Fila Benário Fala, Lançamentos e Novidades, Resenhas

Green Day e Blink 182 lançaram novos discos, qual é o melhor?

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2016 nem acabou, mas tem sido um ano maravilhoso para o Punk Rock/Hardcore, diga-se de passagem. Só no primeiro semestre tivemos os lançamentos de Bob Mould (Patch The Sky), Face To Face (Protection) e The Bouncing Souls (Simplicity). E na entrada do segundo semestre fomos muito bem recebidos com os novos do Descendents (Hypercaffium Spazzinate), The Interrupters (Say It Out Loud) e Against Me! (Shape Shift With Me), sem contar que o NOFX também prepara um lançamento para o mês seguinte. Isso porque eu não mencionei os lançamentos nacionais como os novos do Dance Of Days (Amor-Fati), Hateen (Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui), Zander (Flamboyant), além da estreia do Please Come July (Life’s Puzzle), projeto contando com grandes nomes da cena underground brasileira.

No entanto, os dois discos mais aguardados do gênero eram, com certeza, os novos discos dos californianos do Green Day e do Blink 182. O do trio capitaneado por Mark Hoppus era esperado com ansiedade, pois se tratava do primeiro disco do conjunto sem o guitarrista e vocalista Tom DeLonge (leia a matéria sobre a saída dele aqui), marcando a estreia do Matt Skiba, do Alkaline Trio, no lugar. Já o do Green Day, tinha uma grande espera pelo fato de ser primeiro disco após a internação de Billie Joe Armstrong na clínica de reabilitação, que cancelou toda a turnê de divulgação dos três últimos – e anêmicos – discos do grupo, a trilogia Uno! Dos! e Tré! (2012) A Campanha de marketing em cima de Revolution Radio, além dos dois singles lançados, Bang Bang e a própria faixa título, fazia do disco a tão sonhada, pelos fãs, volta às origens do grupo.

Eis que California e Revolution Radio enfim foram lançados! E como ambos discos se saíram?

California – Blink-182
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Podemos afirmar, sem medo algum, que California é uma continuação de Take Off Your Pants and Jacket (2001), considerado por muitos o último grande disco do Blink-182. O que se ouve no novo álbum é uma colcha de retalhos que costura as melhores nuances sonoras do grupo, de um lado o Hardcore veloz, graças a técnica apuradíssima do baterista Travis Barker, já explicito na curtíssima faixa de abertura Cynical, continuando em The Only Thing That Matters, que relembra em partes a canção Roller Coaster do já citado Take Off Your Pants…, e encerrando o álbum com Brohemian Rhapsody. Do outro lado, temos aquele Poppy Punk, claramente influenciado em Descendents, que sempre permeou na carreira do trio e gerou os seus maiores hits, e em California não seria diferente, o single Bored to Death, seguidos de She’s Out Her Mind, No Future, Kings Of The Weekend e Rabbit Hole, são as provas concretas. E por fim, aquela sonoridade madura que pipocou em no supracitado TOYPAJ e que foi “cama, mesa e banho” do autointitulado de 2003, surge no novo disco, mas dessa vez como um ingrediente que vem a somar e dar consistência ao produto final. Faixas como Los Angeles, Sober, Left Alone e San Diego, usam e abusam de elementos eletrônicos, mas carregam uma beleza e autenticidade.
A estreia de Matt Skiba foi certeira no disco, como guitarrista ele manteve os já conhecidos timbres que soam agradáveis aos ouvidos dos fãs da banda. E na parte vocal, em alguns momentos a sua voz relembra os bons momentos de Tom DeLonge, como em Cynical e Bored to Death. Mas em She’s Out Her Mind e principalmente em No Future ele imprime a sua própria identidade musical, mostrando que tem muita lenha a queimar com o grupo, para nossa alegria.

Revolution Radio – Green Day
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A Rolling Stone gringa estampou o Green Day na capa dizendo que a banda havia voltado ao Punk Rock. A página oficial da banda, no Facebook, postou a imagem da capa do disco, um rádio explodindo, o que fomentava ainda mais a ideia que estaríamos diante do álbum mais pesado do grupo desde Insomniac (1995), e os dois singles lançados do disco, Bang Bang e Revolution Radio não tinha mais nada a provar: O bom e velho Green Day estava de volta.
Só que aí o Revolution Radio saiu, e após uma audição cuidadosa a conclusão que chegamos é que temos o mesmo Green Day megalomaníaco e grandioso (no mal sentido) desde American Idiot. O grupo continua preso na formula musical criada por si, desde o lançamento supracitado, e não consegue mais se libertar das próprias amarras.
Aquele Green Day que emulava Ramones, Hüsker Dü, The Replacements, hoje mergulhou de cabeça no Rock de Arena inglês de The Who, Beatles e Queen, e tenta a todo custo parir a sua obra-prima. As referências citadas são imunes de reprovação, mas dentro do contexto sonoro proposto pelo Green Day, desde o início da carreira, elas soam plastificadas, forçadas e com ares de “precisamos conquistar todos os públicos, custe o que custar”.
Revolution Radio já abre desanimado com a pseudo-balada Somwhere Now, iniciada no violão e com uma explosão no meio que entrega um bom rock, mas nada além disso. Outros momentos deprimentes do disco é Still Breathing, que muito assemelha as Pop Ballads de Katy Perry e Demi Lovato, o Pop Rock inofensivo reaparece na faixa seguinte Youngblood, com direito à corinhos “ôô-ôô” na introdução. Say Goodbye relembra em algumas passagens o hit Holiday, de American Idiot, no entanto, mais devagar e mais pop. E por fim a baladinha Outlaws é digna de piedade.
A formula, já gasta, do grupo de criar epopeias musicais longas e com alternâncias de ritmos, surge aqui em Revolution Radio, com o nome de Forever Now. Ela até começa com um certo entusiasmo e relembrando Green Day circa Nirmod (1997), mas os demais andamentos nada convencionais, adquiridos ao longo dos seis minutos da mesma, o transforma em mais uma canção decepcionante em um disco fortemente mediano.

A imprensa e a indústria musical que sempre deliciou em criar rivalidades entre bandas para fomentar o crescimento e consumo da mesma, seja nos anos 60 com Beatles e Rolling Stones, ou nos anos 90 com Oasis e Blur, no início dos anos 2000 inventou a disputa entre Blink 182 e Green Day aproveitando o momento distinto de ambas, no caso a ascensão do trio de Mark, Tom e Travis com a explosão do disco Enema Of The State (1999), e o limbo que se encontrava o Green Day após a frustrante tentativa de amadurecimento com o diversificado Warning (2000). Na época o Green Day, que tinha muito mais tempo de estrada do que os seus conterrâneos, acabou se tornando a banda de abertura das turnês do Blink 182, o que deu mais margem ainda para uma possível rivalidade, na qual nunca existiu.

Green Day e Blink 182 na turnê conjunta que fizeram em 2002
Green Day e Blink 182 na turnê conjunta que fizeram em 2002

Mas no ano de 2016, diante desses dois lançamentos, no qual ambas bandas se encontram no mesmo patamar dentro da sua trajetória, o Blink 182 levou a melhor!

Até a próxima, Billie Joe!

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Especial, Fila Benário Fala

7 anos de Fila Benário Music

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No ano de 2009, um jovem e frustrado estudante de logística decide colocar um ponto final na sua infelicidade profissional, amorosa, e qualquer outra que o valha, criando um blog musical como passatempo.

Longe de pretensões empresariais e status, o humilde espaço, hospedado em uma plataforma gratuita, seria apenas um refúgio daquele jovem azarado que buscava ali um recanto de paz para escrever sobre as suas bandas, discos e canções favoritas.

Sem regras, sem qualquer compromisso e muito menos sem linha editorial a seguir, o diário musical era pra escrever apenas o que desse na telha, sem revisão ortográfica, sem filtro, sem nada. Se ele iria longe? Provavelmente não, afinal de contas, nada na vida desse garoto durou muito tempo.

Corta! Ano de 2016, sete anos do blog Fila Benário Music, se eu pudesse voltar no tempo e dizer para aquele garoto desanimado que a vida dele mudaria de ponta cabeça por causa desse simples blog, será que ele acreditaria?

Em sete anos foram 246 posts, 297 comentários e mais 20 mil acessos, números pequenos comparados a grandes portais e blogs com viés mainstream. Mas grandes levando em consideração todo o “establishment” independente no qual o blog vive, sem patrocínio, sem lei rouanet, apenas com divulgação no boca a boca.

