surgimento de programas de compartilhamento de músicas, como Napster, na virada do milênio, que a indústria musical vem sofrendo uma grande mutação e tem tentado, na medida do possível, se adequar a esse novo mundo.
Mas como está música hoje em dia? É verdade que não há mais artistas de qualidade? O que aconteceu com os bons artistas? Por que as músicas atuais são tão vazias e parecidas? O Rock está próximo do fim? Por que os shows são tão caros? O advento da internet acabou com a música em geral?

Essas e outras perguntas serão respondidas no livro O Impacto da Internet na Indústria e no Marketing Musical, de autoria de César Ricardo Mendes.
Jornalista, professor universitário e músico profissional, César Ricardo Mendes durante meses se dedicou ao tema, realizando pesquisas quantitativas, entrevistas com produtores, empresários e demais pessoas renomadas no meio musical. O fruto desse ambicioso projeto será lançado amanhã em São Paulo, pela editora Multifoco.

E nas vésperas do lançamento, o jornalista bateu um papo com o Fila Benário Music, revelando os bastidores da concepção do livro, traçou um panorama sobre o cenário musical atual, além de nos levar a reflexão sobre o tema Música x Internet.

Confira agora.

 

Como surgiu a ideia de desenvolver esse tema do livro?

Eu sempre soube que um dia escreveria um livro, mas nesse caso específico, surgiu das pesquisas acadêmicas que fiz para as pós-graduações que estudei, somado à minha experiência como consultor de marketing para empresas do meio musical, jornalista no meio musical e músico profissional. E também pela falta de publicações nacionais sobre o tema marketing musical.

Como foram realizadas as pesquisas? Quais foram as principais fontes consultadas e que contribuíram para o formato e direcionamento do trabalho em si?

As pesquisas foram de várias formas. Entrevistei diversos músicos, produtores musicais e proprietários de empresas de equipamentos musicais que pudessem contribuir com todo assunto. Também parti para a pesquisa quantitativa, entrevistando pessoas sobre o consumo musical, o quanto a internet os afetou e coisas do tipo. E pesquisei em muitas revistas musicais, blogs americanos, documentários sobre o impacto da internet (principalmente sobre o Napster) que pudessem servir como forma de juntar tudo o que eu havia conseguido para fazer essa análise descrita no livro. Foi um trabalho de alguns meses, mas que valeu a pena.
E trabalhar no meio, tanto como músico como profissional de comunicação, faz com que você tenha uma visão de dentro do assunto. 

O jornalista, músico e escritor César Ricardo Mendes

O jornalista, músico e escritor César Ricardo Mendes

Falando no Napster, no final dos anos 90 houve toda aquela polêmica envolvendo a banda Metallica e o citado programa de compartilhamento musical. Muitos criticaram a postura da banda – principalmente do baterista Lars Ulrich – afirmando que a mesma já havia ganhado muito dinheiro com a indústria fonográfica. Analisando hoje a crise da indústria fonográfica, você acha que a atitude da banda foi correta?

Isso é algo curioso. Pablo Picasso tinha uma afirmação interessante: “Todo mundo que é contra uma vanguarda, na verdade faz parte dela”. No caso do Metallica, vejo por dois ângulos. Primeiro, se eu fosse um astro do rock na década de 90, vivendo com todos os louros que a indústria fonográfica permitia, sem dúvida alguma eu não iria gostar de que mexessem na minha fonte de renda. Nesse sentido eu compreendo a atitude dos caras do Metallica.
Segundo ângulo, eu poderia ser menos provinciano e tentar fazer daquilo um marketing para a minha banda, o que de certa forma me abriria novas formas rentáveis de lucrar. Até porque a tecnologia é algo que sempre se move para frente, nunca para trás, por isso é difícil lutar contra ela.
Há pouco tempo o Lars Ulrich afirmou se arrepender do levante que fez contra o Napster, o que achei interessante e até humilde da parte dele em se arrepender de toda briga. Mas acho que ele também teve uma motivação midiática para fazer o levante que fez na época.

Você acredita que devido ao novo consumo de música, por meio digital, tem contribuído nos últimos tempos para o aumento de artistas de qualidade musical duvidosa?

 Sem dúvida alguma.
Quando as gravadoras e os produtores musicais estavam no comando havia um certo critério de escolha e produção, e mesmo com aquele critério já existiam coisas ruins. Mas se você observar, até mesmo estilos musicais mais populares, como o sertanejo, tinham melhor qualidade (compare Chitãozinho & Xororó com os sertanejos atuais).
Ao mesmo tempo que ficou mais fácil se lançar como artista, o filtro de qualidade também “abriu o funil”. E o critério artístico de qualidade se perdeu um pouco, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

Pra você, o encarecimento dos ingressos de shows e espetáculos musicais é fruto do impacto da internet no meio musical?

Essa é uma questão que afeta mais diretamente a nós, brasileiros. Em nosso país o ingresso para um show nunca foi barato. Eu sempre fui frequentador de shows e nunca me lembro de ter pagado barato num ingresso.
Como nossa situação econômica é muito instável e o dólar está nas alturas, sofremos também com o abuso dos organizadores de eventos que precisam lucrar no investimento feito para a realização de um show, por isso nossos ingressos são tão caros.
Mas eu me lembro que em 2013, quando eu estava nos Estados Unidos, vi que teria um show do John Mayer na cidade onde eu estava, por um valor de ingresso que seria em torno de R$150,00 aqui no Brasil. Não estou dizendo que R$150,00 é pouco, mas perto dos R$360,00 cobrados para ver um show internacional atrás de um “pilar”, como é o caso no Brasil, sem dúvida a diferença é grande.
Acho que embora o artista, atualmente, lucre com o show ao invés da venda de CDs, essa questão é mais econômica do que de responsabilidade da internet. 

Você faz parte de uma banda, a Tehilim Celtic Rock. Queria que você nos contasse um pouco da experiência da banda em relação a distribuição dos seus próprios discos. Houve a possibilidade de estender a distribuição para o exterior? E analisando o mercado musical independente atual, se esse tipo de coisa ainda é possível nos dias de hoje para uma banda iniciante?

Como com a minha banda, o Tehilim Celtic Rock, minha experiência é pós-advento da internet, não consegui ter os benefícios desse tipo de distribuição. Algo curioso que me aconteceu sobre as facilidades da internet, foi que certa vez eu estava no centro de São Paulo, e vi um camelô vendendo diversos CDs piratas ali, e entre aqueles CDs estava o meu! Eu fiquei com tanto ódio, que cheguei na minha casa, liberei tudo para download gratuito e como estava passando por um período ruim com a distribuidora de CDs, rompemos o contrato.
Já tem uns quatro anos que faço uso de plataformas como o NoiseTrade para lançar meus CDs virtualmente e gratuitamente. A experiência tem sido muito boa, principalmente no que diz respeito ao mercado internacional, que é maioria que baixa nossos álbuns.

César e Jaqueline Massagardi a frente da "Tehilim Celtic Rock"

César e Jaqueline Massagardi a frente da “Tehilim Celtic Rock”

De qualquer forma, acho que não tem como ser um artista adaptado nos tempos que vivemos sem estar presente nos serviços de streaming (Spotify, Deezer, Google Play etc.). É um investimento que vale a pena.
Fora isso, toda banda precisa estar presente no Youtube, pois é o primeiro lugar onde a maioria das pessoas procuram conhecer uma banda (conforme pesquisas realizadas). Pode ser que futuramente procurem mais pelos serviços de streaming? Claro que pode. Mas por enquanto o Youtube é o “cara”.
Se a banda tiver esse empenho, acredito que é muito possível conseguir um certo público consumidor da sua música. 

Com as recentes mortes de Scott Weiland (Stone Temple Pilots), Lemmy Kilmister e David Bowie, a imprensa musical especializada escreveu que a ida desses, e demais, ícones do Rock somados a não existência novos artistas no mesmo impacto artístico, faz do Rock, daqui alguns anos, um estilo fadado ao ostracismo, assim como o Jazz. Você também compartilha desse pensamento?

Acho difícil o rock cair no ostracismo por toda história que existe por trás dele. A grande verdade é que até mesmo o pop existe por causa do rock. Essa enorme segmentação de estilos musicais que temos hoje em dia, lá atrás, na década de 1960, nasceram do rock.
Porém, sempre tem uma questão que levanto: Quem é o grande nome do rock surgido nos últimos 15 anos? É complicado responder essa pergunta, pois até mesmo o Coldplay (que é mais pop do que rock), tem mais de 15 anos! Infelizmente, e por causa de tanta segmentação que o rock tem, não temos um grande nome que seja unanimidade entre as pessoas. Até mesmo o Michael Jackson que era um artista pop, era uma unanimidade entre os rockers!!!
Talvez, o rock sobreviva de muitas bandas surgidas e que surgirão cada uma fatiando seu pedaço do bolo (e assim não morrerá), mas no que diz respeito a existência de um grande nome, pode ser que fiquemos somente nos livros de história. É duro, mas temos que encarar essa verdade.

A figura do produtor musical tem mudado no decorrer dos anos, De mentes brilhantes como Phil Spector, George Martin, Rick Rubin e Steve Albini, que além de engenheiros de áudio eram compositores e instrumentistas, o produtor hoje está mais focado na questão administrativa e empresarial do artista. Esse assunto também é discutido no seu livro? Como você analisa a produção musical hoje com o advento da internet?

 No livro eu faço essa análise fazendo uma ligação com o papel da gravadora. Se você observar, esses grandes produtores são fruto de grandes gravadoras como a Atlantic, EMI, Warner, Sony, Geffen, Motown e tantas outras de extrema importância.
A figura da gravadora era um “pacote completo”, com produtor musical, trabalho de marketing, personal stylist e todo tipo de coisa possível. A independência artística era quase nula, porque o artista tinha um direcionamento completo para absolutamente tudo em sua vida.
Caras como Bob Rock (Metallica e Mötley Crüe) e Rick Rubin (Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash e Black Sabbath) tem um histórico de assinar alguns dos maiores trabalhos do rock. Sem dúvida o “dedo” artístico desses caras foi fundamental.

Rick Rubin (deitado ao fundo) produzindo o Black Sabbath

Rick Rubin (deitado ao fundo) produzindo o Black Sabbath

Eu já tive a oportunidade de trabalhar com produtores musicais na gravação de CDs para os quais fui contratado como guitarrista. Já trabalhei com produtores que sabiam música, sabiam o que fazer para melhorar, e também já peguei uma série de “pangarés” que tinham um título de produtor musical, mas mal sabiam o que fazer no estúdio. E infelizmente, hoje em dia existem muitos desses “pangarés”.
Mas é óbvio que ainda existe a figura do produtor musical, só que boa parte desses caras se resumem a donos de estúdio que vendem o trabalho de gravação e nem todos eles, de fato cumprem a função de um produtor musical (a não ser que você o contrate para essa função). O que acaba fazendo com que nem todos os trabalhos tenham o melhor de si.
Porém, no Brasil mesmo existem uma série de produtores musicais excelentes (conhecidos e desconhecidos), sendo contratados e fazendo trabalhos de qualidade excepcional. Entre eles eu cito o Paulo Anhaia, que é um cara excelente e conhecido no meio nacional.

No ano passado a indústria musical respirou aliviada com as vendas do novo disco da cantora Adele (que só na primeira semana no Reino Unido vendeu um total de 800 mil cópias, batendo o recorde da banda Oasis em 1997 com o álbum Be Here Now, que na primeira semana vendeu 696 mil). Você acredita em futuro otimista para a indústria musical e fonográfica, mesmo com a proliferação da internet?

Uma coisa devemos observar: o hábito de comprar CDs online (que é de onde vem a maioria dessas vendas) é muito mais comum no exterior do que aqui no Brasil. Comprar pelo iTunes ainda é caro para o brasileiro, sem falar que os produtos da Apple beiram o absurdo em nosso país. Esse tipo de coisa intimida a compra online.
Eu acredito que se houver uma adequação desses valores para os diferentes mercados mundiais a venda de músicas pode crescer. Mas, atualmente ela tem um inimigo legal, que são os serviços de streaming (onde a maioria dos usuários permanecem com contas gratuitas ao invés de pagar pelo “premium”).
Eu sou saudosista no que diz respeito a CDs, sinto falta do físico, do encarte e de tudo o que acompanhava a audição. A qualidade também era melhor do que o MP3 que nos adequamos a ouvir (obs: no iTunes os álbuns, em sua grande maioria, não estão no formato MP3).
Particularmente, e posso até me enganar, mas acho que o futuro dos álbuns está nas mãos do streaming.

O crítico musical Regis Tadeu, disse certa vez que: “O melhor da música brasileira atual não está no mainstream e sim no circuito underground”. Você concorda com tal afirmação? Se sim, cite quais as bandas e artistas que mais te chamou atenção nos últimos tempos.

Embora o Régis Tadeu seja extremamente ácido em suas colocações, eu gosto muito das coisas que ele fala. E eu concordo com essa afirmação.
Temos uma quantidade enorme de boas bandas totalmente desconhecidas da maioria das pessoas, mas que fazem um trabalho com nível internacional. Nesse caso, eu poderia até mesmo “puxar sardinha” para a minha banda, o Tehilim Celtic Rock, que com 10 anos de estrada, tocando celtic/folk/rock, jamais saiu do underground.
Entre essas bandas underground nacionais, eu gosto muito o pessoal do Terra Celta, que faz um trabalho incrível dentro do estilo. E também acho muito bom o trabalho do meu amigo André Moraes, que faz um MPB na linha do Lenine, que é de qualidade altíssima. Eu poderia citar também o pessoal do Project 46, que hoje estão na crista da onda do metal nacional.

Agora que o livro será lançado, quais serão os seus projetos de divulgação do mesmo? Pretende palestrar ou ministrar cursos a respeito do tema?

Por eu ser da área de comunicação – além de ser músico –, palestrar é algo que já faço em diversas empresas através do DUO in Workshop, trabalho de palestras corporativas que tenho com a minha esposa.
No caso do livro, espero realmente conseguir palestras dentro do tema proposto, ainda mais, se considerarmos que quase não existe literatura dentro desse tema no Brasil. Obviamente, isso não faz com que eu me considere uma sumidade no assunto, de forma alguma. No livro, fiz questão de citar meu amigo Célio Ramos (dono do EMT – Escola de Música e Tecnologia –  e um conceituado profissional de marketing), que é uma pessoa que considero como um dos mais hábeis no assunto.
A Multifoco Editora também fará um trabalho de divulgação interessante, principalmente em livrarias e eBook. Acho que nesse momento, estou aberto para diversas propostas sobre o livro, desde palestras até cursos e o que mais vier.

