Arquivo da categoria ‘FBM Convida’

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Atualmente a política brasileira está de causar inveja a qualquer roteirista da série House of Cards. O governo Dilma Rousseff, que foi eleito democraticamente em 2014 e assumiu o seu segundo mandato em 2015, não fez outra coisa a não ser tentar se manter no poder , driblando toda e qualquer denúncia de corrupção. Com isso, a economia brasileira despenca, a inflação sobe e o desemprego cresce de maneira absurda. E quando se achava que dessa cartola não poderia sair mais nenhum coelho, o ex-presidente Lula foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, sendo que foi citado na operação Lava Jato.

Do outro lado, existe uma oposição que não aceitou o resultado das urnas e tenta de todas as formas derrubar a presidente do poder, mas coloca para baixo do tapete todos os seus escândalos de corrupção, envolvendo, inclusive o ex-candidato à Presidência em 2014, Aécio Neves, que teve o seu nome diversas vezes citado na operação Lava Jato, mas que acabou de ter seu processo arquivado.

Ao redor, temos uma mídia totalmente parcial, que mais confunde do que informa, colaborando abertamente para esse grande Fla x Flu político na sociedade brasileira, que não aceita mais opiniões adversas e já partem pra porrada.

Respeitando o espaço primário desse blog, que é falar exclusivamente de música, o Fila Benário Music convidou jornalistas, professores, psicólogos, blogueiros e outros intelectuais para tentar explicar esse cenário de guerra que vivemos na política brasileira, mas sendo o ponto de partida da análise uma música de escolha dos mesmos. O resultado, que ficou impressionante, você confere abaixo.


Vale Tudo (Tim Maia) – por Adriana Carranca

Vale Tudo, de Tim Maia, exprime bem o momento atual. Estamos vendo um vale tudo em Brasília e, ao mesmo tempo, a ascensão da direita homofóbica, xenófoba, racista. A lembrança da música veio com um post do cronista Antônio Prata: ‘Só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher”. Achei genial.

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Adriana Carranca é colunista no jornal O Globo e autora dos livros: Malala, a menina que queria ir para a escola, O Afeganistão Depois do Talibã e O Irã Sob o Chador.

 


Tá Todo Mundo Louco (Silvio Brito) – por Vitor Guedes

Vivemos um momento de insanidade, pessoas querendo justificar o injustificável. De um lado, ignoram os sinais claríssimos de roubo e pilantragem, do outro, ignoram roubo de merenda, helicóptero e qualquer outra ladroagem. É um fanatismo cego.
Já não bastava não poder andar de verde em Itaquera e de preto e branco na Barra Funda, agora não se pode mais usar vermelho ou verde amarelo, virou briga de torcida. É o fim do mundo.
São discursos em nome da legalidade e da democracia, mas com atitudes patéticas contrárias a tudo que pregam.
Vivemos nas trevas, e a treva é o palco perfeito para eleger algo pior do que um “coxinha” ou “petralha” picareta qualquer.
O fundo do poço ainda não chegou.

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Vitor Guedes assina, diariamente, a coluna Caneladas do Vitão no jornal Agora São Paulo, participa semanalmente do programa Seleção Sportv, é professor universitário na UNG e autor do livro Paixão Corinthiana.

 


Roda Viva (Chico Buarque) – por Patrícia Paixão

Nesse momento em que a democracia conquistada arduamente neste país, à custa de muita luta, tortura e sangue, é ameaçada por um golpe arquitetado (de novo!) pelas forças conservadoras, com o apoio de uma justiça e uma mídia que se dizem independentes, mas são partidárias desde criancinha, me lembro, com um forte aperto no peito, da canção “Roda Viva”, de Chico Buarque (#chicólatrasempre).

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”

Incrível como nosso povo esquece fácil das coisas e como a juventude atual ignora os livros de história. O direito a termos “voz ativa”, de votarmos em quem quisermos e definirmos o nosso destino ainda é tão recente na nossa República e já tem gente querendo desrespeitá-lo.

Crianças birrentas, que não se conformam de terem perdido nas urnas. Ignoram as regras do jogo democrático. Não defendo o indefensável PT, mas sim o meu voto em Dilma no segundo turno das eleições de 2014, para evitar um mal que considero maior: o PSDB, um partido que, além de ser especialista nos esquemas de corrupção, prega, por meio de muitos dos seus quadros, o ódio às classes menos favorecidas, às minorias e à classe trabalhadora.

Não sou palhaça de ter ido às urnas para agora essa “roda-viva de birrentos” passar por cima do meu poder de decisão.

Vou continuar lutando em defesa da democracia, que garante, inclusive, o direito dessa roda-viva (formada por uma parcela significativa de pessoas que não podem mais ir a Miami. Que dó…) estar nas ruas. A democracia é “a mais linda roseira que há”.

“Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá”.

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Patrícia Paixão é jornalista, professora universitária nas faculdades: Rio Branco, Anhembi Morumbi e Mackenzie e editora do blog Formando Focas.

 


Coração Tranquilo (Walter Franco) – por Fausto Salvadori Filho

Porque numa hora tão conturbada, em que é tão fácil se deixar levar pelo ódio, pelos alinhamentos automáticos e pela violência, é a hora de respirar e lembrar de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

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Fausto Salvadori Filho é repórter da Ponte Jornalismo.

 


Get Up, Stand Up (Bob Marley and The Wailers) – por Cinthia Gomes

O reggae pra mim sempre foi uma música de resistência, e essa letra em especial me remete à  compreender as coisas com clareza, desvendar o que atrapalha a nossa consciência, não ser iludido e não desistir, jamais. A luta continua!

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Cinthia Gomes é repórter da Rádio CBN e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de SP

 


Eu Protesto (Charlie Brown Jr.) – por Juliana Almeida

“Aquela creche que deixaram de ajudar tá por um fio
E a ganância está matando a geração 2000
E a sua tolerância está maior do que nunca agora”

O momento é caótico. A nossa política parece briga de criança, “o doce é meu e eu não divido com ninguém”. A briga pelo poder, está passando do limite. As manifestações exigindo intervenção militar, ou que a presidenta saia do poder. As investigações onde até o sistema judiciário está envolvido, telefones grampeados, conversas distorcidas, mídia manipuladora convencendo o telespectador que o golpe é viável.

“Foi você quem colocou eles lá, mas
Eles não estão fazendo nada por vocês
Enquanto o povo vai vivendo de migalhas
Eles inventam outro imposto pra vocês”

Parece surreal, mas ainda vivemos uma democracia, onde, por mais que pareça uma maioria, segundo a PM e a grande mídia, afinal 2 milhões parecem aos olhos deles representarem um sentimento coletivo. Ainda existe uma democracia, que colocou a presidenta lá. Que você votou, não tão conscientemente em deputados, senadores tão corruptos quanto o partido que acusa. Por que a elite menospreza os outros protestos? Aliás, por que agora protesto não é mais coisa “de vagabundo, que não tem o que fazer em casa”?

Eu Protesto do Charlie Brown Jr, traz sem rodeios, um sentimento gigante “sua tolerância está maior do que nunca agora”. Delação premiada, um juiz achando que é Deus, um conselho de ética que esqueceu seus deveres. As periferias mais abandonadas do que nunca. A educação sofrendo cortes e mais cortes. Partidos políticos que são intocáveis. Uma parte da população pedindo intervenção militar é nossa tolerância indo às alturas. Não vai ser assim que vamos chegar a uma solução. Não é tirando o direito de um que ganharemos alguma coisa.

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Juliana Almeida é estudante de jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul e editora do blog Desarmando a Censura.

 


O Que Será – Flor da Terra (Chico Buarque) – por Ricardo Roca

As razões, primeiro porque a letra é totalmente pertinente.com a situação atual, segundo porque estamos em um momento de total indefinição e turbulência, sem clareza “sobre o que será” e por fim, porque é Chico Buarque, oras.

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Ricardo Roca é professor universitário na Universidade Cruzeiro do Sul e editor do blog Futebol-Arte.

 


Killing In The Name (Rage Against The Machine) – por Luíza Caricati

Acho que, em termos simbólicos, retrata o ódio e à intolerância que vivemos hoje, às custas da política. Um acaba indo na onda do outro e presenciamos cenas lamentáveis de violência, em todas as suas formas de representação.

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Luíza Caricati é jornalista e escreve no blog Merdando.

 


Meu Caro Amigo (Chico Buarque) – por Patty Farina

Foi a música que ele fez para o Augusto Boal (teatrólogo) quando Boal estava no exílio. Os trechos que mais gosto são os que dizem: Que a coisa aqui tá preta, mas a gente continua amando de pirraça porque sem um carinho ninguém segura esse rojão =]

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Patty Farina é psicóloga no SUS e integrante do Coletivo de Teatro do Oprimido Pagú prá Ver.