Esse singelo espaço que coleciona amigos, alguns desafetos e inúmeros leitores fieis tem muitas histórias pra contar, e fazendo jus aos sete anos que comemoramos nesse dia 4 de agosto, se eu pudesse listar os 7 momentos mais marcantes do Fila Benário Music, seriam esses:

1 – Professores analisam letras do Dead Fish e a banda aprova

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Com certeza o texto “O Hardcore da educação”, professores analisam as letras do ‘Dead Fish’ foi o mais lido de toda a história do Fila Benário Music, só no primeiro dia ele alcançou o histórico número de 10 mil visualizações. Mas pra quem não sabe, a história por traz do mesmo é curiosíssima.

A ideia inicial era convidar todos os meus professores da faculdade, e mais alguns professores amigos, para interpretar e dar a visão em cima de diversas letras de Hardcore. Além do Dead Fish, bandas como FISTT, Hateen, Dance Of Days, Ratos de Porão, Anzol, Street Bulldogs, Nitrominds e muitas outras teriam as suas letras destrinchadas pelos profissionais da educação. No dia 15 de outubro, dia dos professores, o texto iria ao ar.

Só que pra minha frustração, a data foi se aproximando e nada de ninguém me entregar as análises, teve quem recusou o convite alegando falta de tempo, teve quem ficou empolgado no início, mas depois desistiu ao receber a música e ver que não se tratava de um Legião Urbana ou U2, e teve quem simplesmente sumiu do mapa. Enfim, eis que chegou o dia 15 de outubro e eu recebi apenas cinco análises e curiosamente todas eram de músicas do Dead Fish, sem pretensão acabou virando um texto especial do Dead Fish. Mas o certo por linhas tortas deu certíssimo, as análises foram perfeitas, os professores participantes entenderam o espírito da coisa escreveram relatos emocionantes e contestadores, e pra nossa alegria o texto chegou até a banda, que compartilhou em suas redes sociais e ampliou ainda mais o número de leitores.

Valeu Michele Escoura, Luiz Antônio Farago, Ana Paula Vieira de Oliveira, Ricardo Roca e Patrícia Paixão pela parceria.

2 – Reintegração de Posse em SP

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No ano de 2014, uma reintegração de posse no centro de São Paulo é televisionada ao vivo e divide opiniões da população. Em casa, impedido de ir para faculdade, que estava situada no meio do cenário de guerra, eu acompanhei todos os boletins e reportagens ao vivo. Aquele acontecimento foi me consumindo de tal forma que eu também me senti na obrigação de expor a minha opinião acerca do tema e disso nasceu o texto As músicas que retratam a reintegração de posse ontem em São Paulo.

Um texto tão especial que inspirou um trabalho acadêmico e posteriormente a minha indicação para o prêmio Intercom Sudeste em 2015, na categoria “Artigo de Opinião”.

3 – Entrevista com a Bruna Caram

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A minha primeira entrevista oficial para o FBM foi com a banda Rosa de Saron, mas como eu já conhecia os integrantes e já havia conversado com os mesmos em outras oportunidades, nos tempos que a banda dividia os palcos e a estrada com a minha banda na época, o Nazarenos HC, a entrevista foi um bate-papo bem descontraído e um reencontro. Podemos dizer que a primeira entrevista mesmo, já como estudante de jornalismo, foi essa com a Bruna Caram.

Bruna Caram era uma das atrações da Virada Cultural Paulista em Jundiaí, a minha cidade natal. Como grande admirador do trabalho dela, munido de perguntas e com o meu gravador eu fui lá entrevista-la. Bateu nervoso, medo, insegurança, tudo ao mesmo tempo agora, mas a paciência, o carinho e a compreensão se Bruna deixou tudo leve e tranquilo, como se fosse um bate-papo na cozinha de casa. Em determinado momento da entrevista, ao ser questionada se ela gravaria uma música do cancioneiro brega, Bruna pegou na minha mão e cantou um trechinho de Indiferença da dupla Zezé Di Camargo & Luciano. Em tempos que “astro” pop assedia repórter dizendo que “quebraria a mesma no meio”, Bruna Caram manifestou amor, carinho e respeito o tempo todo.

E ainda compartilhou a entrevista em suas redes sociais.

Ler a entrevista completa aqui

4 – Entrevista com o Dead Fish

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Antes da explosão do texto sobre analise das letras, eu tive a honra e privilégio de entrevistar Rodrigo Lima e Alyand do Dead Fish para FBM, após o show da banda em Jundiaí em Abril de 2015.

Rodrigo que é conhecido pelo seu jeito intransigente e difícil de lidar, quebrou todos esses “pré-conceitos”, nos dando uma aula de história, sociologia e falando abertamente sobre qualquer tema que lhe era questionado.

Ler a entrevista completa aqui

5 – Ultraje a Rigor e Raimundos, o embate do século no FBM

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No ano de 2012 as bandas Raimundos e Ultraje a Rigor lançaram o disco “O Embate do Século”, com uma banda tocando um clássico da outra. O resultado foi sensacional e acabou entrando na lista dos melhores do ano do FBM. Mas quem imaginaria que anos depois eu teria a oportunidade de entrevistar Ultraje e Raimundos? Pois bem, a façanha aconteceu.

O Roger Moreira eu entrevistei no ano de 2014, durante a apresentação do Ultraje na Virada Cultural de Jundiaí. Assim como Rodrigo Lima, Roger também é conhecido pelo seu jeitão intransigente e sem papas na língua, mas a entrevista transcorreu super bem, com um Roger empolgado respondendo as perguntas sobre a sua carreira e influências musicais. E no final ele agradeceu pelo bate-papo e pediu para que lhe enviasse a entrevista completa.
Ele compartilhou em suas redes sociais.

E o Raimundos eu entrevistei no ano seguinte, na passagem da banda pelo Sesc Jundiaí, na turnê em comemoração aos 20 anos de carreira. Canisso, o baixista e um dos fundadores do grupo, esbanjou simpatia e boa vontade durante todo o bate-papo. Dado um momento ele me interrompeu dizendo: “Eu não preciso responder mais nada, esse menino sabe tudo sobre a minha carreira”.
A página oficial do Raimundos no Facebook compartilhou a entrevista.

Ler a entrevista completa com o Raimundos aqui
Ler a entrevista completa com o Ultraje a Rigor aqui

6 – Jornalistas renomados escrevem texto especial

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Em meio à confusão generalizada que se encontrava o cenário político brasileiro no primeiro semestre de 2016, eu entrevistei alguns jornalistas, blogueiros e demais intelectuais perguntando: “Qual a trilha sonora desse momento tão caótico”, o resultado foi grandioso e gerou o texto As trilhas sonoras da guerra política brasileira contando com Adriana Carranca, Vitor Guedes, Patrícia Paixão, Fausto Salvadori Filho, Cinthia Gomes, Juliana Almeida, Ricardo Roca, Luíza Caricati, Patty Farina, Caroline Apple e Matheus Pichonelli.

7 – 50 tons de cinza

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Durante a semana da estreia mundial do filme Cinquenta Tons de Cinza, eu estava inconformado com o fato de um filme, baseado em um livro, no qual a protagonista apanha descaradamente de um homem, ser aclamado e aguardado com tanto fervor em um país que a cada três segundos uma mulher é agredida.

Para minha alegria, a minha parceira de escrita, Beatriz Sanz, também compartilhava do mesmo sentimento. Unimos forças e juntos escrevemos o texto 50 Tons de cinza + o desabafo de uma feminista. Eu levando a discussão, como sempre, para o viés musical, e a Beatriz Sanz, feminista ferrenha, chutou o pau da barraca e fez uma reflexão incrível.

Foi o quarto texto mais lido no FBM em 2015.

DEPOIMENTO DAS ETERNAS COLUNISTAS DO FILA BENÁRIO MÚSIC

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Parabéns pra você, nessa data de vida!!! E aí leitores do Fila Benário, todo mundo com saudade? Pois é, nós também. Sabemos que o blog tem ficado meio sozinho, mas é que estamos muito ocupados na vida (nos perdoem). Mas o aniversário do blog não ia passar em branco e eu queria dizer como esse blog e seu criador mudaram minha vida. Nunca fui capaz de manter meu próprio blog, então pedi uma coluna aqui. Foi quando eu comecei a escrever de verdade e a ter comprometimento. Passei a ouvir músicas diferentes e pensar em pautas de cultura. Viajei para o interior por conta de uma entrevista. Obrigada, FBM! Queremos pedir aos fiéis leitores que vocês continuem nos acompanhando. Há qualquer momento, quando vocês menos esperarem a gente dá as caras por aqui!

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Beatriz Sanz é jornalista na Revista Fórum e colunista na Huffpost Brasil

 

 

O que eu carrego do Fila Benário?

Não contribuo para o Fila Benário há algum tempo. Talvez por falta de tempo ou por excesso de trabalho, fui gradualmente parando de escrever sobre música. Vou menos a shows e só ouço meus álbuns preferidos enquanto realizo outras tarefas. Isso é triste, sabe?