Lançamento do Livro: O Impacto da Internet na Indústria e no Marketing Musical
Local: La Quiche Bistrot – Rua: Artur de Azevedo 657 – Pinheiros – SP
Horário: 13h às 17h

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Depois de exportar para todo o Brasil a MPB nas décadas de 70 e 80 com Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Tavito, e de proliferar o Rock no final dos anos 80 e início dos 90 com 14 Bis, Skank, Pato Fu e Jota Quest. No dia 27 de março de 2016, Minas Gerais terá mais um nome para se recordar na posteridade, falamos do lançamento do mais novo grupo de pagode fundado na cidade mineira de Varginha, o Insensato Desejo.

Contando com figurinhas carimbadas da cena musical da cidade, o Insensato Desejo surge com uma proposta ousada e audaciosa: “A ideia seria misturar elementos Pop no pagode para tornar o grupo mais atrativo”, diz o produtor do grupo, Dalton Silva, que tem em seu vasto currículo, nomes expressivos como o grupo Soweto, conjunto musical formado nos anos 90 e responsável por revelar para todo o Brasil um dos grandes nomes do pagode atual, o cantor Belo.

Formado por Diogo (Vocal e Cavaco), Will Vieira (Tantã e Vocal), Marcinho (Surdo e Vocal) e Fael (Pandeiro e Vocal), o Insensato Desejo faz jus ao nome de batismo: “Aquele desejo que você não consegue controlar, algo fora da razão”, salienta Dalton.

Batemos um papo com o grupo e com o produtor Dalton, que nos contou o início da trajetória do grupo, além dos próximos projetos e também do imenso desafio que o grupo tem pela frente, de plantar a semente do pagode, naquela que já foi a terra do samba, mas que hoje é completamente dominada pelo Sertanejo Universitário.

Confira agora.

Em primeiro lugar, apresentem os integrantes do Insensato Desejo e falem um pouco de como iniciou a trajetória do grupo.

Will Vieira: Olá, o Insensato Desejo é formado por mim no Tantã e Vocal, Diogo no Vocal e Cavaco, Marcinho no Surdo e Vocal e o Fael no Pandeiro e Vocal. E contamos também com o produtor Dalton Silva.
Anteriormente, eu e o Diogo fazíamos parte do grupo Kaô, muito conhecido na cena musical de Varginha, e o Fael e o Marcinho eram do grupo Nosso Samba. Antes de integrar o grupo Insensato Desejo eu tive uma breve passagem no grupo Griff.

Dalton Silva: A ideia do grupo surgiu após anos de amizade entre eu, o William e o Diogo. E depois de alguns projetos juntos, resolvemos montar esse e convidamos o Rafael e o Marcinho para comporem o grupo.

De vem o nome Insensato Desejo?

Dalton: Vem da ideia do duplo significado, muito pertinente ao samba e pagode, aquele desejo que você não consegue controlar, algo fora da razão, insensato.

E quais são as principais referências musicais do grupo?

Dalton: As principais referências são: Turma do Pagode, Sorriso Maroto, Os Travessos, Belo, e etc. A ideia seria misturar elementos Pop no pagode para tornar o grupo mais atrativo para eventos de grande porte como prefeituras e festas de cidades.

Vocês citam nomes atuais como influências musicais, mas o grupo também bebe da fonte do chamado “Samba Partido Alto”? Se sim quais são as principais influências do Insensato Desejo nesse gênero?

Dalton: O samba como estilo raiz é muito segmentado e preconceituoso. Normalmente quem está dentro desse estilo dificilmente consome pagode, até acho que não podemos perder elementos chave do estilo, como os percussivos, mas o grupo é essencialmente direcionado para atender grandes públicos com letras modernas e nas influências musicais.

Diogo (Vocal e Cavaco), Will Vieira (Tantã e Vocal), Fael (Pandeiro e Vocal) e Marcinho (Surdo e Vocal)

Diogo (Vocal e Cavaco), Will Vieira (Tantã e Vocal), Fael (Pandeiro e Vocal) e Marcinho (Surdo e Vocal)

Em relação às músicas, o grupo já tem canções próprias no repertório?

Dalton: Sim, temos uma música própria que se chama Pode Ouvir, composição minha e do Lalas, ex-vocalista do grupo Soweto. A música deve ser lançada daqui um mês.

Falando nisso, na semana passada o grupo Soweto gravou um vídeo, e disponibilizou nas redes sociais, fazendo um convite a todos para o show de lançamento do Insensato Desejo. Como nasceu essa amizade? E existe uma possibilidade de uma parceria futura entre Soweto e Insensato Desejo, além da contribuição do Lalas para letra de Pode Ouvir?

Dalton: Eu fui produtor do grupo Soweto de 2010 a 2013, mas sou amigo pessoal deles desde 2003. Sim, eu tenho total abertura com o Soweto e com outros artistas também, e com certeza vai acontecer alguma parceria junto com o grupo.

Varginha, a cidade de origem do grupo, tem uma forte cena atuante no pagode e também no samba, mas como estão os planos do grupo para conquistar outras cidades e estados do país? Há contatos com outras produtoras?

Dalton: Na verdade, o grupo não nasceu com intuito de atuar na cena de Varginha, ele já nasce com a perspectiva de fazer um trabalho de carreira nível Brasil, utilizando-se principalmente da minha via de acesso vertical no cenário pagode.

Então podemos dizer que toda a direção artística do grupo está em suas mãos?

Dalton: Sim. A exemplo também de grupos como Sambalada e 4Stylus que eu também produzo.

Hoje o cenário musical brasileiro está muito diferente de 15 anos atrás. A música sertaneja tem dominado o país de forma avassaladora. Como produtor, qual é o seu papel e o do Insensato Desejo nisso? Tem espaço para vocês hoje, ou sempre teve, afinal, “Pagode bom nunca morre”?

Dalton: Olha, o cenário macroeconômico brasileiro está sem sombra de dúvidas tomado pelo sertanejo e suas vertentes, mas também não há dúvidas que em um país tão grande, tão diverso e tão populoso como o Brasil, certamente há espaço para todos os estilos. Devemos levar em conta também o tamanho da influência africana em nossa população, quase 50% da população que garante um público alvo que se identifica plenamente com o estilo, tendo em vista que o gosto musical é de certa forma transmitido biologicamente, existem estudos sobre isso.
O Insensato Desejo vem com esse intuito, fomentar influências originais dentro de um estilo que é tão consumido pelos brasileiros.

Agora falando do grande show de lançamento do grupo, que acontecerá amanhã, dá pra adiantar algumas surpresas dessa noite?

Dalton: Não existe surpresa em si, acredito que o que o público vai ver é fruto de muito tempo de conversas e sonhos e apenas o início de uma grande aventura. Tem muito trabalho pra ser feito e será.

E como está a agenda do grupo nos próximos meses?

Dalton: Foco agora é trabalhar a produção do material autoral e comercial do grupo para a partir disso direcionar para o nosso objetivo, shows de grande porte.

E para quando estão previstas as gravações do primeiro álbum do grupo?

Dalton: Esse ano ainda devemos gravar mais duas músicas, mas o álbum cheio será somente em 2017. O grupo precisa se consolidar estruturalmente e isso precisa de tempo e muito trabalho duro.

Deixe os contatos do Insensato Desejo para o agendamento de shows e para os futuros fãs manter um vínculo com o grupo nas redes sociais.

Will: O nosso telefone para contato é (35) 9 8815-1736 ou (35) 9 9180-4885, curta a nossa página no Facebook: Insensato Desejo, e siga-nos também no Instagram: Insensato Desejo.

 

Marilene e Meire: As Galvão - Foto por Clarissa Zuza

Marilene e Meire: As Galvão – Foto por Clarissa Zuza

No dia 25 de novembro, o Bar Brahma, situado na esquina mais famosa do Brasil, o cruzamento entre a Ipiranga e a Avenida São João, no coração de São Paulo, foi palco do lançamento do livro ‘Música Caipira’ do jornalista José Hamilton Ribeiro.
Com mais de 70 anos dedicados ao jornalismo, José Hamilton, hoje repórter especial do programa Globo Rural, é tido como o repórter do século. Em sua mais nova obra literária, Zé Hamilton, como é carinhosamente chamado por amigos e admiradores, presta uma singela e ao mesmo tempo grandiosa homenagem ao cancioneiro caipira, selecionando algumas das letras mais importantes e entrevistando os seus compositores e interpretes mais simbólicos.
E entre as celebridades notórias da música caipira, estavam presentes na grande festa as cantoras Marilene e Meire Galvão, mais conhecida como As Galvão. Em outrora as Irmãs Galvão.
Com quase 70 anos de carreira, “Que serão completados em 2017”, diz Marilene, com o sorriso no olhar, a trajetória das Galvão inicia em 1947, quando Meire com sete anos e Marilene com cinco, se apresentaram na Rádio Club Marconi de Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo. De lá pra cá a dupla se tornou referência na música caipira, chegando a lançar mais de 60 discos, com um total de 800 músicas gravadas. O seu principal sucesso, ‘No Calor do Teus Braços’ lançado em 1986, vendeu 800 mil cópias.
Enquanto Meire fazia o papel de mestre de cerimônias apresentando e acolhendo as duplas que se apresentavam no Bar Brahma naquela noite especial, Marilene assistia tudo sentada no meio da multidão. Ao ser convidada para bater um papo exclusivo para o Fila Benário Music, mais do que depressa ela levantou da cadeira e nos dirigimos para um ambiente menos barulhento. Meire nos acompanhou logo em seguida e a entrevista, que contou com a participação das alunas de Jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo), Tatiane Cordeiro e Rosangela Tomaz, além da nossa repórter Beatriz Sanz, com certeza entrará para história do Fila Benário Music, dada a importância que As Galvão tem para a música brasileira.

“Com vocês uma sanfona e um violão, duas alegres jovens e lindas criaturas formando as Irmãs Galvão”

As fotos por Clarissa Zuza
Tatiane Cordeiro: Como é ver a música caipira sendo homenageada hoje por um grande jornalista como o José Hamilton Ribeiro?

Marilene Galvão: Esse grande jornalista é o nosso amigo, já é o segundo livro que ele faz e nos dois nós estivemos com ele. Ele é uma gracinha, ligou pra gente nos convidando pra vir aqui, veja só a Meire, está lá no palco acolhendo todos os nossos companheiros. Então nós estamos muito felizes por ele porque ele é uma pessoa maravilhosa, sabe? Querido mesmo.

Tati: Vocês chegaram a participar da escolha de algumas das canções que ele incluiu no livro?

Marilene: Não, do que tem no livro não, até porque nós temos os nossos companheiros, nossos compositores que a gente faz o trabalho, mas com ele mesmo é uma amizade de papo.

Fila Benário: Então a participação das Galvão no livro ficou restrita as entrevistas? Ele escolheu as canções na qual julgou ser as mais importantes da música caipira e vocês colaboraram com as entrevistas? E essas entrevistas, eram sobre o que?

Marilene: Olha, ele já sabe toda a nossa vida, sabe tudo da gente e a gente frequenta a casa dele. Ele liga pra gente e diz: “Vem almoçar que já está tudo pronto”, e a gente vai. Ele é uma gracinha. E todas as vezes que ele pôde fazer alguma coisa por nós dentro do programa que ele faz aos domingos de manhã [Globo Rural], então ele sempre foi muito amigo, ele gosta muito da gente e tem amizade com a maioria dos caipiras. Então eu acho que todos estão com o prazer que nós estamos sentindo também, estamos muito felizes e ele está feliz demais também.

Fila: Tem uma parte no livro que ele fala que “A música caipira retrata uma determinada época e uma determinada região”. Você acha que nos tempos atuais aquelas músicas caipiras soam atemporais, ou representa somente aquela época?

Marilene: Acontece o seguinte, nós não temos mais compositores de música caipira. Quando eu falo não temos é porque os mais famosos acabaram falecendo. Hoje mesmo é aniversário do Dino Franco [que fazia dupla com o Mouraí], um compositor maravilhoso que faleceu no ano passado. O Zé Fortuna [que fazia dupla com o Pitangueira] já é falecido também. Então os maiores compositores nós perdemos, infelizmente, mas tem uns novos aí, não dessa outra turma aí do sertanejo universitário, não tem nada a ver dentro da cultura caipira e daquilo que a gente faz. Apesar que até isso eles estão usando: “Fulano e fulano é sertanejo”. A gente não tem que criticar nada, porque eles cantam lindo, as duplas são maravilhosas, mas eles não podiam usar o nome sertanejo porque eles não são sertanejo, mas cada um é cada um. A gente não conhece nenhum deles, nunca tivemos juntos, mas se nós tivéssemos amizade com eles nós teríamos até alguma coisa juntos. A gente tem muita amizade com o [Michel] Teló, com o Teló é outra coisa, quando a gente vai pra Campo Grande, a família dele mora lá e eles vão buscar a gente pra almoçar com eles, a gente passa o dia com eles. Outro dia nós fizemos um programa na Globo com ele,e ele levou o arcodeon, a Meire levou também, e acabaram fazendo um musical os dois juntos. Então já é outra coisa, é amizade mesmo, mas os demais a gente não conhece, nunca tivemos com eles.

Para Marilene Galvão: "Essa nova música sertaneja não deve ser chamada de sertanejo"

Para Marilene Galvão: “Essa nova música sertaneja não deve ser chamada de sertanejo”

Tati: Ainda dentro dessa pergunta, eu acabei de entrevistar o Betto Ponciano, violeiro da Orquestra Paulistana de Violas, e ele explicou que a estrutura da música caipira tem começo, meio e fim, ou seja, ela conta uma história. A senhora acha que é isso mesmo?

Marilene: A música caipira é sempre uma história contada, do cara que matou a mulher porque ela arrumou outro, Chico Mineiro mesmo é uma história…

Fila: Menino da Porteira, também.

Marilene: Sim, claro, Menino da Porteira, também. Eu acho sim que a música caipira conta uma história, mas hoje os compositores estão fazendo outras coisas, com outros objetivos. Mas agora a gente encontra compositor no interior, nós temos aqui hoje o Paraíso [da dupla Mococa e Paraíso], o Paraíso é um compositor maravilhoso, porque ele é casado com a filha do Zé Fortuna e ele tem um segmento que é igualzinho do Zé. Então ele vê o momento e ele consegue fazer as músicas, mas são poucos que sobraram para nós.

Beatriz Sanz: E porque a senhora acha que esses compositores mais jovens que tratam da música caipira ainda hoje , como esses que a senhora acabou de citar, não tem espaço na mídia?

Marilene: É porque a mídia é terrível. A mídia é uma coisa muito difícil, sabe? Porque até chegar fazer uma entrevista como vocês me chamaram pra fazer essa, é difícil, sabe? Então a mídia procura só quem pode falar das coisas, e é difícil pra esses novos compositores. Veja só, quando nós começamos a cantar, eu tinha 5 e a minha irmã 7 anos de idade, então agora daqui dois anos, nós iremos completar 70 anos de carreira, até já estamos preparando uma festa. 70 Anos cantando juntas. Então a gente tem o que contar, é uma vida de música, nós começamos cantar e não paramos nunca.

Bia: E além dessa festa vocês têm mais algum plano, algum lançamento especial?

