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Ex-baixista do Black Flag, Kira Roessler, também ganhou o seu primeiro Oscar no domingo

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Na noite do último domingo, dia 28 de fevereiro, aconteceu a 88ª edição do Oscar, famoso prêmio da indústria cinematográfica, e conforme já noticiado aqui, foi uma premiação que entrou na história das edições por contemplar pela primeira vez nomes importantes do cinema, como o ator Leonardo DiCaprio, que enfim ganhou o seu primeiro Oscar pela sua atuação no filme O Regresso, e também para o famoso compositor italiano Ennio Morricone, que já tinha um prêmio honorário conquistado em 2007, mas no domingo ganhou a sua primeira estatueta pelo seu trabalho à frente da trilha sonora do faroeste Os Oito Odiados de Quentin Tarantino. Mas quem também ganhou o seu primeiro Oscar e que com certeza passou despercebida de todos os holofotes da imprensa foi a Kira Roessler, mais conhecida como a ex-baixista do célebre grupo Punk Rock, Black Flag.

Kira gatinha
Kira Roessler aos 22 anos

Kira Roessler não atuou em nenhum filme, não estava no red carpet do Dolby Theatre na Califórnia vestindo um Chanel e nem subiu ao palco para pegar a sua estatueta e agradecer pelo prêmio, dedica-lo ao cachorro, ao ex-esposo e grande amigo Mike Watt e defender a causa feminista, ambiental, LGBT e negra, como foi feita durante toda a cerimônia. Aliás, o nome de Kira nem mencionado foi entre os indicados, mas ela fez parte da equipe comandada pelos editores supervisores de som, Mark Magini e David White, responsável pela edição de áudio do filme Mad Max: A Estrada da Fúria (2015), que acabou vencendo a categoria de Melhor Edição de Som.

Mark Magini e David White recebendo o Oscar
Mark Magini e David White recebendo o Oscar

Como uma baixista de Punk Rock foi parar na indústria do cinema? Para entender esse percurso é preciso primeiro conhecer a trajetória de Kira Roessler. Antes de integrar o Black Flag, talvez a sua banda mais notória, Kira Roessler já fazia parte da cena punk californiana como baixista do grupo DC3, aos  e paralela a carreira de musicista, a mesma estudava Engenharia Aplicada na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). Quando rolou o convite para Kira se juntar ao Black Flag que na época contava com Henry Rollins nos vocais, Greg Ginn na guitarra e o Bill Stevenson, também dos Descendents, na bateria, a mesma aceitou, mas com uma condição: que a agenda de shows não prejudicasse os seus estudos.

Black Flag da esq pra dir: Henry Rollins (Vocais), Greg Ginn (Guitarra), Kira Roessler (Baixo) e Bill Stevenson (Bateria)
Black Flag da esq pra dir: Henry Rollins (Vocais), Greg Ginn (Guitarra), Kira Roessler (Baixo) e Bill Stevenson (Bateria)

Kira Roessler participou da chamada era de ouro da banda, gravando os discos Family Man (1984), Slip It In (1984), Loose Nut (1985) e In My Head (1985). No final da turnê de In My Head, Kira deixa o Black Flag e no ano seguinte, em 1986, ela enfim se forma na UCLA.

Discografia Black Flag com Kira: Family Man (1984), Slip It In (1984), Loose Nut (1985) e In My Head (1985)
Discografia Black Flag com Kira: Family Man (1984), Slip It In (1984), Loose Nut (1985) e In My Head (1985)

Em 1987 ela se casa com o, também baixista, Mike Watt do Minutemen e juntos formam o duo de contrabaixo Dos, que mesmo após o divórcio do casal em 1994 o projeto continua até hoje, sendo a sua única ligação com a música desde então.

Mike Watt e Kira no projeto DOS
Mike Watt e Kira no projeto DOS

E foi nesse período longe da música que Kira Roessler se aproximou da indústria cinematográfica, ela já tinha uma imensa paixão pela sétima arte chegando a escrever alguns roteiros para projetos de filmes b que logo foram engavetados, e posteriormente participou de vários documentários que narram a história da cena Punk/Hardcore americana como We Jam Econo: The Story of the Minutemen (2005), que narra a trajetória do grupo Minutemen, American Hardcore (2006) que fala de toda cena Punk nos anos 80, e recentemente foi uma das entrevistadas também do documentário Filmage: The Story of Descendents/All (2013) que conta a história completa das bandas Descendents e All, ambas formadas por Bill Stevenson, seu grande amigo dos tempos de Black Flag.

Kira no documentário sobre o Descendents
Kira no documentário sobre o Descendents

Com todo esse currículo que ela passou a trabalhar na equipe de edição som na função de editora de diálogos. Simplificando, sempre quando há uma cena de dialogo nos filmes, quando há uma conversa entre dois ou mais personagens, é Kira Roessler que faz todo o trabalho de edição, deixando as vozes no mesmo volume, sem que uma se sobressaia mais que a outra, um grande trabalho de nivelamento e sincronia que requer muita dedicação, atenção e profissionalismo.