Ainda me lembro vividamente de estar frente a frente com Johnny Marr, carregando apenas um bloquinho de anotações e toda a uma carga de admiração. Quando sentei para digitar sobre o festival, despejei sobre os teclados a gratidão de ter vivido aquele dia. Eu, estudante de jornalismo recém-saída do ensino médio, ostentava orgulhosamente uma credencial de imprensa com o nome do primeiro veículo que me deu voz. Curiosamente, esse foi o meu último texto enviado.

Resenhar o que a gente gosta tem um gostinho diferente. Livre de burocracia, deixamos que as palavras ganhem forma, textura, cheiro e movimento. Somos coagidos ao prazer da escrita pela escrita. Simples assim.

Sinto falta desse descompromisso compromissado. Pelo menos posso dizer que não carrego o Fila Benário apenas no meu portfólio. Cada estrofe que eu redigi construiu um pedaço da minha formação.

Larissa

 

Larissa Darc é jornalista na revista Nova Escola

Fila Benário Fala

10 bandas nacionais que você PRECISA conhecer!

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E tirando as teias e a poeira desse fétido espaço, que hoje nessa data tão importante, comemorada apenas no Brasil (chupa essa, resto do mundo), o Dia do Rock, que eu faço uma singela listinha de 10 bandas que você NECESSITA conhecer. Claro que você não ouviu nenhuma música delas em trilhas de novelas ou em comerciais de cerveja, até porque, meu amigo, se você está procurando boa música no mainstream, você está procurando no lugar errado.
A cena independente tem vivido um dos seus momentos mais prolíferos e com bandas fantásticas e autênticas, portanto separei aqui as 10 que mais me chamaram atenção nos últimos cinco anos. Vale e muito a pena conhecer o trabalho de cada uma.

1 – ILLBRED
1 - Illbred
Talvez o mais veterano dessa lista, o Illbred tem 20 anos de estrada. Formado em Paranaguá (PR), hoje o quarteto composto por Fábio Magronne (Vocal e Guitarra), Dom Murylo (Guitarra), Edsan Rozano (Baixo) e Rodrigo Saif (Bateria) não se prende apenas nas amarras do Hardcore Melódico, mas ousa por outros caminhos do Rock, como o Grunge, o Heavy Metal e claras influências dos anos 80. O seu mais recente trabalho, o disco Livre! (2015), já rendeu três videoclipes, como: A Estrada, Depois do 30 e Viver Longe Daqui.

2 – SALLYS HOME
2 - Sallys Home
Formada em Jundiaí (SP), a Sallys Home passaria facilmente por uma banda californiana. O Seu som veloz e ensolarado remete a bandas marcantes do gênero, como o Descendents, NOFX e Blink 182 (fase Dude Ranch). Contando com Ricardo Drvz (Vocal e Guitarra), Danilo Braga (Guitarra e Backing Vocals), Fábio Castel (Baixo e Backing Vocals) e Evandro Salmeirão (Bateria). O grupo tem dois EPs: Waiting For Destruction (2008) e Summer (S)hit (2011) e no ano passado lançou o seu primeiro álbum completo, Melody Station. E hoje, no Dia do Rock, a banda lança o clipe da música Don’t Follow Them, curta aí em primeira mão.

3 – CHCL
3 - CHCL
Se Mark Arm e Dan Peters do Mudhoney se juntassem com Darby Crash e Pat Smear do The Germs, o resultado seria essa fabulosa banda. O CHCL (abreviação de Chacal) faz um Punk Rock direto, sem frescura, firulas, com vocal rasgado e letras que retratam os problemas do cotidiano. Nascida em Caçapava (SP), a banda é formada por Gustavo Magalhães (Vocal e Guitarra), Diego Xavier (Guitarra e Vocal), Diego Esteves (Baixo e Vocal) e Eder Penha (Bateria). Em 2015 a banda lançou o primeiro full, o pesadíssimo Espora, mas não deixe de conferir o primeiro registro do grupo em estúdio, o EP Inacabado (2013), na época que o mesmo era um Power Trio.

4 – DISORDIA
4 - Disordia
Se a sua linha sonora é o Real Emo dos anos 90 que mesclava melodia, velocidade, berros e guitarras distorcidas, sem o bundamolismo que assolou o gênero na metade dos anos 2000, a sua banda de cabeceira será o Disordia. Também de Jundiaí (SP) e com dez anos de atividade, o quarteto formado por Renan Sales (Vocal e Guitarra), Fernando Oska (Guitarra), Matheus Caccere (Baixo) e Matheus Risso (Batera) traz aquele som agridoce de Samiam, Hot Water Music, Jawbreaker e Lifetime. Resolução, o mais recente trabalho do grupo, foi lançado no início de 2016, via Oba! Records, e conta com a participação especial de Chinho, da banda Chuva Negra, nos vocais de Homem Bomba.

5 – THE GUANTANAMEROS
5 - The Guantanameros
Esqueça tudo que você já ouviu em matéria de Rock, porque o The Guantanameros vai explodir a sua cabeça e te colocar pra bailar. Formado por Nacho Martin (Vocal, Ukulele, Banjo e Bandolim) – um autêntico Guantanamero argentino – a banda ainda conta com Felipe Seda (Guitarra), Luiz Reche (Baixo), Diogo Rampaso (Trompete, Escaleta e Charango), Kaoei Couto (Percussão) e Lucas Blinhas (Bateria e Cajón). O grupo, que completou recentemente um ano de atividade, tem uma sonoridade única e plural, passeando pelo Ska, Hardcore, Reggae, Country, Hip-Hop e música latina, além de cantar em inglês, português e espanhol. No início de 2016 o grupo lançou o seu primeiro EP, Parte #01 e no dia 17 próximo vem a Parte #02. Mas enquanto esse dia não chega, ouça o mais recente single do grupo Don’t Cut The Mullets.

6 – METAMORFFOSE
6 - Metamorffose
Já falamos dessa banda aqui, mas tudo que é bom vale ser relembrado. Também de Jundiaí (SP), o grupo faz aquela linha musical oitentista, resgatando aquele frescor nacional de Biquini Cavadão, Barão Vermelho, Titãs e Capital Inicial. Contando com Nick Moraes (Vocal), Renato Torelli (Guitarra), Guilherme Bianchini (Guitarra), Lê (Baixo) e Fernando Arouche (Bateria), a banda tem um álbum, Pretérito Imperfeito (2014), produzido pelo próprio baterista e lançado de forma independente, e no ano passado integrou a coletânea New Acts produzida pelo Rick Bonadio, com as canções Eu Sou o Vento e Punhos Atados.

7 – PLEASE COME JULY
7 - Please Come July
Se por um lado é a banda mais bebê da nossa lista, sendo formada esse ano, por outro lado, se somar as experiências de cada um dos integrantes dá mais de 30 anos de atividade. O Please Come July vem diretamente da cidade maravilhosa com line up de causar inveja, com Marcus Menezes (Sorry Figure) na Guitarra e Voz, João Veloso Jr. (White Frogs) no Baixo e Voz, além do baterista Felipe Fiorini (Plastic Fire). O som do grupo é um passeio pelo Rock Alternativo dos anos 90, mas um nome, em especial, é a principal influência e norte do grupo: Bob Mould.
Com letras em inglês, o grupo prepara o lançamento do seu primeiro EP, Life’s Puzzle, que verá a luz do sol no final de julho. Enquanto esse dia não chega, bora curtir o primeiro single do disco: A Lot Of Things.

8 – GASOLINE SPECIAL
8 - Gasoline Special
Lemmy Kilmister se foi sem ouvir essa pedrada cavalar sonora. Também de Jundiaí (será que temos uma nova Seattle brasileira?) o grupo, que hoje se consiste em um power trio formado por André Bode (Vocal e Guitarra), Rodrigo Faria (Baixo e Backing Vocal) e Junior Scalav (Bateria e Backing Vocal), faz um rock visceral e sujo, com claras influencias de Motorhead, com algumas passagens de Jimi Hendrix e um encontro perdido com o Nirvana na fase Bleach. As letras, todas em português, são o grande trunfo do grupo, vão desde críticas ao novo rock consumido pela massa, como em 2000 e Foda-se, até temas mais sacanas e picantes, como Tesão Fudido em Você.

9 – SKY DOWN
9 - Sky Down
Fazia tempo que a cena independente não apresentava algo tão forte, libertador, consistente e barulhento como o Sky Down. Bebendo da fonte da mesma fonte do CHCL, o grupo paulista formado por Caio Felipe (Vocal e Guitarra), Amanda Buttler (Baixo) e André Arvore (Bateria) é um misto de The Germs (sua principal influência), com Nirvana (fase In Utero) e Pixies (a fase que você quiser), tudo isso dentro de um Punk Rock barulhento, cantado em inglês, com microfonias e camadas de guitarras que sobressaem a voz. Nowhere (2013), o seu primeiro, e mais recente trabalho, traz o melhor dessa melancolia e insanidade. Vale e muito a pena conferir.