Marilene: Sim, já temos planos e vamos preparar algo bem especial. E foi feita uma pesquisa e me parece que nós somos as primeiras a fazer 70 anos de carreira cantando juntas, porque as duplas se separam, então nós somos as primeiras.

[Nesse momento uma jovem fã, de forma educada, interrompe a entrevista pedindo para tirar uma foto ao lado da Marilene Galvão, que prontamente atendeu o pedido]

Nós somos do tempo que respeitava os fãs, veja essa moça? Veio até nós e pediu uma foto, eu vejo o carinho que ela tem pelo nosso trabalho. O nosso show tem uma hora e meia de duração, e depois a gente fica duas horas com o fã. Eles fazem fotos, tem muita gente que chora, as pessoas de mais idade vem chorando. Então, nós somos da ala antiga que trata bem o fã, porque muita gente não sabe, mas é o fã que faz a carreira da gente. É aquele que liga na rádio pedindo pra tocar o nosso trabalho, é aquele que chora quando encontra com a gente, sabe? Então a gente tem um respeito imenso pelo fã.

Sentido horário: Marilene Galvão, Rosângela Tomas, Fila Benário, Tatiane Cordeiro e Beatriz Sanz - Foto por Clarissa Zuza

Sentido horário: Marilene Galvão, Rosângela Tomas, Fila Benário, Tatiane Cordeiro e Beatriz Sanz – Foto por Clarissa Zuza

Fila: Nesses 70 anos de carreira, que serão completados em breve, quantos discos as Galvão já lançaram?

Marilene: Entre CD’S e DVD’S nós temos mais de… [pensando], olha, nós somos do tempo, eu acho que vocês nem conhecem, mas daquele discão que tocava de um lado e tocava do outro [risos], o Disco de Vinil.

Fila: Opa, é claro que conhecemos!

Marilene: Então, de Disco de Vinil nós já lançamos 50 trabalhos! E depois vieram os CD’S, sendo assim nós temos mais de 800 músicas gravadas. E agora pra festa, a nossa festa [risos], muitas músicas que nós gravamos, há algum tempo, elas estão sendo aproveitadas agora com uma nova roupagem, porque aquele do bigode que está lá em cima do palco agora, é marido da minha irmã, ele é maestro, então é ele que faz todo o arranjo nosso.

[Nesse momento, Meire Galvão, que até então estava apresentando o evento no palco do Bar Brahma se juntou até nós]

Meire Galvão: Então vocês raptaram a minha irmã? [risos]

Tati: Estávamos aqui falando das 800 músicas gravadas em 70 anos de carreira

Meire: 70 anos! Agora o que é interessante é que algumas pessoas chegam até a gente, depois de estar cantando todos esses anos, e perguntam: “Mas vocês não têm profissão? Só fazem isso?” [risos]

Tati: Mas acredito que os 70 anos de carreira foram tão prazerosos que nem pareceu um trabalho, não é?

Marilene: Com certeza, estar com vocês aqui batendo esse papo gostoso é maravilhoso.

Fila: Recapitulando os números da formula do sucesso das Irmãs Galvão: Com 70 anos de carreira, vocês gravaram 800 músicas em 50 LP’S. Hoje com essa proliferação do Sertanejo Universitário a gente percebe que há uma profissionalização desnecessária, com produtor obrigando o músico a cortar o cabelo, deixar a barba por fazer, produzindo fotos, enquanto isso a música, que é o essencial, fica em segundo plano. Na época de vocês como era ser um artista sertanejo? Vocês tinham liberdade para compor e criar? Havia algum produtor que ficava exigindo algo de vocês?

Meire: Olha, na época que nós começamos nós éramos anunciadas assim: “Uma sanfona e um violão, duas alegres jovens e lindas criaturas formando as Irmãs Galvão”. Então, como você vê era só uma sanfona e um violão tocando em circo com o que se tinha na época, o som precário, não se tinha absolutamente nada. E nós fizemos a nossa carreira calcada nesse início, o circo foi uma grande escola, o início nosso foi uma grande escola, porque aprendemos a lidar com tudo, tudo que aparece para nós hoje é maravilhoso. Agora essa música jovem que está ai, graças a Deus fazendo sucesso, só existe porque a raiz foi bem plantada. É uma raiz forte, uma raiz sadia, uma raiz honrada, é uma raiz com muito respeito, e vai daí que a música sertaneja tá fazendo o sucesso que está. Se não tivesse essa raiz não existiria mais música caipira no país. Tanto que nós já estamos para completar 70 anos de carreira ainda fazendo shows, ainda frequentando estrada, não temos nada dessa coisa de produção, nós somos o que somos no palco, fora do palco, somos simpáticas, lindas e maravilhosas [risos]

Marilene: Vocês viram que eu não falei nada disso, né? [risos] Eu sou mais modesta [gargalhadas].

Meire: Então você vê que essa força da música caipira é o que traz o artista fazer tantos anos de carreira. Nós temos duplas caipiras fazendo 60 anos de carreira, 65 anos de carreira, nós só esperamos que essa força que está acontecendo agora que ela persista, que não seja um meteoro, porque é legal a música sertaneja tomar um outro rumo, então isso é bom, mas precisa ver a persistência, porque nós aqui, Meire e Marilene, As Galvão, nós somos persistentes, nós fomos cara de pau, nós que buscamos as nossas coisas e nós que fazemos tudo. Agora nós temos o respaldo de um maestro que é o Mário Campanha [esposo de Meire], que é o nosso diretor, o nosso violeiro.

Marilene: Nosso marido também [gargalhadas].

Foto por Clarissa Zuza

Foto por Clarissa Zuza

Fila: Pra encerrar o nosso bate-papo, se vocês pudessem indicar pra quem ainda não tem o profundo conhecimento da música caipira, cinco artistas que definem o gênero musical, quais seriam?

Meire: Vamos começar então pelas Galvão, nós temos um trabalho muito bonito e que merece ser ouvido. Depois você pode ouvir ‘Zico e Zeca’, ‘Liu e Léu’, ‘Moacyr e Sandra’, ‘Mococa e Paraíso’ e ‘Pedro Bento e Zé da Estrada’. E tem muita gente boa.
E o que é mais bonito e que nós estamos honradas, valeu né mana? Tudo que a gente enfrentou? Toda essa luta que nós tivemos, lutamos contra preconceito, lutamos contra uma porção de coisa que não fazia parte do nosso sonho, mas que nós conseguimos e chegamos aqui. Então o que é muito legal é o jovem procurar saber o que é música caipira, muitos jovens já tocando viola, muitos jovens fazendo a música caipira, procurando a história da música sertaneja, e vai encontrar esse pessoal todo que eu citei aqui.

Foto por Giuliano Martins

Foto por Giuliano Martins

Na última sexta-feira, dia 27 de novembro, o Sesc Jundiaí recebia em sua unidade um dos maiores nomes do Rock nacional dos últimos 20 anos, o Raimundos.
Com duas décadas de carreira, oito discos lançados e mais de 5 milhões cópias vendidas, o Raimundos tem o seu nome cravado na história do gênero no Brasil. Se no surgimento da banda, em 1994, a mesma causou furor devido a salada musical que mesclava o pesado Hardcore com elementos da música nordestina, três discos depois o Raimundos já era representante massivo de uma geração musical que ditava as próprias regras e tinha liberdade de escolha e sonora. Em 1999, com o lançamento do disco ‘Só no Forévis’, o grupo alcança um status inimaginável, com a sua música sendo consumida de maneira feroz pela massa e com apresentações diárias nos principais programas de TV.
Do topo para o lodo, com a saída do vocalista Rodolfo Abrantes, os Raimundos tentaram sobreviver, gravam mais um disco, EP virtual, perde integrantes fundadores, mas parafraseando o trecho de ‘Marujo’, “Quem disse que o Raimundos vai se acabar?”. Hoje a banda renasce como a fênix, saciando os velhos fãs e agregando novos para sua trajetória. Se guitarrista Digão assumindo os vocais do conjunto já era um sinal de inovação, hoje a banda mostra que inovar é um lema latente, afinal de contas o seu penúltimo registro de estúdio, o disco ‘Cantigas de Roda’ (2014), foi totalmente bancado pelos fãs via financiamento coletivo pela internet, e foi nessa mesma rede que os fãs votaram em vinte canções que forma o repertório dessa turnê que comemora os 20 anos da banda.
Antes de subir no palco do Sesc Jundiaí, o baixista Canisso bateu um papo conosco e falou sobre a participação dos fãs no setlist dos shows, além de revelar as suas canções favoritas da banda e contar um pouco também das gravações do CD/DVD ‘Cantigas de Garagem’.
O bate-papo, na íntegra, você acompanha abaixo.

Esse show que vocês apresentam aqui em Jundiaí, é a turnê que comemora os 20 anos de carreira dos Raimundos e o setlist dela foi montado pelos fãs através de votação pela internet. No entanto os fãs optaram por um repertório óbvio, com canções que já são costumeiras no repertório da banda, ao invés de votar em canções que o grupo nunca executou ao vivo. Como vocês reagiram a isso?

Eu tenho uma teoria pra isso. Quando a gente fez a turnê do ‘Cantigas de Roda’ (2014), muitas pessoas vinham até nós, na passagem de som, e perguntavam se a gente ia tocar os clássicos. Porque quando você lança um disco novo as pessoas têm medo que você pare de tocar as músicas antigas. Então muita gente chegava nos shows e perguntava: “Cara vocês vão tocar ‘Eu Quero Ver o Oco’? Vão tocar ‘Putero em João Pessoa’? ” E a gente respondia: “Mas é claro que vamos tocar, faz parte do repertório essas canções”, eles retrucavam: “Mas é que eu pensava que como vocês estão lançando disco novo, vocês só iriam tocar músicas novas”. Então tem uma tendência de as pessoas acharem que porque você lançou um trabalho novo você vai renegar o seu passado.
E quando a gente fez 20 anos do lançamento do primeiro disco [o disco ‘Raimundos’ de 1994], a gente não achou novidade fazer um setlist tocando as músicas do primeiro disco em ordem, porque a gente já tinha feito isso quando disco fez 15 anos, aí eu pensei: “Cara, a gente vai fazer isso de novo? Tocar as músicas do primeiro disco em ordem? ”, poderia até ser, mas os 20 anos de carreira da banda não poderia passar em branco, teria que ter alguma coisa de diferente. Aí no meu aniversário no ano passado, em dezembro, eu falei nas redes sociais: “Cara, sabe o que vocês poderiam me dar de presente de aniversário? Um setlist com as músicas que vocês querem ouvir no show dos Raimundos”. Eu provoquei a galera justamente pra ver se sairia nessas escolhas algum lado b, ou aquela música que você nunca iria imaginar que os caras queriam ouvir, mas é engraçado que rolou exatamente isso, 90% das músicas que estão no set são músicas que sempre estiveram, os clássicos mesmo.
Então chegamos aquela conclusão novamente, a galera quer ouvir os clássicos e quer garantia de que a gente vai tocar. Então quando a gente fez uma enquete, eles votaram nos clássicos. Tem pouquíssimos lados b, é tipo, basicamente se você tirar o setlist dos 20 anos é um show normal do Raimundos que a gente vinha tocando.

Eu tomei a liberdade de analisar o repertório e constatei que das 20 músicas escolhidas, 16 são sucessos radiofônicos.

Exatamente. E até as mais lado b que chegaram a atingir uma votação expressiva nessa enquete, são músicas que a gente já toca a bastante tempo. Nos ensaios até comentávamos: “A gente até vai tocar essa música, só que essa música a gente sabe que no show ela não funciona tanto”. Ela é uma música legal de ouvir, você ouvindo no seu carro, cantando junto, mas no show ela não representa tanto quanto as outras.
Eu sempre falo assim: “Dá um voto de confiança pra gente, a gente sabe o que estamos fazendo aqui em cima, sacou? ”. O setlist é basicamente isso, deram a carta branca porque já era o mesmo que a gente já vinha tocando, então tá tudo em casa.

Se você pudesse montar um setlist especial, quais músicas ele teria?

Seria só lado b. As que eu mais gosto são as mais obscuras [risos]. Do segundo disco mesmo [‘Lavô tá Novo’ – 1995] eu gosto de ‘Cabeça de Bode’, que eu conto nos dedos quantas vezes a gente tocou. Pô, no Lapadas [do Povo – 1997], tem várias músicas que eu adoro e poucas músicas entram no repertório. Acho que só na época que a gente fez turnê do Lapadas que a gente tocou elas.

O Lapadas do Povo é um disco difícil de entrar no repertório da banda, tanto que no MTV Ao vivo foi até surpreendente a presença de ‘Oliver’s Army’ [Cover do Elvis Costello gravado no disco] no show. Porque ele é renegado?

Mas nesse set agora a gente tem tocado ‘Andar na Pedra’ e temos tocado até algumas coisas do ‘Cesta Básica’ (1996), como ‘Papeau Nuky Doe’. Mas é aquela coisa, são músicas que são tão legais, mas são tão obscuras, que galera meio que fica assim [nessa hora Canisso faz uma cara de espanto], e a gente precisa do feedback, precisa da galera agitando se não a gente também dá uma broxada. Se o cara broxa ali a gente também broxa aqui, e acaba um vira pra um lado, um vira pro outro e bota a cabeça no travesseiro e vai dormir [risos], e não é isso, a gente quer pegada [risos]. Então a gente já tem uma noção do que funciona, então eu só quero isso, um voto de confiança. Deixa a gente “trabaia” [risos].

Foto por Geovana Martinez

Foto por Geovana Martinez

Falando do ‘Cantigas de Garagem’ que vocês lançaram recentemente, ele é um ao vivo no estúdio com o repertório do último disco de vocês, o ‘Cantigas de Roda’. Além da ausência da plateia, qual é a diferença da gravação de um disco dessa maneira, para um ao vivo “convencional”?

Vou te explicar, esse disco ‘Cantigas de Garagem’ ele é a reedição do ‘Cantigas de Roda’. O Cantigas de Roda é disco exclusivo para o crowdfunding [financiamento coletivo na internet]. Ou seja, só quem tem e ouviu esse disco foi quem contribuiu para o crowdfunding, não havia em nenhum outro lugar para ouvir.

Mas teve muita gente que realizou download ilegal do ‘Cantigas de Roda’ em sites de compartilhamentos de música, não teve?

