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“No último sábado, dia 21, uma jovem, de apenas 16 anos, moradora de uma comunidade no Rio de Janeiro foi covardemente estuprada por 30 homens na casa do seu então namorado.”

Para! Só essas duas linhas já causam repulsa em qualquer ser humano que tenha o mínimo de caráter. Mas tão grave quanto o crime tem sido as opiniões aleatórias expressas nas redes sociais nas quais pessoas tentam justificar o injustificável: “Mas ela morava em uma favela”, como se as condições sociais da garota justificam ela ter sido barbaramente violentada por 30 brutamontes. “Ouvi dizer que ela tinha um filho de três anos já”, “parece que ela usava droga”, e é claro aquele julgamento que extrapola os limites da insanidade humana: “Meu, ela mora em uma favela no Rio de Janeiro, as meninas de lá andam quase nuas, ou com aqueles shortinhos jeans que é mais fácil andar pelada, porque não tampam nada, ela provocou…”

Agora vamos esquecer de vez esses comentários e vamos voltar para o lead da matéria: “Uma jovem de APENAS 16 ANOS”, 16 anos, segundo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ela ainda é uma adolescente, não chegou a idade adulta. “Moradora de uma comunidade do Rio de Janeiro foi COVARDEMENTE ESTUPRADA POR TRINTA!!! TRIN-TA!!! HOMENS NA CASA DO SEU ENTÃO NAMORADO”. Precisava escrever em letras garrafais? Estamos diante de um crime: Uma criança foi brutalmente violentada por trinta pessoas e a culpa ainda recai sobre a vítima com pré-julgamentos que nada justificam a ação dos trinta animais covardes, incluindo o seu namorado que arquitetou toda ação, dopando a mesma e permitindo tal carnificina moral e documentando tudo em vídeo que foi divulgado nas redes sociais.

Resumindo, uma criança em situação de vida carente, que mora com os pais na periferia, que foi apenas passar um dia na casa do seu namorado, teve a sua adolescência massacrada fisicamente, moralmente e psicologicamente e a culpa AINDA É DELA?

Se você ainda pensa assim, convido a refletir a letra dessa canção que irei esmiuçar abaixo. Essa já é a terceira vez que essa música aparece em uma postagem aqui (das outras vezes: aqui e aqui), mas dessa vez eu convido a refletir trecho a trecho. Die Die da banda paulistana de Hardcore feminista Dominatrix, foi lançada em 2001 no disco Split Bike, junto com a banda Dance Of Days e anos depois relançada no disco Beauville de 2003. O veloz Punk Rock cantado em inglês com um trecho narrado em português retrata de forma clara, direta e concisa a vida da mulher que sofre com os abusos físicos e psicológicos e ainda tem a culpa recaída sobre si:

Die Die (Dominatrix)

Cinical cinical dumb to the bone, mr. know-it-all
dumb to the bone, and then you tied
to the same old shit, hiding the surface with more radical surface
You think you see the whole thing by knowing a part of it and then
You’re fucking with the wrong girls again

Cínico, cínico, burro até o osso, o Sr. sabe tudo
Burro até o osso
Apegado à mesma velha merda, escondendo a superfície radical.
Você acha que sabe tudo por saber só uma parte
Então você está se metendo com as meninas erradas novamente

A curta estrofe, que é praticamente cuspida com raiva por Elisa Gargiulo, explica claramente a ação dos juízes morais de plantão. Pessoas cínicas que tentam de todas formas justificar o crime brutal sempre apegado as velhas razões radicais. Culpando a vítima pela roupa que ela veste, pelo fato dela morar em uma comunidade carente, por ela ter tido envolvimento com drogas no passado ou até mesmo ter um filho.

Die!! Die bigot scum
We’ll build up our own
Way, we’ll not take it anymore,
Die bigot scum!

Morra! Morra imbecil preconceituoso
Iremos construir o nosso próprio caminho
Não vamos mais aturar isso,
Morra imbecil preconceituoso

O forte e violento refrão é um grito de basta! Não se refere e nem incita uma morte física dos agressores sexuais e os verbais que justificam a violência, mas sim uma morte simbólica, que todos esses ideais preconceituosos e principalmente a cultura de estupro sejam enterrados de uma vez por todas, afinal “não vamos mais aturar isso”.

