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2016 nem acabou, mas tem sido um ano maravilhoso para o Punk Rock/Hardcore, diga-se de passagem. Só no primeiro semestre tivemos os lançamentos de Bob Mould (Patch The Sky), Face To Face (Protection) e The Bouncing Souls (Simplicity). E na entrada do segundo semestre fomos muito bem recebidos com os novos do Descendents (Hypercaffium Spazzinate), The Interrupters (Say It Out Loud) e Against Me! (Shape Shift With Me), sem contar que o NOFX também prepara um lançamento para o mês seguinte. Isso porque eu não mencionei os lançamentos nacionais como os novos do Dance Of Days (Amor-Fati), Hateen (Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui), Zander (Flamboyant), além da estreia do Please Come July (Life’s Puzzle), projeto contando com grandes nomes da cena underground brasileira.

No entanto, os dois discos mais aguardados do gênero eram, com certeza, os novos discos dos californianos do Green Day e do Blink 182. O do trio capitaneado por Mark Hoppus era esperado com ansiedade, pois se tratava do primeiro disco do conjunto sem o guitarrista e vocalista Tom DeLonge (leia a matéria sobre a saída dele aqui), marcando a estreia do Matt Skiba, do Alkaline Trio, no lugar. Já o do Green Day, tinha uma grande espera pelo fato de ser primeiro disco após a internação de Billie Joe Armstrong na clínica de reabilitação, que cancelou toda a turnê de divulgação dos três últimos – e anêmicos – discos do grupo, a trilogia Uno! Dos! e Tré! (2012) A Campanha de marketing em cima de Revolution Radio, além dos dois singles lançados, Bang Bang e a própria faixa título, fazia do disco a tão sonhada, pelos fãs, volta às origens do grupo.

Eis que California e Revolution Radio enfim foram lançados! E como ambos discos se saíram?

California – Blink-182
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Podemos afirmar, sem medo algum, que California é uma continuação de Take Off Your Pants and Jacket (2001), considerado por muitos o último grande disco do Blink-182. O que se ouve no novo álbum é uma colcha de retalhos que costura as melhores nuances sonoras do grupo, de um lado o Hardcore veloz, graças a técnica apuradíssima do baterista Travis Barker, já explicito na curtíssima faixa de abertura Cynical, continuando em The Only Thing That Matters, que relembra em partes a canção Roller Coaster do já citado Take Off Your Pants…, e encerrando o álbum com Brohemian Rhapsody. Do outro lado, temos aquele Poppy Punk, claramente influenciado em Descendents, que sempre permeou na carreira do trio e gerou os seus maiores hits, e em California não seria diferente, o single Bored to Death, seguidos de She’s Out Her Mind, No Future, Kings Of The Weekend e Rabbit Hole, são as provas concretas. E por fim, aquela sonoridade madura que pipocou em no supracitado TOYPAJ e que foi “cama, mesa e banho” do autointitulado de 2003, surge no novo disco, mas dessa vez como um ingrediente que vem a somar e dar consistência ao produto final. Faixas como Los Angeles, Sober, Left Alone e San Diego, usam e abusam de elementos eletrônicos, mas carregam uma beleza e autenticidade.
A estreia de Matt Skiba foi certeira no disco, como guitarrista ele manteve os já conhecidos timbres que soam agradáveis aos ouvidos dos fãs da banda. E na parte vocal, em alguns momentos a sua voz relembra os bons momentos de Tom DeLonge, como em Cynical e Bored to Death. Mas em She’s Out Her Mind e principalmente em No Future ele imprime a sua própria identidade musical, mostrando que tem muita lenha a queimar com o grupo, para nossa alegria.