Teve sim, muito. O cara pode baixar o disco ilegalmente na internet, queimar as músicas em um CD ali, mas esse CD é um CD exclusivo. Ele não foi colocado para vender, ele foi vendido antecipadamente pelo crowdfunding, então ele é um projeto fechado, foi um sucesso, atingimos as metas, vendeu, e pum, encerramos o projeto. Só que o que que aconteceu? Surgiu uma demanda muito grande, as pessoas queriam ouvir as músicas. E quem não baixou, quem não comprou? E aí? Como é que faz? Eu quero! Eu quero comprar.
Até hoje muitas pessoas nos pedem, “Oh vende pra gente o Cantigas de Roda”, e não dá, porque a proposta é que ele fosse um disco exclusivo para os apoiadores. Uma das coisas que foi legal foi a oportunidade de propostas que foram surgindo, a gente vinha de um trabalho totalmente independente e o sucesso do crowdfunding nos deu a legitimidade de receber propostas de gravadoras. Várias, não foram poucas, foram várias, e a gente só se deu o trabalho de escolher qual deu mais liberdade de ação pra gente.
Nisso pensamos: “Agora nós estamos com um contrato, temos uma gravadora, o que, que a gente vai fazer? Qual é o primeiro produto que vamos fazer? “, meu, o primeiro produto que todo mundo quer, que nego quer ouvir as porras das músicas, é o Cantigas de Roda. Mas como que a gente vai fazer isso? Vamos fazer um DVD, pensamos. Mas como? Um DVD em um lugar? Não, vamos gravar tudo junto e vamos ver como é que fica. Mostrando a gente tocando e tal. E eu acho muito mais legal que o Cantigas de Roda, impressionante. Apesar da quantidade de recursos que em uma gravação separada é muito maior, eu acho que esse Cantigas de Garagem tem mais sangue, ele tem mais alma porque é a banda tocando, não tem overdubs ali, é só a banda tocando e eu acho muito mais foda. Até porque é o nosso som, os nossos timbres, os nossos amplificadores, é como você pegar o palco do Raimundos e gravar.

Quem assiste ao DVD realmente vê a banda vibrando tocando as canções.

Exatamente. Foi muito bom, na época foi muito bom. Mas eu volto para a primeira pergunta que você fez, a gente fez uma turnê dos dois Cantigas e uma das coisas que eu mais sentia era nego com medo da gente não tocar os clássicos, isso bateu na enquete. Nego falava: “Oh, Cantigas? Joia, músicas boas e muito legais, só que a gente quer ouvir os clássicos, vocês podem até tocar as ‘Cantigas’, mas queremos os clássicos”. Foi isso que a enquete mostrou pra gente.

Foto por Geovana Martinez

Foto por Geovana Martinez

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Julio Maria conheceu a redação de um jornal através de um trabalho como Office boy no extinto Jornal da Tarde. Apaixonou-se pela profissão e decidiu cursar a faculdade. Formado pela PUC (Pontífice Universidade Católica) SP, em 1998, Julio começou a trabalhar na área, por uma incrível coincidência na mesma redação em que ele já havia trabalhado antes como Office Boy. Atualmente, Julio é um dos mais respeitados críticos musicais do país e lançou no dia 17 de março deste ano, o livro Nada será como antes, que pretende ser a biografia daquela que é considerada a maior cantora brasileira de todos os tempos, Elis Regina. Julio esteve presente na Semana Estado de Jornalismo, organizada pelo jornal O Estado de São Paulo, para conversar com os futuros profissionais da comunicação sobre o processo de produção de uma biografia. “Foi fazendo o livro que eu passei a defender que a biografia tem que fazer parte da formação das faculdades”, afirmou ele nessa entrevista onde ainda comentou a questão das autobiografias no Brasil, o jornalismo de sofá e a falta de um novo assombro na música brasileira. Isso e muito mais você confere abaixo!

 

Por Fila Benário e Beatriz Sanz

Beatriz Sanz: Como você iniciou a sua carreira no jornalismo?

Tem uma curiosidade nessa história, quando eu tinha 14, 15 anos eu vim trabalhar nesse jornal como office boy, trabalhei nessa redação aqui (apontando de dentro do estúdio da Rádio Estadão, local no qual acontecia a entrevista, para a redação), ali funcionava a redação do Jornal da Tarde [o antigo JT, extinto desde 2012] aqui no Estadão. Eu trabalhei no JT por quatro anos, até completar 18 anos. Nisso eu sai para servir o quartel e já estava com ideia de jornalismo na cabeça, mas não tinha faculdade e nem nada [risos]. Ai eu servi ao quartel, não porque eu queria, mas porque fui obrigado mesmo. E quando eu saí eu entrei na faculdade de jornalismo. Comecei fazendo Anhembi-Morumbi e depois eu fui para a PUC. E quando eu estava no segundo ano de curso, o primeiro lugar que apareceu para trabalhar foi na mesma redação de quando trabalhei na adolescência, e não foi nenhum contato meu, é até engraçado, foi coincidência mesmo. A menina que estava na minha sala de aula falou: “Olha, eu estou saindo de onde eu trabalho e estão pedindo para indicar alguém e eu estava querendo te indicar”, e nisso eu perguntei: “Aonde que é?”, e ela respondeu: “É no Jornal da Tarde” [risos].
Nisso eu vim tremendo, nervoso pra caramba. Entrei, subi os elevadores, que eu já conhecia desde aquela época. Enfim, eu comecei na época no Jornal da Tarde, em um caderno chamado Divirta-se, cobrindo música já. E isso foi uma coisa legal porque eu tocava, me formei em música também, tive banda, tocava contrabaixo e guitarra profissionalmente na noite, e vim trabalhar em lugar falando justamente disso, acho que foi sorte. Mas depois quando os caras veem que você também tem um jeitinho pra coisa, que quem toca instrumento tem um olhar diferenciado, então eu fui subindo, comecei como estagiário, nisso eu virei o que chamavam de freela-fixo, que era uma mistura de estagiário já virando profissional. Fui contratado e fiquei como repórter por um bom tempo e depois fui subindo, cheguei a ser editor do caderno de Variedades, que era o caderno de cultura do JT, e fiquei 10 anos no jornal.
Em 2009 o Estadão resolveu fazer um caderno de música, o C2+Música, e me chamou para editar. Sai do JT feliz da vida e vim para o Estadão, comecei a editar um caderno semanal e só tinha música, eram oito páginas limpas somente daquilo. Fiz edições incríveis, sabe? De poder fazer reportagem, aprofundar, críticas, um monte de críticas. Eu ia para a terra do Luiz Gonzaga e contava toda a história dele, fazia um especial gigante sobre a sanfona. Também ia para terra do João Gilberto, contava a história dele. Fazia reportagem mesmo.
Até que o caderno durou quatro anos, teve uma reformulação no Estadão e eles tiraram todos os cadernos, o Link, Sabático, o de música, simplesmente tiraram, por crise e tal. E eles mandaram os editores desses cadernos embora, só que o Bira [Ubiratan Brasil] que é o nosso editor no Caderno 2 me falou: “Eu queria que você continuasse com a gente, cobrindo música, fazendo reportagem”. Então eu sou editor de fato, mas na condição de repórter. Eu nem falo que sou editor, eu me apresento como repórter. E apesar de ser muito gostoso fazer [o caderno] música, é muito complicado ser editor e ter que lidar com os egos dos repórteres que se acham, que quer mais espaço, que não sei o que, que eles são incompreendidos. Tem que ter muita paciência, na verdade eu nunca briguei com ninguém, mas depois eu comentava para mim mesmo: “Meu, esses caras são muito chatos” [risos].
E o editor também sai um pouco do combate, sai da rua, que é o lugar onde eu quero morrer, eu quero morrer fazendo matéria na rua. Eu troco 50 cargos de diretor de jornal por isso, eu já falei para o meu editor: “Me deixa como repórter, por favor”. De vez em quando, quando sai algum sub [chefe], eles vem sondar, até porque eu estou ai mais tempo, então eu poderia assumir, mas eu falo: “Oh, vocês vão acabar com a minha carreira sinceramente [risos], eu não vou aguentar e vou ter que sair”.
A reportagem pra mim é o coração da profissão, não tem nenhum cargo pra mim mais tentador do que escrever e descobrir as histórias. Sem isso não faz sentido nenhum pra mim a profissão.

Julio Maria: "Eu quero morrer fazendo matéria na rua"

Julio Maria: “Eu quero morrer fazendo matéria na rua”

Fila Benário: Hoje no jornalismo musical, principalmente com a proliferação da internet, a reportagem tem sido engolida pelo jornalismo de opinião, muito embasado em críticas. O que você acha disso?

Essa questão que você levantou é muito importante, porque, tem duas frentes do jornalismo musical, tem reportagem e tem a crítica. E às vezes a gente mistura as coisas. Nesse momento eu estou questionando isso, e questionando comigo mesmo.
É assim, quando você faz uma reportagem sobre um disco, você vai ouvir o músico. O cara dá entrevista, você ouve o produtor. A reportagem é isso. Nós estamos muito mal acostumados na redação com uma matéria com uma fonte só, entrevistar um cara ta bom. 80% das matérias que saem nos jornais tem uma fonte só, pode até ser falta de tempo, mas eu acho que a gente não pode se contentar. Vamos atrás de mais, vamos atrás, reportagem é isso. A capa do Caderno 2 hoje por sinal [uma matéria sobre a volta da Legião Urbana] é uma reportagem. Fiquei ouvindo um monte de caras, teve uns que não falaram ainda e querem falar agora depois que saiu a matéria, isso é reportagem, você ir atrás de várias fontes e fazer a reportagem.
Quando sai um disco, por exemplo, a Zélia Duncan lançou um disco novo [o disco Antes do Mundo Acabar], o que a gente fez aqui no Estadão? A Adriana Del Ré, que trabalha com a gente, foi lá e fez uma entrevista com a Zélia e publicou uma matéria. O que difere matéria de reportagem é que a matéria tem uma fonte só, nesse caso foi a Zélia. Reportagem pra mim é uma coisa mais sagrada [risos]. Voltando, ela fez uma matéria com a Zélia Duncan, e isso é uma matéria, não uma crítica, mas ela pode trazer um tom crítico, mas eu estou achando que isso não dá certo, não está dando certo. Porque quando você entrevista um artista, você cria um vínculo com ele, e não raramente você começa a defender um pouco a posição que ele te passou. Então isso não é crítica.
Eu já fiz de tudo, eu já fiz esse mix de crítica com matéria, ouvindo o cara e dando a minha opinião, mas esse não é o modo ideal, porque se você contradiz o cara, tudo bem, você pode contradizer, mas você batendo no cara, como você fez a entrevista, não é muito honesto com o entrevistado até porque você estava em um papo descontraído, e de repente no texto você apareça com uma postura de crítico. Eu acho estranho esse formato, pessoalmente eu vou contra agora esse formato que eu mesmo já usei, de juntar crítica com entrevista.
O que, que é ideal hoje a gente fazer? Uma matéria do disco, o repórter vai lá e faz, e o outro faz a crítica. A Folha [de São Paulo] faz isso de vez em quando, e O Globo faz melhor, ele é o que mais está demarcando território nessa área, com selo de crítica, com cinco, quatro, três estrelas, e matéria com o personagem falando. E um detalhe, com repórteres diferentes.
Claro que existem as limitações, aqui no jornal, por exemplo, além de ter pouco repórter de música, os que têm são de áreas diferentes da música. Eu sou da música brasileira, tem um cara que dialoga muito comigo que é o Renato Vieira, que é um cara muito legal, faz um trabalho muito interessante, ele é novo, muito novo, recém-saído da faculdade e sabe tudo de música brasileira, esse vai crescer muito, tenho certeza. O João Paulo faz Rock, ele ta pegando muito a praia de Rock Nacional, anos 80, mas também fazendo a linha underground de bandas novas e tal. E o Pedro Antunes que senta do meu outro lado faz uma coisa mais Rock Internacional, POP mainstream e tal. Então eu tenho dois caras que eu me dou super bem, a gente é superamigo, mas é difícil.
Dando um exemplo, a cantora Roberta Sá lançou um disco novo [Delírio], eu fiz uma entrevista com ela, mas quando eu sentei eu passei por esse dilema: “E agora, eu faço uma crítica ou eu faço uma matéria?”, Qual foi a minha opção? Eu joguei fora a entrevista, claro que eu não joguei ela totalmente fora, ela serve pra embasar a crítica, o que se sabe da história, como ela chegou até aquele disco. Mas eu tinha tanta coisa pra dizer de crítica, que eu achava que era o momento de falar algumas coisas pra Roberta Sá, mas sem ofender, sem ofensa. É como se você estivesse no bar e o músico fosse o seu chegado e você tivesse ali dando um toque pra ele: “Pô cara, se você tivesse feito isso, você tem uma voz tão legal, se você tivesse usado essa voz naquela música teria ficado muito legal”, eu acho que a crítica é isso, você falando com o seu amigo, mas ele não é seu amigo, você nem conhece a pessoa, e é melhor que não seja pra assim você não ficar puxando o saco dela [risos]. Mas é como isso, um papo de bar, com o músico e você dando uns toques pra ele.
Essa crítica da Roberta Sá repercutiu muito e foi muito legal, o editor até me perguntou: “Mas você não entrevistou a Roberta Sá?”, e eu respondi: “Entrevistei, eu tenho a entrevista”, e ele retrucou: “Mas eu pensei que você fosse usar”, e eu não usei justamente pra isso, eu queria demarcar o território, se tivesse mais espaço eu faria a matéria com a crítica junto e eu mesmo faria os dois, o que não está 100% legal também. Mas não, eu fiz só a crítica, uma opção editorial.
Então eu acho que sobre crítica tem um estudo a ser feito porque a gente ainda está em um momento de muita covardia na crítica, a crítica está muito covarde. Eu acho que os jornalistas não querem implodir as pontes. O que, que é isso? Chama-se “queimar as fontes”. Porque o jornalismo está em crise, e o cara fica se perguntando: “E se eu sair daqui pra onde eu vou? Então eu não posso me queimar com fulano”, isso é uma coisa. A segunda coisa, se chama Redes Sociais, por exemplo, o cara fala mal do disco do Emicida, ele vai ser imediatamente exposto na rede social do Emicida que tem 700 milhões de seguidores e vão acabar com esse cara. É verdade, já aconteceu comigo em relação à crítica que fiz ao [rapper] Criolo. Então eu acho que esses são os dois pontos principais do o porquê a crítica estar se acovardando. Eu ainda vou escrever sobre isso, pois está me incomodando muito e tenho pensado bastante sobre isso.
Outra coisa sobre as redes sociais, quem são as pessoas do seu Facebook? Ai você como crítico tem lá o Dado Villa-Lobos (Guitarrista da Legião Urbana), Zélia Duncan, Zeca Baleiro… Aí você vai fazer uma crítica de um trabalho que tem esses caras envolvidos, você vai ficar com receio. Cara, isso é a pior coisa. Se o cara souber separar as coisas você pode ser amigo dele. Vou dar um exemplo, os Titãs, eu fiz uma crítica deles há muito tempo, em 1998, eu estava começando na profissão e quando você está começando você tem um “sangue nos zóio” [risos], e eu peguei pesadíssimo com os Titãs. Não acho que crítica tem que ser assim, mas o empresário deles chegou a mandar uma carta para o jornal pedindo que me demitisse, foi na época que eles lançaram o disco Volume Dois, que veio na cola do Acústico e eu estava indignado com essa postura oportunista deles, enfim eu fiquei indignado. Mas na próxima entrevista eles me trataram muito bem: “Pô, você fez polêmica lá com o nosso disco…”, mas me trataram bem. Todo mundo sabe que o jogo é esse, tem os personagens, eu sou o crítico, tem o produtor, tem o empresário da casa noturna, e o show é feito pelos personagens desse jogo, e o crítico é um deles. Então as pessoas têm que saber os seus lugares.
Então eu acho que essa questão de manter as relações, de quebrar as relações, de manter as amizades está acovardando a crítica. Eu estou muito disposto para voltar a fazer crítica sistemática como eu fazia, separando a crítica de matéria e eu estou pronto para implodir as pontes, eu acabei de implodir uma [risos]. No domingo saiu uma crítica do disco da cantora Célia [o disco Aquilo que a Gente Diz], uma cantora de música brasileira dos anos 70 que teve uma importância, mas ninguém conhece, e eu… é porque eu tenho texto que é bem bonitinho, poétiquinho [risos], e às vezes as pessoas falam: “Ufa, o texto tá com o Julio Maria, ele vai fazer uma matéria”. Aí o cara me mandou o disco achando que ia sair uma coisa assim, bem bonita, poética, falando da vida da Célia, mas não, eu fiz crítica mesmo. Eu ouvi o disco, ouvi o disco, ouvi o disco e comecei a achar muito frágil, e a Célia muito desafinada. Eu juro pra vocês, que pra tirar dúvida, pra embasar mais eu sentei com uma colega minha que é cantora, e eu falei: “Escuta, isso aqui não está desafinado ou eu que estou muito chato?”, e ela disse: “Tá muito desafinado esse disco, ela está muito desafinada”. O produtor jamais deveria ter deixado passar, porque hoje em dia tem o Pro Tools, que não é o correto, mas pelo menos sai afinado, e o produtor não usou nada. Quando eu parei para escrever eu falei: “Não, eu tenho assunto pra fazer uma crítica, eu não vou ficar contando história e nem vou fazer entrevista”, não pedi entrevista, você vê, é uma diferença da reportagem, é o extremo oposto, é melhor não entrevistar nesse caso do que entrevistar e criar vínculo com o artista, então eu fiz a crítica e imediatamente no domingo o empresário dela que era um amigo meu, acredito que ainda seja amigo meu, o Thiago Marques, ele me escreveu dizendo: “Se eu soubesse que você não iria gostar do disco eu teria passado pra outro jornalista que gosta”. Entramos aí em um terceiro ponto, as pessoas não estão aceitando críticas, elas só querem que sai se você falar bem, então são vários pontos que eu tenho percebido que tem deixado os críticos da grande imprensa covardes, amedontrados é melhor. Eles não falando o que deveria falar.