10 – MAD SNEAKS
10 - Mad Sneaks
E por fim, se a sua praia é um grunge bem pesado e denso como o do Alice In Chains e Soundgarden, o seu lugar é aqui. A banda mineira Mad Sneaks apresenta o melhor do som de Seattle e com um grande diferencial (e trunfo): tudo cantando em português!
Composto por Agno Dissan (Vocal e Guitarra), Adriano Lima (Baixo) e Amaury Dias (Bateria), o trio teve o seu primeiro trabalho, o álbum Incógnita (2013), masterizado por ninguém mais, ninguém menos que Jack Endino, o lendário produtor de Bleach, o primeiro disco do Nirvana.

Fila Benário Fala

A votação do Impeachment em 10 canções

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Após seis horas de votação, na Câmara dos Deputados em Brasília, o processo de Impeachment contra a presidente Dilma Rousseff foi aprovado com 367 votos e encaminhado para o Senado Federal, que tem um prazo de 20 dias para decidir a governabilidade do país.

Não vou me estender em afirmar o quanto esse processo de cassação é um imenso golpe partidário, levando em consideração que quem preside o mesmo é o Sr. Eduardo Cunha, mais citado nas delações da Lava Jato do que frase de Clarice Lispector em Facebook. E nem vou também gastar frases e chistes defendendo um governo que meteu o pé pelas mãos em seu recente mandato ao contar com o apoio de movimentos sociais populares e diversas minorias, mas que preferiu se aliar com o partido mais corrupto da história, o PMDB, que apunhalaria mais tarde.

Mas assistir as seis horas de votação do Impeachment foi um imenso exercício de paciência e estomago forte, afinal de contas, muitos do que estavam ali votando pela cassação do mandato da presidente Dilma, estão envolvidos na Lava Jato, principalmente quem presidia a sessão, o Sr. Eduardo Cunha.

E foi assistindo todo aquele espetáculo circense bancado por nós brasileiros, que veio à cabeça algumas canções que muito tem a ver com aquela pataquada formada.
Portanto atente-se abaixo, aumente o volume e reflita:

1 – Se Gritar Pega Ladrão (Bezerra da Silva e Originais do Samba)

Eduardo Cunha (PMDB), investigado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, contas na suíça, recebimento de propinas de empreiteiras.
Rogério Rosso (PSD), indiciado por corrupção eleitoral.
Shéridan (PSDB), titulação irregular de terras públicas em benefício próprio.
Marcos Rotta (PMDB), improbabilidade administrativa com danos aos cofres públicos.
Pauderney Avelino (DEM), condenado a devolver 4,6 milhões ao governo do Amazonas por superfaturamento de contratos.
É esse povo que quer tirar a Dilma do poder e acabar com a corrupção no país, ou manter Dilma no poder significa que a Lava Jato continuará e muitos ali que serão caçados?
Como já cantava o malandro Bezerra da Silva em parceria com Os Originais do Samba: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

2 – Corvos do Paraíso (Dance Of Days)

“Pela minha família, pelos meus filhos, pela minha esposa”, “Pelos plantadores de comida, assim não teríamos o que comer”, “Pela minha tia que me criou”, “Pela república de Curitiba”.
Foi um festival de palavras vazias sem conteúdo jogadas ao vento. A hipocrisia reinava naquele ambiente. O segundo mandamento da lei de Deus, que é “Não citar o seu santo Nome em vão”, foi rasgado assim como a constituição brasileira, naquela noite, afinal, uma quantidade sem fim de deputados falando em nome de Deus apoiavam o golpe e varriam para debaixo do tapete a sua corrupção.
Lançada em 2001 no primeiro de canções em português, o seminal A História Não Tem Fim, Corvos do Paraíso do Dance Of Days é um retrato fiel desse momento, das “Palavras malditas e desgraçadas jogadas contra o vento”.

3 – Bonzo Goes to Bitburg (Ramones)

Em 1885, o presidente americano Ronald Reagan visitou, na Alemanha, o túmulo e prestou condolências à “heróis” nazistas da segunda guerra mundial. Tal repugnante ação fez Joey e Dee Dee Ramone compor o grande sucesso dos Ramones, a introspectiva Bonzo Goes to Bitburg, lançada no disco Animal Boy (1986).
Ontem a cena se repetiu no congresso brasileiro, o deputado Jair Bolsonaro (dispensa maiores apresentações) ao declarar o seu voto a favor do Impeachment dedicou o mesmo ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da ditadura militar. Duvida disso? Veja aqui.

4 – Eu Protesto (Charlie Brown Jr.)

Em um texto passado publicado aqui, a jornalista Juliana Almeida, do Desarmando a Censura, citou essa canção como a trilha sonora do momento atual da política brasileira. Não queria soar repetitivo, mas essa canção tem tudo a ver com a votação de ontem. Quem não sentiu vergonha alheia por aqueles deputados vomitando aquele monte de baboseiras? Me senti envergonhado com o voto de Bolsonaro saudando um torturador, me senti envergonhado quando alguém protestava contra Eduardo Cunha no microfone e assembleia toda vaiava, mas como diz a letra da canção de Chorão: “Foi você quem colocou eles lá, mas eles não estão fazendo nada por você”.
A música lançada no álbum 100% Charlie Brown Jr. Abalando a Sua Fábrica, em 2001, parecia ser profética, já que o refrão da mesma é: “Dormem sossegado os caras do senado. Dormem sossegado os que fizeram esse estrago”, afinal de contas o processo foi encaminhado para o Senado Federal para a aprovação, e lá Aécio Neves, também citado na Lava Jato, José Serra, envolvido no cartel do Metrô paulistano e Renan Calheiros serão os que decidirão o futuro. Portanto, eles dormem tranquilamente.

5 – Ideologia (Cazuza)

Um deputado que diz que as mulheres merecem ganhar menos porque ficam gravidas, que diz que filho homossexual merece apanhar e que jamais entraria em um avião pilotado por um cotista, vota a favor do Impeachment citando um torturador. Um deputado que possuí contas na suíça, que cobrava propina de empreiteiras e que é réu da operação Lava Jato, preside e articula a comissão do impeachment. Na canção analisada anteriormente vimos a lucidez de Chorão ao falar do congresso nacional e toda a sua presepada.
Chorão em 2013 se despediu de nós, perdendo a batalha contra as drogas e sucumbindo a uma overdose de cocaína. Portanto a canção de Cazuza, lançada em 1988, com a emblemática frase: “Meus heróis morreram de overdose, os meus inimigos estão no poder”, nunca fez tanto sentido.

6 – O Tempo Não Para (Cazuza)

Uma imagem do congresso lotado e em cima a frase “A tua piscina tá cheia de ratos” circulou com velocidade, pelos contrários ao golpe à democracia. O trecho retirado da canção O Tempo Não Para, também de autoria de Cazuza, faz muito sentido com o circo armado ontem em Brasília. Mas se fosse pra escolher outro trecho da mesma canção para ilustrar melhor ainda esse momento, ele seria: “Eu vejo o futuro repetir o passado”, afinal de contas, o que aconteceu ali ontem foi o mesmo que aconteceu em 1964, homens falando em nome de Deus e da família, uma presidente eleita democraticamente e sem crimes sendo caçada por parlamentares corruptos. É o passado voltando à tona.

7 – Roda Viva (Chico Buarque)

Quando Chico Buarque compôs essa belíssima canção em 1967, o Brasil já estava na ditadura militar, o AI-5 já estava entre nós privando a liberdade do povo brasileiro. E a roseira que Chico Buarque tanto canta na música é a nossa democracia, é o direito de escolher, e ontem privaram o nosso direito. A vitória que foi decretada democraticamente nas urnas em 2014, foi despedaçada ontem em uma manobra arquitetada por Cunha, por vingança e para se safar.

Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
.

8 – Perfeição (Legião Urbana)

E de repente fogos de artifícios! Ué, mas pra quem? É ano novo? Quem marcou gol? Ah, é pelo Impeachment que foi aprovado na câmara dos deputados e encaminhado para o senado. E assim como bons brasileiros: “Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado”.
A frase que eu mais ouvi nesses dias que antecederam as votações foram: “Primeiro sai a Dilma, depois tiramos Temer e Cunha”, e para quem proferiu esse absurdo eu canto: “Vamos celebrar a estupidez humana”. Cunha e Temer estão envolvidos na operação Lava Jato, citados na planilha da Odebrecht no recebimento de propinas, com ambos no poder no lugar de Dilma, qual a chance dos próprios moverem um processo pedindo a cassação deles próprios? NENHUMA! Com a saída de Dilma da base governista, Temer e Cunha assumem a presidência, a Lava Jato será barrada e quem é corrupto de verdade estará no poder.

