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Os Três Melhores Músicos de Todos os Tempos

Beethoven

Hoje, dia 22 de novembro, é comemorado em todo o mundo o Dia do Músico, e porque justamente nessa data? Porque é comemorado o dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos. Em sua trajetória de vida, Cecília, que sempre foi temente a Deus, tocava cítara. E quando foi capturada e condenada à morte por professar a fé cristã, ao ser colocada na câmara de gás ela entoou cânticos, antes de ter o seu pescoço quebrado.

E é nessa data tão especial que a equipe do Fila Benário Music, esse blog que respira música, preparou uma listinha com os Melhores Músicos de Todos os Tempos, segundo gosto particular de cada um. Tem pra todo mundo.

Bora curtir?


BOB DYLAN (Por Beatriz Sanz)

Bob Dylan

Bob Dylan é o maior músico de todos os tempos (na minha opinião, claro) e qualquer pessoa que me conheça ao menos um pouco, sabe que é assim que eu lido com a vida.

Mas eu já falei sobre Bob Dylan aqui, em maio, quando o cantor fez 74 anos. Então no primeiro momento em que eu fui convidada a escrever sobre o meu maior músico de todos os tempos, eu fiquei sem saber o que falar.

Lembrei então de Blonde on Blonde (1966), meu álbum favorito do cantor. Contava Dylan com seus 25 anos de idade e já havia lançado seis álbuns anteriores.

Blonde on Blonde é considerado um dos melhores álbuns de todos os tempos pela crítica e para os fãs ele é quase mítico. Na época, Dylan ensaiava uma volta ao rock’n’roll de sua adolescência e um abandono ao folk, que havia lhe deixado famoso.

Blonde on Blonde (1966)
Blonde on Blonde (1966)

A mística ao redor do disco é tão grande que envolve até mesmo a capa. Um Dylan pouco agasalhado em uma Nova York fria, aparece desfocado e tremido. Muitos críticos da época que a capa havia sido feito daquele modo para representar o efeito de drogas, como na faixa inicial do disco, Rainy Day Women #12 & 35. Porém este ano, Jerry Schatzberg, o fotógrafo que fez a capa do álbum afirmou “Era fevereiro e fazia muito frio em Nova York. Ele estava vestindo apenas uma jaqueta, assim como eu. Além disso, foi ele quem escolheu esse quadro”.

Este álbum encerra a trilogia de rock iniciada por Dylan no anterior com Bringing it all back home e Highway 61 revisited. No início do mês foi lançado The Cutting Edge 1965–1966: The Bootleg Series, Vol. 12, que conta com versões alternativas de faixas destes três clássicos discos.

Perfil - Bia Sanz - Consolas Tam. 11 - Cópia


BEETHOVEN (Por Willian Abreu)

Beethoven Capa

Os demais compositores que me desculpem. Mas quando me foi solicitado escrever um texto sobre o dia do músico o primeiro nome que me veio à mente foi o de Ludwig Van Beethoven. Mas porque será? Porque Beethoven ainda hoje exerce esse fascínio?

Eu explico. Com o perdão de Bach e Mozart, mas Beethoven foi o primeiro compositor independente, livre das amarras muitas vezes impostas aos compositores anteriores subordinados às igrejas ou às cortes reais. O fato é que a figura do compositor artista, com status de celebridade e que compõe de acordo com sua inspiração surge justamente como Beethoven.

É ideal libertário em Beethoven é muito forte, do artista livre das amarras da aristocracia para se expressar. Seu apoio à democracia e a uma sociedade livre dos imperadores sempre foi muito convicto. Certa vez ao caminhar com o grande poeta alemão Goethe, viu que o mesmo ao avistar o imperador estava pronto a se curvar quando Beethoven diz “Eles devem se curvar a nós!”.

Seu apoio a uma sociedade livre também é histórico. Ao apoiar as ideias de Napoleão Bonaparte, Beethoven dedica sua terceira sinfonia ao mesmo, porém, ao ver que Napoleão trai seus ideais libertários e ao chegar ao poder se auto declara imperador, Beethoven rasga a dedicatória e dedica-a “À memória de um grande homem”. E é nessa sinfonia que Beethoven se demonstra um verdadeiro gênio. Intitulada Eroica, sua terceira sinfonia quebra com as barreiras de tudo que foi escrito até então. Surpreendeu tanto a classe musical pela ousadia como os músicos da orquestra por sua dificuldade de interpretação. Abaixo o primeiro movimento, de cara nos dois primeiros acordes o caráter heroico como se fossem dois tiros de canhão, é sensacional.

Não podemos esquecer o fato de que Beethoven a partir da sua sinfonia de número 3 passa a sofrer com os sintomas da surdez. Imaginem o que é para um compositor sofrer com os sintomas de uma surdez que ao longo de sua vida o dominará por completo. Após pensar em desistir de tudo e mesmo na possibilidade de acabar com sua própria vida Beethoven não desiste. E mesmo com o problema de audição dá continuidade a sua obra, nos legando as mais belas e incríveis sinfonias, quartetos de cordas, sonatas para piano e muito mais.

Aqui algo também revolucionário. Em sua famosa 5ª Sinfonia, sem apresentação nenhuma Beethoven compõe uma das senão a obra clássica mais famosa de todos os tempos. Como ficar indiferente a essas notas, como se fossem o destino, o acaso batendo com violência à porta do compositor.

Os demais não preciso nem citar. Beethoven consolida o quarteto de cordas em sua forma e faz com que a escrita para essa formação seja tão complexa e bela quanto para uma orquestra.

As sonatas para piano então são um capítulo à parte, vejam a escrita vertiginosa para uma de suas sonatas mais famosas, a “Sonata ao Luar”.

Poderia ficar horas aqui falando sobre esse grande mestre. Que tornou possível aos músicos de hoje compor com liberdade e liberou a classe artística das amarras da aristocracia. Reverenciar sua vida e a obra que nos legou é sempre um grande prazer.

Parabéns a todos os músicos. E lembrem-se, se não fosse por caras como Beethoven a vida de vocês teria sido um pouquinho mais complicada.

Perfil - Willian Abreu


STEVIE WONDER (Fila Benário)

Stevie Wonder

Essa não é a primeira vez que eu exalto aqui no Fila Benário Music o meu amor, minha admiração e gratidão pela carreira e obra de Stevie Wonder. No dia do seu aniversário em 2014, eu escrevi um texto mais do que especial aqui, contando a sua trajetória, selecionando os meus discos favoritos de sua vasta discografia e listando os meus momentos favoritos de Wonder ao vivo.

Resumindo, teria mais alguma coisa para dizer de Stevie Wonder nesse blog? Sim, e sempre tem. Quando se fala de músicos, de artistas que tem conhecimento técnico que transcende as linearidades do mundo, Stevie deve sempre ser reverenciado.

Cego em decorrência do seu nascimento prematuro, Wonder, que nasceu na cidade americana de Michigan, mudou-se para Detroit com a sua mãe e os seus cinco irmãos aos quatro anos de idade. Com nove anos, Stevie já tocava Piano, Gaita, Baixo e Bateria. Explicitando que a deficiência visual nunca foi barreira para o seu aprendizado musical e a manifestação da sua arte.

Aos 11 anos de idade, Stevie é descoberto por Ronnie White, cantor do grupo The Miracle, e o mesmo levou o pequeno Wonder para a gravadora Motown e exigiu que o garoto fosse contratado. Berry Gordy, dono da célebre gravadora, assinou mais do que depressa o contrato do garoto, e sob a alcunha de Little Stevie Wonder o mesmo lançou os discos The Jazz Soul of Little Stevie Wonder (1961) e Tribute to Uncle Ray (1962), esse último, interpretando canções do seu grande ídolo, Ray Charles. E a Motown esperta como ela, usou da cegueira de ambos para criar um parentesco de tio e sobrinho.

E o resto da história você já conhece, Stevie Wonder se tornou um dos maiores artistas de todos os tempos, uma lenda viva. Com 54 anos de carreira, Wonder tem 26 discos de estúdios lançados, 30 sucessos de sua autoria já alcançaram o Top Ten da Billboard, além de ser o artista recordista de prêmios Grammy, 25 ao todo, sendo três deles de melhor álbum do ano (Innervisions ‘1973’, Fulfillingness’ First Finale ‘1974’ e Songs in the Key of Life ‘1976’).