 


Eu quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio) – por Caroline Apple

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Se eu pudesse sonorizar o momento político do Brasil seria sem dúvida com Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio. Passamos tanto tempo “dormindo de touca” e “fugindo da briga” e é natural que na hora de colocar o bloco na rua muitas dúvidas, confusões ideológicas e impasses aconteceriam. É o que acontece com tudo que nos predispomos a fazer pela primeira vez. O erro só não vem quando não há a tentativa.
Claro que esse é o lado romântico da coisa, porque a realidade é dura e fere. Resolvemos nos separar em grupo quase que para simplificar a complexidade da heterogeneidade. Facilita dividir em tucanalha x petralhas, coxinhas x comunistas, esquerda x direita. Mas, a verdade é que essa polaridade tira o que temos de mais valioso, a diversidade.
Mas temos coisas em comum. Mais uma vez invoco Sérgio Sampaio, quando ele diz “Há quem diga que eu não sei de nada. Que eu não sou de nada e não peço desculpas”. Essas palavras poderiam ser ditas por qualquer pessoa de qualquer grupo para o seu “adversário” político. Estamos aí, batendo cabeça diariamente, tentando convencer os outros dos nossos pontos de vista em vez de dizer que querendo “todo mundo nesse carnaval”.
Já que os blocos não querem se unir, que pelo menos saibam a hora de se recolher para o próximo bloco passar e os respeite. Isso é democracia. “Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso”, já dizia a canção.

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Caroline Apple é repórter de cidades do Portal R7 e “setorista” na cobertura de protestos. Já passou por jornais como Agora São Paulo, Folha de S.Paulo e Diário de SP.

 


Cálice (Chico Buarque) – por Beatriz Sanz

O que vemos no Brasil é uma ascensão nervosa e generalizada de uma direita que não se importa com mulheres, negras e favelados. Ou seja, eu e meus pares ficamos de fora da festa.
Agora é a hora da luta, é a hora de explicar história pra esse povo e mostrar que não queremos um novo 1964, assim como não queremos um novo holocausto. Já nos basta o genocídio da população negra. Então eu peço ao pai, que nos afaste desse cálice ou ele virá com muito sangue.

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Beatriz Sanz é correspondente do Blog Mural da Folha de São Paulo e editora e colunista do Fila Benário Music.

 


Panis Et Circenses (Os Mutantes) – por Matheus Pichonelli

O debate político atual é uma grande sala de jantar na qual todas as diferenças se aglutinam à mesa em dois grupos principais. Há os ocupados em nascer e morrer e os que, indispostos a viver em vão, buscam compreender o mundo e transformá-lo.

Nas grandes e melhores famílias, o primeiro grupo, até pouco tempo atrás, era dividido entre os contentes e os descontentes. Os contentes acompanhavam tudo com uma determinação bovina: acordavam, ruminavam, ligavam a TV, e voltavam a dormir. Os descontentes acreditavam fazer parte do povo escolhido e culpavam todos os desvalidos da vizinhança pelas desgraças do mundo. Tratavam mal a empregada, caçoavam do filho manco do vizinho, comentavam as aleivosias da atriz, o andar rebolante do filho da prima. Tudo, para eles, era uma afronta a uma moral sob perigo naquela fronteira confusa entre liberdade e libertinagem (eles adoravam usar este termo).

O segundo grupo gostava de provocar. Quando alguém manifestava alguma maledicência, como, por exemplo, aquela impronunciável, em outras mesas, sensação de que no fundo Hitler era só incompreendido, seus representantes entravam em ação como uma espécie de superego do jantar. Condenavam os discursos racistas e homofóbicos e não se constrangiam em classificar o primeiro grupo como alienado e ignorante.

Estes não levavam desaforo. Chamavam os ativistas do segundo grupo de intransigentes quando ouviam que era moralmente condenável não se indignar com as distâncias entre ricos e pobres num país governado durante séculos pelas mesmas oligarquias políticas, econômicas e midiáticas. Muitos do segundo grupo, é bem verdade, eram também ricos, e pegavam no sono tão logo encerravam o discurso. Mas se negavam a ensinar aos filhos o que haviam aprendido com os velhos à mesa. Coisas como lugar de mulher é na cozinha, mendigo não gosta de trabalhar, o certo é louco tomar eletrochoque ou que torturando-se corrigem-se os costumes.

Embora unidos pela ideia de que o mundo, feito de nuances e contradições, era implacável com as soluções rasteiras e resumíveis em uma só frase, repetida sem reflexão até o fim da vida, o segundo grupo tinha lá suas divisões. Uns acreditavam que as coisas só mudariam quando todos tivessem acesso aos mesmos direitos e que era papel do Estado garanti-los. Outros acreditavam que esses direitos já estavam consolidados e que o Estado muito ajudaria se não atrapalhasse. Ambos concordavam que a fome e a pobreza alheias eram moralmente inaceitáveis, o que levou alguns deles a se engajarem em estudos e mutirões pelos lugares que o primeiro grupo sentiria asco só em pisar.

Para o primeiro grupo, a pobreza era um cálculo: quanto maior, melhor as condições de negociação entre patrão e empregado. Uns ofereciam menos do que podiam pagar; outros aceitavam menos do que mereciam porque a outra opção era a fome. Esta condição era sempre lembrada pelo contratante do primeiro grupo quando falava “aquele(a) pobre diabo passava fome quando resolvi ajudar e a gratidão dele(a) é essa: arrumou outro emprego e foi embora”.

(PS: O segundo grupo nem sempre conseguia abrir mão de contratar serviços domésticos; muitos tinham a culpa como a única diferença em relação aos primeiros, mas desconfiavam que aquele jogo de posições não era um direito natural de brancos bem nascidos).

Com propósitos tão distintos em relação ao tema “existência”, os dois grupos juntavam de tempos em tempos as suas facções e protagonizavam batalhas memoráveis quando o assunto era política. Os primeiros viam a política como uma hierarquia similar à que reinava na alta sociedade: um espaço no qual os doutores mandavam e o povo ignorante servia ou obedecia. Era uma relação de confiança num dom natural disponível apenas entre bem-nascidos.

O segundo grupo dizia que dom natural era o caralho. Que essa interpretação do mundo servia apenas aos grupos hegemônicos e que o nome disso era ideologia. Mal resumindo, ideologia, naquele tempo, era a arte de explorar e convencer o explorado de que ele agradava a Deus com a sua servidão e ainda fazia um bom negócio. Foi assim que os defensores da ruptura com essa ideia passaram a receber convites para ir a Cuba ou à União Soviética, quando ainda estava de pé. A falência das ditaduras comunistas era sempre levada à mesa pelo primeiro grupo para lembrar aos demais o que dá mexer no nosso direito natural de explorar as classes inferiores (sic).

Contrário a essa ideia, o segundo grupo percebeu que apenas falar alto na mesa era insuficiente para quebrar o ciclo da canalhice reinante no Brasil. Como não adiantava convencer o primeiro grupo de que os grupos historicamente marginalizados tinham tanto direito a comer, estudar e consumir quanto eles, pararam de dar murro em ponta de faca e começaram a pensar em saídas políticas. Lá, as leis anti-privilégio chegariam antes da vergonha à mesa.

Muitos então começaram a se identificar com o Partido dos Trabalhadores, fundado por um certo ex-operário que se um dia chegaria à Presidência. Durante um tempo, este partido serviu como baliza nas conversas sobre política à mesa. Uns simplesmente não o suportavam pela simples ideia de que a política poderia ser ocupada por quem vinha de baixo, e não apenas pelos mestres e doutores da lei a quem aprenderam a prestar continência.

Outros abraçaram a ideia de que finalmente os anseios populares tinham uma bandeira. Para quem entendia as desigualdades do mundo como uma chaga incapacitante e moralmente condenável era difícil não se identificar com uma legenda que prometia emplacar projetos populares e levar os trabalhadores para o centro das decisões.

Foi assim que a briga entre o primeiro e o segundo grupo à mesa familiar pararam de debater política em si para debater “o PT”. Até a legenda chegar ao poder, não se sabia até onde poderia ser levada a sério, mas era possível discutir o que ela representava: uma possibilidade de participação para além dos grupos dominantes.

O primeiro grupo achou a ideia um horror já de saída. Mesmo quando, já no poder, o partido começou a dar sinais de que podia conciliar os interesses do capital e do trabalho, no tempo em que a economia crescia e até a conservadora Economist via o país decolar, os refratários seguiam dizendo ser um absurdo ver a política ser ocupada por analfabetos e/ou deficientes. Quando inventaram de colocar uma mulher no ministério e, depois, na campanha para a sucessão, a objeção virou uma metralhadora.

Estes vibravam quando o partido errava. Mas se enfureciam quando acertava. Ou quando o grosso da população demonstrava apoio ao projeto que, ao menos na propaganda oficial, tirara milhões de pessoas da pobreza e levara luz, médicos e universidades para localidades até então esquecidas do globo.

Surgiram assim expressões como “bolsa esmola” e “malditos nordestinos” naquela mesa de jantar. Surgia também uma saudade esquisita de antigos governantes que deixaram o poder desmoralizados mas protegidos pela comodidade do discurso segundo o qual são “todos iguais”.