9 – Unicamente (Deborah Blando)

Mas hoje, dia 18 de abril, o dia amanheceu diferente, o ar estava fresco, os pássaros cantaram, e a corrupção, aquela instituída no país no dia 1 de janeiro de 2003, felizmente acabou graças a votação de ontem.
Agora o dólar vai à 1 Real, a gasolina vai custar 50 centavos o litro, os corredores dos hospitais estarão vazios, as multinacionais irão nos ligar de hora em hora oferecendo emprego com salários astronômicos no qual eu serei obrigado a utilizar como critério de desempate quem oferece o melhor plano de saúde.
Como cantava a platinada Deborah Blando: “Raiou o Sol”.
Obrigado, Eduardo Cunha.

10 – Apesar de Você (Chico Buarque)

Na verdade, nebuloso está o nosso país. Para onde iremos? O que será agora da nossa nação? Vamos prosperar ou iremos afundar em um abismo muito pior do que estamos? O segundo mandato de Dilma foi uma sucessão de erros, a economia estagnou, a inflação só aumentou, o desemprego vem ceifando famílias e desespero bate à porta diariamente, mas tirá-la do poder e colocar no lugar políticos que colaboraram com essa situação alarmante que se contra o país é uma saída? Que tal uma reforma política? Ontem em seis horas de votação conhecemos os líderes do povo, os candidatos que também votamos em 2014, mas que fizemos questão de esquecer depois. Eles realmente representam os meus anseios e necessidades? Aliás, tem necessidade de sustentarmos aquela quantidade absurda de parlamentares?
As perguntas são muitas e as respostas ineficientes, mas só sei que “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Especial, FBM Convida, Fila Benário Fala

As trilhas sonoras da guerra política brasileira

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Atualmente a política brasileira está de causar inveja a qualquer roteirista da série House of Cards. O governo Dilma Rousseff, que foi eleito democraticamente em 2014 e assumiu o seu segundo mandato em 2015, não fez outra coisa a não ser tentar se manter no poder , driblando toda e qualquer denúncia de corrupção. Com isso, a economia brasileira despenca, a inflação sobe e o desemprego cresce de maneira absurda. E quando se achava que dessa cartola não poderia sair mais nenhum coelho, o ex-presidente Lula foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, sendo que foi citado na operação Lava Jato.

Do outro lado, existe uma oposição que não aceitou o resultado das urnas e tenta de todas as formas derrubar a presidente do poder, mas coloca para baixo do tapete todos os seus escândalos de corrupção, envolvendo, inclusive o ex-candidato à Presidência em 2014, Aécio Neves, que teve o seu nome diversas vezes citado na operação Lava Jato, mas que acabou de ter seu processo arquivado.

Ao redor, temos uma mídia totalmente parcial, que mais confunde do que informa, colaborando abertamente para esse grande Fla x Flu político na sociedade brasileira, que não aceita mais opiniões adversas e já partem pra porrada.

Respeitando o espaço primário desse blog, que é falar exclusivamente de música, o Fila Benário Music convidou jornalistas, professores, psicólogos, blogueiros e outros intelectuais para tentar explicar esse cenário de guerra que vivemos na política brasileira, mas sendo o ponto de partida da análise uma música de escolha dos mesmos. O resultado, que ficou impressionante, você confere abaixo.


Vale Tudo (Tim Maia) – por Adriana Carranca

Vale Tudo, de Tim Maia, exprime bem o momento atual. Estamos vendo um vale tudo em Brasília e, ao mesmo tempo, a ascensão da direita homofóbica, xenófoba, racista. A lembrança da música veio com um post do cronista Antônio Prata: ‘Só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher”. Achei genial.

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Adriana Carranca é colunista no jornal O Globo e autora dos livros: Malala, a menina que queria ir para a escola, O Afeganistão Depois do Talibã e O Irã Sob o Chador.

 


Tá Todo Mundo Louco (Silvio Brito) – por Vitor Guedes

Vivemos um momento de insanidade, pessoas querendo justificar o injustificável. De um lado, ignoram os sinais claríssimos de roubo e pilantragem, do outro, ignoram roubo de merenda, helicóptero e qualquer outra ladroagem. É um fanatismo cego.
Já não bastava não poder andar de verde em Itaquera e de preto e branco na Barra Funda, agora não se pode mais usar vermelho ou verde amarelo, virou briga de torcida. É o fim do mundo.
São discursos em nome da legalidade e da democracia, mas com atitudes patéticas contrárias a tudo que pregam.
Vivemos nas trevas, e a treva é o palco perfeito para eleger algo pior do que um “coxinha” ou “petralha” picareta qualquer.
O fundo do poço ainda não chegou.

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Vitor Guedes assina, diariamente, a coluna Caneladas do Vitão no jornal Agora São Paulo, participa semanalmente do programa Seleção Sportv, é professor universitário na UNG e autor do livro Paixão Corinthiana.

 


Roda Viva (Chico Buarque) – por Patrícia Paixão

Nesse momento em que a democracia conquistada arduamente neste país, à custa de muita luta, tortura e sangue, é ameaçada por um golpe arquitetado (de novo!) pelas forças conservadoras, com o apoio de uma justiça e uma mídia que se dizem independentes, mas são partidárias desde criancinha, me lembro, com um forte aperto no peito, da canção “Roda Viva”, de Chico Buarque (#chicólatrasempre).

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”

Incrível como nosso povo esquece fácil das coisas e como a juventude atual ignora os livros de história. O direito a termos “voz ativa”, de votarmos em quem quisermos e definirmos o nosso destino ainda é tão recente na nossa República e já tem gente querendo desrespeitá-lo.

Crianças birrentas, que não se conformam de terem perdido nas urnas. Ignoram as regras do jogo democrático. Não defendo o indefensável PT, mas sim o meu voto em Dilma no segundo turno das eleições de 2014, para evitar um mal que considero maior: o PSDB, um partido que, além de ser especialista nos esquemas de corrupção, prega, por meio de muitos dos seus quadros, o ódio às classes menos favorecidas, às minorias e à classe trabalhadora.

Não sou palhaça de ter ido às urnas para agora essa “roda-viva de birrentos” passar por cima do meu poder de decisão.

Vou continuar lutando em defesa da democracia, que garante, inclusive, o direito dessa roda-viva (formada por uma parcela significativa de pessoas que não podem mais ir a Miami. Que dó…) estar nas ruas. A democracia é “a mais linda roseira que há”.

“Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá”.

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Patrícia Paixão é jornalista, professora universitária nas faculdades: Rio Branco, Anhembi Morumbi e Mackenzie e editora do blog Formando Focas.

 


Coração Tranquilo (Walter Franco) – por Fausto Salvadori Filho

Porque numa hora tão conturbada, em que é tão fácil se deixar levar pelo ódio, pelos alinhamentos automáticos e pela violência, é a hora de respirar e lembrar de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

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Fausto Salvadori Filho é repórter da Ponte Jornalismo.

 


Get Up, Stand Up (Bob Marley and The Wailers) – por Cinthia Gomes

O reggae pra mim sempre foi uma música de resistência, e essa letra em especial me remete à  compreender as coisas com clareza, desvendar o que atrapalha a nossa consciência, não ser iludido e não desistir, jamais. A luta continua!

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Cinthia Gomes é repórter da Rádio CBN e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de SP

 


Eu Protesto (Charlie Brown Jr.) – por Juliana Almeida

“Aquela creche que deixaram de ajudar tá por um fio
E a ganância está matando a geração 2000
E a sua tolerância está maior do que nunca agora”

O momento é caótico. A nossa política parece briga de criança, “o doce é meu e eu não divido com ninguém”. A briga pelo poder, está passando do limite. As manifestações exigindo intervenção militar, ou que a presidenta saia do poder. As investigações onde até o sistema judiciário está envolvido, telefones grampeados, conversas distorcidas, mídia manipuladora convencendo o telespectador que o golpe é viável.

“Foi você quem colocou eles lá, mas
Eles não estão fazendo nada por vocês
Enquanto o povo vai vivendo de migalhas
Eles inventam outro imposto pra vocês”

Parece surreal, mas ainda vivemos uma democracia, onde, por mais que pareça uma maioria, segundo a PM e a grande mídia, afinal 2 milhões parecem aos olhos deles representarem um sentimento coletivo. Ainda existe uma democracia, que colocou a presidenta lá. Que você votou, não tão conscientemente em deputados, senadores tão corruptos quanto o partido que acusa. Por que a elite menospreza os outros protestos? Aliás, por que agora protesto não é mais coisa “de vagabundo, que não tem o que fazer em casa”?