A partir do disco Music of My Mind (1972), Stevie Wonder passa a assinar a produção dos seus discos e toca praticamente todos os instrumentos na maioria das faixas. O álbum seguinte, lançado no mesmo ano, o aclamado Taking Book, com exceção das guitarras, Stevie precisamente “assobiou e chupou cana” em todas as músicas.

Stevie Wonder foi um dos primeiros artistas negros a quebrar a barreira que existia entre a música negra e o Rock N’ Roll chegando a canções de bandas como The Doors, Beatles e Bob Dylan, além de excursionar junto com os Rolling Stones, participar de algumas jams musicais ao lado de John Lennon em sua carreira solo e gravar ao lado do outro Beatle, Paul McCartney, a canção Ebony and Ivory.

O legado de Stevie Wonder na música transcende as barreiras do R&B e da música Pop, claro que toda essa nova geração do gênero, como, Beyoncé, Jay Z, Alícia Keys, Katie Melua, Adelle, Kayne West, Pink, Emma Button, Christina Aguilera, e Esperanza Spalding, citam Stevie como influência suprema. O rapper Coolio, aliás, foi um dos responsáveis por disseminar o nome de Stevie Wonder para uma geração mais nova nos anos 90 ao samplear a música Pastime Paradise de Wonder em sua canção mais famosa, Gangsta’s Paradise.

Uma das versões mais tocantes que ouvi de For Once In my Life, fora a do próprio Wonder, foi a da cantora texana Dara Maclean

Além da versão arrasa quarteirão da contrabaixista e lindíssima, Esperanza Spalding, para Overjoyed.

Mas o que dizer de nomes do Rock que tem Stevie Wonder como influência?

Mike Patton do Faith No More nunca escondeu de ninguém que é fã de Stevie Wonder, e na turnê de volta do grupo em 2010, a banda sempre tocava um trechinho de Sir Duke no meio de Midlife Crisis.

O Red Hot Chili Peppers, um dos precursores do Funk Rock nos anos 80, fez essa versão surreal de Higher Ground de Wonder, no álbum Mother’s Milk.

E até os “Bad Brothers” do Oasis plagiaram na cara dura o refrão de Uptight de Stevie Wonder na música Step Out. Stevie entrou na justiça, ganhou a causa e entrou como co-autor da canção.

E grandes dinossauros da música se renderam a obra de Stevie Wonder, além dos já citados Lennon e McCartney, e da galera dos Stones, Glenn Hughes, o mestre do baixo do Trapeze e do Deep Purple já confidenciou ser fã número 1 de Wonder, e vira e mexe toca o clássico Superstition em seus shows.

E até o todo poderoso Frank Sinatra, que tinha um gosto musical mais do que exigente, se rendeu aos encantos musicais de Stevie Wonder.

A minha devoção por Stevie Wonder começou desde a infância, graças a minha mãe que era aficionada pelo músico e tínhamos em nossa coleção de discos os álbuns mais célebres de sua carreira, com certeza foi o primeiro artista que eu ouvi e o meu primeiro grande ídolo na música.

Eu tinha 7 anos quando Stevie veio para o Brasil e se apresentou no Free Jazz Festival, em 1995, driblei o sono e assisti vidrado a apresentação do músico que foi televisionada pela Globo, gravamos em VHS que era assistido por mim religiosamente todos os dias.

Já contei no outro texto sobre Stevie, mas na época na pré-escola, nas sextas-feiras, as crianças levavam brinquedo e lanchinho, e nesse caso poderíamos levar os nossos discos favoritos para tocar na vitrola enquanto a gente brincava, ao contrário de todos os meus coleguinhas que levavam Ursinho Pimpão, a trilha sonora da Tv Colosso, Xuxa e outras sonoridades infantil da época, eu levei o Characters (1987) de Wonder para a surpresa da minha professora.

Se eu pudesse listar as minhas cinco músicas favoritas de Wonder, eu ficaria com essas:

1 – Superstation
Um hino, um clássico soberbo da música americana e mundial.

2 – Sir Duke
A grandiosa homenagem de Stevie ao jazzista Duke Elligton. Canção swingada, pesada e com uma das melhores linhas de baixo que eu já ouvi na vida.

3 – Superwoman (Where Were You?)
Um verdadeiro encontro do Jazz com a Bossa Nova, que Stevie sempre reverenciou, em uma canção fabulosa e com o final viajante.

4 – We Can Work It Out
É possível um cover dos Beatles ficar melhor que a sua versão original? SIM!!! E nessa versão tem Paul McCartney assistindo tudo boquiaberto.

5 – Ribbon In The Sky
A love song mais linda de todos os tempos, gravada exclusivamente para a coletânea Original Musiquarium I (1982), tem o seu final estendido no qual Stevie Wonder improvisa maravilhosos solos no piano, provando definitivamente porque é o maior músico de todos os tempos.

E se você nunca teve contato com a obra de Stevie Wonder e quer começar com um EXCELENTE álbum, já caia de cabeça no duplo e histórico Songs in the Key of Life (1976), tudo que você precisa saber e conhecer sobre esse grande artista está nesse disco.

Songs In the Key of Life (1976)
Songs In the Key of Life (1976)

Na edição do Grammy desse ano, Stevie Wonder foi o grande homenageado da edição, com uma apresentação contando com Beyoncé (Linda pra Ca***), Ed Sheeran e grandioso guitarrista texano Gary Clark Jr.

E pra fechar a idolatria, pega esse vídeo de Wonder tocando bateria na juventude e veja que eu não sou fã dele atoa.


Parabéns a todos os músicos, que com esse dom precioso conseguem levar alegria e entusiasmo aos nossos corações.

 

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Willian Abreu Fala

Orquestra Sinfônica Municipal e Coral Lírico interpretam o ‘Réquiem de Verdi’ no Theatro Municipal

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Por Willian Abreu

A palavra Réquiem em latim pode ser traduzida literalmente como “descanso” ou “repouso”.

Dentro da liturgia católica a Missa de Réquiem é oferecida para o repouso da alma de uma ou mais pessoas falecidas. Segue a forma do Missal Romano e é celebrada na ocasião do funeral ou homenagem póstuma.

Dentro da história da música muitos compositores tomaram por encomenda a composição de peças em forma de missa, seja solene ou fúnebre, onde o compositor trabalha sobre o texto (no rito católico em latim) de maneira a transformá-lo em música. Temos, portanto uma missa cantada de forma completa.

De Bach a Villa-Lobos o repertório de composições realizadas sobre o texto católico é imenso. Mozart escreveu diversas missas, e uma de suas composições mais famosas é uma Missa de Réquiem, a qual não se sabe ao certo quem foi o autor da encomenda, mas Mozart trabalhou nessa missa durante um tempo e não conseguiu termina-la antes de sua própria morte. É uma das obras mais enigmáticas do repertório clássico e envolta em muito mistério. Após a morte do compositor foi concluída por um de seus alunos e é uma das peças fundamentais do repertório clássico.

O fato é que ao longo do tempo os homenageados por essas missas caíram um pouco no esquecimento e a música permaneceu no repertório, sendo que hoje não necessariamente essas peças são executadas na ocasião de morte de alguém ou para homenagear uma pessoa que já morreu, mas devido à beleza, complexidade e riqueza de orquestração muitas dessas missas fazem parte do repertório das orquestras e são programadas dentro das temporadas regulares dos teatros.

Seguindo essa linha, o grande compositor italiano Giuseppe Verdi compôs por ocasião da morte do poeta, também italiano, Alessandro Manzoni uma missa de réquiem que foi estreada em 22 de maio de 1874 um ano após a morte do escritor como homenagem póstuma.

Sobre o texto católico Verdi realiza uma composição com uma carga dramática intensa em todas as passagens. É impossível não notar o caráter operístico de sua Missa de Réquiem. Como grande compositor de ópera que foi, Verdi compõe para uma grande orquestra, coro duplo e 4 solistas vocais. Sua missa é composta por passagens corais gigantescas, duetos, trios e quartetos com os solistas que são de uma beleza incrível.