Como a vida naquela mesa seguia igual – o filho paparicado crescera e não virara exatamente um Mark Zuckerberg – era mais fácil atribuir a miséria da própria existência à ignorância dos pobres diabos que vendiam a consciência política por política de distribuição de renda, ação afirmativa e crédito barato para comprar futilidades como arroz, feijão e geladeira.

Durante algum tempo, o segundo grupo gozou uma certa satisfação em ver a ala dos “nascer e morrer” constrangida em desdizer aquilo tudo o que haviam dito antes. O próprio ex-operário dizia: não podemos errar. Mas erraram. E muito, e antes mesmo do primeiro grande escândalo vir à tona as coisas já não eram as mesmas naquela ala da família.

De cara alguns começaram a discordar dos métodos do partido para chegar e permanecer no poder. Parte deles amadureceu a ideia de que o Estado não tinha capacidade para assumir todos os serviços e caminhava para se tornar um gigante irremovível. Passaram a alimentar outras preferências eleitorais.

Outros desconfiaram das alianças do Partido dos Trabalhadores com os patrões e partidos de sempre. E aposentaram o broche antes do Roberto Jefferson abrir a boca. Quando este anunciou o quiproquó, o grupo rachou de vez.

Uns seguiram apoiando o que chamavam de projeto popular sob o argumento de que muita gente melhorou a vida nos últimos anos. Outros, cinicamente, diziam que para governar para os pobres era preciso fazer concessão aos ricos e/ou sujar as mãos. Outros declaravam apoio crítico por não visualizar opções melhores no tabuleiro político. Outros ainda disseram que aquilo era inadmissível e prometeram nunca mais votar na legenda.

Uns migraram o voto para partidos ao centro, como o PSB de Marina Silva em 2014. Outros, à esquerda, como o PSOL de Marcelo Freixo. Outros viraram liberais e passaram a defender a social-democracia tucana.

A maneira como uns e outros defendiam suas posições dentro do mesmo grupo era mais ou menos agressiva conforme a aproximação das eleições. Todos concordavam numa parte: o mundo era injusto e precisava ser mudado. O “como” é que estava em discussão.

Para o primeiro grupo, aquela discussão pouco importava: quem, em algum momento da vida, manifestara qualquer apoio à legenda estava condenado pelo resto da vida a ser chamado de petralha. Eram eles, e mais ninguém, os responsáveis por tirar o Brasil das mãos de pessoas de bem, que jamais haviam desviado um puto em benefício próprio, para colocá-lo nas mãos dessa gentinha.

Durante anos, alimentaram a impressão de que todo voto ou discurso à esquerda era, por natureza, hipócrita, e qualquer argumento em contrário ou era financiado pelo partido ou era resultado de uma lobotomia. Encontraram eco em colunas e blogs editados por quem se indignava com o preço do iPad e se encantava com o Pateta quando ia para a Disney.

Quando o projeto petista entrou em colapso de vez, sobretudo após o escândalo na Petrobras, quem havia abandonado o barco por considerar que o partido havia se tornado igual aos demais e quem ficou nele por opção ou falta de opção compartilharam um último sinal de solidariedade: a tristeza.

Daquele tempo em que eram motivo de piada do primeiro grupo, ficou somente, e não apenas, a convicção de que o mundo ainda está aí para ser mudado. E que dessa compreensão novas alternativas precisarão a ser desenhadas.

Os demais, convictos de que ganharam a parada e podem agora cuidar dos próprios umbigos em paz, estão onde sempre estiveram. Essas pessoas na sala de jantar seguem ocupadas em nascer e morrer.

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Matheus Pichonelli é colunista na revista Carta Capital e no portal Yahoo.

 


 

 

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Está mais que na hora do Fila Benário Music “contratar” a jornalista, professora e editora do blog Formando Focas, Patrícia Paixão, para o seu time de colunistas e colaboradores, já que essa é a terceira colaboração consecutiva da mesma na coluna FBM Convida.

No texto de hoje, Patrícia, Fã assumida e incontrolável da vida e obra de Chico Buarque, conta a experiência ao assistir o documentário Chico – Artista Brasileiro, dirigido por Miguel Faria Jr.

O relato é fantástico e você acompanha aqui e agora.


 

Por Patrícia Paixão

Imagine conhecer detalhes e segredos da trajetória e do dia a dia de Chico Buarque? Presenciar cenas dele com seus netos, saber como ele lida com a solidão, em que mesa costuma se sentar para fazer suas criações, como é o seu processo criativo, em que contexto criou determinadas canções.

Um grande presente para quem é fã desse homem, não é mesmo?

Pois é exatamente isso que o filme “Chico – Artista Brasileiro”, de Miguel Faria Jr., proporciona.

No documentário, de 1h50, Miguel Faria Jr. consegue trazer a intimidade que tem com Chico (é amigo dele) para os admiradores do cantor.

É possível descobrir um artista divertido e solto, para além da timidez que o grande público conhece. A sensação é a de que Chico está tendo um bate-papo descontraído com você, a ponto de gargalhar incontrolavelmente. Sensacional!

Um grande perfil do artista é apresentado. O filme ajuda a entender como o músico, que gosta de se definir como “escritor”, foi construindo sua trajetória, se transformando em um dos principais nomes do nosso meio artístico.

Chico cresceu em um ambiente bastante propício, e o documentário mostra como esse cenário, somado ao incontestável talento do artista, foi importante para a construção de sua carreira e de sua pessoa. Seu pai, um dos maiores pensadores da contemporaneidade brasileira, o historiador e jornalista Sérgio Buarque de Holanda, lhe proporcionou uma vida rodeada de livros, experiências internacionais e convívio com grandes nomes da nossa cultura. Chico aprendeu diversos idiomas, morou no exterior algumas vezes e teve contato próximo com expoentes como Manuel Bandeira. Sua amizade com Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Edu Lobo, Toquinho, Caetano Veloso, Maria Bethânia, dentre outros artistas, tornou sua trajetória ainda mais fértil. É impressionante a forma como muitos desses profissionais elogiam Chico e o qualificam como uma joia rara no cenário nacional. Vários deles dizem que é uma enorme responsabilidade trabalhar com o artista, pela sua grande envergadura.

Foto histórica: Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Foto histórica: Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

O filme não é apenas interessante por revelar a construção da carreira de Chico Buarque e suas intimidades. É um documentário para quem desejar também aprender mais sobre quanto a duras penas se deu o processo de democratização do nosso país.

Muito interessante o trecho em que Chico revela como suas músicas eram vetadas ou tinham termos trocados pelos censores da ditadura. Chico era “vendido” pelos militares e pela imprensa da época como um dos principais líderes do movimento de oposição, no campo musical. Interessante perceber como ele desaprova algumas de suas canções feitas naquele período, pelo fato delas terem sido motivadas por um sentimento de vingança, de revolta contra o quê os militares faziam com o país. “Tudo que é feito com raiva não fica bom”, diz o artista no filme, revelando que “chega uma hora em que enche o saco compor só sobre política. Você quer escrever sobre outras coisas”.

O filme também é um show. Sim, você se sente literalmente assistindo a um show. De tempos em tempos a narrativa é pausada para apreciarmos a cena de artistas talentosos cantando músicas do Chico. Alguns consagrados, como Ney Matogrosso. Outros menos conhecidos do grande público, como a fadista Carminho.

A estética é belíssima: imagens incríveis do Rio de Janeiro, cidade que Chico escolheu carinhosamente para morar; a suave voz da narradora que lê trechos do livro de Chico (“O Irmão Alemão”, lançado em 2014); os vídeos e as imagens preciosas da infância do cantor.

Impossível não se emocionar em vários momentos e não chorar no trecho em que Chico é perguntado sobre como quer ser lembrado. Ele responde simplesmente que não pensa nisso. Mas, inevitavelmente, quem acaba pensando nisso, e muito, é o público, que se imagina assistindo àquele filme de novo, em um dia em que o cantor não estará mais vivo. E o pensamento que vem é: Meu Deus, esse homem não pode morrer!

Em cada revelação sobre a vida e a obra de Chico, sobre como suas músicas se tornaram sucesso em outros países, sobre como sua obra foi importante para ajudar a construir a democracia no nosso país, sobre como ele entende a alma feminina como ninguém, com suas letras que parecem ter sido escritas por mulheres, sobre como ele (e isso vem de seus pais) é consciente em relação às desigualdades sociais do nosso país, mesmo pertencendo à elite, tem-se a certeza: ESSE HOMEM PRECISA SER ETERNO. O BRASIL FICARÁ MAIS POBRE SEM ELE.