Revolution Radio – Green Day
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A Rolling Stone gringa estampou o Green Day na capa dizendo que a banda havia voltado ao Punk Rock. A página oficial da banda, no Facebook, postou a imagem da capa do disco, um rádio explodindo, o que fomentava ainda mais a ideia que estaríamos diante do álbum mais pesado do grupo desde Insomniac (1995), e os dois singles lançados do disco, Bang Bang e Revolution Radio não tinha mais nada a provar: O bom e velho Green Day estava de volta.
Só que aí o Revolution Radio saiu, e após uma audição cuidadosa a conclusão que chegamos é que temos o mesmo Green Day megalomaníaco e grandioso (no mal sentido) desde American Idiot. O grupo continua preso na formula musical criada por si, desde o lançamento supracitado, e não consegue mais se libertar das próprias amarras.
Aquele Green Day que emulava Ramones, Hüsker Dü, The Replacements, hoje mergulhou de cabeça no Rock de Arena inglês de The Who, Beatles e Queen, e tenta a todo custo parir a sua obra-prima. As referências citadas são imunes de reprovação, mas dentro do contexto sonoro proposto pelo Green Day, desde o início da carreira, elas soam plastificadas, forçadas e com ares de “precisamos conquistar todos os públicos, custe o que custar”.
Revolution Radio já abre desanimado com a pseudo-balada Somwhere Now, iniciada no violão e com uma explosão no meio que entrega um bom rock, mas nada além disso. Outros momentos deprimentes do disco é Still Breathing, que muito assemelha as Pop Ballads de Katy Perry e Demi Lovato, o Pop Rock inofensivo reaparece na faixa seguinte Youngblood, com direito à corinhos “ôô-ôô” na introdução. Say Goodbye relembra em algumas passagens o hit Holiday, de American Idiot, no entanto, mais devagar e mais pop. E por fim a baladinha Outlaws é digna de piedade.
A formula, já gasta, do grupo de criar epopeias musicais longas e com alternâncias de ritmos, surge aqui em Revolution Radio, com o nome de Forever Now. Ela até começa com um certo entusiasmo e relembrando Green Day circa Nirmod (1997), mas os demais andamentos nada convencionais, adquiridos ao longo dos seis minutos da mesma, o transforma em mais uma canção decepcionante em um disco fortemente mediano.

A imprensa e a indústria musical que sempre deliciou em criar rivalidades entre bandas para fomentar o crescimento e consumo da mesma, seja nos anos 60 com Beatles e Rolling Stones, ou nos anos 90 com Oasis e Blur, no início dos anos 2000 inventou a disputa entre Blink 182 e Green Day aproveitando o momento distinto de ambas, no caso a ascensão do trio de Mark, Tom e Travis com a explosão do disco Enema Of The State (1999), e o limbo que se encontrava o Green Day após a frustrante tentativa de amadurecimento com o diversificado Warning (2000). Na época o Green Day, que tinha muito mais tempo de estrada do que os seus conterrâneos, acabou se tornando a banda de abertura das turnês do Blink 182, o que deu mais margem ainda para uma possível rivalidade, na qual nunca existiu.

Green Day e Blink 182 na turnê conjunta que fizeram em 2002

Green Day e Blink 182 na turnê conjunta que fizeram em 2002

Mas no ano de 2016, diante desses dois lançamentos, no qual ambas bandas se encontram no mesmo patamar dentro da sua trajetória, o Blink 182 levou a melhor!

Até a próxima, Billie Joe!

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Endigma
E foi lançado ontem para todo o universo via youtube a música Only One Will Stand, o single de estreia do Endigma, a maior promessa do Heavy Metal Nacional em 2015.
Formada em Jundiaí (interior de São Paulo), a banda Endigma é resultante de um projeto entre os músicos Glauco Rezende (Guitarra) e Fernando Arouche (Bateria), sendo esse último conhecido também pelos trabalhos com as bandas Metamorffose e a extinta Nazarenos HC.

Da esq pra dir: Fernando Arouche (Bateria) e Glauco Rezende (Guitarra)

Da esq pra dir: Fernando Arouche (Bateria) e Glauco Rezende (Guitarra)

A dupla já esteve à frente de diversos projetos musicais entre eles a banda Metalzord dedicado a covers de clássicos do metal melódico e tradicional, além de fazerem regravações de sucessos da musica pop em versão heavy metal, como foi o caso da versão da dupla para o sucesso Gangnam Style do sul coreano Psy, que teve mais de 500 mil visualizações e o vídeo chegou a ser citado em uma matéria no Band Sports.

E foi desse virtuosismo da dupla que surgiu o Endigma, apostando na altíssima qualidade dos seus músicos e em material próprio, Only One Will Stand é o mais perfeito cartão de visitas da sonoridade da banda, um Thrash Metal furioso e desconcertante, onde Fernando demonstra toda sua habilidade como baterista, apostando em quebradas, viradas sensacionais e fazendo uso sem moderação alguma do pedal duplo. Já Glauco que bebe da fonte de Dimebag Darrell, Zakk Wylde e Scott Ian, une solos velozes à riffs que pesam uma tonelada.
Mas a grande cereja de Only One Will Stand fica por conta da participação de Leandro Caçoilo nos vocais, conhecido pelos trabalhos à frente da banda Eterna, Soulspell e Hot Rocks, Leandro que é acostumado com o gênero Power Metal e Hard Rock, impressiona a todos em uma interpretação tão pesada e concisa. Importante ressaltar que o baixo foi gravado pelo Fabio Carito da banda Shadowside.
Se o line up da banda será o mesmo da gravação de Only One Will Stand, só o tempo dirá, mas que preciosidades como essa canção surgirá das mãos geniais de Fernando e Glauco, isso podem ter certeza absoluta.