Nesta última quinta-feira (05/11) estive no Theatro Municipal de São Paulo para acompanhar a apresentação dessa grande obra. Subiram ao palco a Orquestra Sinfônica Municipal acompanhada pelo Coral Lírico do Theatro Municipal e pelos solistas Lidia Schaffer mezzo-soprano, Elaine Morais soprano, Fernando Portari tenor e Carlos Eduardo Marcos baixo-barítono todos sob regência do maestro John Neschling.

Antes de entrar nos pormenores da interpretação paulistana mostro abaixo a descrição da peça:

  • Requiem:
    • Requiem e Kyrieeleison (coro, solistas)
  • Dies irae:
    • Dies irae,
    • Tuba mirum, Mors stupebit(coro, baixo)
    • Liber scriptus(mezzo-soprano, coro)
    • Quid sum miser(soprano, mezzo-soprano, tenor)
    • Rex tremendae majestatis(solistas, coro)
    • Recordare(soprano, mezzo-soprano)
    • Ingemisco(tenor)
    • Confutatis(baixo, coro)
    • Lacrimosa(solistas, coro)
  • Ofertório(solistas):
    • Domine Jesu Christe
    • Hostias et preces
  • Sanctus(coro duplo)
  • Agnus Dei(soprano, mezzo-soprano, coro)
  • Lux aeterna(mezzo-soprano, tenor, baixo)
  • Libera me(soprano, coro):
    • Libera me
    • Dies irae
    • Requiem aeternam
    • Libera me

Devo dizer que a interpretação não me agradou por completo, a peça demanda uma orquestra grande e um coral com pelo menos 80 vozes e solistas de fôlego. A Orquestra Sinfônica Municipal sob regência de seu maestro John Neschling proporcionou momentos de grande beleza, mostrou que tem força suficiente para encarar o poderoso Dies Irae mas também sutileza ao iniciar a execução em pianíssimo (tocando bem baixo) no começo da peça, onde contrabaixos e violoncelos fazem uma breve introdução para acolher a entrada do coro cantando em um sussurro “Requiem Aeternam, dona eis Domine” (Descanso eterno, dai-lhes Senhor).

O sussurro no coro é interrompido por uma entrada forte do tenor entoando a parte inicial do Kyrie, devo dizer que houve problemas sérios na entrada do tenor Fernando Portari com relação à afinação. Aqui Verdi faz com que todos os solistas entoem um após o outro o Kyrie eleison (Senhor tende piedade) o baixo-baritono Carlos Eduardo Marcos, a soprano Elaine Morais e a mezzo-soprano Lidia Schaffer tiveram desempenho correto, porém, me pareceu haver certo desequilíbrio nas interpretações.

Encerrada essa parte o coro entra forte entoando o Dies Irae (Dia da Ira do Senhor onde tudo terminará em cinzas), devo destacar o bom desempenho da orquestra e do coro que realizaram uma bela interpretação. Após o Dies Irae a obra se torna completamente operística, a exigência de Verdi para os cantores solistas é imensa e a meu ver faltou à direção do espetáculo selecionar cantores com maior capacidade vocal. Para uma obra dessa magnitude digamos que uma orquestra com 70 músicos mais 80 coralistas seja uma barreira praticamente intransponível para solistas de pouca potência vocal.

Em muitas passagens era visível o esforço dos solistas para serem ouvidos perante uma massa orquestral tão intensa. Nas passagens onde haviam os belíssimos duetos, trios e quartetos escritos por Verdi para os solistas não pareceu haver qualquer interação na interpretação, soando um pouco frio. No Recordare espera-se um entrosamento entre soprano e mezzo-soprano que não houve.

O Ingemisco é uma parte solo para o tenor, Fernando Portari foi correto e devo dizer que diminui um pouco o estrago que fez no começo da peça. No Confuntatis parte solo para o baixo-barítono me pareceu um pouco tenso o cantor Carlos Eduardo Marcos, no Liber Scriptus parte solo para a mezzo-soprano faltou a Lidia Schaffer potência vocal para alcançar as notas mais altas.

Fiquei especialmente decepcionado com a interpretação da parte final, o Libera Me, onde deve brilhar a voz da soprano solista. Uma interpretação apagada da Elaine Morais que não esteve à altura de seu desafio ou simplesmente estava poupando a voz para o concerto do dia seguinte.

De maneira geral valeu ter ido ao concerto para acompanhar uma obra dessa magnitude com um elenco 100% nacional. Devo dizer que todos são grandes cantores e com muito potencial, porém, uma obra pesada como essa exigiria cantores mais robustos.

A vida de quem acompanha a música clássica é assim mesmo, dias muito bons e dias mais ou menos. Quando voltamos pra casa pensando: Poxa, achei que poderia ter sido melhor.

Veja abaixo alguns vídeos do Réquiem de Verdi em diversas apresentações:

Perfil - Willian Abreu

Willian Abreu Fala

Música de cinema (Parte 2)

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Confira abaixo a segunda parte do especial sobre a música no cinema, com o nosso expert em música clássica: Willian Abreu.

Caso tenha perdido a primeira parte, acompanhe aqui.

Por Willian Abreu

É inegável a capacidade que os Estados Unidos da América têm de disseminar sua cultura mundo afora, isso não é novidade para ninguém. Mas o que muitas pessoas não sabem é que os americanos sempre investiram no enriquecimento de sua cultura.

Sempre tiveram a consciência de o que diferencia uma grande nação é a capacidade de produzir cultura. Nesse sentido estamos falando de boa produção artística em música, artes plásticas e dramaturgia.

Assim como o Brasil, a capacidade dos americanos de produzir uma cultura própria foi o que fez com que o país deixasse o status de colônia. Por aqui esse processo foi mais tardio, mas mesmo assim aconteceu.

Para adquirir o conhecimento que em muitos campos não tinham, os americanos foram buscar além de suas fronteiras pessoas que estivessem dispostas a ajudar no processo de criação dessa nova nação. Isso aconteceu de maneira muito forte no campo científico e artístico.

Só como exemplo, Albert Einstein, o grande cientista alemão, foi por muito tempo um dos queridinhos da América. Suas visitas ao país foram sempre muito esperadas. Em uma delas, em 1933, Einstein resolveu não voltar para a Alemanha onde Hitler já havia chegado ao poder. Contribuiu muito com as universidades americanas. Imaginem ter um cientista desse porte com residência no país. Posteriormente obteve a cidadania americana e lá permaneceu até sua morte em 1955.

No campo musical não foi diferente. Antonín Dvorák, o grande compositor tcheco viveu durante muitos anos nos Estados Unidos, onde contribuiu com o desenvolvimento dos compositores e das orquestras daquele país. Emigrou para os Estados Unidos em 1892 aceitando um convite para dirigir o Conservatório de Nova Iorque. Muitas de suas obras mais famosas foram compostas naquele país. Sua famosíssima Sinfonia nº 9 “Do Novo Mundo” descreve o impacto que Dvorak teve ao chegar a uma América fervilhante em pleno crescimento e é peça fundamental do repertório das grandes orquestras.

Antonín Dvorák
Antonín Dvorák

Aqui um trechinho do último movimento da sinfonia interpretado pela Filarmônica de Nova Iorque sob-regência do grande Lorin Maazel.

No cinema não foi diferente. Assumimos claro que os Estados Unidos não foram os pioneiros do cinema e nem o único país com grandes produções, porém, é necessário reconhecer que os americanos transformaram o cinema na grande indústria que é hoje e é inegável a sua influência. Mas o cinema americano contou com a colaboração de muitos estrangeiros para dar mais vida às suas produções cinematográficas.

O austríaco Erich Wolfgang Korngold foi um dos pioneiros de Hollywood. É considerado o pai da música de cinema moderna. De ascendência judaica, Korngold muda-se com a mulher e os filhos para Hollywood em 1934. Sua colaboração para a indústria cinematográfica é incontestável. Em 1938, ganha o seu primeiro Oscar pelo trabalho na partitura para o filme Robin Hood.

Erich Wolfgang Korngold
Erich Wolfgang Korngold

Nesse trecho reparem no tema heroico da personagem e na vivacidade da música. Voltando ao meu texto anterior, lembrem um pouco de Wagner. Reparem na grande orquestra e o quão moderna e virtuosa é essa composição realizada na década de 30 do século XX.