E ele mesmo não pensa assim. Um Chico sensato e consciente não concorda com quem fala que a música da época dele era melhor que a de hoje. Vê muita coisa boa no cenário atual e acha que coisas melhores estão por vir. Diz que a música do passado era muito elitista e que hoje conseguirmos ver muito mais o povo na música brasileira. Critica quem diz que a música hoje é brega. “Não é brega é a cara do nosso povo”, opina, acrescentando que isso é muito bom, pois é sinal de que uma pequena minoria endinheirada não consegue mais ditar os gostos musicais do Brasil inteiro.

Ele conta como às vezes é doloroso o processo criativo e revela já ter feito terapia em momentos em que não conseguia criar. Diz que só deve compor as canções do seu novo disco em 2017. Nesse momento, eu, particularmente, quase tive um colapso, pois, se ele vai lançar as canções em 2017, seu próximo show só acontecerá daquele ano em diante e EU PRECISO VÊ-LO ANTES DISSO! (a louca rs).

Ainda bem que ele vai comandar o Show de Verão da Mangueira em 27/01/16. Já garanti o meu ingresso. Não perco um show deste homem!

Cartaz do "Show de Verão da Mangueira" comandado por Chico Buarque

Cartaz do “Show de Verão da Mangueira” comandado por Chico Buarque

Enfim, assistir ao filme “Chico – Artista Brasileiro” é também, inevitavelmente, lembrar daquele IMBECIL que chamou Chico de “merda” (SIC) no Leblon (leia a matéria completa do caso aqui). Que vontade de encontrar com aquele escroto pra dizer: “Cara, lave a boca pra falar do Chico Buarque. Vá estudar, vá se informar! Se você hoje pode fazer qualquer tipo de protesto é por que caras como o Chico lutaram arduamente contra a ditadura, foram perseguidos, foram censurados! E ele é um cara da elite preocupado com os que nada têm. Quem é você pra falar dele????” (pessoa já se imaginando batendo boca rs)

Por fim, agradeço muuuuuuuuuuuuuito ao cineasta Miguel Faria Jr. por esse presentão que me proporcionou. E, como boa chicólatra, terminei o filme ao lado de várias outras “chiquetes” aplaudindo efusivamente, sob o olhar envergonhado do meu respectivo. Ele também adora o Chico, mas quer ficar bem longe de mim, quando dou meus ataques de “chicólatra” hahaha

#AMORETERNOPORESSEHOMEM


3 - Patrícia

 

Patrícia Paixão é Jornalista, Professora Universitária na FAPSP e editora do blog Formando Focas

Foto por Daniel Silva

Foto por Daniel Silva

No FBM Convida de hoje teremos o imenso prazer de receber em nosso humilde espaço o Felipe Gonçalves, vocalista da banda de punk rock Arquivo Inválido, e editor do blog e vlog Sessão Set. Felipão esteve presente na passagem do NOFX por São Paulo, no último sábado, e conta pra gente com exclusividade tudo que aconteceu na apresentação de Fat Mike e sua trupe.


Por Felipe Gonçalves

Sob chuva fina e constante, formou-se a fila em frente ao Via Marquês, na Barra Funda, para a tão aguardada apresentação dos californianos veteranos do NOFX. Após o adiamento da turnê em Março desse ano (por conta de problemas pessoais com um dos integrantes, no qual, não foi relevado exatamente qual), nove meses depois, o grupo veio com o desejo de cumprir as legítimas expectativas criadas com a nova vinda dos caras ao Brasil. Com 45 minutos de atraso (após a apresentação energética e breve do Reffer, banda brasileira que abriu o show e que também iniciou sua apresentação com atraso) o NOFX subiu ao palco as 20h, com a platéia da casa absolutamente abarrotada.

Após abrir com o show com ‘Seeing Double at the Triple Rock’, o NOFX, sem dó nem piedade, começou a levar a galera a loucura puxando clássicos inconfundíveis, que fez todo mundo entre seus 20 e 30 anos se sentirem absolutamente em casa, como em ‘Stickin’ in My Eye’, ‘Murder the Government’ e ‘Leave It Alone’.

Sempre irreverentes, principalmente o famigerado Fat Mike, que abusou do seu típico humor ácido e sexual. Os músicos, com exceção do baterista, mais contido (normal!), de maneira geral interagiram e conversaram muito com o público (em alguns momentos, notei um leve exagero, sendo a música sendo quase deixada de lado em certa altura do show). Eric Melvin atirou palhetas o tempo todo, enquanto tentava se comunicar com os fãs brasileiros.

Musicalmente falando, a boa forma e disposição dos caras é invejável. A formação com Fat Mike, Eric Melvin, El Hefe e Erik Sandin ainda se faz absolutamente necessária. Uma unidade coesa, que funciona feito um relógio novinho. Alias, o próprio Aaron “El Hefe” Abeyta, que cantou dois sons, conduziu no trompete e trombone os metais presentes na divertida sonoridade excêntrica e tão peculiar do punk rock / hardcore/ ska do NOFX.

Após 1 hora de apresentação, o NOFX fez uma breve pausa e voltou mandando mais clássicos como ‘Fuck the Kid’, ‘Bob’, ‘Bottles to the Ground’ dentre outros. Mais 20 minutos de show, a expectativa para um final com ‘Don’t Call me White’ era inevitável. Fãs iam ficando absolutamente apreensivos, e foram ao delírio com ‘Dinosaurs Will Die’, que pra surpresa de absolutamente todos, fechou o show, e a banda assim deixou o palco, sem ao menos se despedir do público. As luzes se acenderam e ficou a amarga sensação de que o incrível show foi absolutamente interrompido no seu climax. Gafe das piores que uma banda pode cometer. Dessa forma, mesmo tendo caprichado no repertório, esperamos que dá próxima vez o NOFX passe pelo Brasil com uma postura menos “empata-foda”, após a construção de todo o clima.

Talvez um roteirista novo ajude a consertar esse final confuso e apressado.


Felipe

 

Felipe Gonçalves é vocalista da banda Arquivo Inválido e editor do vlog Sessão Set, sobre filmes e cultura pop em geral.

O show histórico do Pearl Jam

Publicado: 21 de novembro de 2015 em FBM Convida
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PJ 1

Reprodução Camila Cara Fotografia

E no FBM Convida de hoje teremos o imenso prazer de receber no nosso humilde espaço a estudante de jornalismo e editora do blog Desarmando a Censura, Juliana Almeida.
Ela esteve presente no show do Pearl Jam no último final de semana no estádio do Morumbi e conta essa experiência fantástica pra gente aqui no FBM.
É com você, Ju!


 

Por Juliana Almeida

Com um repertório fantástico que foram do disco novo até as queridinhas da galera, Pearl Jam fez mais um show inesquecível na noite do dia 14 de novembro no estádio do Morumbi.

A turnê Lightning Bolt que começou em 2014 marca os 25 anos da banda. As novas músicas trazem um Pearl Jam mais maduro que ainda não perdeu suas origens. Eles começaram em 1990 com a formação Eddie Vedder no vocal, Jeff Ament no baixo, Stone Gossard e Mike McCready na guitarra. Seu primeiro álbum foi o aclamado Ten, que decolou a banda grunge nas paradas de sucesso. Apesar de o álbum ter demorado um pouco para fazer sucesso, as músicas Alive, Jeremy e Even Flow se tornaram as queridinhas do público.

(reprodução MROSSIFOTO)

(reprodução MROSSIFOTO)

A banda, preocupada com a qualidade do show, pensou em cada detalhe, o show de luzes com o logo do novo álbum, os raios acompanhavam os ritmos das músicas mostrando a produção impecável.

(reprodução Camila Cara Fotografia)

(reprodução Camila Cara Fotografia)

Eddie Vedder preocupou-se em falar em português a maior parte do show, e quando falava em inglês gesticulava e sempre perguntava se todos o entenderam. Sem banda de abertura, abriram o show sem atrasos, presenteando os fãs com 3 horas insanas de show. A playlist foi:

PJ 4

Mudando pouquíssimas músicas nos shows, em cada cidade que passaram fizeram um show memorável, mas esse em São Paulo deixou um gostinho de quero mais.

O último show da banda no Brasil foi em 2013 quando tocaram no festival Loolapalooza, mas ano passado Eddie fez um show solo aqui, voz e violão mostrando seu trabalho divino.

A pouca chuva nada interferiu na qualidade show. Quando a chuva enfim cessou e eles começaram a tocar “Better Man”, este (para mim) foi o ápice do show, uma vibe que só quem é muito fã de uma banda conhece.

Fica aqui o link pra quem quiser sentir o arrepio na alma

A banda fez uma homenagem para John Lennon tocando ‘Imagine’ em voz e violão, que até para mim que não sou a mais chegada nos Beatles, aplaudiu a performance que ficou maravilhosa!

E pra quem, como eu, sempre quis gritar “It’s evolution, baby!” não ficou decepcionado seguida da música “Hail, Hail”, digo e repito este show foi pra todos os que são fãs e os que não são muito.

Essa foto é o resumo da lavação de alma que foi este show com chuva, com essas músicas fantásticas e que só o Pearl Jam tem o dom de fazer.