Parabéns Endigma e com vocês Only One Will Stand

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Wasting Light
E hoje – 10 de novembro de 2014 – é finalmente lançado o cd mais esperado do ano, Sonic Highways, o 8º álbum dos Foo Fighters que está prestes a celebrar 20 anos de carreira.
O lançamento era aguardado com tamanha expectativa, primeiro por se tratar de Foo Fighters, a banda mais aclamada e adorada da atualidade, e segundo pela grandiosidade do projeto. Sonic Highways foi gravado em oito estúdios de oito cidades americanas diferentes, lugares que segundo o vocalista e guitarrista Dave Grohl são chamados de: templo da música.
A banda percorreu e gravou nas principais capitais: Chicago, Washington, Nashville, Austin, Los Angeles, New Orleans, Seattle e New York, e todas as gravações foram registradas e documentadas na série Sonic Highways, que vai ao ar todas as sextas-feiras no canal a Cabo HBO nos Estados Unidos e que em breve estreara no Brasil no Canal Bis.
Enfim, na teoria trata-se de um lançamento esplendido que faz jus a grandeza da banda, mas e na pratica? Será que Sonic Highways realmente convence?

Analisaremos abaixo o álbum faixa a faixa:

1 – Something From Nothing
Gravada: Electrical Audio Studio – Chicago
Participação Especial: Rick Nielsen (Cheap Trick) – Guitarra
Something From Nothing foi a primeira música de Sonic Highways a ser apresentada para o mundo todo. E logo na primeira audição ela já causa certo (porém bom) estranhamento, ao mostrar um Foo Fighters mais rebuscado, mais trabalhado e evidentemente mais longo.
A canção começa dedilhada e com Dave Grohl sussurrando o primeiro verso, até dar a entrada de toda banda ainda de forma sutil.
Na casa dos um minuto e trinta segundo de música, ela ganha uma interessante melodia grooveada/funkeada, até finalmente ganhar peso e nos presentear com o animalesco berro de Grohl em meio ao Punk Rock furioso.
Em meio há tantas guitarras na banda (três no total), a guitarra de Rick Nielsen acaba não fazendo diferença, assim a sua participação acaba sendo mais histórica e afetiva, do que realmente necessária.
A letra da canção é o principal destaque, um ode de amor a cidade Chicago, histórias do Bluesman Buddy Guy, citações ao grandioso Muddy Waters.
Something From Nothing é um dos grandes destaques de Sonic Highways, mas dificilmente será a canção que abrirá a nova turnê do conjunto, justamente por ser longa e crescente.

2 – The Feast And The Famine
Gravada: Inner Ear Studio – Washington
Já a segunda canção, que foi gravada em Washington, emula muito bem a sonoridade do local. Capital do Hardcore furioso de Minor Therat, Bad Brains e outros grandes nomes da Dischord Records (tradicional selo do gênero), a canção é um Punk Rock nervoso, que ganha mais peso e atenção no seu refrão genial e berrado.
Mas mesmo diante de uma sonoridade simplista, a banda segue o padrão de grandeza de Sonic Highways e incorpora alguns elementos que se não existisse não faria falta. A batida da bateria na segunda estrofe deveria manter-se reta e seca como no refrão e como em toda boa canção de Punk Rock, mas a banda acabou usando uma dinâmica semelhante a da estrofe de All My Life. Sem contar a presença de coro um tanto quanto estranho no trecho “Is there anybody there?”.
Mas nada que venha comprometer a genial canção que carrega em sua letra todo o saudosismo do Dave Grohl em relação à pulsante Washington de sua adolescência.

3 – Congregation
Gravada:
Southern Ground Studio – Nashville
Participação Especial:
Zac Brown (Zac Brown Band) – Guitarra e Backing Vocals
Considerada por muitos a melhor canção do álbum, talvez seja Congregation a canção mais Foo Fighters de todo o disco, ela poderia ser facilmente encontrada no tracklist do There Is Nothing Left To Lose (1999) ou no lado elétrico de In Your Honor (2005).
Congregation carrega toda aquela sensibilidade da banda, mas sem perder o punch, os fortes riffs de guitarra e agressiva voz de Dave Grohl.
Por ser gravada em Nashville, a matriz do Country americano, ela carrega uma pequena porção do gênero na sua melodia, ainda mais com a participação mais do que especial de Zac Brown nos Backing Vocals, porém ela é essencialmente Foo Fighters na mais plena forma, e isso é muito bom.