O pioneirismo da música de Korngold pavimentou e facilitou muito as coisas para quem veio depois.  Suas composições são um divisor de águas no cinema.

Mas como eu disse os grandes filmes e as grandes trilhas não são privilégio dos americanos. Vale destacar o grande momento que o cinema italiano viveu até meados do século XX.

Nino Rota foi grande colaborador do grande cineasta italiano Federico Fellini. Mas também colaborou e fez história em Hollywood. Rota assina a trilha, nada mais nada menos, do que de O Poderoso Chefão de Francis Ford Copolla uma das obras primas do cinema e uma das trilhas mais conhecidas.

Outro italiano que colaborou muito com o cinema americano foi Ennio Morricone. São Mundialmente conhecidas as suas composições para os “spaghetti” (filmes de faroeste produzidos por diretores italianos) de Sergio Leone. A música de Morricone é extremamente original e belíssima.

Ennio Morricone
Ennio Morricone

Aqui uma de suas mais famosas obras, The Ecstasy of Gold composta para o filme Três Homens em Conflito  de Sergio Leone que tinha no elenco Clint Eastwood. Muito conhecida também por ser introdução dos shows do Metallica. No primeiro vídeo a incrível interpretação da Orquestra Sinfônica de São Francisco regida pelo maestro Michael Kamen na abertura do show do Metallica em 1999. Coloco também a versão original regida pelo próprio Morricone em um concerto em homenagem à sua obra.

Reparem no caráter épico da música de Morricone principalmente na versão regida pelo compositor. Nos filmes do Sergio Leone a trilha sonora de Morricone tem papel protagonista. Essa versão é sensacional. Reparem na grandiosidade de sua música.

Aqui mais um tema famoso regido pelo próprio Morricone. Dispensa apresentações.

Até o momento estamos falando das grandes trilhas de cinema de meados dos anos 30 até meados dos anos 60. Mas em tempos de tanta mudança como foram os anos 60 e 70 em todos os sentidos, desde os movimentos hippie e toda a liberdade sexual a partir dali, vimos no cinema uma grande fase de experimentalismo, principalmente com a introdução dos sintetizadores e da música eletrônica. Em alguns filmes perdeu-se muito do que foi conquistado e, muitas vezes, por uma questão de redução de custos se optava por uma trilha completamente sintetizada (a meu ver sem vida).

Claro que isso não foi unanimidade. E temos muitas boas composições nesse período. Porém no final dos anos 70 John Williams foi o grande responsável pela volta das grandes composições para cinema.

John Williams
John Williams

O trabalho de Williams em Hollywood começa no início dos anos 60, mas o sucesso vem com a parceria com Steven Spillberg principalmente para a trilha do filme Tubarão de 1975. Vejo em John Williams a mesma originalidade de Korngold, Rota e Morricone. Sua música é original e como nos casos anteriores é sempre protagonista nos filmes.

No vídeo abaixo um trecho da composição para o filme Tubarão regida pelo próprio Williams. Além de ter todas as qualidades que verificamos nos compositores anteriores é incrível como esse acorde nos contrabaixos nos leva diretamente para a lembrança do ataque dos tubarões.

Lembra-me o artigo anterior quando comentei sobre os motivos tema (leitmotiv) de Wagner, onde assimilamos imediatamente a música ao personagem. Williams se utiliza da mesma técnica só que de maneira extremamente original. Suas composições são obras primas assim como as óperas de Wagner.

Só para se ter uma ideia, o acorde em Si bemol maior mais conhecido da história da música não é de uma sinfonia de Beethoven ou de uma ópera de Wagner, mas sim da abertura do tema principal de Star Wars de George Lucas. O Filme já começa grandioso, com aquele acorde em Si bemol maior explodindo como uma Supernova na orquestra.

É até hoje uma das, ou senão, a mais conhecida trilha sonora. Nem é preciso falar do caráter épico da música ou de como é bem escrita e orquestrada. O tema nos metais é de arrepiar.

Aqui uma versão com uma das melhores orquestras do mundo, a Filarmônica de Viena, em uma interpretação eletrizante. Em seguida a mesma trilha regida por John Williams.

Entre as duas versões eu fico com as duas. Coloco as duas só pra mostrar como a música ainda é atual. Reparem no virtuosismo dos violinos e como a partitura é exigente para metais e percussão.

Claro que o universo das trilhas de John Williams é muito vasto. Não se podem deixar de lado as trilhas de Indiana Jones, Harry Potter, E. T, Jurassic Park e mesmo Esqueceram de Mim, que são trabalhos extremamente originais.

O cinema deve muito a esse grande mestre que trouxe ao cinema mais brilho, emoção e fez muitos de nós sair do cinema assoviando a trilha do filme. Seu trabalho continua, vem aí Star Wars Episódio VII, George Lucas pode até ter deixado a direção dos novos filmes, mas John Williams está lá assinando a música.

Para finalizar acredito que seja necessário ressaltar o trabalho de Howard Shore, outro grande compositor. Recentemente uma das melhores trilhas que pude ouvir foi a que ele compôs para a trilogia O Senhor dos Anéis. Que o filme foi uma grande empreitada do diretor Peter Jackson todos sabemos. Filmado nas incríveis paisagens da Nova Zelândia e um recordista de Oscars o filme não sairia vencedor sem uma trilha de nível tão alto.

Howard Shore
Howard Shore

Howard Shore explora profundamente o universo do filme, é uma trilha extremamente bem orquestrada, grandiosa. Requer grande orquestra, instrumentos utilizados especialmente para as gravações como um violino norueguês, um coro gigantesco cantando no idioma élfico criado pelo próprio J.R.R Tolkien escritor dos livros.

Shore tem todas as grandes qualidades dos compositores citados aqui e mostra que a música de cinema ainda pode ser grande e original dando sequencia ao legado dos grandes compositores. É daquelas trilhas que quando se ouve dá saudade do filme e daquela sensação de ter saído do cinema completamente satisfeito.

Aqui uma das minhas partes preferidas. Do filme As Duas Torres, a Batalha no Abismo de Helm.

Aqui os excertos da trilha regidos pelo próprio Howard Shore, grande orquestra, coral e grande música.

Há algum tempo já não ouço uma trilha sonora original de presença. Numa época de mesmice em Hollywood e no cinema mundial fica difícil destacar algum trabalho. E há tempos não saio do cinema com a trilha sonora do filme na cabeça. Hoje qualquer filme vira trilogia. O recente Vingadores fechou franquia para três filmes, 50 tons de cinza três e por aí vai. Enquanto isso fico à espera do próximo John Williams.

Perfil - Willian Abreu

Willian Abreu Fala

Prelúdio à Música de Cinema

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Por Willian Abreu

Devido aos lançamentos de grandes blockbusters nesse mês como Velozes e Furiosos e Os Vingadores trago um texto sobre a música de cinema. Porém, acredito ser importante voltar um pouquinho no tempo e levantar, além de sua origem, um pouco da base que os grandes mestres deixaram pronta para que os compositores modernos como John Williams pudessem criar as grandes trilhas que fazem parte dos nossos filmes favoritos. Farei em dois textos para que melhor compreensão. Espero que gostem.

A música como a primeira das artes vem sendo desenvolvida por séculos a fio com a finalidade de entreter, contar uma história, representar uma atividade cotidiana ou simplesmente transformar os sentimentos humanos em som.
Ao longo do processo de evolução de nossa espécie desenvolvemos a capacidade de contemplar e buscar respostas para todos os fenômenos que encontramos na natureza. O ser humano é o único dos animais que tem “a consciência do ser”, busca respostas e até mesmo contesta e procura definir sua própria existência.
Acredito que a necessidade de nos expressarmos através da música vem pelo dom de poder observa-la na natureza e criar algo característico para nossa espécie, afinal de contas todas as culturas buscam maneiras das mais variadas de se expressar através da música.
Maior ainda foi a capacidade de transformarmos a música em uma ciência. Calma aí Willian. Ciência?

Sim, pois não é a música capaz de ser representada matematicamente? Suas regras e equações não são tão desenvolvidas como as leis da física?