O seu primeiro trabalho na função de editora de diálogos foi no filme de terror Club Vampire (1998) e a partir daí Kira Roessler foi pegando um trabalho atrás do outro, como: Insônia (2002) do aclamado diretor Christopher Nolan, Confissões de uma Mente Perigosa (2002), A Creche do Papai (2003), Sob o Sol de Toscana (2003), Blade: Trinity (2004), Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor (2008), Appaloosa (2008), Invictus (2009), A Saga Crepúsculo: Lua Nova (2009), Sucker Punch (2011), As Mil Palavras (2012), Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (2014) e trabalhou ao lado dos diretores Zack Snyder e Christopher Nolan em o Homem de Aço (2013), entre vários outros filmes.

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Insônia (2002), Blade: Trinity (2004), Invictus (2009), A Saga Crepúsculo: Lua Nova (2009) e Homem de Aço (2013)

Além de realizar o mesmo trabalho para algumas séries de TV como: Homem Invisível (2000), no qual ela trabalhou apenas no episódio piloto, Robbery Homicide Division (2002), John Adams (2008) e em 2012 ela fez toda a segunda temporada de Game Of Thrones.

O Oscar por Mad Max não foi o primeiro prêmio na carreira cinematográfica de Kira Roessler, ela e toda equipe técnica faturou em Emmy em 2008 na categoria de Melhor Minissérie por John Adams.

John

Mesmo que tardio, Parabéns Kira Roessler.

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OFF! – Wasted Years

OFF!
E finalmente foi descoberta a “formula rejuvenescedora do rock”, e atribuímos o título de inventor desse grande experimento para o Sr. Keith Morris, um respeitável senhor de 58 anos de idade com resquícios de calvice porém portador de um imenso dredlock. O mesmo possuí uma vasta experiência no ramo de atuação contendo em seu currículo passagens em duas das maiores instituições do Punk Rock/Hardcore da história, Black Flag (1976 – 1979) e Circle Jerks (1979 – 1989).
No entanto é com o seu mais novo experimento que Sr. Morris tem sido louvado constantemente: OFF! o simples nome desse grandioso experimento produzido ao lado dos também químicos experientes: Dimitri Coats (Burning Brides) na guitarra, Steven McDonald (Redd Kross) no baixo e Mario Rubalcaba (Rocket From The Crypt) na bateria, tem causado ebulições por onde passa e até virando peça de moda graças ao  Anthony Kiedis do Red Hot Chili Peppers (lembraram do boné dele agora?), e justamente desse grande feito que a humanidade foi contemplada com Wasted Years, o fruto novo dessa grande experiência.
Wasted Years o tão aguardado álbum do OFF! logo na primeira audição já agrada a todos, a formula que colaborou para o culto e unanimidade favorável a banda está presente no disco: Guitarras gritantes, diretas e repletas de microfonias, baixo em sincronia com as quebradas desconcertantes da bateria do mestre Mario Rubalcaba fazem cama para o velho reclamão Keith Morris berrar suas letais palavras de ordem, tudo isso em menos de dois minutos de música.
Porém mesmo com esses ingredientes Wasted Years carrega uma destreza sonora (no bom sentido) em relação ao álbum antecessor auto-intitulado lançado em 2012, ele vem igualmente pesado, porém mais direto e não tão veloz quanto o aclamado álbum de estréia, na verdade Wasted Years é um ode ao Punk Rock dos anos 70 de bandas como Ramones, Television, Richard Hell and The Voidoids e Buzzcoks, mas com um toque de midas OFF! tudo rispidamente barulhento, canções como Legion of Evil, No Easy Escape, Over Our Heads e It Didn’t Matter To Me transparece claramente isso.
A velocidade Hardcore que fez o OFF! ganhar súditos pelo mundo todo aparece logo na dobradinha de abertura Void You Out e Red White and Black, a primeira alias foi a primeira música do álbum a ser disponibilizada para audição. Outros destaques ficam por conta de Exorcised, All I Can Grab e a levada quase Hard Rock de Time’s Not On Your Side.
Hypnotized com certeza é cereja do bolo, além de ser uma canção grandiosa – e também a mais longa da banda com dois minutos e quinze segundos!!! – ela já possuí um videoclipe fantástico no maior estilo Kick Ass, com as participações especiais de David Yow (Vocalista do Jesus Lizard) e Jack Grisham (Vocalista do TSOL). Épico.
Numa época onde o Rock sofre uma imensa crise criativa, com bandas pré-fabricadas, moldadas com o mesma textura e contexto sonoro, comportamental e visual, o OFF! surge como um dedo em riste à esse bom mocismo chato e reascende aquele ar rebelde que se perdeu no tempo.
Obrigado por nos rejuvenescer Sr. Morris
Volte sempre!!!

Nota: 10