Eu Protesto do Charlie Brown Jr, traz sem rodeios, um sentimento gigante “sua tolerância está maior do que nunca agora”. Delação premiada, um juiz achando que é Deus, um conselho de ética que esqueceu seus deveres. As periferias mais abandonadas do que nunca. A educação sofrendo cortes e mais cortes. Partidos políticos que são intocáveis. Uma parte da população pedindo intervenção militar é nossa tolerância indo às alturas. Não vai ser assim que vamos chegar a uma solução. Não é tirando o direito de um que ganharemos alguma coisa.

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Juliana Almeida é estudante de jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul e editora do blog Desarmando a Censura.

 


O Que Será – Flor da Terra (Chico Buarque) – por Ricardo Roca

As razões, primeiro porque a letra é totalmente pertinente.com a situação atual, segundo porque estamos em um momento de total indefinição e turbulência, sem clareza “sobre o que será” e por fim, porque é Chico Buarque, oras.

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Ricardo Roca é professor universitário na Universidade Cruzeiro do Sul e editor do blog Futebol-Arte.

 


Killing In The Name (Rage Against The Machine) – por Luíza Caricati

Acho que, em termos simbólicos, retrata o ódio e à intolerância que vivemos hoje, às custas da política. Um acaba indo na onda do outro e presenciamos cenas lamentáveis de violência, em todas as suas formas de representação.

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Luíza Caricati é jornalista e escreve no blog Merdando.

 


Meu Caro Amigo (Chico Buarque) – por Patty Farina

Foi a música que ele fez para o Augusto Boal (teatrólogo) quando Boal estava no exílio. Os trechos que mais gosto são os que dizem: Que a coisa aqui tá preta, mas a gente continua amando de pirraça porque sem um carinho ninguém segura esse rojão =]

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Patty Farina é psicóloga no SUS e integrante do Coletivo de Teatro do Oprimido Pagú prá Ver.

 


Eu quero é Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio) – por Caroline Apple

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Se eu pudesse sonorizar o momento político do Brasil seria sem dúvida com Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio. Passamos tanto tempo “dormindo de touca” e “fugindo da briga” e é natural que na hora de colocar o bloco na rua muitas dúvidas, confusões ideológicas e impasses aconteceriam. É o que acontece com tudo que nos predispomos a fazer pela primeira vez. O erro só não vem quando não há a tentativa.
Claro que esse é o lado romântico da coisa, porque a realidade é dura e fere. Resolvemos nos separar em grupo quase que para simplificar a complexidade da heterogeneidade. Facilita dividir em tucanalha x petralhas, coxinhas x comunistas, esquerda x direita. Mas, a verdade é que essa polaridade tira o que temos de mais valioso, a diversidade.
Mas temos coisas em comum. Mais uma vez invoco Sérgio Sampaio, quando ele diz “Há quem diga que eu não sei de nada. Que eu não sou de nada e não peço desculpas”. Essas palavras poderiam ser ditas por qualquer pessoa de qualquer grupo para o seu “adversário” político. Estamos aí, batendo cabeça diariamente, tentando convencer os outros dos nossos pontos de vista em vez de dizer que querendo “todo mundo nesse carnaval”.
Já que os blocos não querem se unir, que pelo menos saibam a hora de se recolher para o próximo bloco passar e os respeite. Isso é democracia. “Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso”, já dizia a canção.

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Caroline Apple é repórter de cidades do Portal R7 e “setorista” na cobertura de protestos. Já passou por jornais como Agora São Paulo, Folha de S.Paulo e Diário de SP.

 


Cálice (Chico Buarque) – por Beatriz Sanz

O que vemos no Brasil é uma ascensão nervosa e generalizada de uma direita que não se importa com mulheres, negras e favelados. Ou seja, eu e meus pares ficamos de fora da festa.
Agora é a hora da luta, é a hora de explicar história pra esse povo e mostrar que não queremos um novo 1964, assim como não queremos um novo holocausto. Já nos basta o genocídio da população negra. Então eu peço ao pai, que nos afaste desse cálice ou ele virá com muito sangue.

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Beatriz Sanz é correspondente do Blog Mural da Folha de São Paulo e editora e colunista do Fila Benário Music.

 


Panis Et Circenses (Os Mutantes) – por Matheus Pichonelli

O debate político atual é uma grande sala de jantar na qual todas as diferenças se aglutinam à mesa em dois grupos principais. Há os ocupados em nascer e morrer e os que, indispostos a viver em vão, buscam compreender o mundo e transformá-lo.

Nas grandes e melhores famílias, o primeiro grupo, até pouco tempo atrás, era dividido entre os contentes e os descontentes. Os contentes acompanhavam tudo com uma determinação bovina: acordavam, ruminavam, ligavam a TV, e voltavam a dormir. Os descontentes acreditavam fazer parte do povo escolhido e culpavam todos os desvalidos da vizinhança pelas desgraças do mundo. Tratavam mal a empregada, caçoavam do filho manco do vizinho, comentavam as aleivosias da atriz, o andar rebolante do filho da prima. Tudo, para eles, era uma afronta a uma moral sob perigo naquela fronteira confusa entre liberdade e libertinagem (eles adoravam usar este termo).

O segundo grupo gostava de provocar. Quando alguém manifestava alguma maledicência, como, por exemplo, aquela impronunciável, em outras mesas, sensação de que no fundo Hitler era só incompreendido, seus representantes entravam em ação como uma espécie de superego do jantar. Condenavam os discursos racistas e homofóbicos e não se constrangiam em classificar o primeiro grupo como alienado e ignorante.

Estes não levavam desaforo. Chamavam os ativistas do segundo grupo de intransigentes quando ouviam que era moralmente condenável não se indignar com as distâncias entre ricos e pobres num país governado durante séculos pelas mesmas oligarquias políticas, econômicas e midiáticas. Muitos do segundo grupo, é bem verdade, eram também ricos, e pegavam no sono tão logo encerravam o discurso. Mas se negavam a ensinar aos filhos o que haviam aprendido com os velhos à mesa. Coisas como lugar de mulher é na cozinha, mendigo não gosta de trabalhar, o certo é louco tomar eletrochoque ou que torturando-se corrigem-se os costumes.

Embora unidos pela ideia de que o mundo, feito de nuances e contradições, era implacável com as soluções rasteiras e resumíveis em uma só frase, repetida sem reflexão até o fim da vida, o segundo grupo tinha lá suas divisões. Uns acreditavam que as coisas só mudariam quando todos tivessem acesso aos mesmos direitos e que era papel do Estado garanti-los. Outros acreditavam que esses direitos já estavam consolidados e que o Estado muito ajudaria se não atrapalhasse. Ambos concordavam que a fome e a pobreza alheias eram moralmente inaceitáveis, o que levou alguns deles a se engajarem em estudos e mutirões pelos lugares que o primeiro grupo sentiria asco só em pisar.

Para o primeiro grupo, a pobreza era um cálculo: quanto maior, melhor as condições de negociação entre patrão e empregado. Uns ofereciam menos do que podiam pagar; outros aceitavam menos do que mereciam porque a outra opção era a fome. Esta condição era sempre lembrada pelo contratante do primeiro grupo quando falava “aquele(a) pobre diabo passava fome quando resolvi ajudar e a gratidão dele(a) é essa: arrumou outro emprego e foi embora”.

(PS: O segundo grupo nem sempre conseguia abrir mão de contratar serviços domésticos; muitos tinham a culpa como a única diferença em relação aos primeiros, mas desconfiavam que aquele jogo de posições não era um direito natural de brancos bem nascidos).

Com propósitos tão distintos em relação ao tema “existência”, os dois grupos juntavam de tempos em tempos as suas facções e protagonizavam batalhas memoráveis quando o assunto era política. Os primeiros viam a política como uma hierarquia similar à que reinava na alta sociedade: um espaço no qual os doutores mandavam e o povo ignorante servia ou obedecia. Era uma relação de confiança num dom natural disponível apenas entre bem-nascidos.

O segundo grupo dizia que dom natural era o caralho. Que essa interpretação do mundo servia apenas aos grupos hegemônicos e que o nome disso era ideologia. Mal resumindo, ideologia, naquele tempo, era a arte de explorar e convencer o explorado de que ele agradava a Deus com a sua servidão e ainda fazia um bom negócio. Foi assim que os defensores da ruptura com essa ideia passaram a receber convites para ir a Cuba ou à União Soviética, quando ainda estava de pé. A falência das ditaduras comunistas era sempre levada à mesa pelo primeiro grupo para lembrar aos demais o que dá mexer no nosso direito natural de explorar as classes inferiores (sic).