A partir do momento que temos como representar matematicamente a música, escrevê-la e definir as leis que a compõe pode-se desenvolver uma infinidade de combinações de som que representam o que o compositor deseja passar ao ouvinte.
Bach consegue através de sua música representar, por exemplo, “A Paixão Segundo São Mateus”, onde transforma o texto bíblico em um marco da música ocidental. Sua composição vai além da liturgia e é capaz de expressar o sentimento contido nas escrituras em todas as suas passagens.

Johann Sebastian Bach
Johann Sebastian Bach

É uma obra de arte completa, que na ocasião foi composta para ser apresentada na Sexta-feira da Paixão do ano de 1727. Bach era um homem a frente de seu tempo, sua música sobrevive até os dias de hoje e a sua Paixão Segundo São Mateus ganha as salas de concerto e igrejas de todo o mundo principalmente na semana da Páscoa Cristã. Mas acredito que sua linguagem musical vá além de qualquer religião, a obra em si liberta-se do contexto religioso e independente se você é católico, protestante, judeu ou não tenha religião é praticamente impossível ser insensível à música de Bach.

Aqui um A Paixão Segundo São Mateus em versão completa e legendas em português. Para quem não puder ver o vídeo completo vale a pena se deliciar com a música de Bach nos primeiros 5 minutos.

Um pouco mais tarde no ano de 1797, já no período do Classicismo, Haydn compõe o seu oratório “A Criação” onde sintetiza toda a natureza contida nas palavras do Gênesis em música. Claro, esse tipo de composição não era exclusividade de Bach e Haydn, mas Bach no período barroco estabelece todas as bases de composição para quem vem a seguir, já Haydn no período clássico consolida essa base para quem vem depois.

É importante destacar que o período que vai do início do século XVII até a primeira metade do século XX foi muito fértil para a música, é onde a música atinge seu ápice e é onde os compositores modernos buscam inspiração.

Avançando um pouquinho no tempo Beethoven (sempre ele) dá um passo à frente com a sua Sinfonia nº6 “A Pastoral” considerada precursora da música programática. Foi composta em um período em que a surdez de Beethoven já estava em estado mais avançado e ele se refugia no campo. A sinfonia descreve em cada um dos seus cinco movimentos a sensação experimentada por Beethoven no ambiente rural.

Vejamos a descrição de cada um deles:

  1. Allegroma non troppo (em forma-sonata) – “Despertar de sentimentos alegres diante da chegada ao campo”
  2. Andante moltomosso – “Cena à beira de um riacho”
  3. Allegro – “Dança campestre”
  4. Allegro – “A tempestade”
  5. Allegretto – Hino de ação de graças dos pastores, após a tempestade

Vejam que cada movimento descreve algo específico, programado, não é música abstrata. Musicalmente foi muito impressionante para a época e pavimentou o caminho para o que seria feito depois.
Esse é um dos trechos mais famosos. A tempestade. O som nos violoncelos e contrabaixos são as nuvens se aproximando e logo em seguida os trovões na percussão. Sensacional.

Mas algo surgiu na metade do século XIX que revolucionou a música. Richard Wagner.
Wagner cria uma verdadeira revolução e representa ainda hoje o novo. Sua música revolucionária rachou o meio musical entre os que veneravam o passado e os que viam em Wagner a expressão da arte do futuro.
Wagner estabeleceu o que ele mesmo chamou de “Obra de Arte Total”. Suas Óperas buscavam a interação entre música, canto e artes plásticas em uma maneira de expressão completa. É com Wagner também que o conceito de leitmotiv se consolida, sendo o leitmotiv uma técnica de composição empregada em suas óperas onde um ou mais temas são apresentados na música e caracterizam os personagens em cena. O leitmotiv é o tema, a alma musical de cada personagem, e é repetido ao longo de toda a ópera quando o personagem entra em cena ou é citado.

Richard Wagner
Richard Wagner

Wagner amplia a orquestra utilizada em suas produções operísticas. Enquanto em uma sinfonia de Beethoven trabalham em média 60 músicos, nas óperas de Wagner os integrantes somente da orquestra podem chegar a 120 músicos. Além da grandiosidade musical Wagner cria instrumentos para caracterizar as suas obras. A Tuba Wagneriana, por exemplo, é um instrumento de metal concebido especialmente para as composições de suas óperas.
Sua música é tão rica que pode ser completamente separada e apresentada sem os cantores, é um personagem a parte em suas obras e tem vida própria, não existe somente para acompanhar os cantores ou o coro.

As óperas de Wagner tem caráter cinematográfico, mesmo antes de o cinema existir, unem música grandiosa, canto, cenários magníficos e uma direção de cena digna das grandes produções de Hollywood. Aos cantores não cabe apenas o cantar, mas também a atuação no palco. Assistir a uma de suas óperas é como ir ao cinema, só que ao vivo.
Aqui a abertura da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberg uma obra prima interpretada pelo grande maestro LorinMaazel.

E esse um trecho da famosa Cavalgada das Valquírias que foi inclusive utilizado em um trecho do filme Apocalypse Now. Aqui na produção cinematográfica da Ópera de Copenhagen, detalhe, orquestra e cantores como de costume sem amplificação eletrônica.

Bach, Haydn, Beethoven e Wagner são a fonte na qual os compositores modernos sempre buscam inspiração.
Portanto, sempre que forem ao cinema lembrem que por mais sofisticada que seja a trilha sonora do filme ela nada de braçada na fonte que os grandes compositores do passado deixaram.

No próximo artigo: A Música de Cinema

Perfil - Willian Abreu

Willian Abreu Fala

A nossa Sala São Paulo entre as 10 Melhores do Mundo

Sala SP
Tão importante quanto a qualidade de uma orquestra é a qualidade acústica do local em que ela se apresenta.
Isso porque os grupos orquestrais em qualquer que seja a sua formação se apresentam sem o auxílio de amplificação por caixas acústicas, portanto, o som emitido é o que sai diretamente do instrumento e incluído na categoria instrumento temos também a voz humana, pois em uma apresentação de ópera, por exemplo, o cantor não conta com um microfone para amplificar a sua voz, mas sim com técnicas de emissão e sua potencia vocal.
Não é usual a amplificação dos instrumentos de uma orquestra porque se perde muito da clareza do som, das nuances e do equilíbrio que se deve ter entre os instrumentos para uma boa execução. É claro que há exceções, nas apresentações ao ar livre em concertos mais populares a amplificação eletrônica é indispensável, porque do contrário o som da orquestra não chegaria a todos os espectadores, porém, o ideal é apreciar o concerto no espaço que tem essa finalidade. Da mesma maneira que uma peça de teatro se desenvolve melhor dentro do próprio teatro, um concerto se desenvolve muito melhor dentro de um espaço adequado acusticamente para isso.
Esses espaços são os teatros e as salas de concerto, construídos unicamente com essa finalidade e pensados para abrigar uma orquestra ou uma companhia de ópera por exemplo.
No Brasil temos inúmeros teatros destinados ao teatro de prosa por conta da tradição do teatro brasileiro e de sua excelente qualidade. Mas os espaços destinados exclusivamente à música de concerto são mais raros.
O Theatro Municipal de São Paulo construído no início do século XX foi pensado para ser uma grande casa de ópera. E cumpre esse papel até os dias de hoje. Mas foi por muito tempo a principal sala de concertos da cidade de São Paulo. Qualquer grande orquestra estrangeira que passasse pelo Brasil tinha como destino o grande teatro com capacidade para aproximadamente 1500 pessoas. Porém, apesar de ser ideal para a montagem das óperas o espaço não é completamente adequado para apresentação somente de orquestra.
Por todo o Brasil a história se repetia, grandes teatros como o Municipal do Rio de Janeiro, o Palácio das Artes em Minas Gerais, o Teatro Amazonas e o Teatro da Paz em Belém são muito bons para a apresentação de óperas, mas não tão adequados para a apresentação somente de uma orquestra ou um pequeno grupo de câmara.
No dia 9 de Julho de 1999 a situação mudou. São Paulo inaugurou a primeira grande sala de concertos da América Latina, a Sala São Paulo com capacidade para aproximadamente 1500 pessoas, um espaço moderno, tratado acusticamente para receber apresentações desde um piano solo até formações com uma orquestra de 150 músicos.
Sua construção foi realizada durante o governo Mário Covas como parte do processo de reestruturação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
Por anos a fio a OSESP esteve jogada às traças. Fundada nos anos 50 a principal orquestra do estado não tinha sede própria, seus músicos não eram contratados pelo regime da CLT e havia uma desmotivação geral dentro do grupo que por um período chegou a ensaiar no restaurante do Memorial da América Latina.
Em 1997 com o apoio do então Secretário de Cultura Marcos Mendonça deu-se início ao projeto de reestruturação da orquestra. Ficou a cargo do maestro carioca John Neschling que até então estava radicado na Europa comandar todo o processo de reestruturação.
As condições impostas pelo maestro para assumir a empreitada foi a de pagar salários aos músicos no nível das grandes orquestras internacionais e a construção de uma sede própria, uma casa para a orquestra, um espaço destinado às suas apresentações e aos seus ensaios.
A orquestra passou então por um período profundo de reestruturação, com a contratação de mais músicos, a avaliação dos músicos que já compunham a orquestra, a reformulação completa do seu sistema de gestão e um trabalho muito minucioso do maestro na melhora da qualidade artística da orquestra.
Na procura de um espaço para abrigar a futura sede da OSESP foi encontrado, seja por ironia ou não, um espaço ideal para receber a futura sala. O pátio ao ar livre da estação Júlio Prestes.
O espaço tinha as dimensões ideais para a construção de uma sala de concertos, seu formato do tipo caixa de sapato se mostrava ideal para a realização do projeto.
Deu-se início a construção e no dia 9 de Julho de 1999 a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica de Estado de São Paulo foi inaugurada.
São Paulo ganhou um espaço moderno, de acústica incrível para a apresentação de sua orquestra e que também recebe até hoje as melhores orquestras do mundo em visita ao país.
A OSESP evoluiu muito desde então e se tornou modelo para as demais orquestras do país. Graças ao trabalho realizado em São Paulo podemos ver hoje a construção de salas de concerto no Brasil como a sala que passou a abrigar a Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro na Cidade das Artes na Tijuca e a bela Sala Minas Gerais inaugurada no último mês e que passa a ser sede da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

