Arquivo da categoria ‘Ouvindo o que eu não gosto’

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Certa vez uma grande amiga minha e leitora assídua desse humilde blog (até por insistência minha) me desafiou com o seguinte questionamento: “escrever sobre bandas que você gosta é fácil, mas porque não falar de uma que você não tem afinidade alguma?”
Tal pergunta “fermentou” em minha cabeça há meses (anos, pra ser mais exato, levando em consideração os períodos de inatividade desse blog), e me senti  na obrigação de cumprir tamanho desafio após um outro grande amigo meu me confessar o quanto ele gostava da banda System Of A Down, o quanto ela era inovadora, pesada e possuidora de uma característica única, naquele momento me senti desafiado a escrever sobre uma banda que não curto, já que o citado System Of A Down passa longe de minhas preferências musicais.
E assim durante uma semana, tratei de ouvir todos os discos da banda, como a banda possuí apenas cinco álbuns, facilitou ainda mais a minha vida, assim eu pude ouvir um álbum por dia, chegando até dormir com o fone de ouvido enquanto a banda esgoelava em meus ouvidos.
O resultado de tudo isso você acompanha abaixo:

POR QUE EU NÃO GOSTO DE SYSTEM OF A DOWN?:
Antes de começar a falar da minha experiência de ouvir diariamente uma banda que eu não gosto, o certo é explicar o porquê de não gostar dela, certo?
Final dos anos 90 e início do novo milênio ocorreu o Boom das bandas de Metal Alternativo (o chamado New Metal) alcançando o Mainstream, bandas como Korn, Limp Bizkit, Coal Chamber, Deftones, Slipknot e Linkin Park, faziam a cabeça da garotada, mas também a histeria dos críticos, e nesse turbilhão de bandas surgiu o System Of A Down.
No Brasil foi uma febre instantânea, com os clipes de Sugar (o primeiro single da banda), Chop Suey, Toxcity e Aerials sendo exibidos exaustivamente na MTV. Toxicity o segundo cd do conjunto era uma espécie de bíblia para os fãs do tal metal alternativo, e nem assim a banda ganhou a minha simpatia que sempre achei horríveis os vocais do “tal” Serj Tankian e quando esse se unia aos Backing Vocals do “tal” Daron Malakian ai que a coisa ficava tensa mesmo.
E existe uma famosa teoria de que “toda banda que você detesta, sua irmã gosta o dobro, e isso faz o ódio que você sentia por ela triplicar” e foi justamente isso que aconteceu comigo em relação ao System Of A Down.

OUVINDO SYSTEM OF A DOWN:
Como disse anteriormente, a cada dia da semana eu ouvi um disco do System Of A Down, ouvi indo ao trabalho, voltando dele e principalmente indo à faculdade onde se resume em uma viagem de quase duas horas de trem e metrô.
O resultado dessa experiência você acompanha agora:

1º Dia – SYSTEM OF A DOWN (1998)
System 1
O primeiro álbum do conjunto, dele eu já conhecia as canções que fizeram a banda despontar: Sugar e Spiders, mas confesso que me surpreendi com o restante do álbum, os elementos que fazem do SOAD uma das bandas mais cultuadas aqui estão presentes: Os vocais dobrados de Serj e Daron (para o meu desespero) e as mudanças repentinas de estilo, ora pesado, ora swingado. Mas há momentos em que o peso impera, com passagens Hardcore e a voz de Serj surge mais agressiva do que caricata como de costume, alias nesse debut álbum ele usa e abusa dos guturais, o que eu GOSTEI muito.
Os principais destaques ficam por conta da dobradinha de abertura: Suite-Pee e Know, a pesadona War? O Hardcore Darts e o encerramento em grande estilo com P.L.U.C.K.
Os já citados Hits Sugar e Spiders ganharam minha atenção nessa cuidadosa audição.
Enfim um bom disco que talvez eu teria gostado na época do lançamento e sem todo aquele hype em cima da banda.
RESULTADO: Bom
MELHOR MUSICA: P.L.U.C.K
PIOR MÚSICA: Peephole