Julio Maria: "A crítica musical está muito covarde"

Julio Maria: “A crítica musical está muito covarde”

Bia: Recentemente, a jornalista Marina Santa Clara Yakabe, que faz assessoria de imprensa dos rappers Emicida e Rael disse em uma palestra para estudantes de jornalismo que: “A importância dos críticos tinha diminuído bastante, porque na década de 90, se um crítico soltasse uma crítica ruim o disco não seria vendido, e hoje se crítico solta uma crítica ruim, o público nem liga”, então como que você avalia essa fala dela?

Ela tem razão, nos anos 90 tinha peso mesmo à crítica da imprensa: “Não vou atrás do disco porque o crítico disse que é ruim”, é mais ou menos o que cinema ainda mantém, e a música tinha isso, mas era na época do vinil, do CD que vendia. Agora as pessoas não estão nem aí, você fala mal, elas não importam, elas vão lá e baixam o disco na frente do computador e tiram suas próprias conclusões. Mas o crítico continua com uma grande importância, sabia? Não querendo puxar sardinha para o nosso lado, mas se não tivesse importância eu não teria tanto pedido por dia pra fazer matéria e crítica como eu tenho agora, eu não dou conta da quantidade de material que eles mandam pra redação. Se não é importante, por que eles pedem tanta matéria?

Fila: Mas esses materiais que você recebe são de artistas consagrados ou de bandas novas?

Dos dois, o problema é que o artista que já está na mídia, a intenção é outra, é se manter no mercado e ter o disco avaliado, cara. É muito louco como a crítica legitima o disco, parece que o disco só passa a existir quando se faz uma crítica dele. Vários artistas dizem: “Pô, por que você não fala da gente?”, “Vocês não deram uma linha pra gente”, eu ouço muito essa frase: “A gente lançou um disco e vocês não deram uma linha”. Então significa que tem uma importância, porque quando você faz, o disco aconteceu, mesmo quando você fala mal. Agora, falar mal é difícil, de verdade. Eu saí daqui na sexta, por causa da crítica da Célia, às 3h da manhã. Se eu tivesse falado bem eu teria saído ás 11h da noite, porque falar bem é ficar fazendo release. Quando um trabalho é bom, ele merece ser dito, você não vai ficar procurando pelo em ovo, ta bom e já era. Agora falar mal requer embasamento, não é só falar que tal música é chata e eu não gostei, que essa ta parecida com outra e tal. Tem gente que faz isso e tem gente que descamba, que começa a justificar que o disco é ruim porque o artista é sem noção, descamba para um linguajar que é muito ruim.
Quando eu faço crítica eu penso assim: “Como fazer esse artista entender que ele pode ser melhor no próximo disco?”, é só isso, eu não quero dizer que ele é ruim, não quero dizer que ele errou, não é julgamento. Sobre a Roberta Sá eu escrevi: “Se você cantar com o coração e deixar essa preocupação técnica que ela tem…”, eu até escrevi que: “A parte técnica está envernizando o canto e é um verniz impede que chegue ao coração das pessoas”. E eu terminei a crítica dizendo: “A voz que sai do cérebro da Roberta é incrível, o dia que ela fazer essa voz sair do coração vai ser um som arrebatador”.
Então é impossível, se o artista ler isso, eu tenho certeza que ele pode me odiar, mas ele vai pensar a respeito. Muitas pessoas vieram me procurar depois dessa crítica e disseram: “Mas é exatamente isso que eu sinto dela e eu não conseguia dizer”, então as pessoas também gostam de ler críticas. A da Célia me falaram: “Poxa que bom, você ta escrevendo com coragem”. Coragem? Mas eu não estou denunciando ninguém [risos] é só uma crítica.
Então eu estou muito envolvido com a crítica de novo, por um tempo eu deixei mesmo de fazer, eu gosto de reportagem, mas eu acho que a gente tem que treinar as duas veias, a crítica e a reportagem.

Julio Maria: "Se a crítica não é importante, por que eles pedem tanta matéria?"

Julio Maria: “Se a crítica não é importante, por que os artistas nos pedem tanta matéria?”

Bia: E qual a relação do crítico com o fã?

Essa relação é tensa, você tem que ter muito estômago, cara. Isso pode acabar com o seu dia, com a sua semana, porque o fã não tem noção, ele xinga a sua mãe, xinga seu pai, ele xinga você, fala que você é um bosta, e nisso você vai treinando. Eu já fiquei chateado pra caramba, eu fiz uma vez uma crítica do Philip Philips, ele foi vencedor do American Idol em 2012, cantou no palco principal do Rock In Rio em 2013, e eu fiz a crítica de uma música que foi Let’s Get it On que é do Marvin Gaye, que eu acho sensacional, está em um altar pra mim essa música, e o cara vai e faz uma versão que não tem o porquê dele fazer aquela versão. A crítica que eu fiz da Célia eu disse que o artista ele tem que sempre fazer uma pergunta pra ele mesmo que é “Por que eu estou fazendo isso?”, tem que ter um motivo, se for exatamente igual o que o outro já fez, não precisa. Se for uma coisa que não trouxe uma informação nova, uma sensação nova, também. E ele não só cantou tudo desafinado como não sei o que aconteceu ali, mas estava muito equivocado o formato que ele apresentou ali, era como se tivesse pegado um violão em casa e tocado, tudo bem, isso pode funcionar, mas ali eu como crítico, com visão você tem a liberdade de expressão de dizer gostei ou não gostei disso. E ai imediatamente os fãs entraram e fizeram uma corrente de trilhões de adolescentes, que não sabem quem é você, e estão detonando você, como se você fosse um monstro.
O pessoal do Rap é um pessoal bem difícil, cara. Eu adoro Rap, eu adoro o fazer matéria com grupo de Rap, tipo o Racionais Mc’s. Eu gosto do fenômeno, de analisar o fenômeno do Rap, e também tivemos vários problemas na redação, o [grupo] ConeCrewDiretoria destruiu um colega nosso. O Rappin’ Hood ameaçou um outro amigo nosso aqui, falou que ia pegar na rua, que ia processar. E era tudo besteira, eles nem lembram mais disso, esqueceram.
Enfim, essa relação é muito tensa, essa relação do crítico com o fã, é uma relação que requer muito estômago e preparo, porque você vai tomar, o crítico faz a crítica, mas a crítica é criticada.

Bia: Que foi que aconteceu com o Zeca Camargo quando ele falou do Cristiano Araujo…

Exatamente, é isso ai. Eu não sei a opinião de vocês a respeito, mas eu achei até coerente algumas coisas que ele falou ali. Em momento algum ele estava menosprezando a família do cara, houve uma corrente de pessoas comentando sem saber o que estava comentando sem conhecer nada e virou o “Tribunal do Facebook” como dizia Tom Zé, tendo as suas execuções sumárias.

Fila: Ainda sobre o novo jornalismo pós internet, hoje existem muitas pessoas dando opiniões do sofá graças as transmissões de festivais ao vivo pela TV, como Rock In Rio, SWU, Lollapalooza e entre outros. E tudo isso vai para um blog na internet. Como você avalia esse tipo de jornalismo?

A gente lê essas coisas assim, tá compartilhado no Facebook, a gente compartilha também, mas eu não vejo uma produção de profundidade. Tem cara que entende muito, mas não tem uma discussão. Eu não lembro de ter lido uma grande crítica vindo de um blog, pode ser que eu não conheça mesmo, mas como o Ricardo Gandour [Diretor de conteúdo do Grupo Estado] falou na Semana Estado de Jornalismo, “Tem que tomar muito cuidado, hoje como todo mundo está escrevendo estão fazendo de tudo, mas nem tudo é jornalismo”. E a crítica é um produto do jornalismo, sou um produto do jornalismo.
Então esses textos traz muita paixão, muita visão de fã, que é uma coisa que nas redações a gente tem que evitar, apesar de ter também . Teve o show do A-ha, veio uma menina lá do Jornal do Carro [Suplemento do Estadão], aí liga lá para assessoria dizendo: “Não, sou eu que vou cobrir o A-ha, porque a gente tem uma sinergia dentro jornal”, não tem nada, ela inventou essa história por quê? Porque ela é fã do A-ha, ela queria ver o show. Olha, o que vai sair dessa crítica eu não tenho certeza se vai sair uma coisa boa. Então existe muito jornalista fã e a morte do jornalismo é essa, o jornalista fã, o cara nem viu, mas ele já gostou, ta emocionadíssimo de estar ali, então ele só vai jogar pra si. E o artista odeia isso, ele odeia babação de ovo, na verdade o cara quer ler uma crítica do cara que vai dizer algo que vai falar: “Puta, o cara viu isso, e eu não tinha pensado”, fala se o cenário não estava legal, a iluminação, ele vê tudo, o show como um todo.
Isso é um preparo, pode ser que tenha uns caras muito bons em blogs, até porque existe jornalista que sai da redação depois de muito tempo e faz um blog.

Fila: Como o próprio Régis Tadeu (Ex-editor da revista Cover Guitarra e atual blogueiro do Yahoo) e o André Barcinski (Folha de São Paulo e blogueiro do R7)

Sim e vários outros. Então, a repercussão ainda é saindo da nova imprensa, dos sites. Saindo da velha imprensa, dos jornais. A verdade é a seguinte, quando você faz um puta de um texto, qualquer um, ele vai repercutir, as pessoas vão compartilhar, você vai ganhar visita, ibope, e a grande imprensa vai atrás de você, você está chamando muita atenção, e é simples blog que pode acabar incorporado na Veja, na Folha, entre outros.
Eu acho que tem espaço para todo mundo, mas ainda é necessário ter embasamento, ter uma proposta mais profissional na crítica convencional.

 Bia: Na sua palestra na Semana Estado de Jornalismo você falou sobre estilo literário. Que quando você vai escrever uma biografia você vai criar um estilo literário. Então como se cria esse estilo literário e como você criou o seu?

Olha, o meu foi muito no dia-a-dia de escrever na redação, eu não sabia pra onde ir, eu não tinha texto, o meu texto era horrível, não estou dizendo que ele é maravilhoso, mas ele era horrível mesmo. Mas eu tentava uma coisa que eu sabia: ou que ou iria dar errado ou iria dar certo, mas eu procurava sempre uma coisa diferente, e nessa procura por uma coisa diferente você erra muito né?
Então pra abrir um texto eu lembro que nunca queria abrir pela notícia, eu queria criar um lead que fosse levar para notícia, mas não como todo mundo faria, então isso me deu problemas também. O meu editor me chamava e dizia: “Pô Julio, o que você escreveu aqui? Nada a ver esse lead aqui, vamos mudar isso”, aí eu mudava o texto, colocava a informação direto, e eu passei uns três anos procurando um estilo.
Mas sabe de uma coisa boa, é ler. Mesmo quando você está na redação, que o seu tempo é pouco, mas comece lendo grandes mestres do jornalismo como Gay Talese, e grandes escritores também, eu acho o Gabriel García Márquez um grande jornalista, e dá pra usar muito no texto, sem poetizar muito, mas às vezes até poetizando, gosto do Mia Couto, eu leio e penso: “Puta, isso aqui eu vou usar um dia, essa sacada do cara é muito boa”.
Então a leitura vai te dando uma identidade e a sua busca vai te dando também. Então eu senti que eu fui criando um jeito de escrever dentro do jornalismo trazendo informação, tá em criação ainda o meu estilo. Hoje se eu for pegar o inicio do livro pra ler, eu vejo umas partes que eu falo: “Eu teria feito isso diferente, com certeza, teria soltado mais”. Eu acho que o texto biográfico pode ainda ser mais solto do que é. A biografia tem um texto muito travado, as biografias em geral. E a cobertura também musical, tem uns clichês que a gente se apega, então tem que tomar cuidado com “Levou o público ao delírio”, ou “Eclético”. Eclético é uma palavra que eu nunca mais li, ainda bem, é uma palavra detestável nas redações. Eclético não quer dizer nada. Dá pra fazer uma lista de termos de crítica musical clichês que quando você não tem muito assunto você começa a usar, tem que evitar [risos].

Fila: Há alguns veículos de comunicação que proíbem o uso da palavra ‘Genial’ pra qualquer tipo de artista em resenhas, críticas ou reportagens, porque é difícil você descrever o que é ser genial.

É aí que o cara se entrega né? É um puta fã que está ali escrevendo! Não tem problema em ser fã, eu sou fã de um monte de cara que eu já escrevi, mas cara não deixa passar isso para o texto né?