(reprodução Camila Cara Fotografia)

(reprodução Camila Cara Fotografia)

Faltaram algumas músicas como “Daughter”, “Last Kiss” e “Just Breathe”, mas não deixaram o show com lacunas, eles preencheram com outras as músicas que nos deixaram com vontade de ir a outros e outros shows.

 

Pra finalizar vou fazer um top 10 minhas músicas preferidas deles:

 

1. Black – A letra, a melodia, a voz. Esse conjunto me conquistou aos 5 anos de idade ou antes.I take a walk outside I’m surrounded by some kids at play I can feel their laughter so why do I sear?”

2. Yellow LedbetterAnd I know and I know I don’t want to stay. Make me cry.”

3. Sirens – A música que me fez perceber que mesmo depois de 25 anos, essa banda ainda conseguiria mudar a minha vida. “Knowing that nothing lasts forever I didn’t care, before you were here, I danced in laughter with the everafter but all things change, let this remain”

4. Just Breathe – Faltou no show, mas essa música derrete corações. Did I say that I need you? Did I say that I want you?”

5. Jeremy – pra quem não conhece a história da letra:
Leia aqui

6. I Am Mine – “The in between is mine. I am mine.

7. Love Boot CapitainIs this just another day, this God forgotten place? First comes love and then comes pain, let the games begin.”

8. Better Man – “She dreams in colors, che dreams in red. Can’t find a better man

9. Daughter – “She holds the hand that holds her down…She will… rise above”

10. Do The Evolution – “It’s evolution, baby”

Foi difícil encontrar palavras pra descrever esse show. Foi difícil escolher as minhas 10 preferidas da banda. Eu tô arrepiada até agora.


Ju

Juliana Almeida é estudante de Jornalismo na FAPSP e editora do blog Desarmando a Censura

Foto por Aline Garcia Ciola, Daniela Cristina Henriques e Elizabeth Guitzel

Foto por Aline Garcia Ciola, Daniela Cristina Henriques e Elizabeth Guitzel

Como já havíamos noticiado em nossas redes sociais, no FBM Convida de hoje teremos o imenso prazer de receber a jornalista e editora do blog Formando Focas, Patrícia Paixão, que fez uma cobertura mais do que especial do show que marcou a volta da Legião Urbana no último sábado no Espaço das Américas. É com você Paixão.


Por Patrícia Paixão

Duas horas e meia que todos que estavam presentes na noite de 07/11, no Espaço das Américas (zona oeste de São Paulo), queriam que fossem eternas. Ao término daquele momento mágico, em que milhares cantaram a plenos pulmões os principais sucessos da Legião Urbana, o semblante de tristeza era nítido em muitos: Já??? Será mesmo que eles não vão voltar ao palco de novo?? Renato Russo não aparecerá, do nada, vindo de outro plano??

Mas não. Não haveria um novo bis e, obviamente, Renato não apareceria. O show “Legião Urbana XXX anos” (que faz parte da turnê iniciada em Santos em 23/10, para comemorar os 30 anos do álbum de estreia da banda) havia mesmo terminado.

Foi um espetáculo inesquecível que provou que, mesmo após 19 anos da morte de Renato (em 1996),os legionários – fãs da Legião – continuam firmes e fortes.

Assim que o show foi aberto o público explodiu, cantando com empolgação cada uma das canções. O clima era muito bom, lembrando, em escala bem maior, as rodinhas que costumávamos fazer no pátio da escola, na rua ou na faculdade para cantar Legião. As pessoas pareciam se conhecer e cantavam juntas os hits do grupo.

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, com o músico e ator André Frateschi no vocal, tocaram os principais sucessos da banda, começando pelo disco 1, que foi todo contemplado. Outros artistas se revezaram no vocal, como Rodrigo Amarante, dos Los Hermanos.

Frateschi, aplicando suas habilidades de ator, interpretou muito bem as canções. Não tentou imitar Renato Russo, o que foi um ponto positivo, já que Renato é único. Cantou com o coração e, por isso, conseguiu emocionar o público.

“Esperamos por esse show 30 anos!”, gritou pra galera, deixando todos em polvorosa.

As primeiras canções do setlist foram:“Será”, “A Dança”, “Petróleo do Futuro”, “Ainda é Cedo”, “Perdidos no Espaço”, “Geração Coca-Cola”, “O Reggae”, “Baader-Meinhof Blues”, “Soldados” e “Teorema”.

Frateschi cantando com Dado “Geração Coca-Cola”:

As pessoas não sabiam se pulavam, gritavam, dançavam, filmavam ou fotografavam tudo rs Parecia um sonho e todo mundo queria registrá-lo.

Finalizando a primeira parte do show, num dos momentos mais emocionantes do espetáculo, começou “Por Enquanto”. André Frateschi direcionou o microfone à plateia e os fãs cantaram a canção sozinhos até o fim. Muitos (como eu) com os olhos marejados.

Em um dos momentos mais emocionantes do show, a banda deixa os fãs cantarem sozinhos a canção “Por Enquanto”:

No segundo ato do espetáculo, mais sucessos: Tempo Perdido”,”Daniel na Cova dos Leões”, “Conexão Amazônica”, “Há Tempos”, “Dezesseis”, “1965 (Duas Tribos)”, “Eu Sei”, “Teatro dos Vampiros”, “Monte Castelo”, “Quase sem Querer”, “Pais e Filhos”, “Angra dos Reis” e “Perfeição”.

“Monte Castelo” e “Quase sem Querer” foram cantadas por Rodrigo Amarante que, na minha opinião, não mandou tão bem como Frateschi.

Depois de “Perfeição”, a suposta última música do show, a galera começou, é claro, a pedir o bis. Muitos gritavam“Faroeste Caboclo!” e o desejo foi atendido pela banda. Momento mágico ver todo mundo cantando Faroeste, com o Frateschi interpretando muito bem o “João de Santo Cristo”.

Pra encerrar o bis, ainda teve as clássicas “Índios” e “Que País é Esse?”.

Foi uma noite histórica, que dificilmente aquelas pessoas presentes no Espaço das Américas vão esquecer. Embora houvesse fãs mais jovens, o público, em geral, era mais velho, seguidores da Legião da época em que Renato era vivo. Muita gente acima dos 30 anos.

Durante o show, em um dos momentos em que conversou com o público, Dado mandou um recado, ainda que de forma indireta, ao filho de Renato Russo (Giuliano Manfredini), com quem ele e Bonfá travaram uma luta judicial pelos espólios de Renato. Disse que durante esses 30 anos “nunca ficaram sem fazer nada, criticando os outros com a bunda na cadeira”. Destacou que eles continuaram atuando como músicos, sem desperdiçar trabalho e energia, brigando com os outros. Os fãs entenderam o recado.

Eu acho que Bonfá e Dado têm todo direito a cantar as canções do grupo, pois construíram juntos com Renato a Legião Urbana. Embora a figura do Renato seja vista por muitos fãs, como eu, como a parte que conta. Durante o show, de tempos em tempos, os fãs chamavam por ele: “Renato! Renato!”. Eu, sinceramente, senti falta de uma homenagem mais significativa e clara ao Renato, poderiam ter passado um vídeo dele, terem proferido algumas palavras exaltando seu trabalho, enfim. Legionário que é legionário tem Renato como ídolo e espera isso.

Mas o que importa é que, com alfinetadas ou não, com ou sem uma homenagem mais forte, o show foi lindo. E, pelo menos da parte dos fãs, acabou sendo um grande tributo a Renato Russo, compositor de músicas que são verdadeiras obras de arte.

Por mais shows da Legião Urbana, numa época em que canções bem compostas, com enredo e letra inteligente, são raridades.


3 - Patrícia

 

Patrícia Paixão é Jornalista, Professora Universitária na FAPSP e editora do blog Formando Focas

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Aproveitando que hoje, dia 15 de Outubro, é comemorado nacionalmente o Dia dos Professores. O profissional que deveria ser o mais respeitado por todos, pelo simples e poderoso fato de ter passado por suas mãos os futuros profissionais de todas as áreas existentes. Mas que na prática ele é marginalizado graças a um governo (seja ele estadual ou federal) que não trata a educação como prioridade no país.

Portanto, foi pensando nisso que eu convidei para esse espaço alguns professores dos quais muitos eu tive (e tenho) o prazer de ser aluno, e outros eu acompanhei a sua jornada heroica desde a faculdade até o patamar onde ele se encontra no momento. Para cada um dos professores eu dei uma letra diferente do Dead Fish, famoso grupo de Hardcore nacional que está em atividade desde 1991, com sete discos lançados e traz em suas ácidas letras os conflitos existentes na nossa sociedade: a reforma agrária, o preconceito racial, o machismo, a má distribuição de renda, as desigualdades raciais, a população indígena, o capitalismo subversivo e falta de investimento na educação.

Dead Fish

Dead Fish

Alguns docentes já tinham familiaridade com a banda, outros nunca tiveram contato com a obra musical de Rodrigo Lima e sua turma, o que de certa forma torna o texto ainda mais prazeroso e autêntico.