4 – What Did I Do?/God as My Witness
Gravada:
Austin City Limits Studio – Austin
Participação Especial:
Gary Clark Jr. – Guitarra
Se Congregation é totalmente Foo Fighters, essa canção por sua vez em nada lembra o conjunto devido à tamanha musicalidade envolvida.
O começo apenas cantado e dedilhado como um velho blues americano, a sua melodia swingada e funkeada, apresenta aos nossos ouvidos um Foo Fighters até então desconhecido, mas que aprovamos com louvor.
Gravada em Austin, capital do Texas, terra de gente como o genioso e saudoso bluesman Johnny Winter e do pai do rock Buddy Holy, o Foo Fighters garimpou todas essas referências sonoras e nos presenteou com uma canção diferente de todo seu catalogo, mas igualmente genial, com a participação mais do que especial do bluesman Gary Clark Jr detonando a guitarra simplesmente.
Surpreendente e genial, mas quem é acostumado com a pegada simplista e de fáceis refrões da banda, talvez não dê a mínima pra canção.

5 – Outside
Gravada:
Rancho De La Luna Studio – Los Angeles
Participação Especial:
Joe Walsh (The Eagles) – Guitarra
No entanto Outside é ressurgimento do Rock n’ Roll em Sonic Highways. Gravada na capital do Hard Rock, Los Angeles, ela emula bem essa sonoridade, e poderia estar presente no tracklist de One By One, o amado e incompreendido álbum do Foo Fighters de 2002.
Não há berros, e o refrão é até estranhamente cantado em baixo tom, mas há um marcante baixo logo na introdução, ótimos licks de guitarras – ainda mais com a participação de Joe Walsh – e um contratempo desconcertante após o segundo refrão.

6 – In The Clear
Gravada:
New Orleans Preservation Hall – New Orleans
Participação Especial:
Preservation Hall Jazz Band
Gravada no berço do Jazz, a cidade de New Orleans, acompanhada da Preservation Hall Jazz Band com instrumentos de sopro, piano e bateria, eis que surge a melhor música de Sonic Highways.
In The Clear é nada mais que uma simples balada no melhor estilo Foo Fighters, tocante, pulsante e minimalista.
A pequena orquestra da Preservation Hall Jazz Band só acrescentou ainda a canção, principalmente no trabalhado trecho final da canção onde o refrão é cantado de forma soletrada.
Se a intenção de Sonic Highways era ser um álbum ambicioso de forma trabalhada, em In The Clear foi à prova que a principal virtude está na simplicidade.
Genial!

7 – Subterranean
Gravada:
Robert Lang Studio – Seattle
Participação Especial:
Ben Gibbard (Death Cab For Cutie) – Guitarra e Backing Vocals
E é em Subterranean que infelizmente começa o declínio musical em Sonic Highways.
A canção mais esperada por todas, Subterranean foi gravada em Seattle (no estúdio onde Dave Grohl gravou sozinho o primeiro álbum do Foo Fighters) e contaria a experiência de Dave Grohl após a morte de Kurt Cobain e fim do Nirvana, trata-se de um tema triste e profundo, mas não por isso que a música deveria beirar a depressão.
Uma melodia angustiante, sufocante e arrastada, somadas a uma interpretação vocal não inspiradora de Dave Grohl, em parceria com Ben Gibbard do Death Cab For Cutie, faz de Subterranean a pior canção do álbum e uma das maiores bolas foras da carreira do Foo Fighters ao lado de Tired For You.

8 – I Am a River
Gravada:
The Magic Shop New York Studio – New York
Participação Especial:
Joan Jett  – Guitarra
A canção que declama o amor por New York, a terra do Rap grooveado do Public Enemy, do Punk Rock dos Ramones, do Hard Rock do Kiss, das meninas furiosas e verdadeiras rainhas do Rock: as Runaways, e até mesmo do super-herói Homem Aranha, infelizmente não saiu como deveria, e tudo culpa de um egocentrismo exacerbado.
Por ser a última música do álbum, e posteriormente a canção que encerrará o último capítulo da série Sonic Highways, Dave Grohl quis fazer algo épico, grandioso e glorioso, que infelizmente se tornou em algo extremamente desastroso.
Já começa com o fato da canção ter cerca de sete minutos de duração, desnecessário se tratando de Foo Fighters.
A música em si demora pra começar, a voz de Dave Grohl entra já com um minuto e meio de música, que na verdade foi uma seqüência de guitarras dedilhadas e solando notas desconexas.
A canção vai tomando forma vai crescendo, até chegar a uma melodia que se fosse de autoria do Chris Martin, ou se estivesse na edição especial do novo álbum do U2 eu não me assustaria.
A bela simplicidade orgânica de In The Clear, foi dizimada na prepotência dessa faixa.
Há relatos que Joan Jett participa de I Am a River tocando guitarra, mas nem dá pra perceber.