Bia: Então nessa área tem que ser praticada a imparcialidade?

Nesse momento sim. A imparcialidade não quer dizer “Não se envolver no contexto”, até porque tem alguns textos chatos que você lê e você não está sentindo nada, e isso pra mim é um problema, pois o texto é tão imparcial que chega a ser técnico, distante e que não envolve. Você tem que se envolver com o texto, eu não conseguiria fazer um texto sem emoção na morte do Dominguinhos, por exemplo. Ou da morte do Ray Charles, ou do Wando, não dá, você tem que transmitir uma emoção, claro que tem que tomar cuidado para não se tornar uma coisa piegas, mas esse não envolvimento pra mim é perigoso, o leitor gosta de envolvimento, cara. Ele não gosta que você fique conduzindo ele pra ele ter a sua opinião, mas ele gosta de envolvimento sim.

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Júlio Maria: “O jornalismo musical tem que tomar cuidado com frases como ‘E levou o público ao delírio'”

Bia: Você falou de envolvimento, principalmente em textos de mortes de grandes artistas, e texto que você escreveu recentemente sobre o [Luís Carlos] Miele foi muito sentimental. Qual foi a sua aproximação com ele principalmente durante o processo de produção do livro?

Foi fundamental, o Miele foi o cara que mudou todo o projeto do livro graças às histórias que ele contou, e várias vezes como fonte eu ia até o Miele e perguntava: “Miele, foi assim mesmo?”. Então ele virou uma fonte do livro, aí quando ele morreu não tinha como. Primeiro que eles (o jornal) queriam dar a contracapa, e eu disse: “Não, ele tem que ser a capa de qualquer jeito, ele foi um cara importantíssimo”.
E o mais engraçado é que eu tinha um lead, que eu devia ter guardado ele, eu não estava nada contente com ele, não estava à altura do cara que tinha morrido, o cara merecia muito mais do que aquilo. Não que eu tive um lead genial depois, mas foi tão melhor, que na verdade ele abria o quarto parágrafo, eu peguei aquela frase e fiz ela virar o lead. Na verdade se torna aquela obsessão pelo lead, e eu lembro que a primeira frase era: “Os vivos ficam mais vivos e os mortos ressuscitam quando o Miele fala sobre eles”. Isso é Miá Couto.
Esse surrealismo de envolver Gabriel García Márquez no texto, eu adoro isso, e o Miele no fim da vida falou que a Elis Regina apareceu pra gente no quarto, é um realismo fantástico, tem uma coisa de Gabriel García Márquez ali.
Então você vê que o jornalismo ele comporta gêneros literários, e quando você pega frações isso faz toda a diferença, uma sacadinha no meio do texto faz algo como “Nossa!”, até porque o texto é tudo igual, mas é um tempero que o leitor vê e diz: “Nossa, me emocionei”, porque ele foi pego por aquilo, por aquele trechinho.

Fila: Agora entrando na biografia da Elis Regina, Nada Será Como Antes, conte para os nossos leitores como foi que você recebeu esse convite e abraçou essa ideia.

Exatamente, eu tive o convite da editora, a Master Books pra fazer a biografia da Elis. Mas a proposta inicial era pra fazer um livro em homenagem a Elis. Livro fácil de fazer, ouvir os amigos da Elis, aspas grandes, nem história eu ia fazer, era só aspa e foto. Aí eu pensei “Puta, tem muita história que eu estou ouvindo”, aí que entra o Miele, que me contou coisas maravilhosas e eu fui lá no livro da Regina Echeveria (Furacão Elis – 1985 – Editora Nórdica) e não tinha nada e eu falei: “Nossa, a gente tem que contar a biografia”. Ao todo, são cinco anos fazendo a biografia, 135 entrevistados nesses 5 anos. Foi aí que eu passei a defender que a biografia tem que fazer parte da formação das faculdades. Eu curti muito e quero fazer outra muito em breve. O que eu aprendi de jornalismo, apuração, coisas que eu já pensei que soubesse, mas quando você está com uma biografia você pensa !cara, esse negócio não pode ter erros”, esse é o drama, não pode ter erros! Porque é uma vida e tem muitas vidas que são afetadas por aquela vida. E os caras estão vivos, os herdeiros, os filhos. Imagina se você põe um termo errado, uma pessoa dizendo uma coisa que ela não fez e depois tem umas 50 mil pessoas que vão ler e isso vai repercutir. Vai falar que a mulher consumiu drogas, que a outra mulher consumiu com ela, que o marido traiu com uma menina nova. Eu coloquei tudo, mas pra isso eu fiz uso de muita apuração. E é um terror! Às vésperas de lançar você não dorme mais, não come, fica só tendo pesadelo de que vão te processar. Graças a Deus, foi lançada em 17 de março e não teve uma pessoa que me procurou pra reclamar. E que bom, porque é muito espinhosa essa história, mesmo que os fatos tivessem acontecido tinha gente que não gostaria de lembrar desses fatos. E ver que saiu e ninguém reclamou me deixa bastante aliviado.

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Bia: Você falou que ninguém reclamou e também já conversou sobre a sua relação com os fãs em geral, mas durante o processo de produção do livro e depois, com o lançamento da obra qual foi a sua relação com os fãs da Elis?

É muito engraçado, os fãs até hoje, eles acham que eu só vivo pra isso (risos), que eu só vivo pra falar de Elis, porque os fãs são assim. A vida dos caras é a Elis, camiseta, no facebook das pessoas é só Elis Regina. E eu tento atende-los legal. Eles me mandam coisas, objetos, depois que o livro saiu eles ainda me mandam coisas. Tudo bem, eu aceito, acho legal. É engraçado porque eles veem você como um contato entre eles e a Elis e é muito louco isso. Os caras vão no lançamento! Eu ainda estou fazendo lançamento. Semana que vem (esta semana) tem em Londrina (PR), depois tem em Santarém (PA), só lugar longe, o que é mais legal.

Fila: Falando da Elis musical agora, porque a Elis é um mito e muitas vezes só se aborda o lado da Elis polêmica ou da Elis mãe, mas falando da Elis musical, alguns críticos afirmam que a Elis foi uma cantora superestimada. O argumento desses críticos é que ela era apenas uma intérprete de músicas de Adoniran Barbosa, Tom Jobim, João Gilberto, ou seja, ela não era uma compositora. Mas muitos outros, a clamam como a maior cantora brasileira de todos os tempos. Nesse caso, você, fazendo a biografia, o que você descobriu da Elis musical: ela era superestimada ou era a maior cantora brasileira?

Eu fico bem preocupada com esses críticos. Eu não entrei como fã, foi uma encomenda, como o editor na redação, me dando uma missão, eu fui atrás da Elis Regina. Então eu não tinha que provar nada, se era ou não cantora. Então eu fui descobrindo detalhes técnicos da Elis, ouvindo, falando com os caras que gravaram com ela, e é absurdo, Elis é um domínio técnico e uma cabeça de instrumentista. A Elis não tem cabeça de cantora, tem cabeça como se fosse de um trompetista, um baixista, um pianista, ela conduz a banda com diálogos rítmicos como um baterista, com improvisos, como se fosse, às vezes, um trompetista também, porque ela possui um recurso de trompete. O Zuza Homem de Mello [jornalista e musicólogo] que me mostrou, ele falou: “Olha só vou te mostrar uma coisa”, me chamou na casa dele só pra mostrar isso, a Elis Regina fazendo um recurso em que ela só mexia a cabeça e é um recurso que eles chamam no trompete de Shaking, que é um vibrato de trompete, ela faz isso na voz. E é só um dos recursos que ela tem. Então, a forma como ela cantava, você pode incluí-la como uma compositora, porque ela recriava. Os caras mandavam as músicas pra ela e às vezes nem reconheciam porque a interpretação da Elis deixava mesmo a marca. Então é inquestionável, talvez ela não tenha sido estimada como ela deveria ser. Ela não foi subestimada, mas jamais ela foi superestimada. E eu te falo, mesmo depois de falar com todos esses caras, de tentar achar desafinação, pra poder falar no livro “A mulher errou aqui”, tanto é que eu faço isso várias vezes, onde ela errou na vida, mas musicalmente falando ela estabeleceu um parâmetro que colocou a música brasileira dos anos 70 lá em cima porque os artistas queriam compor pra Elis. Isso passou a ser uma obsessão do artista da época. Então compondo pra Elis, ele teria o passaporte pra ser um artista de sucesso. Então todos começaram a compor pensando na interpretação da Elis, então tinha que ser algo que ela gostasse. Então o efeito disso foi, mesmo os músicos Gil, Edu Lobo, Chico, Caetano, os músicos já gravados pela Elis tinham esse patamar, mas outros vieram buscar isso como o Ivan Lins, o Hyldon, que nunca foi gravado, o João Donato, o Tim Maia. Mas o Tim Maia era uma coisa a parte, porque ele não estava nem aí, ele era um furacão sozinho. Mas os outros artistas estavam centrados na Elis. Então indiretamente ela fez com que, essa teoria foi criada pelo Ivan Lins e depois o Nelson Motta apoiou o Ivan, então você percebe que existe um crescimento no rendimento da música brasileira muito grande nos anos 70. Isso aconteceu também graças a Elis Regina, a presença dela já fazia com que a cabeça do compositor funcionasse daquele jeito, o cara que queria ser composto por ela tinha que gravar no padrão dela, e o padrão dela era uma poesia refinadíssima, uma harmonia encrencada, não era qualquer uma. Então é uma mulher que tinha uma noção instrumental absurda, de ir ao instrumento e falar “Edu Lobo, esse acorde do piano não é assim”, o Edu me contou isso. E ela não sabia o nome dos acidentes, aí o Edu ia procurando, até achar o acidente. Aí ele falava “Puts, essa mulher tinha razão, era isso que faltava.”, aquele dedinho no piano. Então musicalmente, hão de me desculpar nossos amigos críticos, mas é preocupante isso que eles dizem.

Elis Regina e Edu Lobo

Elis Regina e Edu Lobo

Bia: Nunca haverá outra Elis Regina?

Não. Não pela qualidade, pode aparecer um assombro de novo na música brasileira, porque a palavra que eu uso pra descrever a Elis é assombro. A Elis assombrou a geração dela e a nossa geração não tem um assombro. Eu perguntei esses dias em uma palestra na UNIP se a geração de vocês tem algum assombro, aí alguns meninos falaram Emicida, Criolo… Será que é assombro mesmo o que os caras estão sentindo? Assombro é assombrar! Não é uma expressão, é um assombro mesmo! Esse assombro não acontece, mas eu diria que é pelo momento, A Elis veio num momento de gravadoras, onde você criava ídolos de massa, hoje a internet cria também, mas em menor número. As pessoas não gravam mais obras, álbuns, LPs. Hoje em dia é a faixa, a Elis sofreria muito porque ela gostava de pensar o LP. Imagina a Elis vivendo de clipe? Não ia rolar, então por isso acho que não vai ter outra. Eu acho que a Elis foi única e acho que ela foi a melhor até ela aparecer, tiveram várias maravilhosas, Dolores Duran, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, várias grandes cantoras, aí apareceu a Elis, foi um grande fenômeno. E de lá pra cá, 30 anos se passaram e a gente não tem. “Ah, a Marisa Monte é”, não acho que seja, não com essas qualidades, Tulipa Ruiz não é, Cássia Eller não foi. A Cássia tinha outros atributos, mas não o de grande cantora. Aprendeu a cantar num certo momento, graças ao Nando Reis que domesticou um pouco aquela voz muito selvagem, pro rock era maravilhoso, mas fica só um recurso. Eu vejo cantoras de um recurso, a Tulipa, por exemplo, fui num show dela anteontem e ela tem um recurso que é um vibrato que ela adora usar, ela usa muito aquilo, ela queima muito aquilo aquele recurso dela, em toda música e parece que ela só sabe fazer aquilo então fica muito estranho. Roberta Sá que eu já falei, super cantora técnica, mas não entra em você, sabe, não dá porrada em você, sabe? Fica tudo muito igual. Então, uma dica que eu dou é quando você assistir um show, ouvir um disco, observa se aquilo só te dá uma sensação. Porque tem que ter cores diferentes, tem que ter sensações diferentes. Tem hora que te joga pra cima, tem hora que te joga pra baixo, põe você só pra dançar, põe você pra pensar, acho que isso enriquece o trabalho. E tem artista que é chapado, a mesma vozinha em várias músicas, parece que ele está cantando a mesma música sempre. Então é um momento curioso.

Fila: Sobre isso que você falou, eu estava aqui pensando, eu gosto muito do Pato Fu, acho uma banda maravilhosa pra época em que surgiu, mas a Fernanda Takai não tem variação nenhuma, não é?

Sim, ela não tem muito pra onde ir, mas ela usa essa limitação a favor dela. O Pato Fu soube fazer isso, usar menina sem voz pra ficar fofa. Legal, ficou fofa mesmo, eles conseguiram. Mas ela precisa do Pato Fu. A Fernanda sem o Pato Fu fica meio arriscado, nesse caso, as cores são os arranjos e a banda, mas nunca pela voz dela. Então a Fernanda é um exemplo de linearidade, nunca vai ser uma grande cantora e acho que ela mesma sabe que não é.

Fila: Você mesmo comentou que a Elis teve vários desafetos durante a carreira dela com muitos músicos, muitos artistas. Tem um que parece ser muito histórico, mas muitas pessoas tratam mais como mito do que como verdade, que é a rixa dela com a Nara Leão, outra grande intérprete, mas elas nunca cantavam juntas, nunca fizeram parceria. Quando houve aquela grande Marcha Contra a Guitarra Elétrica [Movimento idealizado em 1967 por artistas da MPB contra americanização da música brasileira], a Elis participou junto com o Gilberto Gil a favor da marcha e contra a guitarra elétrica e a Nara junto com o Caetano Veloso foram contra a marcha. Então, houve mesmo algum atrito entre as duas?

Teve! A Elis foi muito grosseira com a Nara. A Nara era um doce e ela tinha sido quase mulher do Ronaldo Bôscoli, que traiu ela com a Maysa. Foi Nara, Maysa e Elis. Então eu acredito que morava aí um certo rancor da Elis com relação à Nara. E tem outra coisa, a Elis estava sozinha quando ela chegou ao Rio de Janeiro, Bossa Nova rolando, mas ela estava sozinha. Ela não foi da Bossa Nova, nunca gostou. A Nara estava muito enturmada com a bossa, absolutamente querida. Rolou uma ciumeira. E a Elis foi para o ataque, ela sabia que tinha um potencial de voz maior do que a Nara, e eu acredito que ela tenha se encorajado por isso. Tem um episódio, que as duas vão fazer uma foto para a Revista Manchete e as duas se encontram no estúdio pra fazer a foto, e a Elis fala umas besteiras pra Nara e sai. A foto é feita, a foto é maravilhosa, aliás. E o repórter liga pra Elis e liga pra Nara depois. E a Elis solta os cachorros na Nara. Ela diz que a Nara só canta conforme a música porque ela é aproveitadora, e que ela quer se dar bem e é por isso que ela se aproxima do Roberto Carlos, e que ela não sabe o que quer… E quando liga pra Nara, a Nara fala que a Elis é ótima, que elas estão juntas, ela não sabia o que a Elis tinha falado antes. Mas também se ela soubesse, talvez tivesse tido a mesma postura, porque a Nara era assim. Então a Nara ficou muito magoada. E a Elis mostrou quem era, o temperamento de ir para o ataque.