2º Dia – TOXICITY (2001)
System 2
Na noite anterior havia adormecido com o fone de ouvido ao som do primeiro álbum do grupo, portanto já acordei no clima para ouvir o “bombado” Toxicity.
Toxicity talvez tenha sido o disco que mais ouvi involuntariamente na vida, afinal de contas na época em que foi lançado era uma verdadeira febre e tocava em todo lugar, na escola, nas festas, nas casas dos amigos e até mesmo na minha própria casa graças a minha irmã. No entanto a experiência pessoal de ouvi-lo após 13 anos do seu lançamento foi bastante satisfatória, além dos hits já conhecidos e aclamados pela galera em outrora: Chop Suey, Aerials, Forest, Atwa e a própria faixa-titulo, o disco é um verdadeiro desfile de peso, velocidade, insanidade e riffs de guitarra que pesam uma tonelada, elementos nos quais eu nunca havia assimilado nas audições forçadas que tive do disco anos atrás.
Desde abertura sensacional e pesadíssima com Prison Song, passando pelo quarteto de peso: Needles, Deer Dance, Jet Pilot, X, já faz de Toxcity um masterpiece.
Destaque também para Shimmy e Science e sua pegada Hardcore, além dos já citados Hits, com exceção de Aerials que essa sempre será a minha pior musica do System Of A Down.
Psycho também não é do meu agrado, acho ela bem repetitiva, e me recordo que nos tempos de escola eu adorava azucrinar os die-hard-fans da banda dizendo que o refrão da musica parecia mais uma partida de truco.
A voz de Serj Tankian nesse álbum casa perfeitamente com o estilo agressivo das canções, e os duetos com Daron por sua vez soam mais agradáveis em Toxicity.
No final do dia eu já estava cantarolando o álbum todo com imensa satisfação.
RESULTADO:
Excelente
MELHOR MÚSICA:
Prison Song
PIOR MÚSICA:
Aerials

3º Dia – STEAL THIS ALBUM! (2002)
System 3
Se Toxicity havia queimado a minha língua e me apresentado um System Of A Down diferente daquele que execrava anos atrás, Steal This Album! Por sua vez foi o álbum que me fez vir à tona todo o preconceito que eu tinha pela banda.
Lançado em 2002 sob a produção do mestre Rick Rubin, Steal nada mais é que um compilado de músicas Pré-Toxicity, que a meu ver foi lançado precocemente já que os fãs ainda se deliciavam com o álbum anterior que não havia completado nem um ano de lançamento.
E esse é espírito do álbum, feito às pressas, nas coxas, com uma coleção sem fim de músicas semelhantes e repetitivas. Aqui também (para o meu desespero) ficam mais latentes os duetos de Serj Tankian e Daron Malakian, totalmente desconexos e soando na maioria das vezes semitonados. No meio do dia já estava me sentindo angustiado ao ouvir o álbum que se há bons momentos de guitarras, há também um verdadeiro saladão sonoro e muita influencia da música Armênia, essa última alias permeia durante todo o disco.
O que sobra de bons momentos são as canções: A.D.D. (American Dream Denial), Highway Song e o single Roulette.
Se eu tivesse ouvido Steal This Album! antes dos demais com certeza eu não me sentiria motivado a continuar a ouvir o restante da discografia do System Of A Down.
RESULTADO:
Ruim
MELHOR MÚSICA:
Roulette
PIOR MÚSICA:
I-E-A-I-A-I-O

4º Dia – MEZMERIZE (2005)
System 4
O quarto dia da jornada sonora System Of A Down se resumiria no álbum Mezmerize.
Lançado no ano de 2005, Mezmerize é aclamado pela mídia como um disco inovador, transgressor, influente entre outros adjetivos Hypados.
Na minha opinião ele mantém a proposta sonora do antecessor, Steal This Album! Abrindo imenso leque de diversidades dentro da sonoridade pesada da banda.
Há bons momentos como o single B.Y.O.B. que se não for a melhor canção do conjunto está bem próximo, outros destaques ficam por conta de Cigaro, a divertida Radio/Video e o hit: Question!
Fora isso o que temos é uma banda sem linearidade, difundindo diversos elementos em uma só canção, quando uma canção parece engrenar como é o caso de This Cocaine Makes Me Feel Like I’m On This Song, após um breakdown ela te leva a uma sonoridade nada convincente, ainda mais com os vocais dobrados semitonados de Serj e Daron.
Violent Pornography e Lost In Hollywood são outros destaques negativos do álbum, que se ganhou atenção e aclamação da mídia e agregou novos fãs de lambuja, se perdeu na linearidade dos bons tempos de Toxcity.
RESULTADO:
Regular
MELHOR MÚSICA:
B.Y.O.B.
PIOR MUSICA:
Lost In Hollywood

5º Dia – HYPNOTIZE (2005)
System 5
Eis que chegamos ao último dia da insana experiência de ouvir System OF A Down por uma semana, Hypnotize nada mais é que uma extensão direta do álbum anterior Mezmerize, e soando ainda mais confuso que o seu antecessor.
A mídia ao receber esse disco em mãos aclamou o fato da banda ter alcançando o mais alto escalão da criatividade ao lançar em menos de seis meses dois álbuns que se completam, nada que o Guns N’ Roses não havia feito nos anos 90 ao lançar os dois volumes do Use Your Ilusion no mesmo dia né?
De destaque sobram: a abertura pesada com Attack, a direta Stealing Society com uma boa passagem Hardcore, e o belo single Lonely Day.
Do resto, um verdadeiro saladão sonoro, com os cantos semitonados de Serj e Daron, muita musica armênia, musicas pesadas sendo brecadas e interrompidas por inúmeros dedilhados, sussurros, climas circenses e outras sonoridades non-sense.
Enfim, a boa experiência que tive no início da semana teve uma imensa pá de cal jogada por cima após a audição desses três últimos álbuns.
RESULTADO:
Ruim
MELHOR MÚSICA:
Stealing Society
PIOR MÚSICA:
O restante do álbum tirando os destaques citados acima.