Resultado final
Pra quem estava esperando uma continuação do seminal Wasting Light – o último grande álbum do Foo Fighters – caiu do cavalo. Sonic Highways trás o Foo Fighters se arriscando em novas nuances, e nem é por conta das sonoridades das cidades onde o álbum foi gravado, mas sim um revival do que foi a banda quando ela tenta flertar com coisas grandiosas e que não lhe cai bem, vide os álbuns One By One (2002) e Echoes, Silence, Patience and Grace (2007).
Mas Sonic Highways está longe de ser um péssimo álbum do conjunto, há canções primorosas e que terão destaque no repertório do grupo, além de Dave, Chris Shiflett e Pat Smear (esse último nem tanto) dar uma aula pra esses novos grupelhos de rock de como se faz Rock de verdade com guitarras de verdade.
As participações especiais têm todo o seu valor histórico e sentimental, mas de todas as citadas, apenas a de Zac Brown, Gary Clark Jr e principalmente da Preservation Hall Jazz Band que se faz notar, o resto atuam como coadjuvantes de luxo.
Resumindo, por todo o seu contexto histórico, as circunstancias que o acerca e a grandiosa série que registrou passo a passo não só da gravação do álbum, mas fornecendo ao espectador uma verdadeira aula de história da música americana, Sonic Highways é um grande disco e terá um espaço reservado na história discográfica da banda.
Mas ainda prefiro o básico e rude Foo Fighters de Wasting Light.
Porém, ainda é o lançamento do ano.

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“Diga quem é o seu companheiro que eu te direi a qualidade da música que você faz.”

Parafraseando o famoso ditado popular, o citado acima encaixa perfeitamente quando algumas musas do Rock se relacionam com pessoas do mundo musica e tal envolvimento influência diretamente no seu trabalho artístico e musical.
Já aconteceu com Courtney Love por exemplo, que no início da década de 90 era casada com Kurt Cobain ex-líder do Nirvana, e a sua banda principal, o Hole, carregava muito da sonoridade da banda do esposo, um Punk Rock sujo transvestido de Grunge, berrado mas calcado em boas melodias, porém quando o mesmo partiu e a viúva teve um affair com o Billy Corgan o líder do Smashing Pumpkins, Celebrity Skin (1998) o próximo cd do Hole veio mais harmonioso, com batida pop e um despojamento Rock menos agressivo como em outrora, mas mesmo assim bacana, afinal de contas se tratava de Billy Corgan por trás. Gwen Stefani a frontwoman do No Doubt uma das bandas mais sensacionais da década de 90 também passou por situação semelhante, afinal de contas quando ainda era namorada do baixista do grupo Tony Kanal as melodias da banda era um enérgico Ska Core furioso, porém bastou relacionar e casar com Gavin Rossdale líder do Bush, a banda inglesa alternativa de um único hit (Machinehead) que o No Doubt desacelerou e deu uma “empopada” na sonoridade lançando os álbuns Return of Saturn (2000), Rock Steady (2001)  e o execrável Push and Shove (2012)
E o mesmo aconteceu com Brody Dalle, que antigamente atendia por Brody Armstrong e era esposa de Tim Armstrong, líder, vocalista, guitarrista e fundador de uma das maiores bandas de Punk Rock dos últimos tempos, o Rancid. Casada com Tim, Brody estava a frente do The Distillers uma sensacional e agressiva banda de Punk Rock que em pouco tempo de atividade e apenas três discos lançados se fez notar na cena musical com masterpice Sing Sing Death House (2002) que beirava a genialidade com canções velozes, agressivas tomadas por berros insanos.
Eis que união de Brody e Tim chegou ao fim e tempos depois ela estava nos braços de Josh Homme, o cultuado, celebrado e admirado messias do novo rock a frente do Queens Of The Stone Age, e dessa união nasceu Diploid Love o primeiro voo solo da agora Brody Dalle, porém o que tinha tudo pra ser um álbum marcante se tornou uma das maiores decepções do ano.
Esqueça o Distillers, esqueça as guitarras esporrentas, a batida forte e rápida, esqueça os berros desesperados, aquela Brody foi enterrada junto com o sobrenome Armstrong e com o matrimônio infeliz, o que se tem aqui é uma Brody Dalle em certo ponto ousada, navegando por águas jamais visitadas mas que em nada lembra o seu passado glorioso.
As nove faixas de Diploid Love carrega a mesma estrutura musical, uma atmosfera oitentista remetendo à bandas como Roxette e Eurythmics, o Punk Rock até tenta aparecer na genial Underworld, a unica que se salva do disco, mas o restante do álbum se perde em batidas pop inorgânicas de Rat Race, Don’t Mess With Me, Dressed In Dreams e Parties For Prostitutes que fecha o disco de maneira trágica.
Meet The Foetus / Oh The Joy conta com os Backing Vocal de luxo da musa Shirley Manson do Garbage, mas nem assim empolga.
A influência direta de Josh Homme em Diploid Love fica evidente na banda de apoio que gravou o álbum que conta com Michael Shuman do Queens Of The Age no Baixo e o “arroz de festa” Alain Johannes que é braço direito de Josh em todos os seus projetos musicais.
Resumindo, Diploid Love não agrada, não convence e muito menos empolga, em nada lembra aquela enérgica Brody (Armstrong) Dalle de cabelos espetados que vociferava palavras de ordem em cima de um Punk Rock agressivo, pelo contrário, aqui ela quis se desvencilhar de vez dessa imagem, quis cantar bonito, trabalhar com artistas renomados, ampliar o repertório musical mas de nada funcionou, gastou muito glace pra pouco bolo.
Ela ficou linda de cabelos loiros, é fato, mas beleza não põe mesa já dizia o outro.