E na última semana veio a consagração da Sala São Paulo como uma das 10 melhores salas de concerto do mundo em ranking feito pelo jornal britânico The Guardian.
O respeitado especialista em acústica inglês Trevor Cox percorreu o mundo avaliando dezenas de salas de concerto. Suas visitas foram feitas de surpresa sem que as instituições soubessem de sua presença.
A Sala São Paulo foi a única sala da América Latina citada no ranking, para se ter ideia, dentre as 10 melhores estão o imponente Berlin Philharmonie sede da Filarmônica de Berlin, o Musikvereinssaal casa da Filarmônica de Viena  e o Philharmonie de Paris casa da Orquestra de Paris.
O jornal destaca ainda a beleza arquitetônica da sala construída em uma estação de trem e o teto móvel que ajusta a acústica da sala para que ela possa receber desde pequenas formações até grandes orquestras.
Eu como melômano já estive muitas vezes na Sala São Paulo e posso dizer que cada concerto realizado ali é especial. A qualidade da música que se faz ali é indiscutível. Para quem ainda não conhece vale a pena apreciar esse tesouro no centro velho de São Paulo. E claro, é motivo de orgulho para todos nós termos um espaço deste nível disponível para a população.

Em Tempo: Veja essa matéria de 2012 do Jornal da Globo falando sobre a Sala São Paulo e a OSESP

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As mulheres que amamos no mundo da música

Mulheres
Dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher, e o Fila Benário Music vem pra lá de especial.
Mas não vamos aqui dar um florzinha para cada uma de nossas leitoras, afinal de contas muito mais do que flores e chocolates, as mulheres precisam é de respeito diário e principalmente de conquistar o espaço que lhe é de direito.
Portanto gostaríamos de nesse singelo blog homenagear as mulheres mais importantes do mundo da música, e que elas sirvam de inspiração para cada uma, como exemplo de persistência, integridade e paixão no que faz.
Cada um dos colunistas do Fila Benário Music, escolheu a sua musa inspiradora, dentro do seu estilo musical favorito, e falou o porquê que ela é a melhor de todos os tempos.

Segue abaixo


 

BEYONCÉ KNOWLES (Por Beatriz Sanz)
Beyoncé
Este nome é quase definitivo quando se fala de música contemporânea. Seu trabalho não deixa dúvidas da artista que ela é.
Sorte ela não ser só mais uma artista famosa. Queen B. é a cantora mais influente do mundo, segundo a Forbes. Tanto que o canal vh1 lhe deu o terceiro lugar no ranking de “Mulheres da Música” em 2012.
Iniciou sua carreira no Destiny Child, girl band que lhe rendeu 3 Grammys Awards. Outros 17 ela ganhou sozinha, tornando-se uma das maiores vencedoras do Prêmio.
Sorte ela não ser uma vencedora só diante de câmeras e tapetes vermelhos. A cantora sofreu com depressão após o fim do Destiny Child e de um relacionamento de 7 anos.
Sorte ela ter Jay Z, então.
Eu não sou a maior fã de Beyoncé e não acompanho toda sua carreira, mas sou uma grande admiradora de seu trabalho.
A Rainha Negra é um exemplo, usando seu espaço na mídia para tratar de temas como o Feminismo.
Apesar de sempre muito reservada sobre sua vida pessoal, Beyoncé entende como a política é importante e por isso participa ativamente do processo eleitoral americano, sendo uma das maiores apoiadoras de Barack Obama.
Beyoncé demonstra com suas atitudes como uma mulher negra pode servir de influência para todo o mundo. O que eu posso dizer é, empoderem-se, pois who run the world? Girls!
Músicas Favoritas:

Run the World (Girls)

Best Thing I Never Had

Irrepleaceble

Liberté – Igualité – Beyoncé


 

ELIS REGINA (Por Bruno Vieira)
Elis Regina
Impossível passar este dia tão especial sem falar dessa mulher-menina que por graça de Deus podemos dizer que é nossa!
Nascida em 17 de março de 1945, Elis Regina Carvalho Costa, a “Pimentinha” como era chamada por Rita Lee, entrou na minha vida musical logo nos meus primeiros anos. Sou agraciado por ter uma família de muito bom gosto musical, e Elis era o que tocava na minha casa, nos tios e avós. Logicamente me apaixonei por esta mulher-menina de temperamento fortíssimo, mas, um doce… de pimenta.
Elis Infância

O que Elis Regina fez pela música brasileira e mundial e indiscutível. Gostava de participar de tudo que dizia respeito a sua profissão. Foi a primeira pessoa e primeira mulher a registrar a voz como instrumento na OMB (ordem dos Músicos do Brasil). Brigava pelas composições dos grandes nomes da música brasileira como: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Gilberto Gil, João Bosco, Aldir Blanc, dentre outros. Na época, os músicos que faziam parte da sua banda (escolhida a dedo), eram os mais bem pagos do que todos os outros artistas já consagrados.
Além de ser uma grande mulher de família. Casada com Ronaldo Bôscoli, teve João Marcelo Bôscoli, hoje produtor musical e diretor da gravadora Trama. Terminado esse romance, Elis se aventura um pouco até se encontrar com César Camargo Mariano com quem teve Pedro Mariano, também músico, baterista, vocalista, produtor musical e Maria Rita, do qual sou suspeito falar e que por coincidência fez um show ontem 07/03, em Jundiaí, em homenagem as mulheres. Elis sempre foi muito atenciosa aos filhos e família.

Elis e os filhos: Maria Rita (no colo), Pedro Mariano (no centro) e João Marcelo (Sunga vermelha)
Elis e os filhos: Maria Rita (no colo), Pedro Mariano (no centro) e João Marcelo (Sunga vermelha)

Seu estilo musical passeia elegantemente sobre todos os ramos da musica, com muita propriedade, seu jeito único e bem brasileiro de cantar a expressar as canções, fazia com que todos se impressionassem ao ouvi-la, como que tomando para si, as músicas composta por outros.
Difícil escolha, mas para mim seu melhor disco foi, Elis, de 1977, com os sucessos como Caxangá de Milton Nascimento e Romaria de Renato Teixeira e os arranjos do gênio César Camargo Mariano.