Contrário a essa ideia, o segundo grupo percebeu que apenas falar alto na mesa era insuficiente para quebrar o ciclo da canalhice reinante no Brasil. Como não adiantava convencer o primeiro grupo de que os grupos historicamente marginalizados tinham tanto direito a comer, estudar e consumir quanto eles, pararam de dar murro em ponta de faca e começaram a pensar em saídas políticas. Lá, as leis anti-privilégio chegariam antes da vergonha à mesa.

Muitos então começaram a se identificar com o Partido dos Trabalhadores, fundado por um certo ex-operário que se um dia chegaria à Presidência. Durante um tempo, este partido serviu como baliza nas conversas sobre política à mesa. Uns simplesmente não o suportavam pela simples ideia de que a política poderia ser ocupada por quem vinha de baixo, e não apenas pelos mestres e doutores da lei a quem aprenderam a prestar continência.

Outros abraçaram a ideia de que finalmente os anseios populares tinham uma bandeira. Para quem entendia as desigualdades do mundo como uma chaga incapacitante e moralmente condenável era difícil não se identificar com uma legenda que prometia emplacar projetos populares e levar os trabalhadores para o centro das decisões.

Foi assim que a briga entre o primeiro e o segundo grupo à mesa familiar pararam de debater política em si para debater “o PT”. Até a legenda chegar ao poder, não se sabia até onde poderia ser levada a sério, mas era possível discutir o que ela representava: uma possibilidade de participação para além dos grupos dominantes.

O primeiro grupo achou a ideia um horror já de saída. Mesmo quando, já no poder, o partido começou a dar sinais de que podia conciliar os interesses do capital e do trabalho, no tempo em que a economia crescia e até a conservadora Economist via o país decolar, os refratários seguiam dizendo ser um absurdo ver a política ser ocupada por analfabetos e/ou deficientes. Quando inventaram de colocar uma mulher no ministério e, depois, na campanha para a sucessão, a objeção virou uma metralhadora.

Estes vibravam quando o partido errava. Mas se enfureciam quando acertava. Ou quando o grosso da população demonstrava apoio ao projeto que, ao menos na propaganda oficial, tirara milhões de pessoas da pobreza e levara luz, médicos e universidades para localidades até então esquecidas do globo.

Surgiram assim expressões como “bolsa esmola” e “malditos nordestinos” naquela mesa de jantar. Surgia também uma saudade esquisita de antigos governantes que deixaram o poder desmoralizados mas protegidos pela comodidade do discurso segundo o qual são “todos iguais”.

Como a vida naquela mesa seguia igual – o filho paparicado crescera e não virara exatamente um Mark Zuckerberg – era mais fácil atribuir a miséria da própria existência à ignorância dos pobres diabos que vendiam a consciência política por política de distribuição de renda, ação afirmativa e crédito barato para comprar futilidades como arroz, feijão e geladeira.

Durante algum tempo, o segundo grupo gozou uma certa satisfação em ver a ala dos “nascer e morrer” constrangida em desdizer aquilo tudo o que haviam dito antes. O próprio ex-operário dizia: não podemos errar. Mas erraram. E muito, e antes mesmo do primeiro grande escândalo vir à tona as coisas já não eram as mesmas naquela ala da família.

De cara alguns começaram a discordar dos métodos do partido para chegar e permanecer no poder. Parte deles amadureceu a ideia de que o Estado não tinha capacidade para assumir todos os serviços e caminhava para se tornar um gigante irremovível. Passaram a alimentar outras preferências eleitorais.

Outros desconfiaram das alianças do Partido dos Trabalhadores com os patrões e partidos de sempre. E aposentaram o broche antes do Roberto Jefferson abrir a boca. Quando este anunciou o quiproquó, o grupo rachou de vez.

Uns seguiram apoiando o que chamavam de projeto popular sob o argumento de que muita gente melhorou a vida nos últimos anos. Outros, cinicamente, diziam que para governar para os pobres era preciso fazer concessão aos ricos e/ou sujar as mãos. Outros declaravam apoio crítico por não visualizar opções melhores no tabuleiro político. Outros ainda disseram que aquilo era inadmissível e prometeram nunca mais votar na legenda.

Uns migraram o voto para partidos ao centro, como o PSB de Marina Silva em 2014. Outros, à esquerda, como o PSOL de Marcelo Freixo. Outros viraram liberais e passaram a defender a social-democracia tucana.

A maneira como uns e outros defendiam suas posições dentro do mesmo grupo era mais ou menos agressiva conforme a aproximação das eleições. Todos concordavam numa parte: o mundo era injusto e precisava ser mudado. O “como” é que estava em discussão.

Para o primeiro grupo, aquela discussão pouco importava: quem, em algum momento da vida, manifestara qualquer apoio à legenda estava condenado pelo resto da vida a ser chamado de petralha. Eram eles, e mais ninguém, os responsáveis por tirar o Brasil das mãos de pessoas de bem, que jamais haviam desviado um puto em benefício próprio, para colocá-lo nas mãos dessa gentinha.

Durante anos, alimentaram a impressão de que todo voto ou discurso à esquerda era, por natureza, hipócrita, e qualquer argumento em contrário ou era financiado pelo partido ou era resultado de uma lobotomia. Encontraram eco em colunas e blogs editados por quem se indignava com o preço do iPad e se encantava com o Pateta quando ia para a Disney.

Quando o projeto petista entrou em colapso de vez, sobretudo após o escândalo na Petrobras, quem havia abandonado o barco por considerar que o partido havia se tornado igual aos demais e quem ficou nele por opção ou falta de opção compartilharam um último sinal de solidariedade: a tristeza.

Daquele tempo em que eram motivo de piada do primeiro grupo, ficou somente, e não apenas, a convicção de que o mundo ainda está aí para ser mudado. E que dessa compreensão novas alternativas precisarão a ser desenhadas.

Os demais, convictos de que ganharam a parada e podem agora cuidar dos próprios umbigos em paz, estão onde sempre estiveram. Essas pessoas na sala de jantar seguem ocupadas em nascer e morrer.

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Matheus Pichonelli é colunista na revista Carta Capital e no portal Yahoo.

 


 

 

Fila Benário Fala

Bad Religion e Noel Gallagher dão aula de Rock no pior Lollapalooza de todos os tempos

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E no último final de semana aconteceu mais uma edição do festival Lollapalooza no Autódromo de Interlagos em São Paulo. E olhada a escalação completa do festival já era perceptível que estávamos diante da pior edição do evento. Que as edições em terras brasileiras do festival têm apostado em um Headliner de peso e preenchido o restante da programação com infinitas bandas indies insossas, sonolentas e desprezíveis, isso é fato concreto. Porém nessa quinta edição do Lolla, o número de artistas desconhecidos do grande público que contam com uma sonoridade questionável era imenso e os Headliners da noite não eram de tamanha expressão, como o caso do rapper Eminem, que ficou responsável pelo encerramento da primeira noite fazendo a sua tão aguardada estreia nos palcos brasileiros, porém sem o alcance e relevância dos áureos tempos de sua carreira.

Assistir ao Lollapalooza foi uma tortura, até mesmo do sofá de casa, chegou uma hora que me perdi com quantidade de bandas parecidas em som e temática que subiam ao palco. Cadê o peso das guitarras? Não se vende mais pedal de distorção nas lojas? Saíram todos de fabricação? Tão fora de linha?

Mas nem tudo foi absolutamente perdido no festival, quando deu 16h10 do sábado e o primeiro (e único) riff de guitarra soou naquele palco do Lollapalooza, foi uma indiscutível sensação de alívio, emoção e volta pra casa. Precisou o Bad Religion com mais de 37 anos de carreira, subir no palco patrocinado por uma marca de cerveja, para ensinar e até mesmo relembrar como o Rock já foi em outrora.

Jay Bentley, Greg Graffin e Brian Baker detonando tudo com Bad Religion
Jay Bentley, Greg Graffin e Brian Baker detonando tudo com Bad Religion

Totalmente reformulado, hoje contando com o baterista Jamie Miller no lugar de Brooks Wackerman, os Bad restantes, Brian Baker, Jay Bentley e Mike Dimkich, que assumiu a peteca em 2013 no lugar do carismático Greg Hetson, fizeram a cama perfeita para um agora tiozão Greg Graffin cantar os seus discursos panfletários que soam atuais, pertinentes e relevantes. Iniciando com Fuck You, single do último disco do grupo, o elogiadíssimo True North (2013), a partida já estava ganha logo na segunda canção do repertório, o clássico absoluto 21st Century (Digital Boy), dali em diante foi um desfile de hits passando por praticamente toda a discografia do grupo, Sinister Rouge do veloz e moderno The Empire Strikes First (2004), Come Join Us do maduro The Gray Race (1996), New America do homônimo de 2000 que era marcava o último lançamento da banda pela gravadora mainstream, a Atlantic Records e a paulada Do What You Want do seminal Suffer (1988). O meu momento especial foi a execução da trinca de abertura do álbum The Process of Belief (2002), as sensacionais Supersonic, Prove It e Can’t Stop It. Clássicos não faltaram, estavam todos lá e executados com perfeição (e alguns tons abaixo como de costume), Punk Rock Song, Infected, Fuck Armageddon… This Is Hell e o final apoteótico com a dobradinha Generator e American Jesus.