Acho que a minha insatisfação descrita no decorrer do texto responde o fictício ditado citado acima, não é?

As coisas só não estão perdidas pra você Brody Dalle, porque Underworld (vídeo abaixo) é uma canção muito bacana, e porque você também deu essa declaração genial aqui.

Ao som de The Distillers – Sing Sing Death House

Capa_Ecliptyka_Times-Are-ChangedQuando surgiu há exatos doze anos na cidade de Jundiaí (Interior de SP) o Eclipyka era apenas uma boa banda formada por excelentes músicos incluindo ai a bela e carismática vocalista Helena Martins, que entre duas tímidas canções próprias tocava o que havia de melhor no Heavy Metal Melódico como: Helloween, Stratovarius, Rhapsody, Avantasia, Sonata Arctica e Angra.
O Tempo foi passando e o Ecliptyka se tornou referencia na cena Heavy Metal de toda a região, após o lançamento da demo The First Petal Falls(2007)  fortemente influenciada pelo Power Metal alemão a banda embarcou em uma turnê européia em 2009 se apresentando em diversos festivais na Alemanha e na Bélgica.
No ano de 2011 a banda lança o seu primeiro álbum A Tale of Decadence que teve no Brasil a sua distribuição via Die Hard Records, alçando assim o Ecliptyka como uma das maiores revelações do gênero chegando a fazer a abertura dos shows de Tarja Turunen (ex-Nightwish) e The Agonist. Diferente do primeiro EP a banda adota uma sonoridade mais pesada, coesa, fazendo linha direta do Trash Metal com Heavy Melódico.
E eis que agora a banda lança o seu mais novo trabalho Times Are Changed, que se peca pelo pouco numero de canções – oito no total – sobra pela qualidade e primor das músicas apresentadas.
Times Are Changed vem ainda mais pesado que o seu antecessor e com uma produção ainda mais límpida, que ficou a cargo de Jean Dolabella (Ex- Sepultura) e a masterização pelo genial Maor Appelbaum que já trabalhou com Rob Halford em sua carreira solo. Nomes de peso que vieram a somar.
A faixa título que já havia sido apresentada para todos com o seu sensacional vídeo clipe no começo do ano antes mesmo do lançamento do cd é a cereja do bolo, com um instrumental pesado e moderno a canção representa o dinamismo entre os guitarristas: Hélio Valisc e Guilherme Bollini com a vocalista Helena, enquanto o primeiro nos surpreende cantando em tons altíssimos com uma voz acima da média, Guilherme faz os seus guturais com maestria, fazendo a cama para Helena brilhar com a sua potente voz.
O disco segue com a pesada To Your Final Breath e Forgotten que traz uma batida forte e atual lembrando em partes bandas do moderno cenário metal como Sentenced, In Flames e Mastodon.
O instrumental afiado da banda é o grande trunfo do disco, a já citada dupla de guitarristas cantores Hélio e Guilherme fazem solos bem sacados e redireciona toda a atenção da banda para os seus pesados riffs, a precisa cozinha formada por Eric Zambonini (baixo) e Tiago Catalá (bateria) também salta aos ouvidos, com tamanha competência, peso e velocidade como pode ser ouvida na canção What You Think You Feel. E Helena por sua vez em nada lembra aquela garotinha que timidamente cantava Carry On e The Final Sacrifice nos primórdios do grupo, em Times Are Changed ela soltou o seu poderoso vozeirão e me arrisco a dizer que é a sua melhor performance já registrada.
A pesada Embrace The Pain é provavelmente o maior destaque de Times Are Changed por ser toda cantada pelo Guilherme e os seus já tradicionais guturais enquanto Helena surge apenas no refrão com a sua voz doce e angelical. Outros destaques do álbum ficam por conta da sensacional e belíssima balada Save Me from Myself e da “modernosa” e pesadérrima If You Only Knew também com aproveitosa participação de Hélio nos vocais, que encerra muito bem o disco deixando um gostinho de quero mais.
O que faz o Ecliptyka em Times Are Changed além de consolidar ainda mais a sua carreira, é moldar o Heavy Metal tocando-o de forma única e inteligente, nas oito faixas do disco a banda poda os excessos que torna o gênero tão estereotipado, tornando assim a música acessível a todos mas sem perder a garra, competência e o profissionalismo.