Caxangá

Romaria

Nossa Musa morre aos 36 anos de idade apenas, no dia 19 de Janeiro de 1982, causada infelizmente por uma overdose de cocaína, como tantos outros. Talvez uma busca errada por alívio, já que viveu intensa e conturbadamente sua vida! Mas sem dúvida alguma uma grande Menina-Mulher!!!

Saudades Elis Regina.


MARIN ALSOP (Por Willian Abreu)
Marin Alsop
Minha homenagem ao dia Internacional da Mulher vai primeiro à minha esposa Camila que está sempre ao meu lado e sem a qual eu nada seria.
No âmbito sinfônico é impossível não ressaltar o papel das mulheres durante toda a história da música.
Constanze Mozart além de esposa do grande compositor e mãe de seus dois filhos foi durante toda a breve vida de Mozart inspiração para suas composições. Defendia a genialidade do marido, muitas vezes renegado pela burguesia austríaca. Mozart morre aos 35 anos em uma situação financeira precária e negligenciado pela sociedade em que vivia. O grande gênio sequer teve direito a uma sepultura, sendo enterrado em uma vala comum como indigente e até os dias de hoje não se sabe com precisão o local onde está sepultado.

Constanze Mozart
Constanze Mozart

Constanze então foi responsável por não deixar que a obra do marido caísse no esquecimento e é responsável pelo reconhecimento e resgate da obra de Mozart após a sua morte.
Famosa na história da música também está a “Amada Imortal” de Beethoven, tida como o grande amor da vida do compositor sua identidade é ainda hoje desconhecida. Muito se especulou sobre essa mulher inspiradora a qual Beethoven dedica uma carta muito famosa intitulada “À minha amada imortal”, mas ainda hoje pouco se sabe sobre essa misteriosa mulher.
Fora o fato de serem musas inspiradoras dos grandes compositores durante toda a história da música as mulheres tem papel fundamental como instrumentistas. Mas a vida como musicista nunca foi fácil para as mulheres. Mesmo nos coros e na ópera até o começo do século XVII ficava a cargo dos homens cantar os papéis femininos. Eu explico.
Por uma série de fatores sociais da época, em boa parte impostos pela igreja, não era permitido às mulheres participar das atividades artísticas. Todos sabem as mudanças pelas quais a voz dos meninos passa durante a puberdade até a fase adulta onde a voz masculina fica mais encorpada e ganha um timbre mais grave. Para interromper essa mudança muitos meninos durante o século XVI até meados do século XIX foram castrados para que a voz preservasse os timbres mais agudos alcançados pelos sopranos e mezzo-sopranos. Foi a era dos cantores castrados, que tinham à época status de celebridade e eram responsáveis por interpretar os papéis femininos nas óperas.
Ao longo do tempo esse tipo de mutilação foi perdendo espaço e as mulheres passaram a participar de maneira mais ativa na música.
Após esse período e com a evolução da sociedade moderna as mulheres passaram a compor também os corpos orquestrais. Atualmente as orquestras contam em seu corpo sinfônico várias mulheres e elas não ficam restritas aos instrumentos mais populares entre as mesmas como a harpa, a flauta ou o violino. As mulheres também estão tocando instrumentos do porte dos contrabaixos, tímpanos e percussão, trombone, trompetes e etc. Esses últimos em geral até pouco tempo atrás dominados pelo sexo masculino.
Além dos instrumentos hoje vemos um crescente número de regentes do sexo feminino. A regência até pouco tempo atrás sempre foi um terreno dominado pelos homens, mas hoje vemos um número crescente de regentes ou maestrinas no cenário musical e isso traz certo frescor ao mundo da música clássica.
Destaco neste dia a importância da maestrina americana Marin Alsop. Em ascensão no cenário internacional ela atualmente comanda a orquestra mais importante do Brasil, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Ela é responsável pelo desenvolvimento da orquestra, por moldar a sua sonoridade, por montar uma programação com mais de 150 concertos anualmente e garante destaque à nossa orquestra na cena internacional.
Além de comandar a nossa mais importante orquestra, ela também é diretora musical da Orquestra de Baltimore. Quando assumiu esse posto foi destacada como a primeira mulher a comandar uma grande orquestra sinfônica americana. Atualmente com a sucessão no comando da Orquestra Sinfônica de Nova York também está sendo cotada como uma das possíveis sucessoras do atual regente o maestro Alan Gilbert.

Fica aqui minha homenagem a todas as mulheres e que a música possa sempre crescer e se perpetuar com a participação delas cada vez mais ativa no cenário musical.


 

JOAN JETT (Por Fila Benário)
The ALTimate Rooftop Christmas Party
Quando se fala de mulheres no Rock, o primeiro nome que vem a minha cabeça é Joan Jett. Se Elvis é o rei do gênero, como propagam por aí, com certeza Joan é a Rainha!!!
A primeira vez que eu ouvi a voz e a guitarra estridente de Joan, foi quando garoto, lá no finalzinho dos anos 90. Mamãe trabalhava de empregada domestica, e como a família dona da casa havia viajado, ela me levou em uma de suas faxinas, para que o pobre menino pudesse desfrutar um pouco dos prazeres da riqueza. E um dos filhos do casal era apaixonado por Rock e tinha uma parede LOTADA de CDs, qualquer banda que você imaginava, tinha ali. Mamãe disse que poderia ficar ali o dia todo ouvindo música, mas passou uma tonelada de recomendações: “não deixa fora lugar, coloca de volta onde estava, limpa o cd para não ficar a marca dos dedos, ouça baixo para os vizinhos não ouvirem, e não suba na cama” confesso que até hoje eu não entendi o porquê dessa última recomendação.
Muitos CDs ouvidos depois eis que eu deparo com um cd preto com a foto de uma moça loira na frente, e no título: The Runaways, nunca tinha ouvido falar, mas me intrigou, virei a contracapa e lá estava a foto e nome de todas as integrantes do grupo Cherie Currie (Vocal), Lita Ford (Guitarra), Sandy West (Bateria), Jackie Fox (Baixo) e Joan Jett (Guitarra e Voz). Esse último nome não me soava estranho… pera aí, eu tinha visto naquela mesma coleção de cd, em um cd chamado Bad Reputation. Peguei os dois e fui logo ouvir…
E hoje, nesse dia 8 de março de 2015, há mais de 16 anos desse fato, estou aqui escrevendo esse texto para dizer o quanto a obra das Runaways e, sobretudo de Joan Jett foi importante em minha vida.
É claro que existem mais mulheres e grupo femininos de rock com tamanha importância, e até mesmo surgidos antes das Runaways: Birtha, The Shaggs, Suzi Quatro, Fanny, Joni Mitchell e Janis Joplin são alguns exemplos. Mas a característica que faz Joan Jett ser tão especial e a maior de todas as suas virtudes é a sua persistência.
Nascida em 1958, na Pensilvânia, Joan Jett sempre sonhou em fazer rock. Se hoje as mulheres que desejam seguir o caminho do rock sofrem preconceito e represália, imagina na década de 70? Pois Joan colocou o dedo médio em riste na cara da sociedade e formou a primeira banda de rock feminina da California, as Runaways, que se nos Estados Unidos não teve o seu devido valor, no Japão era uma febre.