Aqueles cinco punk com idades quase avançadas colocando a juventude do Lollapalooza para pular e abrir imensas rodas de pogo destoou de toda mesmice, caretice e anemia que reinava de forma operante naquele festival.

Assista o show completo abaixo.

No dia seguinte, devido a experiência do dia anterior, eu nem perdi o meu precioso tempo, fui direto ao horário que realmente me interessava e cai de cabeça no show do Noel Gallagher e o seu High Flying Birds, a segunda apresentação do seu projeto solo em terras brasileiras, a primeira foi em 2012, coincidentemente no mesmo ano do primeiro Lollapalooza Brasil.

Noel Gallagher reinando absoluto no último dia de Lollapalooza
Noel Gallagher reinando absoluto no último dia de Lollapalooza

Trazendo do seu recente álbum, o elogiadíssimo Chasing Yesterday (2015), Noel fez um repertório que agradou a todos no final, mesclando as melhores canções de último disco solo, como a ramônica Lock All the Doors, além de In the Heat of the Moment, Riverman, You Know We Can’t Go Back e The Mexican, que funcionam perfeitamente ao vivo, principalmente a última que tem um peso significante nas guitarras, coisa que tirando o show do Bad Religion na tarde anterior, não se ouviu em nenhum momento no festival. Do primeiro disco solo, Everybody’s on the Run abriu a apresentação, a marchinha Dream On também esteve lá assim como os singles The Death of You and Me e a balada If I Had a Gun…, que se tornou tão importante como qualquer hino da sua antiga banda, que falando nela, não ficaria de fora de forma alguma do repertório, com versões pra lá de tocantes de Champagne Supernova e Wonderwall. A batida na bateria do competente Jeremy Stacey denunciava um outro grande clássico dos irmãos Gallagher, a seminal Supersonic, mas na verdade era Listen Up, outro sucesso do Oasis, mas que tem as suas introduções bem parecidas.
Quando Noel Gallagher, que pouco se comunicou no show, empunhou a sua guitarra e tocou os riffs iniciais da explosiva Digsy’s Dinner, a frenética canção do álbum de estreia do Oasis, o Definitely Maybe (1994), ali foi como se todas as atrações enfadonhas que passaram por aquele autódromo tivessem sido reduzidas a pó.

Don’t Back to Anger, o sucesso absoluto da sua antiga banda, fechou o show de maneira perfeita.

Assista o show completo abaixo.

Faço um adendo em relação ao show da Florence + The Machine. Não escondo de ninguém que passa longe de ser a minha preferência musical, não sou íntimo das canções, não são para mim, no entanto tive uma surpresa boa com o disco mais recente do grupo, o How Blue, How Big, How Beautiful (2015), e não foi à toa que ele integrou a lista dos melhores lançamentos de 2015 aqui do Fila Benário Music, portanto assisti ao show com uma rara sapiência e gostei muito do que vi. Ainda não continua sendo a minha banda favorita, mas é um conjunto integro, que toca perfeitamente bem, uma banda competente e afiada e que tem na sua líder, uma mulher apaixonada, com uma presença de palco hipnotizante, com um carisma soberbo, a ponto de falar o tempo com a plateia e até ir de encontro a ela, sem contar o seu alcance vocal formidável. Florence Welch hoje é com certeza uma das melhores cantoras em atividade e o que ela fez no palco, encerrando a última noite do Lollapalooza, é digno de aplausos e reconhecimento.

Florence Welch e a sua maquina de sucesso fechando o Lollapalooza
Florence Welch e a sua maquina de sucesso fechando o Lollapalooza

Resumindo, se a cada edição do Lollapalooza duas bandas se destaca com as suas apresentações, sendo ela todas veteranas, e com as recentes despedidas de Scott Weiland, David Bowie e Lemmy Kilmister, é de se ter medo do futuro da música.

Especial, Fila Benário Fala

As Bandas Femininas de Todos os Tempos – Anos 2010

Enfim encerramos o nosso especial iniciado na última segunda feira na qual destacamos as bandas femininas de todos os tempos. E chegamos em nossa década atual, e o que ela tem a nos apresentar? Grandes promessas? O futuro do Rock? Só tempo dirá, mas as nossas apostas estão aqui:

ANOS 2010

BLACK BELLES
2011 - Black Belles
Estilo:
Garage Rock
Origem:
Estados Unidos
Periodo do Atividade:
2010 – Presente
Integrantes: 
Olivia Jean (Vocal, Guitarra e Órgão), Ruby Rogers (Baixo), Christina Norwood (Sintetizador) e Shelby Lynne (Bateria)
Melhor Álbum:
The Black Belles (2011)
Descrição: 
As primeiras conversas das “Beldades Negras”, com o intuito de montar a banda, foi em 2009, mas foi só em 2010 que o conjunto realmente saiu do papel. Formada em Nashville, a capital do Country americano, o The Black Belles faz um Rock de Garagem com toque góticos e letras obscuras, chamou a atenção de Jack White que rapidamente assinou com as garotas e lançou o primeiro lançamento das garotas, autointitulado, em sua gravadora a Third Man Records.
Sonzeira de responsa.

PUSSY RIOT
2011 - Pussy Riot
Estilo:
Punk Rock
Origem:
Rússia
Periodo do Atividade:
2011 – Presente
Integrantes:
Não identificadas
Melhor Álbum:

Descrição: 
Uma banda que ficou mais conhecida com a polêmica a sua volta do que a sua própria sonoridade. As russas do Pussy Riot até então não tinham nome, rosto e identidade. Encapuzadas e armadas com as suas canções de protesto, elas criaram uma guerra contra o autoritarismo do governo Putin que em 2012 virou o centro das atenções em todos os noticiários do mundo. Durante as eleições presidenciais, no mesmo ano, três integrantes do grupo entraram na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou, e entoaram um cântico em frente ao altar em protesto ao candidato Vladimir Putin, as mesmas foram retiradas pela polícia Russa e detidas, revelada as identidades, Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Ekaterina Samoutsevitch, foram condenadas a dois anos de prisão por vandalismo religioso. Em 2014 durante as Jogos de Inverno de Sochi, a banda realizou um protesto em frente a vila olímpica e foram agredidas pela polícia russa, conforme vídeo aqui.

SAVAGES
2011 - savages
Estilo:
Pós Punk
Origem:
Inglaterra
Periodo do Atividade:
2011 – Presente
Integrantes: 
Jehnny Beth (Vocal), Gemma Thompson (Guitarra), Ayse Hassan (Baixo) e Fay Milton (Bateria)
Melhor Álbum: 
Silence Yourself (2013)
Descrição: 
E por fim, encerrando o nosso especial em grande estilo, com certeza as Savages é uma das melhores bandas da nova década e provavelmente uma das melhores surgidas nos últimos dez anos. Formada em Londres no ano de 2011, o som do grupo é um Pós Punk irado, na mesma praia de Gang of Four, Bauhaus, The Cure e Joy Division. É como se tivesse transportado toda a melancolia e densidade do Rock dos anos 80 pra cá. A baixista Ayse Hassan toca linhas sólidas e precisas como um Peter Hook, a guitarrista Gemma Thompson faz riffs gritados emulando o grandioso East Bay Ray do Dead Kennedys, tudo isso embalado pela bateria tribal e violenta de Fay Milton e os vocais charmosos e sensuais da languida e misteriosa Jehnny Beth.
Silence Yourself o disco de estreia das garotas, lançado em 2013, foi um sucesso, a crítica especializada teceu elogios esplendorosos e aclamou a banda como a salvação do Rock, e dada as circunstancias do mesmo atualmente, é verdade. Em 2014 a banda aterrissou no Brasil no festival Lollapalooza e entre tantas atrações bizarras e sem alma, elas saíram ovacionadas pelo público.
No começo de 2016, precisamente no dia 22 de janeiro, as Savages lançaram o segundo álbum, Adore Life, que recebe os mesmos elogios do anterior e possivelmente integrará muitas listas de melhores do ano no final de 2016.
Vida longa as Savages.
https://www.youtube.com/watch?v=FuIB8HEmnoY