Enfim, chega de blá, blá, com vocês agora “Os Professores e as Canções do Dead Fish”


MST

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sirva-se (1997)

Quem você pensa que eu sou
Aquele que você viu na TV
O que te faz pensar que sou tão diferente de você?
Pois eu tenho família e filhos pra criar
E sou que estou aqui
Lutando pelo que é meu por direito

Devo ocupar
Devo produzir
Devo resistir

Pouco me importa se você não gosta
Da cor da minha bandeira
Pois sou eu que estou aqui
E sou eu que tomo bala dos que deveriam
Me defender
Falsos amigos de uma nação
Não querem ensinar o que é um cidadão

Devo ocupar
Devo produzir
Devo resistir

“O campo brasileiro continua produzindo sangue e assistindo como no passado a um desfile de bandeiras vermelhas entre multidões de miseráveis sob o comando do MST, combater um latifúndio, desapropriar, ocupar e distribuir as palavras de ódio que resistem ao tempo como resistem a concentração diária; 0,9% dos produtores detém mais de 35% das terras”

A ganância dessa elite já foi demais
400 anos de massacre também já é demais

Vou ocupar
Vou produzir
Vou resistir

PODER AO POVO

Vermelho como o sangue, vermelho como a terra

Por Michele Escoura

O Dead Fish me levou para as Ciências Sociais, para a universidade pública, para o feminismo e para os movimentos sociais. As letras da banda foram minha primeira escola de política e era minha principal fonte de sensibilização para as questões sociais. Eu era uma adolescente do interior de São Paulo em uma época em que a internet ainda engatinhava e, por isso, a cena de rock da minha cidade acabava sendo o principal espaço de circulação de idéias.

Pingava suor das paredes dos clubes lotados de adolescentes ansiosos para ver as bandas que passavam pela cidade. Foi num cenário destes que eu vi a força política vibrante do Rodrigo Lima. Era assustador, e incrível! Eu tinha um cdzinho com as cópias dos discos da banda em MP3 e não demorou muito para que eu decorasse todas as letras (cantar tudo nos shows também dava o maior status!!).

Nos anos 1990, época de lançamento do disco Sirva-Se (1997), eram recorrentes as notícias de ocupação do MST. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra durante décadas foi um dos principais movimentos sociais brasileiros e uma referência a ele era mais que justa. Em um país onde sua história é contada a partir da chegada de um monte de branco disposto a matar o povo originário e extorquir suas terras, não à toa a questão latifundiária é um problema fundamental na distribuição (ou falta) da riqueza.

A galera pulsava pelo interior do país e a mídia seguia em sua dinâmica de criminalização dos movimentos sociais. Fazendeiros apareciam nos jornais do horário nobre indignados por terem suas “propriedades” invadidas, enquanto as vozes dos trabalhadores rurais que ocupavam as terras improdutivas jamais eram ouvidas. O mote era seguir o exemplo de nossos vizinhos de América Latina: México, Bolívia, Cuba, Chile, Venezuela, Peru e Nicarágua foram o cenário de intensos processos de revolta popular e consolidaram a redistribuição das terras entre os trabalhadores rurais. As bandeiras vermelhas do MST tremulavam alto nos campos ocupados pelo Brasil reivindicando a reforma agrária que aqui, até hoje, ainda está por vir.

Neste ano de 2015, dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) revelaram que 2,3% dos imóveis rurais concentram quase metade de toda área do país registrada pelo órgão. São 244 milhões de hectares concentrados em latifúndios que, seguindo à velha dinâmica das capitanias hereditárias, restringe o acesso à terra para poucas famílias e para a produção agrícola no modelo de exportação e nem sempre para consumo humano (dados oficiais da União estimam que 70% dos alimentos que chegam na minha ou na sua mesa vem de pequenas propriedades e da agricultura familiar, modelo defendido pelo MST). Além disso, estima-se que dessa área concentrada, 175 milhões de hectares são considerados improdutivos e estariam legalmente aptos para a redistribuição fundiária.

Terra equivale à riqueza. Seja a riqueza mantida pelas tradicionais famílias latifundiária, ou seja, a riqueza buscada pelos pequenos trabalhadores rurais: o direito de garantir seu sustento a partir de seu próprio chão. E terra, também por isso, equivale às disputas. Amargamos com a ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e representante do modelo agrícola latifundiário, Kátia Abreu, no Ministério da Agricultura brasileiro. Com ela, assistimos também o agravamento do genocídio indígena, o emperramento das demarcações ou redistribuições de terra e o sucateamento dos programas de incentivo à agricultura familiar.

Cinco séculos de história banhada a sangue se passaram, ainda tem gente morrendo por sua terra. Mas há também resistência, e é por justiça que pulsavam as veias do Dead Fish. E também a minha. Quando, em 2014, pela primeira vez estive de frente ao vermelho da bandeira tremulante e daquele infinito de barracos de lona preta que protegiam os velhos sonhos por igualdade, meus olhos marejaram, minhas pernas adormeceram e meu pensamento não saia do refrão: “Devo ocupar, devo produzir, devo resistir – PODER AO POVO”.

Foto tirada por Michele Escoura no acampamento do MST no município de Abelardo Luz (SC), onde viviam 500 famílias em 2014

Foto tirada por Michele Escoura no acampamento do MST no município de Abelardo Luz (SC), onde viviam 500 famílias em 2014

Dead Fish foi minha escola.

2 - MicheleMichele Escoura é antropóloga, graduada pela UNESP, mestra pela USP e doutoranda pela UNICAMP. Milita nos campos do feminismo, dos direitos humanos LGBT e da educação. Mas só chegou nisso tudo porque, antes, teve a escola do Hardcore em sua formação.


 

SONHO MÉDIO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sonho Médio (1999)

Amanheceu mais uma vez
É hora de acordar para vencer
E ter o que falar
Alguém para mandar
Uma vida pra ordenar
Poder acumular
E ai então viver, viver e prosperar,
Mais nada a pensar,
Me myself and I,
E assim permanecer,
Credicard e status quo é tudo que
Penso ser, ilusão é questionar.

O sonho médio vai, vai te conquistar
E todo dia iremos juntos ao shopping pra gastar.

Ter e sempre acreditar, princípio meio e fim
A hipocrisia vai vencer
Vou sorrir para você
Será uma festa em meio a caos
E as pessoas feias pagarão.
Pois somos os eleitos, pelo menos achamos ser
Nossa raça é superior
Pois vou fingir ser daquela cor,
Roberto Campos é o nosso guru e para sempre seremos liberais
Pra trabalhar, pra viver!
Não me importa se meus filhos não terão educação,
Eles têm que ter dinheiro e visual.

O sonho médio vai, vai te conquistar
Mentalidade de plástico e uma imagem a zelar.

Rock Contestação

Por Luiz Antônio Farago

O rock, desde sua origem, nunca foi “ostentação”, sempre foi o som da contestação.

No Brasil, não foi diferente, sobretudo ao longo dos anos 80. Após um longo período de ditadura, o que equivale dizer de censura e perseguições, os jovens não queriam sussurar a bossa nova, queriam gritar ao som do rock.

Neste contexto, os anos 80 foram anos mágicos para o rock nacional, surgindo a todo o momento bandas e roqueiros icônicos como: Ultraje a Rigor, Inimigos do Rei, Camisa de Vênus, Biquíni Cavadão, Legião Urbana, Barão Vermelho, entre outros. Roqueiros como Raul Seixas, Lobão e Cazuza (o poeta da contestação). Todos cantando o Brasil e suas mazelas.

Hoje o rock nacional, atravessa uma fase de abstinência contestatória por razões que não cabem aqui discutir. O fato, é que o rock ficou comportado e careta, com raras exceções.

A banda capixaba Dead Fish surgida em 1991, é um exemplo. Já tendo lançado sete CDs e tocado em todos os cantos do Brasil, busca pontuar suas canções com a essência do bom e velho rock contestação. Entre outras, destaco a música “Sonho Médio”, que ao som de uma guitarra nervosa e uma letra repleta de ironia (estilo que muito me agrada), desfere um soco na boca do estomago dos valores e comportamentos da sociedade capitalista moderna tupiniquim.

Em trechos como “é hora de acordar para vencer”; “Credicard e status quo que é tudo que penso…”; “E todo dia iremos juntos ao shopping pra gastar”; “Roberto Campos (para quem não lembra guru do neoliberalismo tupiniquim) é nosso guru…”, questiona os valores e comportamento presentes em nossa sociedade de hoje. Pena não serem compreendidos pela geração “ostentação”.

7 - FaragoLuiz Antônio Farago é mestre em Ciências Sociais pela PUC. Especialista em Sócio Psicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e graduado e Licenciado em Ciências Sociais pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira. Autor dos livros Conhecendo o Brasil, Atlas Histórico e Geográfico e co-autor de Minimanual Compacto de Geografia Geral e do Brasil, todos pela Editora Ridel. Professor universitário na Faculdade do Povo (FAPSP) para os cursos de Jornalismo, Rádio e TV e Publicidade e Propaganda.