A famosa foto de Elis Regina e Nara Leão para a revista Manchete

A famosa foto de Elis Regina e Nara Leão para a revista Manchete

Fila: Ainda falando sobre as duas, você acha que a Elis soube escolher o repertório melhor que a Nara?

Foi. Eu acho que ninguém foi mais certeira que a Elis no quesito escolha de repertório nos anos 70. E era uma coisa impressionante, ela tocava na pessoa e a pessoa virava um sucesso. Então você pega tudo que ela lançou do Milton, o Gil, o João Bôscoli, Ivan Lins… Essas pessoas, ninguém dava bola pra elas, e a Elis tinha essa visão. A Nara não, ela já pegava coisas consagradas, menos risco. A Elis se arriscava, mas ela fazia aquilo ficar de um tamanho que ficava impossível não valorizar o artista que ela gravava. Então acho que a Elis nesse ponto teve uma vantagem boa. Ela era um Midas, ela tocava nos artistas e aquela produção toda apareceu através dela. E todo mundo corria pra ela também. Artistas que nunca foram gravados pela Elis foram atrás dela e me deram depoimento sobre isso, Alceu Valença nunca foi gravado, mas fez questão de ir lá, mostrar música pra ela. A mulher era impressionante!

Bia: Elis, Renato Russo, Cazuza, são artistas que nos dias de hoje, mortos, estão no patamar de inalcançáveis, mas eles fariam sucesso se estivessem vivos?

Acho que sim, teriam. Porque pega os contemporâneos, Gal Costa tem sucesso, o Ira! tem sucesso e o Frejat também, mas eles não são mitos. A morte traz a condição de mito. A mitificação vem com a morte. E se ela for trágica, então, é instantâneo. Agora é o tempo que faz a morte trágica se converter em mito. Mamonas Assassinas, por exemplo, não virou mito. É um grupo que todo mundo se lembra, teve uma morte trágica, mas ninguém fica regravando as músicas dos Mamonas. O tempo é que mostra. A Cássia Eller está rolando uma mitificação, está começando a ser beatificada. Mas a Elis, no dia seguinte era um mito. Tim Maia: mito! Morreu aos poucos, mas virou um mito. Mas se tivesse aí, não seria tanto, porque estaria gravando coisas muito ruins, como começou a gravar.

Fila: Em casa éramos fãs do Tim Maia, eu cresci ouvindo e me tornei também, mas os últimos discos do Tim Maia em vida eram horríveis e o livro do Nelson Motta afirma que ele já estava numa pindaíba danada, então a morte talvez até tenha feito um bem pra carreira dele…

Talvez ele estivesse gravando até hoje aquelas músicas melosas que não tinha nada a ver com o Tim Maia da década de 70, maravilhoso. O Roberto Carlos é um mito em vida, João Gilberto, mito em vida. Caetano, Chico, Gil, esses já possuem uma condição de mito e vão ser sempre. A morte por si só, não faz isso. Se fossem vivos estariam enfraquecidos. O João Marcelo [Bôscoli, filho de Elis Regina e produtor musical] mesmo diz que a mãe dele morreu na hora certa. Ninguém tem uma imagem dela gravando uma besteira, gravando Greatest Hits, disco de As dez mais, ela nunca fez besteira e não permitia que fizessem também. Então ela está intacta. Você não tem uma imagem dela velha e você não tem um disco dela ruim. Quer mais glória do que essa pra vida de um artista? Ela mesmo dizia que não queria ficar como a Elizeth Cardoso. A Elizeth era maravilhosa, mas estava envelhecendo. Ela dizia “Eu quero morrer como a Janis Joplin”, ela disse isso para o Guilherme Arantes e acabou meio que quase.

Fila: Se você pudesse indicar um disco da Elis pra essa juventude que ainda não a conhece, qual seria?

Sabe um álbum legal, é um disco chamando Em Pleno Verão (1970) que o Nelson Motta produziu e lá tem umas coisas legais, tem Elis cantando Beatles, uma música chamada Golden Slumbers. Porque a Elis se aproximou do rock, o Nelson Motta levava uns LPs pra ela ouvir. Imagina, ela fez uma passeata contra a guitarra! Eu acho que esse disco tem umas coisas interessantes. Mas outro álbum que precisa ser citado é o Elis e Tom (1974). O Falso Brilhante (1976) também é um puta disco, tem umas músicas de pegar os primeiros ouvintes. Porque tem uns discos que são mais pra baixo, eu particularmente gosto da Elis pra cima, não gosto muito dos boleros, [a canção] Atrás da porta [Do disco Elis de 1972] eu acho muito arrastada. É uma opinião minha. Mas eu indico o Elis e Tom e o Em Pleno Verão.

Em Pleno o Verão (1970) e Elis e Tom (1974)

Em Pleno o Verão (1970) e Elis e Tom (1974)

Fila: O mercado editorial está repleto de biografias, nacionais e internacionais. E existe o debate da biografia escrita pelo próprio artista e aquela escrita pelo jornalista. Você enxerga veracidades nessas autobiografias?

No Brasil não. Eu acho que o artista brasileiro se leva muito a sério, aí quando ele vai fazer a biografia dele, se coloca em um pedestal, ele deixa tudo muito denso. Não precisa. É o que eu digo sempre, pega as biografias dos caras lá de fora, Rod Stewart, por exemplo, a biografia do Rod Stewart pra mim é um exemplo de como deveria ser a biografia escrita por um artista. O cara se esculhamba o tempo todo e você passa amar aquele cara mais ainda. Ele fala sobre tudo, até sobre como o nariz dele estava furando de tanta cocaína. Como ele consumia cocaína em forma de supositório, mas ele se esculhamba o tempo todo. O Eric Clapton que lançou aquela biografia mais pesada porque ele é mais sério, mas também reconhecendo todos os pecados. Eu não vejo nenhum artista brasileiro capaz de fazer isso. Uma classe que formou um grupo pra trancar as biografias, você imagina esses caras escrevendo a verdade sobre eles? O Eric Clapton conta como ele ficou com a mulher do George Harrison, ele conta de uma maneira que não é sensacionalista como ele ficou com a esposa do amigo dele que havia morrido. Então você vai por isso na boca do Chico Buarque?

Bia: A própria biografia do Roberto Carlos que ele disse que vai escrever…

Isso vai ser uma tragédia! Você não pode falar nem da perna dele!

Fila: O que você acha da biografia dele, “Roberto em detalhes” feita pelo fã Paulo Cesar Araújo e que foi retirada de circulação pelo próprio Roberto Carlos na justiça?

Eu li e eu acho que é uma biografia de fã. Com todo respeito ao Paulo Cesar de Araújo, um colega, mas é uma biografia de fã. Não tem nada demais. O Roberto Carlos nem leu a biografia e o escritório dele que pediu pra tirar. Mas é uma imbecilidade, porque aquela biografia não tem nada demais. Não fala nem do processo que ele perdeu por plágio para o Sebastião Braga, que é um advogado. O Roberto deveria agradecer ao Paulo Cesar de Araújo e não caçar o livro dele porque fala da perna. Então eu acho que jamais o formato de autobiografia no Brasil vai dar certo. Talvez o Ney Matogrosso pudesse fazer, o Ney é foda. Só que ele receio do Secos & Molhados. A Rita Lee também não porque tem receio dos Mutantes. Ela vai falar que o cara se jogou do prédio por causa dela? Não vai falar. Erasmo Carlos fez um livro com um jornalista ajudando, um livro de “causos” que não machuca ninguém [o livro Minha Fama de Mau, lançado em 2009]. Então esses pudores que a nossa classe tem são muito pequenos. Os caras não estão prontos para fazerem biografias. Lá fora sim! Pega o Keith Richards [Guitarrista dos Rolling Stones] como exemplo. Ele só para de falar porque tem que acabar o livro e é um livro grosso, mas se deixar ele fala mais! Ele cheirou as cinzas do pai dele! Isso é um cara que não se leva a sério. Até o nosso rock é chato. Não vejo nem esses caras falando a verdade. Aí você tem o Lobão que tem mais coragem pelo menos, mas eu acho que é tudo coxinha. A biografia dos Paralamas [do Sucesso] também não tem nada demais. Claro que eles são mesmo mais sossegados, mas você percebe que o formato de autobiografia no Brasil não pega.

Fila: Falando de biografias, quais são as cinco melhores que você já leu, pra indicar para os nossos leitores?

Eu vou chamar os mestres: Chega de Saudade (Rui Castro), vou falar de um livro-reportagem que eu gosto muito que é o Corações Sujos (Fernando Morais), a do Rod Stewart também é sensacional, mas pela postura, o texto dele não é uma maravilha, mas vale a pena; a do Keith Richards também. E a biografia do Garrincha, também de autoria do Rui Castro, aquele lide da biografia do Garrincha pra mim é lindo.

1 - Chega de Saudade (Ruy Castro - 1990), 2 - Corações Sujos (Fernando Moraes - 2000), 3 - Rod, a Autobiografia (Rod Stewart - 2013), 4 - Vida (Keith Richards - 2010) e Estrela Solitária (Ruy Castro - 1995)

1 – Chega de Saudade (Ruy Castro – 1990), 2 – Corações Sujos (Fernando Moraes – 2000), 3 – Rod, a Autobiografia (Rod Stewart – 2013), 4 – Vida (Keith Richards – 2010) e Estrela Solitária (Ruy Castro – 1995)

Fila: Qual foi a entrevista mais marcante que você fez?

Eu lancei um livro só de entrevistas chamado Palavra Cruzada porque era uma sessão que eu tinha no Jornal da Tarde. Era uma página inteira só com entrevista pingue-pongue porque é uma coisa que eu adoro e acho que está em falta nas redações. Tem uma que eu tenho muito orgulho, eu fiquei muito tempo atrás do Mano Brown [líder do Racionais Mc’s]. Foram oito anos, até que um dia eu consegui. Eu lembro que foi uma conquista muito marcante falar com Brown, na época do JT ainda, que não era um jornal tão lido quanto o Estadão. Eu me lembro que logo depois disso o Mano Brown foi para o Roda Viva [Programa da TV Cultura], mas lá ele não rendeu muito, ele ficou nervoso [risos].

Fila: E qual a entrevista que você não fez, mas gostaria de ter feito?

Eu gostaria muito de ter entrevistado o Tim Maia. Ia ser muito divertido. O Tim Maia pra mim era um cara que tinha muito o que falar. Claro que ele devia mentir bastante nas entrevistas, mas era uma figura! Pena que eu não vivi no tempo dele, porque ele morreu em 1997 e eu entrei no jornalismo em 1998, então eu cheguei muito tarde. Mas é o cara! Queria muito ter feito uma pingue com ele.

Fila: Ainda falando sobre biografias, você afirmou em palestra para alunos de jornalismo que “O tempo ajuda o biógrafo” e foi assim com você. A biografia do Tim Maia escrita pelo Nelson Motta é completa [Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia]. Você acha que esses alunos de jornalismo conseguiriam extrair algo mais do Tim Maia?

É verdade, eu esqueci de citar esse livro! E eu acho que sim. A gente tem que encarar a biografia anterior como uma espinha dorsal, já foi traçada. Se for pra você entrar nessa história só pra traçar de novo, não adianta. Por exemplo Getúlio Vargas, vai ser muito difícil fazer uma biografia do Getúlio depois do que o Lira [Neto] fez, o cara virou o Getúlio do avesso. O Tim Maia eu ainda acho possível, porque tem muita história, esses caras deixaram muita história pra trás. Desanima um pouco porque você tem que passar de novo pelas histórias que já estão lá, o terreno já está muito pisado. O Tim Maia está lá, mas você vai ter que recontar a história da prisão nos Estados Unidos, como foi… Eu fugiria um pouco, se viessem me pedir. Acho que você tem que pegar outro enfoque, por exemplo um biografia do movimento Black na música brasileira dos anos 70, isso é uma biografia a ser feita porque os personagens são Tim Maia, Tony Tornado, Gerson King Combo, Hyldon, Cassiano, Carlos Dafé, que aliás o Dafé tem uma história maravilhosa e eu não pus no livro da Elis, mas ele estava preso, escreveu uma música na cadeia e foi levar pra ela. Tem o Dom Salvador, então eu não abandonaria a ideia do Tim Maia, mas eu daria esse enfoque. Aliás, o Sergio Martins da Veja está fazendo isso! Eu tive essa ideia, aí comentei com uma amiga minha e ela me disse que ele já estava fazendo. Aí eu falei pra ele “Sérgio, você não acredita, eu ia fazer isso”, mas ele está muito adiantado! Mas é uma missão fazer uma biografia que já foi feita. Eu acho válido se você estiver disposto a fazer melhor.

Fila: Tem aquela passagem do Tim Maia pela seita Universo em Desencanto que rendeu os discos Racionais (Vol. 1 e Vol. 2). A gente poderia fazer um livro só sobre aquilo ali.

Eu penso muito nisso! Mas você pode fazer (risos)

Fila: A gente faz junto!

Eu acho essa história incrível porque gerou um disco maravilhoso, Tim Maia cantando como nunca, e essa seita louca que ao mesmo tempo apaixonante porque é um personagem incrível, porque a gente tem que ir lá, desmembrar, entrevistar esses caras todos. Eu acredito que seria um puta livro!

Andóide sem Par

Estreia hoje no Fila Benário Music uma novo espaço chamado FBM Convida, no qual teremos a graça e a honra de receber convidados especiais e renomados, para escrever textos, fazer resenhas, artigos de opiniões, envolvendo é claro a música.
E nosso primeiro convidado do FBM Convida é o estudante de jornalismo Lucas Fernandes, que realizou uma entrevista mais do especial com a banda Androide Sem Par, o resultado disso tudo você confere abaixo


O Androide Sem Par é um projeto musical que teve início no dia 19 dezembro de 2009. Com suas letras de bons e terríveis romances, o projeto trás uma aura adolescente delineada por paixões mal resolvidas, desencontros épicos e grandes amores em um estilo que passa entre pop e rock. A princípio as músicas parecem muito adolescentes, mas logo é possível perceber uma esfera de romances atemporais que acontecem durante a vida de todos os apaixonados. A banda possui um álbum gravado, intitulado “GRAVE”. “Se quiser me conhecer vai ter que passar 12 meses comigo”, principal trecho da canção “Esses Meses”. Não foi possível fazer uma entrevista de 12 meses com o grande vocalista Juão Nin, mas há várias questões respondidas, a fim de conhecer melhor a banda. 