The Runaways: Cherie Currie, Joan Jett, Sandy West, Lita Ford e Jackie Fox
The Runaways: Cherie Currie, Joan Jett, Sandy West, Lita Ford e Jackie Fox

Com a saída da vocalista Cherie Currie, Joan não deixou a peteca cair e assumiu ela mesma os vocais da banda, e lançou dois álbuns sensacionais Waitin’ for the Night (1977) e And Now… The Runaways (1978)
Ainda nos anos 70 as Runaways acabaram, e Joan Jett persistiu e fundou o Blackheart, desse vez formada apenas com homens “para evitar de comparação com as Runaways” disse a mesma. E ai alcançou o sucesso comercial que nunca havia atingido antes e com hinos que marcaria não apenas uma geração inteira, mas toda a história do Rock. A sua versão para I Love Rock n’ Roll do The Arrows, ficou mais popular e fora mais aclamada do que a original.
E hoje ela continua sendo a rainha suprema do Rock, fazendo shows, gravando discos e influenciando gerações, de bandas de Rock como Guns n’ Roses, Nirvana, Foo Fighters e Against Me, até nomes da música pop como Avril Lavigne, Britney Spears e Miley Cyrus. Mostrando quão variável e plural é o legado de Jett.
Alias, ainda década de 70 e como integrante da Runaways, Joan Jett produziu o primeiro álbum da banda de dois garotos que a idolatrava. Os garotos? Darby Crash e Pat Smear (esse último, hoje no Foo Fighters), a banda? The Germs, e o álbum? (GI), a obra prima do punk que influenciou nomes como Kurt Cobain, Slash, Eddie Vedder e Duff McKagan. “O primeiro álbum do Germs, foi definitivamente o disco que me fez querer ser músico” disse McKagan. Ponto pra Joan Jett.
Outra prova de como Joan Jett é influente, em 2014 o Nirvana foi induzido no Rock and roll Hall of Fame, e no show da banda, Joan Jett assumiu o posto do líder Kurt Cobain e executou o clássico máximo da banda, a canção Smells Like Teen a Spirit.

Em 2012, Joan Jett e o seu Blackheart se apresentou pela primeira vez em terras brasileiras no festival Lollapalooza, eu estava lá, mas infelizmente com o local abarrotado de gente, eu não consegui chegar até o palco onde a rainha Jett se apresentava. Fiquei frustradissimo, mas como Deus é muito generoso, ele me presenteou com a subida dela no palco durante o show do Foo Fighters para execução dos seus dois maiores clássicos: Bad Reputation e I Love Rock n’ Roll.

Se pudesse escolher um álbum favorito de Joan Jett, ficaria com Bad Reputation de 1980. E quanto a música favorita? Escolherei três: Bad Reputation, The French Song e Dirty Deeds Done Dirt Cheap.

Bad Reputation

The French Song

Dirty Deeds Done Dirt Cheap

Valeu rainha Joan Jett.

Feliz dia das mulheres, são os sinceros votos da equipe do Fila Benário Music

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Willian Abreu Fala

Quem tem medo de música clássica?

Metallica e Orquestra Sinfonica
Por Willian Abreu

Era eu um adolescente de 15 anos no início dos anos 2000 quando comecei a formar o meu gosto musical.
Nessa idade, um pouco tardio até, eu não tinha definido ainda o que eu gostava ou não. O fato era que eu simplesmente não ligava muito para esse negócio de música.
Foi quando por curiosidade o namorado da minha prima (que já era metaleiro de carteirinha) comprou um álbum do Metallica intitulado S&M.
Tratava-se de um show ao vivo gravado em 1999 em São Francisco no qual a já consagrada banda era acompanhada pela Orquestra Sinfônica de São Francisco.
Ele me emprestou o cd duplo e eu com pouco entusiasmo comecei a escutar.
Para quem conhece o álbum, a primeira faixa traz o famoso tema de Ennio Morricone para o faroeste Três Homens em Conflito (em inglês The Good, the Bad and the Ugly) do grande cineasta italiano Sergio Leone, o Metallica utiliza esse tema há muitos anos como uma breve introdução aos seus shows.
A segunda faixa do álbum é a completamente instrumental The Call of Ktulu do álbum Ride The Lightning.
Para mim, que como qualquer adolescente de 15 anos tem um alto poder de absorção, essas duas faixas iniciais foram o suficiente para me tornar fã da banda.
O Metallica já faz música grandiosa, mas a junção com a orquestra, que foi além do acompanhamento e se torna tão protagonista quanto a própria banda no show, foi essencial para que eu me entusiasmasse em ouvir o restante do álbum.
Os arranjos feitos pelo maestro Michael Kamen, que já havia colaborado com a banda no famoso Black Album, fizeram toda a diferença. Ele encaixou perfeitamente a sonoridade da banda com os arranjos orquestrais, é um show de proporções épicas.  Muitos metaleiros puristas à época contestaram esse álbum, mas a meu ver é um dos grandes trabalhos do Metallica, até porque com a roupagem clássica músicas dos álbuns controversos da banda como  Load e Reload ficaram muito melhores do que as versões originais.
O fato é que eu me interessava cada vez mais por aquela sonoridade maravilhosa que acompanhava a banda e que deixava sua música ainda mais grandiosa.
Tentem ouvir a consagrada Master of Puppets na versão do S&M e vocês entenderão o que eu estou querendo dizer.

Essa roupagem sinfônica me chamou muito atenção. Quando adquiri o dvd, havia a opção de ouvir somente o áudio da banda, somente a orquestra e claro o áudio original.
Na opção de áudio somente da orquestra que eu comecei a exploração de sons que aquele conjunto podia proporcionar.
Engraçado como a partir de uma banda de metal adquiri o meu gosto pela música clássica e a partir daí comecei a procurar mais informações.
Nos dias de hoje é muito fácil encontrar informação, mas na era da internet discada e pouco acessível às casas brasileiras não era tão simples, a maioria das pessoas sequer tinha computador em casa. Portanto, ouvir um fagote, uma trompa e até mesmo tentar distinguir a diferença de um clarinete para um oboé não era tão simples como pode parecer. E vindo de uma família que nunca teve contato com a grande música ficava mais complicado ainda.
Complicado para um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior…
Se os jovens de hoje são a geração Internet, acredito que os adolescentes dos anos 90 e inicio dos anos 2000 foram a geração TV. Da TV vinha a maior parte da informação, diversão e as influências, fossem elas boas ou ruins.
Entediado eu estava passando os canais da nossa parabólica quando parei na TV Senado atraído pelo programa que estava começando. A introdução trazia os primeiros acordes da 5ª Sinfonia de Beethoven e o título Quem tem Medo da Música Clássica?
Interessei-me e comecei a assistir para ver do que se tratava.
Um senhor à época com os seus 65 anos de idade fazia a apresentação, a cada semana ele tratava de um compositor e de um período na história, sua abordagem de linguagem simples me chamou muito a atenção.
Tratava-se do grande Artur da Távola, escritor e senador da república.
Ele começava o programa falando primeiramente do período que o compositor abordado no dia viveu, depois de maneira muito simples começava a contar a história do compositor, sua vida, suas influências. Tudo era abordado de maneira que o leigo, meu caso, conseguisse entender.
Após essa introdução ele falava da obra que seria exibida no programa, para que o espectador compreendesse de maneira mais ampla o que seria apresentado.
Foi dessa maneira que conheci Haydn, Mozart, Beethoven, Mahler e os grandes compositores da história.
A grande sacada do programa foi exibir pelo menos um dos movimentos de uma sinfonia, por exemplo, com os comentários do Artur.
Era esse o momento mais importante do programa, a obra sendo tocada e o Artur explicando instrumento por instrumento o que estava sendo apresentado. Falava o nome do instrumento, seu funcionamento, qual o contexto que o compositor o utilizou. Explicava a gesticulação do maestro, de como todos os músicos precisavam estar consolidados dentro do conjunto e muito mais.
Dessa maneira ele trazia informações muito ricas para quem nunca teve contato com a grande música. De forma leve e bem extrovertida explicando cada movimento, cada andamento. Essas informações são muito preciosas no âmbito da música clássica, mesmo acreditando que a mesma é abstrata e não há a necessidade de um entendimento profundo para apreciar as composições, é música para ser absorvida, assimilada, sentida. Algo pouco comum nos dias de hoje, onde acabamos vivendo de música feita para ser consumida e descartada.
A contribuição que o Artur fez nesse sentido foi essencial e acredito que ímpar.
Infelizmente, devido a problemas cardíacos Artur faleceu no ano de 2008. Após o seu falecimento a TV Senado deixou de exibir o programa e acredito que não temos hoje alguém à altura para substitui-lo. Sua contribuição para divulgação e formação de plateia para música clássica foi única nesse sentido. Tenho certeza que seu programa foi responsável pela formação de gosto musical de muita gente e que o objetivo foi atingido. Resta saber quem fará isso para as novas gerações. E isso é muito importante, porque como dizia Artur da Távola ao final de cada programa:

artur da tavola

 

 

“Música é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”.

 

 

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