Parabéns Ecliptyka, que venham mais turnês internacionais e reconhecimento mundial com esse trabalho fantástico.

E aproveitando a oportunidade, amanhã a banda estará fazendo o show de lançamento de Times Are Changed no já tradicional Aldeia Rock Bar em Jundiaí, e o Fila Benário Music estará por lá fazendo a cobertura completa desse grande evento.
Segue o cartaz abaixo:

cartaz

 

Pitty-Setevidas
Se eu somar todas as canções que eu gosto da cantora Pitty talvez eu não conseguiria encher um lado de uma fita K7. Nada contra a pessoa Pitty, pelo contrário acho-a uma excelente cantora e uma letrista formidável , e confesso que me surpreendi com o seu projeto Agridoce lançado no ano de 2011 na companhia do seu parceiro de banda Martin, porém em sua carreira “solo” que Pitty descamba em inúmeras referencias mas no final das contas não nos apresenta nada concreto e convincente. Sabe aquela história dos cachorros de rua que saem correndo e latindo desesperadamente atrás do carro, mas quando você freia bruscamente eles fogem com a mesma velocidade? Assim são as canções de Pitty, e assim é Setevidas o seu novo álbum lançado após cinco anos sem material inédito.
O disco vem repleto de angustia, tristeza e sofrimento, com certeza foi o material mais confessional já lançado por Pitty, levando em consideração que nesse período ela perdeu o seu grande amigo o Peu (Ex-Guitarrista da banda e que cometeu suicídio no ano passado) e também uma batalha judicial movida pelo ex-baixista Joe, além do gatinho que ilustra essa capa.
É possível pinçar algumas boas canções, como é o caso da faixa título que já virou single e bomba nas principais rádios do país. Deixa Ela Entrar, a segunda faixa do disco, tem uma pegada Poppy Punk bem interessante, Pequena Morte vem logo na sequencia e apresenta para o mundo o mais novo integrante da banda o baixista Guilherme Almeida, em uma linha de baixo engordurada e que dá tônica a canção. Importante ressaltar que Guilherme Almeida foi baixista do projeto de Martin com o Baterista Duda, e também da banda Chá de Bebê que além dos integrantes de Pitty conta também com Chuck Hipolitho do Vespas Mandarinas.
Um Leão poderia ser facilmente um grande destaque de Setevidas, mas se por um lado ela tem contratempos desconcertantes por outro ela peca pelo o excesso de experimentalismo e vocalizes desnecessários nos refrões.
O restante do álbum é aquele mais do mesmo de sempre, Pitty enxota nas canções todas as suas referencias musicais, de Faith No More a Nirvana, de Mars Volta a Muse, de Queens Of The Stone Age a Rita Lee, tudo no mesmo caldeirão mas nada em conexão, guitarras pesadas em melodias densas, arrastadas com efeitos eletrônicos nos vocais, tentando soar nervoso e maduro mas não convence.
Setevidas foi gravado todo ao vivo no estúdio e produzido pelo figurinha carimbada Rafael Ramos (Titãs, Ultraje a Rigor, Raimundos, Matanza e Dead Fish) em parceria com a lenda britânica Tim Palmer que já trabalhou com Robert Plant, Ozzy Osbourne, U2, Pearl Jam entre outros, e mesmo com a produção primorosa e todos esses atributos de luxo não vem a somar com o conteúdo apresentado.
Setevidas não é um disco ruim é apenas a Pitty sendo ela mesmo, e ai que está o problema.