Seu burro, seu idiota, que antissocial o quê!
Antissocial é uma mulher tentando andar
Numa rua escura à noite.
Que tipo de vida é essa que eu tenho que
F
icar 24 horas por dia alerta igual a um cão-de-guarda?
De quem são os olhos que te vigiam?
De quem é a mão que te ataca?

E nesse trecho narrado em português, Elisa faz um desabafo no qual muitas mulheres irão se identificar. Quantas e quantas garotas não foram assediada no transporte público, na rua, passando em frente a uma construção e ao agir com indiferença, com constrangimento ou até mesmo com raiva e fúria por parte do abusador, não teve que ouvir ainda ofensas do tipo: “Que chata, que antissocial”, mas na próxima frase ela já explica: “Antissocial é uma mulher tentando andar numa rua escura a noite”. O trecho seguinte: “Que tipo de vida é essa que eu tenho que ficar 24 horas por dia alerta igual a um Cão de Guarda?” Traduz o fato de que a mulher tem que estar sempre em alerta, prestando a atenção em tudo e tomar todos os cuidados possíveis para não incitar a violência contra ela mesma. Que ela tem que estar em alerta igual um Cão de Guarda dentro do transporte público para evitar um possível assédio, que ela tem que se policiar melhor em relação a roupa que ela veste, os lugares que ela frequenta, evitar andar na rua a noite. A sociedade joga essa responsabilidade sob os ombros femininos e não cumprimento dessas regras transforma a vítima em réu de um tribunal moral.
E já o trecho final que questiona: “De quem são os olhos que te vigiam? De quem são as mãos que te atacam?” Nos leva a reflexão: Quem é o agressor? A jovem covardemente violentada caiu em uma emboscada planejada pelo próprio namorado, a pessoa que ela compartilhava os seus planos, sonhos, anseios e sentimentos. O monstruoso namorado teve a crueldade de dopar a mesma e dividi-la com mais 29 pessoas. A pessoa na qual a jovem mais confiava, foi que transformou a sua vida em um terrível pesadelo. Os olhos que vigiam e as mãos que atacam estão mais próximos do que podemos imaginar. E quando o assunto violência doméstica contra mulher entra em pauta, como aconteceu no ano passado quando foi tema da redação do Enem, o mesmo é ignorado e tratado como mimimi de feminista e doutrinação esquerdista marxista.

Diante de todo esse acontecimento, diversas manifestações de solidariedade a garota violentada e mensagens de repúdio e asco ao acontecimento em si foram feitas nas redes sociais. E quando as mulheres postavam “Vocês homens são responsáveis”, alguns, inclusive conhecidos meus postavam: “Nem todos os homens são assim, não generalize…”.
Mas sim, a responsabilidade É NOSSA! Não quero afirmar que todos homens são estupradores e que todos os homens do planeta terra cometeu esse crime horrendo com essa jovem garota, mas compactuamos com a violência feminina quando gargalhamos com discursos machistas e sexistas, quando concordamos que o lugar de mulher é na cozinha e do homem é sentado no sofá assistindo um jogo de futebol com a sua cervejinha do lado. Temos responsabilidade quando achamos que sexo sem consentimento da esposa/namorada/parceira não é estupro. Quando compartilhamos vídeos e fotos íntimas de nossas ex-namoradas como um ato vingativo. Somos culpados quando educamos os nossos filhos homens que eles podem fazer o que quiser, mas exortamos as nossas filhas a se comportar como uma dama.
Quando sabemos que o nosso amigo agride a sua namorada e não tomamos nenhuma providência a respeito, nós somos os culpados! Assim também quando vemos a nossa amiga no ambiente de trabalho sofrendo assédio e fazemos vista grossa.
E não adianta nada você homem se solidarizar com a jovem estuprada, mas aplaudir político boçal que homenageia torturador que tinha com principal prática de tortura introduzir um rato vivo dentro de vaginas.

O que precisamos não é se vitimar com a generalização, mas desconstruir o machismo existente dentro de cada um de nós. E assim evitamos situações deploráveis como essa.

Que MORRA a Cultura de Estupro
Que MORRA a violência contra mulher
E que MORRA a culpabilização da vítima.

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