VEREDITO FINAL
System Of A Down é uma banda? BOA
Apesar da expectativa aquém do esperado em relação aos três últimos lançamentos da banda, classifico o System Of A Down como uma boa banda sim, e jamais imaginei que um dia eu iria afirmar isso.
Talvez a minha maior birra com o conjunto seja a “babação de ovo” da mídia especializada e dos Die-Hard-Fans que sempre classificaram a banda como algo inovador, o Messias do rock entre outros absurdos. Não acredito que o SOAD seja uma banda inovadora, lá no final dos anos 80 o Faith No More já fazia a mesma coisa e com muito mais consistência e linearidade que o quarteto de Serj Tankian, o SOAD foi apenas uma banda que surgiu no momento certo, na hora exata e fez o sucesso que deveria, o seu maior diferencial é o resgate das raízes culturais dos seus integrantes em meio a uma sonoridade pesada e por ora veloz que funcionou nos álbuns de estréia, mas pecou em excessos e megalomania nos mais recentes.
Serj Tankian quando não incorpora o seu passado armênio manda muito bem nos vocais agressivos, nos berros e até mesmo em momentos mais graves e amenos, a cozinha composta por Shavo Odadjian (Baixo) e John Dolmayan (Bateria) funciona muitíssimo bem fazendo a cama para a guitarra ultra pesada de Daron Malakian, sendo esse deveria se concentrar apenas no instrumento, já que não tenho muito apreço em seus vocais.
Enfim, tudo o que eu precisava era deixar o meu preconceito de lado, e ouvir a banda para assim ter gabarito suficiente para falar da mesma, assim fiz e gostei da experiência.

Portanto aqui fica o meu recado, antes de criticar ou julgar qualquer coisa, ouça, dê liberdade para que a música entre em seus ouvidos e lhe faça uma revolução, música nunca é demais e nunca é tarde para ouvir e redescobrir.

Em tempo: A minha música favorita do System Of A Down antes mesmo de fazer essa audição, não está presente em nenhum dos álbuns oficiais da banda, trata-se da estupenda versão que a banda fez para o clássico Snowblind do Black Sabbath, a versão ficou irreconhecível e merece uma conferida:

Dedico esse texto para o meu brother Vanderlei (Lobinho), ele que é o amigo citado no incio do texto que me desafiou a ouvir a banda, assim como a Silvia Musseli que também foi citada ali no comecinho sendo a “amiga mala” que me dá pitacos e me desafia constantemente. Fica aqui também o meu abraço para Lisandra Sousa (Liah), Alexandre Lê (Banda Metamorffose), Luis Kurt, os “Bloody Brothers” Fábio e Darcio. Também ao meu parceiro de banda Ederson Nê (Fila Fighters) e a minha irmã Ana Paula, todos os citados são grandes fãs de SOAD e que durante todo esse tempo me coagiram constantemente para me tornar um fã da banda também.

Adoraria dedicar essas linhas mal traçadas aos meus amigos de ensino médio fãs da banda na época e que me torravam a paciência com o seu fanatismo inconsequente, mas hoje a maioria nem ouve rock mais, já partiram para outros modismos…

Em tempo 2 [Atualizado dia 26/03/2014]: Logo que o texto foi ar, algumas pessoas questionaram o simples fato de ter utilizado como critério de avaliação apenas a sonoridade do System Of A Down e não ter mencionando em nenhum momento sequer as letras, que por sua vez são carregadas de cunho ideológico e politico.Primeiramente peço desculpas humildemente por essa falha, alias, um dos maiores trunfos do SOAD são as letras que demonstram diretamente ou de forma poética o inconformismo com a situação politica mundial.
No entanto saio em minha defesa pelo fato simples fato da sonoridade de uma canção ser a primeira coisa que salta aos nossos ouvidos ao ouvir uma música pela primeira vez, me recordo quando era garoto, que ouvi pela primeira vez Jumpin Jack Flash dos Rolling Stones o que me encantou foram aqueles acordes frenéticos de guitarra, somado a batida nervosa e swingada que dava tônica a canção, além do poderoso vocal agressivo e sensual de Mick Jagger. Aquilo me ganhou e foi dessa maneira com outros grandes hinos do Rock, só mais tarde ai já com a informação a disposição que tive acesso as letras e pude compreender o que era cantado.
Portanto encerro dizendo que a letra é um elemento importantíssimo em uma canção sim com certeza, mas não o essencial para se gostar dela, afinal letras bonitas e impactantes até o Chitãozinho e Xoxoró tem, mas nem por isso tenho predileção por eles, e isso é um direito meu.

É só isso!!!

 

Ao som de System Of A Down – Snowblind (Black Sabbath Cover)