Por Lucas Fernandes

O nome da banda, Androide sem par, é uma referência a musica do Cazuza?

Exatamente. Toquei uma única vez num evento retrô que uma amiga produzia, junto com antigos parceiros do Ak-47 (a banda de rock que faço parte), fazendo cover de bandas dos anos 80. Caju tava no meio, e aí escolhi esse título inspirado na música dele, depois pedi permissão ao grupo pra usar o nome nesse outro projeto, mais auto biográfico.

De quem partiu a ideia de formar a banda?

Acredito que nunca chegamos a ser uma banda, banda é quando todo mundo trabalha junto, além de tocar. O Andróide é um projeto musical que partiu de mim e que espero que envolva mais outras pessoas, mas que se utiliza da estrutura física de uma banda, que muda, varia….pra se expressar.

Vocês tem alguma formação acadêmica?

Eu, Juão Nin, sou formado em licenciatura em Teatro. Já toquei com gente formado em história, graduando em música, produção musical, design de interiores, arquitetura….

Juão Nin

Juão Nin

Quem influencia vocês na vida pessoal (filósofos, artistas e etc)?

Hoje, especificamente, estou muito influenciado pela Amanda Palmer, como artista no geral, to lendo um livro dela e só agora vou começar a ouvir as músicas, mas ela tem um pensamento sobre mundo e sobre relações que me atravessam muito.

Quais são suas referências musicais cantores, bandas?

Angela Roro, Sérgio Sampaio, Simona Talma, Luiz Gadelha (Talma&Gadelha), Cássia, Cazuza, Arnaldo Antunes, Rita Lee, Raul Seixas…..vish, muita coisa.

Como vocês definem o álbum GRAVE? O que vocês quiseram passar com esse álbum?

Defino o GRAVE como um álbum passional, adolescente, imaturo, aconchegante, provocador, misterioso. Quando compus as canções, só queria gritar pro mundo que me sentia muito injustiçado pelas relações amorosas sem ética.

 

Qual é a ideia da motosserra na capa do álbum, tem algum significado?

Depois de ouvir a canção SECA e CAPIM do Rogério Skylab eu fiquei imaginando que eu era uma motosserra que dançava, essa era a projeção que eu fazia da minha existência romântica, dentro tem a definição que minha mãe dá pra mim, disse que deu a luz a um rolo de arame farpado. Quis confrontar o que ela disse que sou com o que acho que sou.

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Vocês mesmo fizeram a Capa?

Quem fez a capa e quase toda a arte do CD foi o incrível Fábio Teófilo. Eu idealizei as imagens, até esbocei o que queria, mas insatisfeito o convidei, acabou ficando só o meu auto-retrato com os calendários cobrindo meu corpo nu. Isso tudo depois de ter tentado com outra artista que admiro muito,  Letícia Paregas. Ainda terei uma capa dela. Já tentei pro 2º disco, mas ela tem o tempo dela.
Infelizmente, ano passado, Fábio no fim de um intercâmbio no Canadá cometeu suicídio. O Grave também carrega essa história agora e eu serei eternamente grato por ele ter misturado a vida e a arte dele a minha.

Quais são as suas três músicas favoritas do GRAVE?

Esses meses, Tonto e Tragédia Festiva. 

Que estilo musical vocês consideram a banda Androide Sem par?

 Fico indo no caminho do blues, passo pelo rock, acabo no pop.

Vocês estão trabalhando em algo novo? Tem previsão de quando vai sair? 

Estou compondo o PORNOFATAL, espero que seja algo mais conceitual. Mas pode ser outro grande melofonoregistro. Sem previsões.

Quem são vocês por vocês mesmo?

Não somos nada sem os outros.

O que vocês pensam a respeito da cena musical brasileira atual?

Eu acho diversa, grandiosa, múltipla, extensa, inexplorada, desconectada e ainda elitizada, falta mais investimento do governo.

Se houver algo mais que vocês queiram que seja colocado podem falar também.

Quem quiser acompanhar os passos do Androide, só seguir no Facebook Androide Sem Par ou no insta @androide_sem_par ou minhas páginas pessoais mesmo, por lá divulgo todos meus trabalhos: @juaonin


 

Lucas Fernandes é estudante de jornalismo e apaixonado por música nos mais diversos e inexplicáveis gêneros.

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Com 50 anos de idade e quase trinta anos dedicados ao Rap, o brasiliense Genival Oliveira Gonçalves, mais conhecido como GOG, é referencia quando o assunto é Hip Hop nacional.
Após um show eletrizante e protestante na Virada Jundiaí, no interior de São Paulo, GOG, conhecido pelas suas parcerias inusitadas ao lado de grandes nomes da MPB, como Lenine, Zeca Baleiro e Maria Rita, bateu um papo conosco e de forma esclarecedora falou da sua carreira, do Funk carioca, do seu possível retorno à literatura, da situação política atual e relembrou com muita emoção do seu grande amigo e parceiro Chorão, ex- Charlie Brown Jr.

O resultado disso tudo, você confere abaixo.

GOG você faz parte da geração Old School do Hip Hop nacional, está nisso à quase trinta anos. Me diga, quais as dificuldades de fazer Rap naquela época em relação a hoje?

Então, a gente já andou nas ruas de terra e nas ruas de asfalto da mesma forma, entendeu? Então se a rua está asfaltada hoje, faz parte. Como a gente já rodou nas ruas de terra, andar no asfalto é relativamente mais fácil. As coisas caminharam bastante, mas essa caminhada foi proporcionada por aqueles que pavimentaram esse estado das coisas dentro do Hip Hop. Tem muita coisa a ser discutida ainda, muitos temas, os inimigos são fisiológicos, eles mudam de cara, hoje se tem discursos progressistas, mas continuam reacionários de plantão.

Uma das suas principais características é a sua pluralidade musical, você gravou com Lenine, com a Maria Rita, entre vários outros. Isso de certa forma não chocou os fãs mais ortodoxos do Hip Hop?

Essa forma de trabalhar o canto, trazendo gente diferente, sempre combinou comigo. Eu sempre quis ter uma família com muita gente, com muito primo, com muito amigo, e no mundo da música você quer ter várias participações, vários parceiros que façam parte do seu universo musical, como: Lenine, Maria Rita, Paulo Diniz, Gerson King Combo, Fernando Anitelli do Teatro Mágico…

O Teatro Mágico esteve se apresentando ontem aqui na Virada Jundiaí também.

O Fernando é meu parceiro, eu bato palma pra ele, tanto pelo trabalho artístico, como pelo engajamento. Ele poderia estar falando de outras coisas e ele fala de coisas muito pertinentes. Continuando, o próprio Zeca Baleiro, que vem nesse meu novo disco, Hamilton de Holanda, Di Ribeiro, entre outros. Então quero dizer que é uma salada de oportunidades e de engenhocas que a gente faz para apresentar para o nosso povo e falar: “Gente, olha, é tudo nosso”. Então foi muito importante. O Hip Hop já estranhou essas misturas, mas acabou todo mundo percebendo que era um caminho a seguir, não o único caminho, mas um dos caminhos que poderia nos colocar mais na casa do povo, no ouvido das pessoas como o prato do dia.

GOG, você que é um grande conhecedor da música negra americana, da Soul Music. Aqui no Brasil existe um grande equívoco com a palavra Funk, na verdade ela, que é denominada do Funk americano, acabou sendo utilizada para um estilo de música que não tem nada ver. Então relacionado a esse tipo de música, a esse Funk que o Brasil hoje cultua, você tem algum tipo de restrição? Você acha que ele não retrata a realidade? Ou é um estilo aceitável e que pode ser trabalhado de uma maneira legal?

Cantores de Funk, bailes funk’s, não são de marte, são do Rio de Janeiro, de São Paulo, das periferias brasileiras. O Funk, tanto o Original Funk que a gente conheceu do Soul, como o Funk Carioca, são músicas negras na sua diversidade. Quando as pessoas me perguntam: “GOG e o Funk Carioca?”, eu pergunto: “E a escola, vai bem?”. As discussões sobre o Brasil, sobre o que acontece no Brasil de hoje, se as periferias vão bem? Ai as pessoas me respondem não. Então a gente não pode exigir desse mesmo endereço, coisas tão diferentes que realmente fazem parte do dia-a-dia. Eu conheço o Funk Carioca, não só focado no que aparece na TV, mas, por exemplo, a APAFUNK, a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, o Mano Teco, o próprio Leonardo, da dupla Junior & Leonardo, o Pingo do Rap, cara, são letras que eu falo: “Eu gostaria de ter escrito isso”, e eu escrevi né? Por que são os meus parceiros e é uma continuidade dos nossos diálogos, mas as pessoas insistem em ver o Funk panfletário, em ver o Rap panfletário, porque isso vende, mano. Isso Vende. E a gente tem que entender que eles só fazem isso porque vende e a forma de tirar isso do dia-a-dia nosso é não comprando. O capitalismo é o gigante do pé de barro, ele depende de você para que continue gigante, mas a gente tem que derrubar esses gigantes, então, o Rap, o Funk, o Original Funk, o Funk Carioca, são músicas negras nas suas diversidades, na sua forma de expressão, e na sua forma de produzir a música.

Falando agora sobre a nossa situação política atual, temos hoje eleito o congresso mais conservador dos últimos tempos, qual é a sua opinião a respeito disso tudo?

Eu só tenho uma resposta para isso: “Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro”. A direita não tem resposta para as minhas questões, a esquerda também não tem respostas para as minhas questões. O dialogo nosso hoje com a esquerda, já é um dialogo mais facilitado, mas as questões não são facilitadas. Nunca se machucou tanto um tecido negro em um governo de esquerda, dito de esquerda, como agora. Mas essa é a realidade, sejam bem vindos a social democracia, que como eu te falei, os discursos são progressistas, mas muitas vezes eles são reacionários de plantão, e diante dessa constatação é claro, é claro não, é lógico que a gente tem uma perspectiva de ver diante da realidade exposta, o que a gente vai fazer, e a gente tem pensado que a gente tem que voltar para nossa base, que o movimento social tem que sentar mais, discutir mais, a gente quer e acha importante que deve ser discutido a seguinte fita: que encontros culturais são importantes, mas é preciso ter muito mais nesse momento uma cultura de encontro, dialogar, a bolinha dos olhos no país da bola.

GOG: "Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro"

GOG: “Entre a esquerda e a direita, eu sigo o negro”

Hoje temos diversas políticas públicas voltadas para a inclusão do negro na sociedade, como as cotas raciais nas universidades públicas e privadas. O que você acha que ainda falta para a classe negra brasileira dominar o mundo?

A questão não é dominar o mundo, mas fazer parte do mundo. Eu quero dizer pra você que as cotas raciais nas universidades brasileiras elas são apenas parte de um pacote chamado ações afirmativas, que são ações regulatórias e reguladoras, que são momentâneas. Eu vou colocar pra você, pensando em música, para quem me ouve, se você ouve uma música, ela pode ser maravilhosa, mas se você só ouve o bumbo, ela vai incomodar, então quer dizer, é preciso aumentar o canal da caixa, é preciso abaixar um pouco o chimbal, é preciso soltar mais a melodia, a harmonia da música, para que você diga: “Mano, olha que som louco?”. Na realidade, hoje quando você ouve a música social do Brasil você fala: “Mano, só tem bumbo, cadê a caixa? Aumenta a caixa”, e na realidade o tambor que toca essa caixa é exatamente negros e negras que não tem oportunidade nessa música. Então vamos mixar o Brasil, colocando os volumes com oportunidades que eles possam ser ouvidos. É isso.

Já conhecemos muito bem o GOG músico, mas quando teremos a volta do GOG escritor?

Eu gostaria até de falar em relação aos escritos, aos textos, queria dizer que agora, dia 14 de maio nós tivemos um lançamento, em Salvador (BA), de um livro que pra mim, na minha concepção, é o livro de literatura negra mais importante já escrito no Brasil até agora, chama-se A Gramática da Ira, do professor Nelson Maca, que é um professor de Salvador, e que também está no Hip Hop, ele criou um conceito de literatura divergente que é de ver gente também, de enxergar gente, olha que louco [risos]. Você divergir independente do território, mas enxergar as pessoas, e o próprio Nelson Maca que escreveu o prefácio do meu primeiro livro, a Rima Denuncia (2010), ele está na missão de que seja trabalhado e lançado no ano de 2016 uma biografia do GOG, uma biografia autorizada, mas não regulada, ou seja, vai ouvir os prós e os contras. Eles vão ouvir o BBB, o Boi, a Bala e a Bíblia, mas vai ouvir o povo também. Então, quer dizer, vão ter todas as opiniões e as pessoas vão tirar as conclusões de quem seja Genival de Oliveira Gonçalves.

Sobre essa nova geração do Rap, encabeçada por nomes como Emicida, Criolo e Projota, você tem acompanhado o trabalho deles? Tem afinidade?

Eu tenho uma relação de amizade com todos, de respeito e de carinho. O Emicida é um parceiro que me respeita bastante, já participamos de algumas oportunidades no palco. O Criolo é um amigo das antigas, que inclusive, quando nós estivemos no palco mais recentemente, foi um convidado meu do meu palco, mas antes até de lançar o (disco) “Nó na Orelha”, uns 15 dias antes, o Criolo foi lá e as pessoas olhavam dizendo: “Quem é esse cara?” e depois estava o Brasil todo aplaudindo. A gente aplaude o Criolo há muito tempo. O Projota, eu tive a oportunidade de ligar pra ele esses dias, e o Projota quando ele ouviu: “Mano aqui é o GOG”, ele respondeu: “Oh Mestre”. Então é muito louco você ouvir os meninos falar e ter esse respeito, eu torço muito por essa geração, quero te dizer que o Brasil tem gerado muita gente boa, muita gente que tem talento também e que deve ser ouvida.

Relendo uma velha entrevista do Chorão (ex-vocalista do Charlie Brown Jr, morto por overdose em 2013), quando lhe foi perguntado quais eram as suas principais influências no Hip Hop, o primeiro nome citado foi o seu. Qual era a sua relação com o músico?

Então cara, o Chorão era um parceiro que a gente se encontrava bastante, sempre que trocava uma ideia era uma ideia voltada pra música, voltada para as questões. Ele era um cara mais acesso, e eu falava: “Negão, vamos mais por aqui…” E foi uma grande perda, tanto pra música, como o grande parceiro que ele era, sempre ao lado da gente, a gente sabe que é importante falar agora o quanto o parceiro foi importante, pra deixar como sustento e base da música brasileira, da música protestante brasileira, protestante no sentido de protesto. E… eu sinto saudades do Chorão [emocionado], eu sinto saudades do parceiro, da troca de ideia e eu acho que musicalmente é um cara que faz falta como pessoa, e você sabe que pode trás das tragédias sempre tem um filho, uma família, alguém que está sofrendo e que vai sofrer pra sempre uma partida. Então todo o meu respeito e carinho ao Chorão eternamente.

Fila Benário e GOG

Fila Benário e GOG