MULHERES NEGRAS

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Sonho Médio (1999)

E se um dia tivéssemos que resistir,
E se tudo que fizéssemos fosse em vão?
A vida mesmo assim teria uma razão.
Manter-se de pé e esperar.

E se não fossemos tão jovens ainda estaríamos aqui?
E se não pudéssemos mais cantar,
Nem reclamar
Nem protestar?

Fingiríamos esquecer nosso ideal
Ou lutaríamos agora pra valer?
Os tombos da vida nos fazem crescer
E não devemos desistir…

Mas então vamos lá,
Lutar por um ideal.
Se viver é resistir,
Então será…

E ai poderemos sorrir como mulheres negras,
Que apesar de todo sofrimento se negam a chorar.

“E aí poderemos sorrir como mulheres negras, que apesar de todo sofrimento se negam a chorar”

Por Ana Paula Vieira de Oliveira 

O tempo passa, a tecnologia favorece a vida humana, descobertas cientificas beneficiam nosso cotidiano, porém, cada dia mais as relações humanas se tornam difíceis. A violência sem sentido que tira vida de pessoas inocentes por conta de uma ignorância velada, por não aceitar o que o outro é ou representa, está estampada nas manchetes dos jornais, nas redes sociais. Já se tornou algo costumeiro, como a previsão do tempo, não causa sentimento de repulsa ou revolta. E quando alguém se manifesta contra essas situações, logo é recriminado, levando o nome o título de chato ou aquilo que ele questiona é muito “mimimi”.

Dentro desse grupo de pessoas que sofrem com a violência gratuita, aqueles que ainda estão à margem da situação, está a comunidade negra. Hoje, como diria o rapper Emicida: “Ser preto ficou legal”. A cultura étnica está cada vez mais presente no cotidiano. Observemos as mulheres negras e seus cabelos se antes para se sentirem aceitas na sociedade, se viam obrigadas a alisa-lo, hoje os blacks e cachos ganharam status de cabelo estiloso, e são copiados por muitas pessoas. Roupas e adereços, também caíram no gosto popular e são vistos desfilando pelas ruas. Quem observa essa “evolução”, pode pensar assim: “Cara, o preconceito no Brasil não existe mais”. Será?

Em pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um jovem negro tem 2,5 vezes mais chance de ser assassinado do que um jovem branco. Não por coincidência, o salário dos negros ainda é inferior ao salário dos brancos. Muitos dirão, mas isso não é preconceito, se eles se envolvem no mundo do crime e não são bem preparados para o mercado de trabalho, é isso que merecem, estão colhendo o que plantaram. O que dizer então, dos inúmeros casos de racismo impregnados nas redes sociais, contra homens e mulheres negros? Como por exemplo, o caso da jovem jornalista, Cristiane Damacena de Brasília, que ao postar uma foto em sua página na rede social, foi chamada de macaca e perguntaram qual o valor da escrava, sugerindo que a mesma estivesse à venda como acontecia no período da escravidão. Ah, claro, isso não é preconceito ou racismo, é só exagero por parte de um grupo politicamente chato, que não sabe levar as coisas na esportiva, foi tudo brincadeira.

Diante de um cenário marcado por situações como essas, a palavra de ordem para as vítimas disso tudo é RESISTÊNCIA. Do latim resistere, resistir significa aguentar firme, manter a posição. É segurar a onda, não baixar a cabeça, mas antes disso tudo é ter orgulho de ser o que é. Ter consciência de que podemos tudo e não existem limites para os nossos sonhos.

A letra de Mulheres Negras, da banda de Hardcore, Dead Fish, compara a resistência humana diante de uma situação de sofrimento, a força das mulheres negras, que mesmo na dor não deixam a lágrima cair. É a lágrima que não caiu no rosto daquela escrava que foi estuprada pelo seu senhor, a mesma lágrima que ficou guardada nos olhos daquela mãe preta que viu seu filho ser covardemente assassinado, pois foi confundido com o bandido que roubou um celular. É também a lágrima que foi contida pela jovem que foi chamada de macaca no colégio onde estuda. São lágrimas que não caíram, para mostrar a força que esse povo carrega.

Na dor, no sofrimento, que o povo negro encontra força para não desistir e lutar por mais dignidade, mesmo diante de uma cultura opressora.

E se um dia tivéssemos que resistir, e se tudo que fizéssemos fosse em vão? A vida mesmo assim teria uma razão. Manter-se de pé e esperar.

4 - Ana PaulaAna Paula Vieira de Oliveira é Pós Graduada em Ensino Religioso na UNISAL e formada em Teologia pela mesma instituição. Atua como professora no núcleo “Centro Catequético Dom Gabriel” na Diocese de Jundiaí – SP


PROPRIETÁRIOS DO 3º MUNDO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Afasia (2001)

Promessas eternas por cumprir e mortos demais a esperar,
Sobre uma terra fértil à espera de mãos pra plantar.
Mas os punhos fechados e amargos dos proprietários do 3º mundo
Beberam sangue demais pra perdoar.
Mentalidade tacanha e assassina nas favelas do 3º mundo.
Mortos, suicídios, chacinas somados é o que se vê.

Minério, violência, especulação.
Bens materiais a amar.
Prédios altos que mostrarão quão grande o tombo será.
Mas a ordem e progresso assassina dos educados
Do 3º mundo são cegas demais pra perceber.
Mas o ódio e a fome dos sem teto do 3º mundo.
Justiça por caos podemos ver.

Liberdade.

Paz, força e coração.
Vida, amor, libertação.
Um desejo incontido nas cabeças do 3º mundo.
Tudo isso virá se pudermos perceber.

Que amar,
Viver,
Cantar não será em vão.

A miséria ainda choca

Por Ricardo Roca

Ser professor é, antes de tudo, acreditar na mudança, crer que é possível contribuir para que alguém avance, aprenda, evolua. E é nesse processo que faz todo sentido a frase de Guimarães Rosa:

“Professor não é quem ensina, mas quem de repente aprende”.

A música é um dos melhores instrumentos geradores de mudança e o Fila Benário, de quem tive a honra de ser professor em algumas disciplinas no curso de jornalismo e com quem aprendo freqüentemente no convívio, percebeu isso bem cedo e nos presenteia com suas pesquisas e textos sobre música e vida.

Há algumas semanas ele me pediu para que escrevesse algo sobre a música Proprietários do 3º Mundo, do Dead Fish. Além de honrado, fiquei com receio, já que não conheço muito dessa banda.

Imediatamente associei a letra com a triste notícia lida alguns dias antes: “Em 2016 o grupo dos 1% mais ricos do mundo vai concentrar mais riquezas que o dos outros 99% da população mundial”.

A humanidade já conquistou muita coisa, a ciência avança e a expectativa de vida até aumenta, mas a miséria ainda choca. Ou deveria, apesar do amortecimento que a “ordem” vendida pela mídia gera em boa parte dessa população.

1 - RocaRicardo Roca é formado em Comunicação Social e pós-graduado em Administração de Empresas, ambos os cursos pela ESPM, atualmente cursando mestrado em Linguística. Professor universitário na Universidade Cruzeiro do Sul, além de ser criador e editor do blog Futebol-Arte.


 

GIGANTE E INSEGURO

Letra: Rodrigo Lima
Álbum: Vitória (2015)

O que despertou tão gigante insegurança?
Tão preguiçosa busca por informação
O que transformou o que era sede por mudança
Nesse discurso sobre Deus e tradição?

Perdão por me prender nesse assunto
Mas é um choque você não recordar
O quão de ponta-cabeça era o mundo
Que o tumulto de quem quis discordar

Com sua permissão e censura
ou se quiser posso sumir e não voltar
Siga em frente com seu conservadorismo
E ponha a ordem necessária a este lugar

Manter a tradição da exploração
Sua família é a eleita!
Foi de oposição a imposição
Toma um direto de direita!

Deixe os gritos nas ruas e não no porão!

Incorporou o ativista do Estado
E agora chama o Golpe de revolução
Copiou, colou essa imagem do passado
deletando todo o sangue pelo chão

Repetindo com a mesma arrogância
Mandamentos feitos pra te dominar
Entregando seu voto de confiança
para aquele que vai te crucificar

Progressistas retrógrados e sociais eleitores
dando direitos a humanos, não a pecadores

Livrai nos desse mal
Dessa falsa moral
Livrai nos desse mal!

Manter a tradição da exploração
Sua família é a eleita!
Foi de oposição a imposição
Toma um direto de direita!

Deixe os gritos nas ruas e não no porão!

Poder para o poder
Crescer, enriquecer
Escolher, não escolher
Livre para obedecer!

Livrai nos desse mal
Dessa falsa moral!
Livrai nos desse mal!