Ao som de Pitty – Pequena Morte

RA FINAL COVER 1
Tive a leve impressão de que com a exceção da excelente coletânea de B-sides lançada no ano passado (Long Forgotten Songs: B-Sides & Covers (2000–2013)) o último grande álbum de estúdio que ouvi do Rise Against foi o seminal The Sufferer & the Witness lançado em 2006. E após uma audição cuidadosa de The Black Market o mais novo lançamento do já citado quarteto de Chicago chego a conclusão de que minhas tais impressões não passa de um fato concreto, o Rise Against vem decaindo a cada álbum, e isso é muito triste.
The Black Market carrega em sua sonoridade os experimentos musicais que o Rise Against vem insistindo nos últimos tempos, uma mescla de Poppy Punk, com Rock de arena e com uma leve pincelada de Hardcore melódico (com uma pincelada maior no melódico) além de corinhos, suspiros e demais artifícios fofos imagináveis em uma banda que já lançou álbuns no quilate de Revelutions Per Minute (2003) e Siren Song of the Counter Culture (2004).
Desde a abertura com The Great Die-Off o que se ouve é uma banda muito bem produzida mas que não convence, não cativa e muito menos emociona como outrora. A faixa título mesmo começa com um Punk Rock inofensivo e nos refrões se transforma em uma melodia pasteurizada que cairia como uma luva na programação de rádios Hit Parades ou até mesmo no repertório do Paramore.
Após uma audição mais cuidadosa é possível pinçar algumas boas faixas que tentam erroneamente resgatar o frescor dos velhos tempos como é o caso de The Eco-Terrorist In Me que é a unica do álbum em que Tim McIlrath solta os seus característicos berros e Awake Too Long que sustenta uma boa e veloz pegada Hardcore na introdução mas depois se perde em melodia excessiva.
O restante de The Black Market é dominado por melodias pop como é o caso das canções Sudden Life, Tragedy + Time, MethadoneA Beautiful Indifference que são boas músicas mas que encaixariam perfeitamente no repertório do Jimmy Eat World, do The Gaslight Anthem, do The Loved Ones, do We Are The In Crowd e não de uma banda que já compôs canções do quilate de Ready To Fall, Prayer of the Refugee, Give It All, State of the Union e Heaven Knows.
Lá pelas tantas temos Zero Visibility que se parece demais com Broken Mirrors do cd anterior Endgame (2011), o que transparece claramente uma imensa falta de criatividade da banda em termos de composição.
Poderia colocar toda culpa do baixo rendimento do Rise Against em The Black Market nas costas da produção, porém o disco ficou a cargo de Bill Stevenson nada mais nada menos que o baterista do Descendents e ex-baterista do Black Flag e renomado produtor que já gravou nomes como NOFX, Hot Water Music, Puddle Of Mudd, Lagwagon e produziu inclusive os dois melhores cds do Rise Against, os já citados Revolutions Per Minute e The Sufferer & the Witness. Poderia citar também a entrada do guitarrista Zach Blair na banda no lugar do Chris Chasse, já que a estréia dele foi justamente no álbum onde inicia o declino artístico do Rise Against o incompreendido Appeal to Reason (2008), mas quem esteve presente no primeiro show da banda em terras brasileiras em 2011 testemunhou um músico técnico, em forma e cheio de carisma, impossível ele mudar sozinho o direcionamento de uma banda do porte do Rise Against.
O que acontece com o Rise Against é o que ocorre de mais comum dentro do mundo do Rock: a banda surge e lança dois cds maravilhosos e já é proclamada como a “salvação do rock”, passado um tempo ela lança um álbum com uma sonoridade diferente alegando “amadurecimento musical” e insiste nesse caminho tortuoso até cansar de ser achincalhada pela mídia e pelos próprios fãs e lança um disco apelidado de “a volta as origens” e assim faz as pazes com o seu público, foi assim com o Metallica, com o Blink 182, Oasis, Foo Fighters, Pearl Jam e muitos outros. A história se repete ano a ano, só muda os protagonistas.
Esperamos que The Black Market seja o último ato desse amadurecimento desnecessário do Rise Against.

Ouça abaixo Sudden Life por conta e risco:

Ao som de Ramones – Rockway Beach