Dead Fish e uma ode à “indecência”

Por Patrícia Paixão

… Ah, esses gloriosos tempos em que exemplares guardiões da moral e da ética lutam, de forma veemente, para colocar ordem no país.

Que fascinantes esses tempos, em que numa atitude consciente e madura, as pessoas saem pelas ruas pedindo a volta da ditadura.

Em que eleitores, seletivamente revoltados, depositam seu voto em partidos genuinamente dignos, que livrarão, definitivamente, o Brasil dos ímpios (é claro que não tem a menor importância o PSDB ter sido considerado líder na lista dos partidos mais fichas sujas do país e o fato de seu presidente ter sido apontado dentre os que receberam propina na operação Lava-jato (leia aqui)

Em contrapartida a toda essa lucidez, existem militantes cegos e petistas (sim, porque todo mundo que é contra a ideia de enDIREITAr  o país é petista, óbvio!) , que criticam a volta dos militares contra a inteligência de milhares. Por exemplo, um grupelho musical chamado Dead Fish (o nome já diz tudo sobre a natureza fétida dessa “banda”, que insiste em atacar todos que são decentes) e professores de jornalismo “comunistas-cubano-venezuelanos-soviéticos” que defendem esses grupelhos e outros tipos de baderneiros…

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Meu nome é Patrícia Paixão e sou uma destas docentes indecentes, com muito orgulho. Estou aqui, a convite do Fila Benário Music, para exaltar a música Gigante e Inseguro, do referido “grupelho comunista”.

Como diz a letra da canção do Dead Fish (muitas vezes é preciso o cheiro de peixe morto para nos tirar da zona de conforto da burrice e nos fazer pensar), peço “perdão por me prender nesse assunto, mas é um choque você não recordar o quão de ponta-cabeça era o mundo, que tumulto de quem quis discordar”.

Realmente é um choque saber que você, defensor da ditadura, não lembra (ou, pior, lembra e acha justo) do grande número de inocentes que morreram e/ou foram brutalmente torturados, com o argumento de que era preciso colocar ordem no país.

Inclusive pessoas que não tinham NADA A VER com a política, como meu pai. Em 19 de maio de 1970, ele foi preso a coronhadas e pontapés por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), no segundo andar do edifício Santa Luzia, localizado à rua Siqueira Bueno, no Belém, zona leste de São Paulo.

Procuravam pelo meu tio, este sim militante político de esquerda (do qual tenho imenso orgulho, pois ajudou a construir a democracia neste país), e encontraram meu pai, que tinha ido ao apartamento do meu tio, com a minha avó, pegar umas coisas.

Meu pai, que não tinha NENHUMA LIGAÇÃO COM A POLÍTICA, foi torturado no Dops. Prenderam também meu avô. Minha avó ficou desesperada. Horas depois meu avô foi solto e meu pai continuou preso.

Felizmente meu pai escapou com vida, mas nos dias em que ficou no Dops testemunhou crueldades e experimentou, na pele, torturas que jamais sumirão de sua memória física e mental.

Em fevereiro de 2015, fui visitar com o papai o Museu da Resistência, no bairro da luz, onde ficava o Dops. A emoção foi incontrolável. Tivemos que sair às pressas do museu, pois o papai começou a passar mal, lembrando de tudo o que viveu naquele lugar.

Então, como dizem os “comunas” do Dead Fish, pare de incorporar o ativista do Estado e agora chamar o Golpe de “revolução”. Pare com “tão preguiçosa busca por informação”, que “copiou, colou essa imagem do passado, deletando todo o sangue pelo chão”.

Pare, simplesmente pare, de ficar “repetindo com a mesma arrogância mandamentos feitos pra te dominar, entregando seu voto de confiança, para aquele que vai te crucificar. Deixe os gritos nas ruas e não no porão! Livrai-nos desse mal! Dessa falsa moral”.

Pare de achar que é decente votar num governador que impõe sigilo a dados públicos (leia aqui) para esconder as merdas que fez na gestão do abastecimento de água de São Paulo, e para mascarar os erros e assassinatos grosseiros de sua PM, que banhada no ranço na ditadura, encara todos os que estão na periferia como inimigos do país, achando justo dizimá-los, mesmo que sejam inocentes.

Pare, pare, pare, paaaaaaaaaaaaaare!

Só quem já teve um familiar torturado ou morto pelo regime militar sabe quão imbecil e burra é essa sua defesa da ditadura! Ou a defesa que você faz de partidos que, em suas raízes, ajudaram a impor aquele regime, como o “democrata” DEM, aliado do PSDB.

De que adianta ser “gigante e inseguro”? De que adianta ser livre entre murros e muros??

Sinceramente, prefiro ser essa “comunista-cubana-venezuelana-soviética” (que você diz que eu sou) a pregar imbecilidades como estas.

E que o “Brilhante” coronel Ustra falecido hoje (leia aqui) tão endeusado pelos defensores da moral e dos bons costumes, possa prestar contas, do outro lado, aos milhares de “opositores” assassinados por ele, injusta e cruelmente, em nome de um país decente.

OBS: Pelo amooor de Deeeeus!!! Pare de dizer que vivemos em uma “ditadura-cubana-venezuelana-comunista”. Todo mundo que conhece o básico de política sabe o quanto o PT tem lambido o capitalismo, seguindo uma política econômica que faria Margaret Thatcher ter orgasmos simultâneos.

3 - PatríciaPatrícia Paixão é jornalista e professora de Jornalismo, progressista e alinhada à ideologia de esquerda. Também criadora e editora do blog Formando Focas.


 

No começo desse ano o Fila Benário Music fez uma entrevista exclusiva com o Dead Fish que vale a pena ser conferida. Leia aqui.

Feliz Dia dos Professores.

 

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No FBM Convida de hoje recebemos a Bióloga, Professora e Coordenadora de Ensino: Cibele Dias Melo Marchesin


Por Cibele Dias Melo Marchesin

Estava eu fazendo uma visita despretensiosa em Extrema – MG (cidade esta que o dono deste blog deverá pesquisar, pois sempre é muito rica em eventos culturais), quando descubro que naquele sábado, 01 de agosto de 2015, estaria acontecendo a etapa classificatória da 45ª edição do Festival Nacional da Canção (FENAC), e seria encerrada com o show do indefinível Alceu Valença. Eu logo me empolguei e corri para a praça central da cidade onde ocorreria tal evento. A princípio já me encantei com a organização e a estrutura do Festival, tratei de descobrir do que se trata o FENAC e garanti um lugarzinho para aguardar o inicio das atividades.

Era o segundo e último dia da Etapa Extrema e 13 artistas da MPB de 22 estados brasileiros apresentaram suas músicas autorais, foi um deleite para quem é amante desse estilo e é sedenta por novos talentos. Músicos talentosíssimos e o público muito culto deixaram a noite de lua cheia ainda mais agradável, apesar do frio, típico do Sul de Minas.

Platéia em Extrema

Platéia em Extrema

Às 23 horas Alceu Valença, sem demora entra já cantando com sua voz inconfundível, levantando a galera. Com muito menos cabelo e num corpo esbelto cantou duas canções sem falar com o público, parou e sem se mostrar cansado ou ofegante, cumprimenta todo o público dizendo: “Eu apoio os festivais como esse porque a música brasileira está ‘americanalhada’ e aqui é o lugar para a MPB se fortalecer”.

Divertido, irreverente e muito simpático, mesclou seus clássicos cantados em coro pelos seus fãs com histórias divertidas e engraçadas que viveu. Aos 69 anos, sua forma física é invejável, dança, pula, fala e sua voz continua perfeita ecoando dentro dos corações. No repertório “Sabiá”, “Táxi lunar” (com uma viagem a lua narrada pelo próprio cantor), “Anunciação” “Girassol” “La Belle De Jour” “Como Dois Animais” entre outras, a apresentação reuniu frevo, maracatu, ciranda e outros estilos que só Alceu consegue.

Alceu Valença e banda

Alceu Valença e banda

Performático e cheio de personagens, Alceu elogiou o público e a cidade pela iniciativa cultural, dizendo que o Brasil está tão pobre neste quesito. Ao encerrar o show com a música “Anunciação”, todos estavam de pé, dançando, cantando, Alceu deu tchau, entrou atrás da coxia e no microfone disse tentando disfarçar a voz: “Vocês gostaram do show? Vocês querem mais Alceu? Então gritem: ei, ei, ei, Alceu é nosso Rei! E assim voltou ao palco e disse: “Todos artistas fazem isso, enganam vocês, fazem charme para ser aclamado e voltar, eu sou o único que conto [risos], vocês querem mais música? Qual vocês querem?”E o público em polvorosa “Morena Tropicana” e assim, Alceu sorrindo, dançando e encantando encerrou seu show com um trocadilho: “Vocês são EXTREMAmente bons”.


Cibele Dias Melo Marchesin é Bióloga, Professora, Coordenadora de Ensino, além de ser fã incondicional de MPB e uma eterna amante da banda Bon Jovi, de quem tem todos os discos.